A mente de Nico deveria estar programada para fazê-lo lembrar de coisas vergonhosas em momentos errados. Quando Will teve que segurá-lo, por exemplo, ele lembrou da forma como Percy teve que fazer a mesma coisa com ele há muitos anos atrás. Jura, hormônios? Agora?

Mas foi bom por que ele notou que essa era a primeira vez que pensava em Percy há dias. Desde que comera biscoitos de má qualidade com Reyna. E não estava reclamando. Pois Percy parecia uma ferida pequena agora, algo insignificante, que mesmo que não pudesse ser curado, não tinha como ser reaberto — apenas se Nico forçasse para sofrer.

Nico havia crescido e Percy ficou para trás. Ele só não sabia se isso era bom ou não. Considerando-se que falamos do filho de Hades, ele deveria se preocupar mais. Porém, Nico estava num ponto que ele estava muito cansado das mesmas coisas para sempre. Queria saber apontar quando aprendeu a mudar, a ter gosto.

O igual era tão irritante agora.

— Ei — Cecil se aproximou mancando; parecia ter distendido um músculo. — Vocês dois meio que perderam a luta.

Nico se afastou quando sentiu que estava bem o bastante para se apoiar sozinho.

— Tudo bem, DeathBoy. Se você quer se esforçar a toa...

— Não me chame de DeathBoy!

Lou Ellen limpou a garganta.

— Gente...

— LARGUEM AS ARMAS!

Toda a Primeira Coorte avançava sobre eles, lanças em punho e escudos em posição. Octavian marchava à frente, com um manto roxo sobre a armadura, joias de ouro imperial reluzindo no pescoço e nos braços e, na cabeça, uma coroa de louros, como se já tivesse vencido a batalha. Ao lado dele estava o porta-estandarte da legião, Jacob, levando a águia dourada, e seis imensos cinocéfalos, arreganhando os caninos, suas espadas emitindo um brilho vermelho.

— Ora, ora — disse Octavian —, sabotadores graeci. — Ele se virou para seus guerreiros com cabeça de cachorro. — Acabem com eles.

Aquela não era uma boa hora para se distrair.

xx

Nico não deveria ter ficado surpreso quando eles sobreviveram facilmente ao ataque de Octavian. Vinha fazendo isso há anos, lutar, sobreviver, ganhar. Mas não podia evitar. Geralmente estava sozinho e geralmente envolvia mais dor e mais perigo.

Até agora a única ameaça que ele realmente enfrentava era o dilema de matar ou não matar Octavian. Se fizesse isso, seria atacado de volta e não sobreviveria — não era uma cena bonita para Lou Ellen, Cecil e Will. Muito menos seria agradável para Hazel, Reyna, Rachel e Leo. Ou até mesmo Jason, talvez.

— Por que está ajudando os graeci? O que eles fizeram para você? — antes que notasse Octavian estava ali, falando com ele.

Ele tentava obviamente apunhalar Nico psicologicamente, até se atrever trazer Nico para seu lado como Luke Castellan havia feito com Ethan Nakamura. Mas apenas irritava Nico o fato de Octavian ver a escuridão nele como uma ponte para os seus planos.

Nico não sabia quem ele odiava mais. Ele, por transparecer essa imagem. Ou Octavian, por tantos erros que são difíceis de contar.

— Não é só os gregos, Octavian. — Nico olhou-o da sua melhor forma assustadora. — Mas você não entende isso.

Octavian deu um riso debochado, mas Nico notou como foi forçado. Ele lembrou de Luke mais uma vez. Octavian era cem vezes mais desprezível que Luke, por mais que não tivesse feito metade dos estragos que o filho de Hermes fez.

De certa forma, Nico entendia Luke. Octavian, não. Por que Octavian estava cego.

— Eles não vão cumprir nada que disserem para você. Não vê? É um incômodo para eles. Não, melhor, um estorvo. Seu lugar é na guerra, e você sabe bem disso.

Outro dia, em outra época com outras experiências, Nico teria acreditado por que seriam exatamente os pensamentos ressoando dentro da sua mente por todo o tempo. Nenhuma queda por Percy, nenhum amor fraternal por Hazel ou Rachel, iriam ser o suficiente para fazê-lo mudar de ideia sendo que só dependia dele e mais ninguém.

