Máscaras & Sussurros
14 Recompensa
Com extrema dificuldade, causada principlamente pelo meu bloqueio mental, finalmente cheguei em casa. Ao abrir a porta, me surpreendi com Temari correndo em minha direção.
— Cherry! Onde você esteve? – ela perguntou, não tão curiosa, mas como se quisesse saber qual fora meu pecado, afim de me condenar.
– Na casa de um amigo. – respondi, sem hesitar. Não ousaria mentir para a pessoa que me oferecera abrigo.
– Quem? – Temari respondeu, um tanto ressentida talvez, mas demonstrando real preocupação dessa vez.
— Rock Lee, eu o conheci naquela festa que fomos sábado.
A loira suspirou, aliviada.
— O louco? – perguntou, sem pudor.
Acenei com a cabeça em concordância, porque também não tinha uma palavra melhor para descrevê-lo.
– Ninguém perigoso, aprovado. Enfim, avise-nos quando for passar a noite fora, ficamos preocupadas! – Temari disse, virando-se e continuando o que estava fazendo antes de eu chegar e interrompê-la.
- Desculpa, não me ocorreu. – falei. Na realidade, nem eu sabia que iria passar a noite fora, a carência que comandou aquele momento e Olívia fez questão de apagar qualquer resquício de noção ou ética, me impedindo de ligar para as meninas e avisá-las.
Mas por fim, fiquei feliz em saber que alguém ainda se preocupava comigo.
— Tudo bem. Vem aqui me ajudar a preparar esse bolo. – ela pediu, felizmente esquecendo-se rapidamente do outro assunto.
— Pra quem é? – perguntei, já colocando as luvas e ajudando-a a pegar os ingredientes.
— Não sei, meu chefe ligou mandando eu fazer, pelo jeito vai ter algum tipo de festa no bar. – Temari disse em um tom cansado.
Então me dei conta de que horas eram, ela ainda não tinha ido trabalhar e Hinata já havia saído para a Universidade.
– Eu preciso ir! – exclamei, tirando rapidamente as luvas já cobertas de farinha.
Essa frase se repetiu no resto da semana, na qual eu passei procurando freneticamente por faculdades que ainda aceitavam fazer entrevistas de última hora ou empregos que aceitavam uma jovem fisicamente alterada.
Para minha felicidade ou infelicidade, não encontrei Sasuke ao longo dos dias, o que acabou não tirando o foco de minha jornada. Também, não fui Olívia, fazia questão de ignorar os chamados de Lee para sua casa, me mantendo o mais tempo possível na realidade. Tinha que encará-la uma hora ou outra.
Sexta-feira apareceu mais rápido do que eu esperava, zombando de minha ansiedade para a sua chegada. Minhas cartas de recusa ou aceitação chegariam naquele dia e de um jeito ou de outro, seriam decisivas para o meu futuro próximo.
Achei graça de mim mesma, quando me vi de pé tão cedo perto da porta, só esperando o deslize do papel aos meus pés. Hinata passou por mim, divertindo-se também.
— Desculpa Cherry, tenho que ir, mas quando voltar, vou receber as boas notícias e a gente vai celebrar, certo? – disse descontraída com a doçura de sua voz, acalmando-me e garantindo-me uma noite de diversão.
— Certo. – respondi em um fio de voz, agradecida pelas palavras de consolo.
Temari estava dormindo e agora estava sozinha junto de minha ansiedade e dos minutos que pareciam horas.
Enquanto o correio usava suas armas contra mim, resolvi me distrair arrumando meu quarto que estava emerso em minha bagunça organizada. No meio tempo, Temari acordou e tomamos café juntas, conversando sobre coisas supérfluas.
De repente, ouvi o barulho que tanto ansiava e minha cabeça virou-se imediatamente para a porta.
Temari foi mais rápida e me pulou no sofá, pegando as cartas e afastando-as de mim. Suplicante, pedi para que me desse e ela negou.
— Para o seu próprio bem, eu leio. – disse, jogando outras cartas que não eram minhas na mesa.
Bufei.
– Você só está curiosa, sua maldita.
— Cala a boca. – respondeu, rindo.
Para a minha surpresa, eu tinha passado na maioria das pequenas faculdades de Londres, mesmo isso me deixando aliviada, eliminando a possibilidade de eu ficar sem estudar, a verdade é que eu não me importava com elas.
Queria estudar em grandes Universidades, eu não tinha ido até a Inglaterra para ser medíocre ou mediana.
Temari chegou na carta de Oxford e eu suspirei com pesar pela minha chance perdida. Olhei involuntariamente para a minha cicatriz no braço e pensei como aquela aposta estava ganha desde o começo.
Ela subiu na cadeira, como fez com todas as outras e leu a carta como se recitasse um poema.
— “Querida Sakura Haruno” – parou para rir novamente do meu nome recém descoberto. Mas ela sabia que não deveria me chamar assim desde a primeira vez que o citou na primeira carta e eu a fuzilei com os olhos. – “Temos o prazer de anunciar que a senhorita foi aceita na Universidade de Oxford…”
Temari abriu a boca e arregalou os olhos, ainda fitando a carta, desceu da cadeira roboticamente e voltou o olhar para mim, mantendo a expressão de choque. Eu pairava em sua frente, com uma expressão de indiferença, apenas esperando ela parar com a atuação.
