Máscaras de Vidro
1 Capítulo 1: O Toque do Desconhecido
O cheiro de sândalo e fumaça sempre foi o aviso de que Alexander havia chegado. Mas naquela noite, quando os faróis do imponente sedã preto iluminaram os portões da mansão dos Ashford, o aroma que invadiu o hall de entrada era diferente. Tinha notas de terra úmida, chuva e algo metálico. Algo perigoso.
Ayla ajustou o vestido de seda branca, o coração batendo em um ritmo dolorosamente familiar. Casar-se com Alexander Ashford, o implacável herdeiro do império de segurança privada da cidade, havia sido uma sentença. Ele era um homem frio, cujos toques na intimidade pareciam obrigações contratuais e cujos olhos cinzentos nunca a enxergavam de verdade.
Alexander tinha sofrido um acidente terrível de carro há seis dias. O veículo fora encontrado destruído em um penhasco, mas ele havia sumido. Até que, no início daquela manhã, a polícia ligou. Ele tinha sido localizado vagando por uma estrada de terra, sem documentos, com cortes profundos no rosto e uma aparente amnésia traumática.
A porta pesada de carvalho se abriu.
O homem que passou por ela usava o mesmo terno sob medida de Alexander, mas a postura era sutilmente diferente. Havia uma largura em seus ombros, uma tensão selvagem que o Alexander que ela conhecia — sempre milimetricamente calculado — jamais demonstraria. Uma gaze cobria parte de sua têmpora direita, e fios de cabelo desalinhados caíam sobre a testa.
— Alexander… — Ayla sussurrou, dando um passo à frente.
O homem estancou. Quando os olhos cinzentos dele — idênticos aos do marido dela, mas com uma faísca de escuridão que a fez congelar — focaram em Ayla, as pupilas dele se dilataram. Ele a olhou de cima a baixo, devorando a visão de sua pele pálida contra a seda branca, como um predador que finalmente encontra sua presa.
Não era Alexander. Mas ninguém na terra sabia disso.
O homem diante dela era Dominic. O gêmeo oculto, o segredo sujo que a família Ashford trancou no submundo enquanto Alexander brilhava na alta sociedade. Dominic tinha sido o responsável por tirar o irmão da estrada. Ele sabia exatamente onde o Alexander real estava: respirando por aparelhos em uma clínica clandestina, sem rosto e sem nome.
Agora, a vida de Alexander pertencia a Dominic. A empresa, o dinheiro e, principalmente, ela.
— Você demorou… — Ayla murmurou, aproximando-se com os dedos trêmulos estendidos para tocar o rosto dele. — No hospital disseram que você não se lembrava de muita coisa, mas… você sabe quem eu sou, não sabe?
Dominic segurou o pulso dela antes que os dedos de Ayla tocassem sua pele. O aperto dele não foi violento, mas foi firme, possessivo, quente de uma forma que o verdadeiro marido dela nunca foi. Ayla prendeu a respiração. Alexander odiava ser tocado sem aviso. Mas o homem à sua frente não parecia odiar; ele parecia faminto.
Dominic deu um passo para frente, encurtando a distância entre eles até que Ayla pudesse sentir o calor do peito dele. Ele se inclinou, os lábios roçando de leve a ponta da orelha dela, fazendo um arrepio violento subir por toda a espinha de Ayla.
— Eu esqueci meu próprio nome quando o carro capotou, minha linda — a voz dele saiu mais grave, mais rouca do que a de Alexander, enviando uma descarga elétrica direto para o estômago de Ayla. — Mais de você? Eu nunca esqueceria.
Ayla deu um passo atrás, os olhos arregalados. O Alexander real nunca a chamara de "minha linda". Ele a chamava de Ayla, de forma seca. O coração dela disparou, uma mistura de medo puro e uma excitação proibida que ela nunca havia sentido antes.
Havia algo terrivelmente errado com o marido dela. E, pela primeira vez em anos, ela estava desesperada para descobrir o que era.
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