Mãos de anjo.

1 Sob seus cuidados.


Hyoga estava sentado na cama, bem próximo da janela por onde entrava uma brisa suave.

A palma da sua mão cobria a gaze posicionada sobre o olho ferido; o A região não sangrava mais, já que ele próprio havia colocado um curativo — meio torto e mal ajustado.

​O resto do seu corpo também carregava marcas dolorosas espalhadas pela pele, com cortes em cicatrização e músculos moídos pelo combate.

O som de passos anunciou o retorno de Shun, que trazia consigo uma bacia de água morna, rolos de gaze limpa e alguns curativos novos.

— Voltei — avisou o garoto, aproximando-se.

Hyoga levantou o rosto, encarando o amigo apenas com o olho bom.

— Não precisava disso tudo, Shun. Eu já estou bem melhor — o loiro insistiu que estava bem. Por mais que o olho doesse bastante, não queria incomodar Shun, que também estava precisando de cuidados e parecia tão pálido que podia ser comparado com o lençol opaco da cama.

— Hyoga, não seja uma pedra de gelo, deixa eu cuidar de você — respondeu Shun, ajeitando a bacia numa mesa de apoio.

— Eu só não quero fazer você se esforçar — ele fixou o olhar no chão, meio desconfortável por se sentir tão vulnerável, logo ele que sempre conseguia disfarçar bem os sentimentos. — Você também está machucado, eu me viro...

— Eu estou ótimo, Hyoga! — Shun garantiu, dando até uma voltinha rápida no meio do quarto só para provar que estava inteiro. — Se brincar, eu só preciso de um tiquinho de blush nas bochechas para recuperar a cor. Você é quem não está nada bem.

— Tô bem sim! — insistiu Hyoga.

​Ao ouvir aquilo, Shun cruzou os braços e ergueu uma das sobrancelhas verdes, encarando-o com aquele olhar certeiro. Shun sempre sabia exatamente quando Hyoga estava mentindo.

— Não está não.

— Tô sim! — rebateu Hyoga.

​Shun sorriu e contornou a cama para ficar bem ao lado do amigo. Com a visão turva e o foco prejudicado pelo machucado, Hyoga continuou a falar, encarando a parede branca à sua frente — como se o garoto ainda estivesse ali, e não a um passo de distância.

​— Você não está nada bem, Hyoga... — Shun cobriu a boca com a mão.

​— De onde você tirou isso? — perguntou o outro, focado na tentativa de convencer a parede de gesso.

​— Talvez pelo fato de você estar discutindo olhando direto para a parede e não para mim. — soltou Shun.

​A constatação fez toda a cor que parecia faltar no rosto pálido do menor ir direto para as bochechas de Hyoga.

​— Posso até estar meio pálido, mas me comparar com uma parede sem graça já é demais.

Hyoga riu com o comentário, mas o movimento fez o rosto torcer e o olho ferido dar uma fisgada forte.

— Ai... — fechou a cara de dor, sentindo o olho latejar forte.

— Tá doendo? — O sorriso de Shun sumiu na hora.

Mesmo sem muito foco por conta da visão turva, Hyoga analisou o rosto de Shun, que estava muito perto do seu. Shun ergueu o queixo do loiro com a ponta dos dedos para ter uma melhor visualização.

— Um pouco... — admitiu o loiro, tentando se fazer de durão como sempre. Ele tentou desviar o olhar para o chão, envergonhado com a proximidade, mas Shun impediu, segurando seu rosto.

— Precisamos trocar esse curativo... — observou, tateando a região acima da sobrancelha.

— Se você continuar me encarando tão de perto assim, vou achar que o cego aqui é você — provocou, soltando um meio sorriso.

— Não banque o mau paciente, meu ciclope — rebateu Shun, sem soltar o queixo dele.

— Ciclope? — Ele riu de novo, mas logo colocou a mão no rosto. — Ai! Não me faça rir, minha cara dói...