— Cherry… — balbuciou, olhando para o papel de novo.
– Ok, pode parar com a babaquice, Tems. – suspirei, fitando-a.
Ela abriu a boca para falar alguma coisa, mas desistiu e me entregou a carta. Revirei os olhos e li “Temos o prazer de anunciar que a senhorita foi aceita na Universidade de Oxford…”. Viu, recusada. Fui recusada, era óbvio.
Então percebi que tinha lido errado e rolei os olhos pela folha novamente. “…aceita.”, “aceita”, aceita? O que isso significava? Eu tinha sido aceita? Não era possível, aquilo estava errado. Meu cérebro estava pregando peças nos meus inocentes olhos.
Voltei o olhar para Temari, achando que estava ficando louca. Ela me olhava ainda chocada, mas agora com um sorriso enorme no rosto.
- CHERRY! – berrou, sem ter outras palavras para seu choque.
Eu ainda estava tentando raciocinar e entender o erro daquela carta, quando ela me abraçou fortemente e me ergueu do chão, gritando loucamente.
— Temari! Calma! Isso tá errado! – eu berrei, tentando acalmá-la.
– Para de falar merda, tá escrito aqui! Você passou em Oxford, sua vadia! Por que não me disse que é tão inteligente?
— Porque eu não sou! Tá errado, vou lá agora esclarecer isso. – respondi, convicta de minha afirmação e saindo do apartamento, deixando uma Temari perplexa na sala.
Durante o caminho, eu li a carta toda, pensando que no fim teria um “é brincadeira, você não passou”, mas não tinha. Aparentemente eu tinha sido aceita em Direito, o que apenas comprovava a farsa daquela carta, já que eu tinha me inscrito para Literatura.
Assim que cheguei na Universidade, não me deixei afetar pelo ambiente e pelas pessoas como da primeira vez e fui direto para a sala do diretor. Após a aprovação da secretária grossa e aparentemente inútil, entrei no cômodo, pronta para soltar todas as minhas reclamações de como mandar uma carta errada era incômodo e anti-ético.
Ao entrar, senti o olhar do diretor me analisar profundamente como antes, mas dessa vez um sorriso apareceu em sua face envelhecida e eu franzi a testa.
— Srta. Haruno. Eu lembro de você. – ele disse sentando-se novamente, sem erguer a mão, provavelmente se lembrando de minhas palavras.
— Não me surpreendo. – respondi. – Eu lembro do senhor também. – completei, desnecessariamente.
— A que devo a honra de sua visita? – ele perguntou, divertindo-se, o que apenas me deixou mais irritada.
Suspirei, tentando me manter calma e procurei as palavras certas para a situação.
— Diretor Williams, creio que tenha ocorrido um grande erro perante a minha situação com essa Instituição e não posso negar que fiquei decepcionada ao saber que um lugar de tanto prestígio quanto a Oxford é capaz de cometer tal engano.
Satisfeita com a minha resposta, sentei-me e o fitei com o olhar mais firme que consegui. Tentei ignorar o sorriso que se formou novamente.
— E que erro seria isso, senhorita? – ele indagou e eu notei o tom zombateio novamente.
Suspirei novamente e entreguei-lhe a carta. O diretor leu rapidamente e devolveu-me.
— O que há de errado?
Me segurei para não revirar os olhos e respondi, pacientemente:
— Eu fui aceita.
Ele acenou com a cabeça e eu juntei as sombrancelhas.
— Diretor Williams, eu fui aceita. – repeti, caso ele não tivesse ouvido.
— Eu entendi, Srta. Haruno. Posso lhe garantir que não há nenhum erro nisso, eu mesmo fiz questão de admiti-la. O que, de uma forma engraçada, prova o contrário daquilo que você disse na sua entrevista. Sabe, de eu ser apenas um fantoche nessa insituição. – o diretor respondeu, estranhamente calmo, considerando o que falava.
Pisquei rapidamente e insisti:
- Quer dizer que eu fui aceita?
Ele acenou novamente e eu arregalei os olhos, levantando-me.
Tentei me recompor e respirei fundo várias vezes antes de voltar a me sentar. Levando um choque de realidade, percebi o quão patética eu soava naquele momento.
A informação finalmente começou a penetrar na minha mente e eu comecei a entender. Era óbvio que ele quis me colocar para dentro depois da minha entrevista. Eu o desafiei dizendo que não era capaz, o humilhei e ridicularizei. Ele estava apenas mostrando seu poder, me tiraria de lá na primeira oportunidade, no meu primeiro deslize.
— Certo. – disse, finalmente. – Mas eu me inscrevi em Literatura e aqui está escrito Direito.
– Isso é porque achei que seu talento estaria sendo disperdiçado se a senhorita cursasse Literatura. Você tem um grande poder de persuasão e argumentação, Srta. Haruno, usaria-os bem sendo advogada.
— Desculpe-me, senhor, mas você não pode escolher o que eu vou cursar.
– Não foi a senhorita mesma que disse que eu não poderia decidir nada? Pois você cursará Direito ou nada. Precisamos de alunas como a senhorita e não deixarei seu talento ser disperdiçado.
Incrédula, balancei a cabeça e bufei. Apesar de fazer péssimas escolhas e errar muitas vezes, eu não seria burra o suficiente para recusar uma oferta como aquela. Direito em Oxford? Isso era para poucos. Para poucos nos quais eu nunca, em nenhuma realidade que imaginei para mim mesma, estava inclusa.
— Está bem. – balbuciei, ainda inconformada com a minha sorte e audácia.
– Ótimo. – o diretor respondeu e eu acenei mecanicamente com a cabeça. – Acho que isso é tudo, certo?
Ainda um tanto boba, acenei novamente e me levantei, imaginando que era para eu ir embora.
— Tudo o que você precisa saber para o começo das aulas em setembro, vai estar em uma carta que chegará em sua casa mês que vem.
— Certo. Obrigada. – disse, com a voz alterada e sai da sala, deixando meus reflexos me conduzirem, pois meu cérebro certamente ainda estava em estado de choque.
Andei como um robô pateticamente pelo campus sem saber ao certo para onde estava indo. Já havia me perdido completamente, quando finalmente achei um corredor que me guiou para fora do prédio.
Eu já tinha quase voltado ao meu estado normal e estava pronta para criticar mentalmente as pessoas que passavam por mim novamente, mas uma aglomeração me chamou a atenção.
Havia uma roda de pessoas que pareciam estar em volta de uma cena, como cães curiosos, prontos para latir assim que saíssem de lá. Por um instante, pensei que fosse algo patético, como uma briga física entre dois jogadores de futebol, mas então vi a expressão da maioria das pessoas.
Talvez elas não estivessem curiosas, talvez apenas o choque as impedissem de dispersar. Me condenando pela curiosidade que surgiu em mim, me aproximei da roda e perguntei o que estava acontecendo, já que não conseguia me infiltrar mais para ver com meus próprios olhos.
— Pelo que eu entendi, um dos professores está discutindo com um aluno, a coisa está feia, parece que ele foi pego com drogas ou algo assim. – uma jovem me respondeu, sem me fitar. Ela também tentava se esticar para enxergar.
Revirei os olhos, era só uma discussão idiota. Estava pronta para ir embora, quando ouvi, involuntariamente, um homem dizendo:
— Aposto que o Uchiha vai falar várias pra esse professor hipócrita.
Virei a cabeça imediatamente e meu interesse despertou novamente, dessa vez, muito mais intenso. Segui a voz que tinha ouvido e encontrei um rapaz um tanto afastado da movimentação.
— Ei, você sabe o que está acontecendo ali? – perguntei, desesperada por uma resposta. Eu não via Sasuke havia quase uma semana, minha abstinência estava me enlouquecendo, a obsessão precisava ser alimentada. Agora que eu já tinha encontrado um lugar para estudar, podia me jogar de cabeça naquele vício. Eu não me importava mais com as consequências.
— O Uchiha foi pego cheirando por um dos professores… — me respondeu, indiferente. Ele não parou para notar a minha expressão de choque. Sasuke seria tão burro assim? – Mas aquele professor é um hipócrita do caralho, ele vive drogado e…
Não estava mais ouvindo, resolvi me aproximar da cena. Se Sasuke havia mesmo cheirado, ele não estava lúcido o bastante para responder os sermões do professor a altura. Eu precisava ajudá-lo, como ele havia me ajudado, como nós constumavámos nos ajudar de vez em quando.
— Só porque você tem o precioso nome Uchiha, acha que pode sair por ai fazendo o que bem entende? – ouvi, assim que cheguei mais perto, não conseguia ver, mas ouvir já era um avanço.
Uma gargalhada de Sasuke invadiu meus ouvidos e eu apreciei por uns instantes, esquecendo-me da realidade. Assim que parou, voltei a tentar me aproximar.
— Veremos, o precioso nome Uchiha não impediu meu irmão de conseguir o que ele quer.
Mesmo a voz dele parecendo normal, me amendrontei por ele. Eu conhecia bem os efeitos imediatos da cocaína… Sensação de poder, ausência de medo, euforia…
— Sua genialidade pode ser comparada a de Itachi, mas ele não precisava de drogas pra se sentir melhor, não é? – o professor ralhou e com aquela provocação, eu me desesperei. Precisava intervir o mais rápido possível, antes que Sasuke perdesse de vez a cabeça.
Determinada, comecei a empurrar todo mundo, não me importando com quem aparecia na minha frente. Pacientemente, engoli os insultos calada, memorizando a face de cada um para me vingar posteriormente.
— Você não sabe nada do meu irmão, seu filho da….
A voz maravilhosa de Sasuke se cessou e eu pensei o pior.
Notas finais
Enfim! Gostaram? Comentem ♥
Beeijão :*
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