Agora Nico estava muito velho para essa merda. O velho mesmo papo clichê, os mesmos fins que não podem justificar os meios. Ele não havia passado por tudo até agora para jogar o futuro para o alto como se não importasse desde o começo, como se não tivesse mais nada para si. Isso era idiotice de mais, até para o angsty dark Nico Di Angelo.

— Isso não é verdade!

Nico se virou, completamente surpreso, assim como Lou Ellen e Cecil, com a exclamação de Will. E ainda havia mais.

— Nico sempre foi o cara que se afastou. Ninguém jogou o garoto pra fora.

— Hã, onde você esteve nos últimos três ou quatro anos? Eu sempre fui discriminado naquele lugar.

— Não por mim. Eu não lembro de nada disso.

— Will Solace, quando foi a última vez que você tentou conversar comigo ou que eu pensei em conversar em você? Você fica do lado feliz do muro e acha que todo mundo é igual, mas não é assim–

— Já chega! — Octavian deu seu típico ataque de pelanca, incomodado com a falta de atenção. — O Deus Apolo me mostrou o futuro…

— É o cacete, seu perdedor anêmico. EU sou filho de Apolo, e é por isso que eu preciso dizer que meu pai não teria como mostrar o futuro pra ninguém. E mesmo que ele estivesse com o poder da profecia, essa seria a ÚLTIMA coisa que ele iria querer.

— É mentira. O deus me disse pessoalmente que eu seria lembrado como o salvador de Roma. Vou conduzir a legião à vitória, e vou começar… — Nico sentiu o som antes mesmo de ouvi-lo: tum-tum-tum, reverberando pela terra. Todos os onagros dispararam simultaneamente, e seis cometas dourados subiram aos céus. — … Destruindo os gregos! — concluiu Octavian, em uma exclamação de alegria.

O calor atingiu com força o rosto de Nico. A grama soltou um chiado. As copas das árvores fumegaram. Mas, quando os fogos de artifício se apagaram, nenhum dano sério resultara da explosão.

Octavian foi o primeiro a reagir, gritando para recarregar, porém já era tarde. À direita, a Quinta Coorte se aproximava, liderada por Dakota. Octavian estava cercado. As outras Coortes encontravam-se jogadas no meio do caos que as explosões haviam causado, irritando os monstros auxiliares.

Nico sorriu para Octavian como se dissesse: “Parece que a sua ideia brilhante de mercenários não funcionou hem, por que será?”

Nico teve que controlar o surto que veio quando Dakota disse que estava sob o comando de Reyna. Fuck yeah! Era assim que ele gostava de ver a guerra: Do lado vitorioso. A expressão de Octavian era ouro e Nico realmente queria ter uma câmera para, se não gravar, pelo menos tirar uma foto. Totalmente iria contar essa história para suas crianças adotivas um dia.

Pera, quê? Nico estava seriamente pensando em casamento e filhos ali? Não nesse caminho Di Angelo, não nesse caminho que você vai bater e não vai ser bonito.

Quando os gregos chegaram, com certeza Nico não ficou feliz sobre isso. Os romanos podiam finalmente se unir, mas com Clarisse La Rue sedenta pela morte deles na liderança, dificilmente isso iria acontecer. Mas. Maaas, ele esqueceu totalmente que Will Solace ainda estava ali.

(Não era para menos, o que o garoto estava fazendo durante a primeira guerra contra Cronos? Não eram assovios ultrassônicos, isso Nico conseguia lembrar)

— NÃO SEJAM IDIOTAS! — gritou Will. — VEJAM!

Ele apontou para o norte, e Nico abriu um sorriso de orelha a orelha com a cena: A Atena Partenos reluzindo ao amanhecer, em pleno ar, suspensa pelos cabrestos de seis cavalos alados. Águias romanas voavam em círculos acima dela, mas não atacaram. Algumas até chegaram a se aproximar, segurar os cabos e ajudar a carregar a estátua.

Reyna estava ainda mais deslumbrante. Nico não soube explicar o que sentiu ao vê-la.

Do mesmo jeito que não soube explicar por que levantou a voz para ajudá-la, como se valesse de alguma coisa. Ninguém ia escutá-lo, ia? Mesmo assim Nico tentou, como se não estivesse pensando direito, e ficou do lado de Reyna como sabia que ela iria fazer por ele.

O único problema foi que ouviram.

Só que foi Gaia.