— Então vem cá, meu pinguim casmurro — brincou Shun, sorrindo docemente e chamando-o para mais perto da beirada.

​— Não brinque com isso... — reclamou Hyoga, deslizando pela cama até ficar bem no limite do colchão.

— Não estou brincando, meu cavaleiro de um olho só — respondeu Shun, já preparando as gazes e a bacia de água morna na mesa lateral. — Até onde eu sei, nunca na história da Grécia Antiga teve um cavaleiro caolho..

— Mas pode existir um agora, não é, Doutor Shun? — provocou Hyoga, soltando um trocadilho rápido que fez Shun revirar os olhos.

— Então é bom ser um bom paciente — rebateu Shun.—, porque o quanto você tem de teimosia, eu tenho em dobro.

Hyoga se acomodou melhor no limite do colchão, e Shun se aproximou até ficar posicionado entre as pernas do amigo, a uma distância confortável.

— Eu posso tirar? — com a mão repousando suavemente perto do ombro de Hyoga, Shun olhou para o curativo.

— Se você tiver estômago forte... — respondeu, virando um pouco o rosto, receoso com o que o outro veria.

— Eu tenho, sim. Fica tranquilo — garantiu, aproximando-se do rosto de Hyoga, já com as mãos na ponta do pano.

— Tá feio, Shun...

— Isso quem vai julgar sou eu agora — disse o garoto, dando um sorriso acolhedor para acalmá-lo.

Shun começou a tirar o curativo, soltando cada ponta da fita com extremo cuidado. Ele puxou a última dobra do pano bem devagar, deixando a área ferida finalmente exposta à iluminação que entrava pela janela.

O olho de Hyoga estava bastante inchado e havia um corte profundo na pálpebra — um machucado sério, mas que aliviou Shun por não ter sido pior. Se o golpe tivesse descido um milímetro a mais, teria perfurado o globo ocular.

— E aí? — perguntou Hyoga, tentando quebrar a tensão. — Já posso encomendar meu tapa-olho de pirata?

— Não seja engraçadinho, Hyoga... — suspirou. — Não foi tão grave assim.

— Ótimo — relaxou um pouco os ombros.

Shun pegou o pano umedecido em água morna e começou a limpar a região, removendo o excesso de sangue seco. Ele fazia isso com carinho, quase apenas acariciando a pele ao redor da ferida, mas a água em contato com o corte fez Hyoga dar uma leve encolhida.

— Te machuquei? — perguntou Shun, pausando a mão no ar.

— Não.

— Se quiser, eu posso ir com mais cuidado ainda.

— Não precisa. Você tem mãos de anjo, Shun.

E eram mesmo. Para Hyoga, aqueles toques pareciam vir de um anjo que, em vez de asas, carregava uma aura doce e protetora, e que no lugar de uma auréola tinha fios verdes de cabelo balançando soltos.

As pontas onduladas da franja de Shun roçavam de leve na pele do rosto do loiro, fazendo cócega. Se não estivesse com a pálpebra latejando de dor, Hyoga tinha certeza de que acabaria caindo no sono só com aquele afago contínuo e acolhedor dos dedos do amigo.

O garoto sentiu as bochechas esquentarem. Percebendo a reação do outro, Hyoga pigarreou para se corrigir:

— Digo... No sentido figurado! É porque suas mãos são macias.

Shun deu uma risadinha baixa, tentando esconder o rubor nas bochechas, e voltou a atenção para o ferimento, terminando de limpar a crosta de sangue seco ao redor do corte.

— E é assim que amigos de infância se cumprimentam hoje em dia? Com um golpe bem no olho?

— Bem, no norte da Sibéria a gente chama isso de um "olá" meio caloroso.

— Pois me parece que esse seu amigo Isaak errou feio na pontaria — comentou Shun.

— Por quê?

— Porque se ele tivesse acertado um tiquinho mais para cima, você teria ficado lindo com um risco na sobrancelha. Ia dar um ar bem mais rebelde para esse seu jeito de garoto sério.

— Se eu quisesse um risco na sobrancelha para ficar bonito, tinha pedido para o Ikki fazer com as garras de Fênix, não com um golpe no meio do oceano — respondeu o loiro.

Shun riu alto da resposta absurda, a risada ecoando pelo quarto e fazendo Hyoga acompanhar com um sorriso. Concentrando-se em continuar o processo, o virginiano pegou um pedaço de algodão com antisséptico para higienizar o corte. Porém, assim que pressionou o algodão levemente sobre a pálpebra ferida, Hyoga soltou um ganido baixo e contraiu o rosto em uma careta.

— Desculpa! — pediu Shun.

Preocupado, ele se aproximou um pouco mais e bufou um sopro suave diretamente sobre o olho machucado. O hálito fresco de menta e a brisa fria trouxeram um alívio imediato para a ardência que queimava a pele.

— Obrigado... — disse Hyoga baixinho.

— Prontinho! Higienização concluída — anunciou Shun, dando um último toque suave ao redor da ferida com a gaze limpa.

— Até que você leva jeito para a coisa — comentou o loiro, esboçando um meio sorriso de canto.

— Obrigado — Shun riu, arrumando os materiais sobre a mesinha. — Já estou acostumado a cuidar dos machucados do pessoal.

— É, eu sei... — murmurou Hyoga.

Na mesma hora, um vislumbre de memórias antigas passou por sua mente: as inúmeras vezes em que Shun, com aquela mesma paciência, cuidava de seus hematomas e arranhões após treinos pesados ou batalhas exaustivas. O cuidado do menor nunca havia mudado.

— Agora, vamos para o curativo — disse Shun, pegando a gaze seca e a fita adesiva médica.

— A parte mais crítica... — suspirou Hyoga, fingindo um drama terrível.

— Por quê? — perguntou Shun, já posicionando cuidadosamente a gaze dobrada sobre o olho ferido do amigo.

— Porque tenho quase certeza de que você vai me deixar parecendo uma múmia empacotada.

— Não exagere! Prometo que vou deixar o mínimo possível.

Shun começou a passar a fita, prendendo o curativo sem apertar nem um pouco a pele sensível do rosto de Hyoga. Ajustou as pontas com capricho e deu uma leve batidinha no ombro dele.

— Terminou, Doutor? — perguntou o loiro, piscando o olho bom.

— Prontinho. Já está pronto para outra — brincou Shun.

— Perfeito. Vou pedir para o Isaak — ou para qualquer outro general ou cavaleiro doido que aparecer — me acertar no outro olho amanhã.

Shun voltou a rir, desconfiado:

— E por que em nome de Atena você faria uma loucura dessas?

— Só para poder ficar sob os seus cuidados de novo — soltou Hyoga, com a voz um pouco mais mansa.

Ambos ficaram com as bochechas coradas. Shun deu um sorriso tímido, sem graça, e deu um passo para trás para lhe dar espaço, enquanto Hyoga se levantava devagar do colchão.

— Obrigado, Shun. De verdade.

— Não precisa agradecer... — respondeu Shun, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.

Movido pela curiosidade, Hyoga caminhou até o espelho do quarto para checar o resultado, com Shun logo atrás dele, observando sua reação. O loiro olhou para o reflexo, admirando a precisão da faixa cobrindo o olho esquerdo.

— Sabe de uma coisa? Ficou perfeito. Ficou até estiloso — elogiou Hyoga, dando um piscadinha com o olho livre para o reflexo de Shun.

Shun abriu um sorriso caloroso e acolhedor. Mesmo no meio de tanta confusão e de machucados pelo caminho, estar ali com Hyoga — partilhando risos bobos e pequenos cuidado— fazia qualquer ferida valer a pena.


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!