Máscaras & Sussurros
13 Primavera
Arreguelei os olhos, aquele nome me era familiar. Onde eu o tinha ouvido? Vasculhei minhas memórias e tentei lembrar onde já tinha ouvido falar de Jiraya. Então, após vários minutos, a conversa apareceu em minha mente.
“- A gente mora de favor. Esse apartamento não é nosso. Era do padrinho de Naruto, o Jiraya… (…) Ele morreu faz alguns meses e deixou o imóvel para o Naruto, mas ele não quis ficar por causa de todas as lembranças e… Você sabe.” Deixei minha boca pender, acompanhando a minha indignação e só percebi que minha face era de completo choque quando o velho acenou na frente de meus olhos, para eu dar algum sinal de vida. