Notas iniciais
Essa história aqui é muuuuito antiga e eu escrevi ela na época em que saiu o ep do Pequeno Mordomo, então obviamente já não tem muita relação com o andamento atual do desenho, mas na época que eu escrevi, eu ainda era muito nova nisso de escrever e ler fanfic, então eu decidi reescrever a tragédia que era essa fic, espero que gostem.

Aquela tarde estava especialmente triste, e não era por clichês como o céu estar nublado e chuvoso, até porque o clima estava agradável, quente e perfeito pra dar um volta na orla da praia. E provavelmente seria isso que Steven faria, ou salvar Beach City de alienígenas, porém hoje não.

Hoje não porque hoje era um dia especialmente triste, e só quem sentia essa angústia era o garoto. Havia se passado algum tempo desde o Réveillon e, consequentemente, o caso do "Pequeno Mordomo"

Aquele caso que só causou problemas, emoções, problemas e mais problemas, e que insistia em não sair um minuto sequer da cabeça do meio-gem. Não conseguia esquecer aquela noite.

Não conseguia esquecer dela.

O momento da briga, onde agiu por impulso para separar Greg e Ametista e se deparou com a cópia quase perfeita de Rose. Os cachos, o vestido, os pés descalços, o batom no rosto, tão linda porém tão vazia, o tom roxo lhe dando um aspecto fantasmagórico que não se surpreende ter assombrado Greg.

E era estranho, bizarro, mas Steven sentiu que esse momento era seu. Quando cruzou os olhos com o da "mãe", parecia que só os dois estavam ali. Vê-la pessoalmente, na sua frente, sem ser por um vídeo ou quadros pendurados pela casa como santuários era, não sei, mágico. Entretanto aquela não era Rose Quartz. Aquela não era a líder das Crystal Gems, a primeira alienígena a se envolver com um humano e a mãe de Steven Universo. Aquela era Ametista, tentando forçar Greg a assistir um seriado.

E retornava a angústia, a dor incessante no peito e a memória que se repetia e se repetia em um loop eterno na sua cabeça, quebrando-o em mil pedaços. E sua mente passava a vagar por lados perigosos, pois todo esse caso do Pequeno Mordomo envolvia sentimentos mórbidos e fazia Steven relembrar do fato que vivia o perseguindo: fora ele o causador da morte de Rose. Ok, ela "largou mão do corpo físico para tê-lo", mas não foi a mesma coisa que morrer? E era mais depressivo ainda saber que isso tudo é culpa sua sem que você tivesse sequer nascido pra fazer algo errado. E todos repetiam que Steven não era culpado, entretanto o garoto não era idiota. Sabia que as Crystal Gems o culpavam, mesmo que jamais fossem admitir em voz alta.

—Steven. Steven. — uma voz o despertou, fazendo-o relembrar onde estava — Você escutou algo que eu disse?

Era Sadie. Os dois estavam no Big Rosquinhas, sentados um de frente pro outro e conversavam exatamente sobre aquele assunto, pois o menino precisava de algum conselho.

— Você escutou algo que eu disse?

— Não. — foi sincero com a amiga.

Ela suspirou. Estava tão preocupada com o colega. Desde que o conhece ele é tão alegre, espontâneo, animando o ambiente ao seu redor, independente de toda a loucura que é a sua vida. Vê-lo entrar cabisbaixo no estabelecimento, com uma aura triste ao seu redor e pedindo um conselho com a voz tão quebrada, isso lhe partia o coração e precisava tentar fazer algo para ajudá-lo.

— Eu disse que, não sei, se eu fosse você acho que pediria para Ametista se transformar de novo. Pelo menos para rever sua mãe uma última vez, sabe? — explicou novamente.

Sadie não sabia mesmo o quê fazer. Deuses, ela é só uma humana, com problemas humanos e isso não tinha nada de humano!

— Sadie, essa idéia é fantástica! — como num passe de mágica ele se animou, voltando a ser o mesmo de sempre — Você é a melhor! Vou falar com ela agora.

Se levantou da cadeira e partiu correndo porta a fora

[...]

Quando chegou no templo, se deparou, por sorte, com a porta do quarto de Ametista aberto, que ela provavelmente não fechou por pura preguiça.

Entrou e procurou a garota por algum tempo, adentrando mais e mais o quarto.

— Ametista?! Ametista?! Onde você está?!

— Eu vou te matar! — alguém com a voz engrossada gritou, se jogando de um pilha de lixo e caindo em cima de Steven, que gritou de susto. — Há! Te peguei direitinho.

Ametista saiu de cima dele, tirando do rosto sua máscara de Jason.

— Estou arrumando as coisas por aqui. — chutou uma pilha de lixo — Pérola-sabe-tudo veio aqui e desarrumou tudo!

— A-ah, legal... Ametista, eu queria lhe pedir um favor — Steven começou, temendo por uma reação negativa — Eu queria que você...

Falou baixo demais, fazendo com que nem ele mesmo escutasse a continuação. Ametista se aproximou mais, confusa, e pediu para o garoto repetir.

— E-e-eu queria q-que você se transformasse... — não conseguiu continuar, um bolo se formou em sua garganta e ele estava com vergonha de seu pedido.

Pensou em desistir, pois além de a gem não estar entendendo nada, parou para repensar e tirou conclusão de que aquilo era estúpido. Não iria ver Rose nunca, do que adiantava uma cópia dela?

— Transformar? — ela entendeu a última palavra — Ah! Você quer que eu me transforme em algo! O quê então? Uma bola? Um bebê? Ou talvez um...

— Não, Ametista! — interrompeu a amiga e logo após voltou à timidez, mas agora pronto para dizer de uma vez — Eu queria que você se transformasse em minha mãe...

Ametista congelou. Ela não esperava nem um pouco aquele tipo de pedido, e temeu pela possibilidade diante de seus olhos. Não queria se transformar, não depois do Réveillon e do trauma que aquilo lhe causou, e não queria agir tão banalmente quanto a imagem de Rose.

— M-mas se as outras entrarem aqui eu vou levar uma bronca! — pensou em alguma desculpa, implorando internamente que ele esquecesse essa idéia.

— Estamos longe da porta, saberemos se alguém se aproximar. — Steven ressaltou, mas quase desistindo.

— Eu não posso! Não depois de tudo aquilo... — se referiu ao episódio já tão conhecido pelos dois.

O garoto segurou a mão da amiga e a encarou, tentando passar confiança:

— Por favor, eu preciso disso.

Ela se decidiu, se desaproximando um pouco. A pedra em seu peito brilhou forte, cercando-a de uma luz cegante e modificando sua silhueta, tornando-a bem maior. Quando a luz deixou de brilhar, existia ali uma mulher roxa exatamente igual Rose Quartz.

Ametista encarou Steven, que analisava cada parte de sua "mãe". Não abriu a boca em só um momento, apesar de em sua mente se passar várias perguntas e piadas, que a ansiedade sufocava e não deixava passarem por entre os lábios grossos pintados.

Os olhos castanhos se encheram de lágrimas e Steven a abraçou, afundando o rosto no tecido do vestido. Tinha o cheiro de Ametista, porém o garoto não ligou, principalmente quando os braços o cercaram e a mulher abaixou para abraçá-lo mais firmemente. Fechando os olhos, podia imaginar o rosa, a risada, o olhar preocupado e gentil e o "eu te amo".

Ametista não podia deixar de pensar o quão encrencada ficaria se presenciassem aquela cena, mas sorria de qualquer forma, tentando ao máximo passar a imagem que conheceu de sua líder, aquela mãezona que cuidou tão bem de sua equipe.

E por muito tempo ficaram ali, abraçados e relembrando (ou criando) memórias.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!