Obedeci. Entrei imediatamente e foquei minha mente naquele momento. Sasuke ainda era a presença dominante, mas usei todos os meus esforços para deixá-lo de lado. Me sentia vulnerável, me sentia fraca quando pensava tanto assim nele. Como alguém tinha tanto controle sobre mim? Era patético.

Fitei o diretor e não deixei de notar quando ele me olhou de cima a baixo e escreveu imediatamente alguma coisa em seu papel. O velho levantou-se e ergueu a mão, esperando que eu fosse apertá-la.

Não apertei.

– Sou contra apertos de mão, senhor. – disse, indiferente. Só pelo seu primeiro olhar, já sabia que eu era um caso perdido, então não fiz nenhum esforço para parecer educada ou ao menos normal.

O diretor ergueu as sombrancelhas, mas não disse nada, sentou-se e fez um gesto para que eu o acompanhasse.

Me afundei na poltrona a sua frente e resolvi me divertir com a situação, já que não tinha mais nada a perder.

— Bom dia, Srta. Haruno. – ele começou, lendo a ficha que via em sua frente.

— Bom dia, Diretor Williams – respondi, lendo a placa em sua mesa e ele me julgou novamente, passando o olhar voraz sobre minha pessoa, analisando todos os detalhes que pôde sobre mim. Viu a ficha de novo e anotou outras coisas.

— Posso saber por que é contra apertos de mão? – ele perguntou. Parecia estar se divertindo, como se eu fosse uma criança que não soubesse o que estava falando, como se eu fosse uma rebelde sem causa.

Dei um meio sorriso, estava esperando por isso.

— Não sou completamente contra aperto de mãos, apenas como método de cumprimento. Veja bem, apertos de mãos dizem muito sobre uma pessoa e não acho que devo dar mais uma desculpa para alguém me julgar. Minha aparência já faz muito bem esse trabalho.

Ele me olhou, claramente surpreso com a minha resposta.

— Interessante. – murmurou, ainda pensativo. – Mas a senhorita não acha falta de educação deixar o outro esperando só para saciar seus ideais?

— Não. Educação é questão de ponto de vista, pelo meu, eu poderia achar falta de educação o senhor erguer sua mão afim de me julgar, mas não acho. E eu faria tudo pelos meus ideais, sem eles, quem sou?

O diretor franziu a testa e continuou a me fitar, confuso.

– Entendo… Faria tudo como o quê? Me dê um exemplo de sua determinação. – perguntou, ainda com a face alterada. Obviamente não estava mais seguindo o protocolo de perguntas e já havia largado a caneta em cima do papel, no qual provavelmente estava escrito um “não” bem grande.

— Por exemplo, eu soube, assim que entrei no campus dessa universidade, que não seria capaz de entrar. Não sou burra, senhor. Sei bem que não sou o tipo de pessoa que esse lugar aceita.

“Minha mãe morreu quando eu nasci, eu nunca vi meu pai, eu fugi de Nova York porque morava com a minha tia bêbada. Fui expulsa de várias escolas por trocar minhas sextas-feira por um bar. Não me importo com estética, não acredito em muita coisa, meu histórico é medíocre e minhas atividades extra-curriculares envolvem teatro e aulas vagas de filosofia.

Além de ser americana, ter cabelo rosa e usar roupas rasgadas.

Sei muito bem que aqui estudam os melhores dos melhores, a elite. Quem sou eu para estudar em Oxford, certo?

Mas mesmo sabendo de tudo isso, eu fiz o teste de admissão, passei e fui chamada para a entrevista, porque eu tenho o ideal de nunca desistir e aproveitar todas as oportunidades que me dão, então aqui estou eu, mesmo sabendo que você escreveu um grande “não” na sua ficha ao me ver.”

Terminei meu discurso, divertindo-me e o fitei, com a face indiferente. O diretor estava incrédulo e me olhava boquiaberto

— Vamos encarar os fatos, agora que você já sabe tudo sobre mim, as perguntas do protocolo são inúteis, porque, realmente, o que o senhor quer saber da pessoa entrevistada, é quem é sua família e o que ela trará de benefícios para o recinto, não estou certa? O senhor, de verdade, não dá a mínima se o histórico é impecável e suas atividades extra curriculares são excepcionais, desde que tenha a ficha limpa e status. Mas, já que não tenho nada mais a fazer, responderei o que quiser saber.

Ele não disse nada, apenas continuava a me olhar, como se eu fosse uma ilusão ou um sonho esquecido.

Continuei olhando-o nos olhos fixadamente, não perderia o contato.

– Srta. Haruno, a senhorita tem um jeito interessante de ver as coisas. – disse, depois de um tempo refletindo. – Admiro sua capacidade diferenciada de ver o mundo, mas não acha que está sendo um tanto precipitada, julgando a universidade e a mim assim? Não ligamos apenas para o status como você e muitos acreditam, aceitamos mentes novas e prontas para a o conhecimento, não importa a origem.

– Então as suas palavras não fazem jus as suas ações senhor, porque eu não vi nenhuma pessoa fora do padrão que te descrevi lá fora. – respondi imediatamente, mantendo o rosto indiferente.

Ele franziu a testa e eu notei que estava ficando nervoso de verdade. Não levantei, nem fugi, apenas manti meu olhar, eu não tinha nada a perder.

— Talvez você não tenha olhado direito. – ralhou, esquecendo-se da voz mascarada e educada de antes.

— Ou talvez o senhor não queira encarar os fatos, porque é apenas um fantoche nessa instituição.

Vi seu rosto se avermelhar no mesmo instante. Se antes eu não estava perdida, agora estava.

– Você está insinuando que acha que não tenho poder de escolher quem serão meus alunos?

— Sim. Acredito que seja pressionado pela sociedade, pelos seus superiores e pela reputação da universidade e isso influencia nas suas escolhas diretamente. – respondi, ainda tentando manter o tom de indiferença.

O diretor bufou e se levantou abruptamente.

– Você acha que isso aqui é uma brincadeira? Sabe quantas pessoas dariam tudo para estar onde você está sentada?!

— Sim senhor, de jeito nenhum estou levando isso na brincadeira, apenas estou respondendo suas perguntas verdadeiramente. Agora, se me der licença, acho que não tenho mais nada a dizer, a não ser que o senhor ainda esteja interessado em minha pessoa.

Estava prestes a rir, mas sabia que isso só me deixaria pior do que já estava, não que eu me importasse, mas sentia que poderia ser presa ou algo assim e ainda tinha que ir nas outras universidades, nas que tinha realmente uma chance de passar.

Me senti idiota por ter aquela esperança que Naruto me dera e levantei-me. Eu não combinava com Oxford, sempre soube disso, não sabia porque tinha insistido na idéia.

Estava virando a maçaneta quando ouvi:

— Srta. Haruno.

Me virei e esperei um grito, um tapa ou um olhar pronto para me queimar.

– Tenho só mais uma pergunta. – o diretor disse, com a voz controlada novamente. Me surpreendi, achei que tinha conseguido esgotar a paciência dele e que sua decisão era imutável.

Acenei com a cabeça como um sinal para que continuasse.

– Você acredita em justiça?

Sorri com a pergunta, e respondi, diretamente:

— Não, senhor. Nem um pouquinho.

Ele acenou e eu não soube dizer se gostara ou não da minha resposta, mas supus que era hora de ir embora. Sai da sala do diretor, satisfeita por finalmente sair daquele ambiente onde o ar parecia comprimido.

Assim fechei a porta atrás de mim, vi a minha perdição materializada na minha frente. Uchiha estava encostado na parede, seu olhos fechados não ameaçaram abrir e sua cabeça balançava no ritmo da música que saia de seus fones.

Ainda estava parada, me perguntando o que ele estaria fazendo ali, quando o negro de seus olhos encontraram o verde dos meus. O mundo ficou em câmera lenta enquanto ele se aproximava de mim e meu estômago reagiu.

— Quer acordar? – ele sussurrou e pegou minha mão. Eu sabia exatamente o que ele queria dizer com aquilo e não hesitei em acenar com a cabeça, ainda hipnotizada com aquela voz. Por um momento, esqueci meu propósito ali, ou o sentido da vida.

Então me dei conta de que ele lembrava. Ele lembrava da nossa primeira noite. Não sei porque fiquei tão feliz, mas o fato fez minha razão esvainecer novamente.

Não me importei com o motivo, com meus valores morais, com nada. Eu sabia que aquilo era errado, eu sabia que estava dando as costas para tudo que eu disse que não seria depois que saísse dos Estados Unidos.

Mas novamente, mais do que eu gostaria, eu cedi para os meus instintos e me deixei levar pela mão calorosa e protetora de Sasuke. Dessa vez, não me conduzia suavemente, não estava calmo e cambaleante, como se não soubesse o que estava fazendo. Me conduzia rapidamente, euforicamente, ele sabia exatamente o que estava fazendo.

Finalmente, ele abriu uma porta que eu notei ser um laboratório, mas não me importei. Ele a trancou e virou-se para me fitar. Seu olhar, sóbrio, me parecia insaciável e seu andar, decidido.

Eu não hesitei, não evitei, mesmo sabendo que era o certo a fazer. Eu estava prestes a violar de novo a regra número um de conduta que Temari havia me falado. Estava arrombando a caixa chinesa, passando dos limites.

Mas o negro dos olhos de Uchiha me fazia esquecer de tudo e eu cedia. Ele andou em minha direção enquanto eu sentava na mesa branca do laboratório. Dessa vez, ele não me beijou na dose certa da suavidade como da primeira vez, foi um beijo desesperado, intenso.

Era como se ele estivesse esperando por isso, assim como eu. Como se estivéssemos saciando nossas necessidades de anos.

O beijo se intensificava e eu puxava o corpo de Sasuke para mim. Em questões de segundos, eu o senti penetrar em mim, deseperado, voraz.

A sua avidez me faz gemer alto de prazer, o meu êxtase me fazia sorrir e querer mais, ainda não estava completamente satisfeita. Senti que nunca estaria, era bom demais, queria uma overdose. Queria o excesso.

Quando alcançamos o auge, eu suspirei, implorando mentalmente por mais. Abri meus olhos e mordi de leve a boca do meu bem feitor.

— Mais eficiente que café… — murmurei, ainda com a voz afetada pela satisfação e cansaço.

Sasuke deu seu meio sorriso e me levantou da mesa, me colocando de pé.

– Agora que você entrou em Oxford, sinto que nunca precisará de café.

Eu entendi o duplo sentido daquela frase e sorri. Porque era exatamente o que eu queria. Eu não me importava se eu não o conhecia, se eu não sabia nada sobre ele, queria penetrá-lo, queria quebrar sua barreira. Em todos os sentidos.

– Obrigada pelo voto de confiança, mas eu duvido muito que tenha entrado com a minha entrevista. – falei, enquanto ele abria a porta.

– Quer apostar, Cherry? – ele perguntou e eu estremeci com a menção do meu nome.

– Sim, Uchiha. – respondi. – Aposto a sua jaqueta. Se eu entrar, te devolvo, senão, ela é minha.

Ele ergueu uma sombrancelha e pensou por um tempo. De fato, aquela jaqueta era importante para aquela mente torcida. Mas, se era tanto assim, por que havia me dado? Por que insistia que eu ficasse? Eu não entendia e por isso mesmo resolvi brincar com a situação.

— Feito. – então, ele pegou um canivete do seu bolso e fez um “x” no seu antebraço, depois me passou, esperando que eu fizesse o mesmo.

Eu estava acostumada com sangue, com facas, com agulhas e achei digno fazer uma promessa com cicatrizes.

Peguei o canivete e fiz o mesmo, achando graça da situação.

— Você acaba de perder sua jaqueta especial. – eu disse, satisfeita com o meu prêmio.

– E você acaba de contrair malária. – ele respondeu, irônico, se referindo ao seu sangue misturando-se com o meu.

— Veremos. – disse, achando graça.

— Veremos. – ele sussurrou com sua voz rouca, me fazendo fechar os olhos para contemplá-la corretamente.

Assim que notei que Sasuke já não estava ao meu lado, os ruídos e a hostilidade daquele ambiente voltaram, zombando de mim e de minha conduta anti-ética. Não me importei, mas me apressei em sair dali.

Era muita informação ao mesmo tempo. Quem era Sasuke Uchiha e o que ele queria comigo? Por que ele me confudia desse jeito? Por que ele me torturava?

As perguntas eram tantas e eu já nem sabia se queria as respostas ou se só me contentava em manter o drama, manter a curiosidade para não cair no tédio.

Nossa relação era sufocante, intrigante, eu não entendia. Não éramos amigos, nem mesmo amantes, éramos dois desconhecidos que afogavam as mágoas no sexo e nas mensagens subliminares dos nossos olhares.

Tínhamos uma forte ligação feita de nada. Mas era sólida, concreta, só não sabia o que era de fato.

Eu não o amava, mas amava sua presença, seu jeito, como ele mudava meu humor, minha cabeça. Eu não o odiava, mas odiava seu jeito indiferente, prepotente e despreocupado perante o perigo das drogas. Qual era o meu problema?

Qual era o problema dele? Cada vez mais, eu queria penetrar a barreira que separava o Sasuke Uchiha do dia da minha entrevista do Sasuke que berrava na rua por ajuda. Queria saber seus segredos, seus mistérios. E essa dúvida e ânsia acabaram virando obsessão, eu só pensava nisso, respirava por isso.

Sai do prédio e o vento gelado bateu no meu ferimento recém aberto. Estremeci, dessa vez de frio, e coloquei a jaqueta amaldiçoada. Coloquei as mãos nos bolsos e vi um papel, onde estava escrito, com uma caligrafia única, um endereço.

Sorri e logo tirei conclusões. Ele me queria em sua vida. Ele queria que eu fosse até sua casa, queria que eu penetrasse em sua mente, queria que eu o entendesse.

Ou será que não? Será que aquela era só mais uma jaqueta de várias? Será que eu era só mais uma que ele levava para o laboratório, mais uma que ele acordava?

Mesmo se fosse, eu não ligava. Estava cega demais pelo seu fascínio, pelo mistério que envolvia aquele ser obscuro, perdido. Mesmo que fosse só um personagem, eu queria aquela máscara para mim.

E foi pensando nisso que eu entrei em um táxi e entreguei o endereço ao motorista. Queria conhecer o inferno, o trono do diabo.

Notas finais
Hey, prometi que não ia demorar e cá estou, hahaha
Capítulo fresquinho pra vocês, amores ♥
Espero que tenham gostadoooo!
Reviews? *-*
Beijão :*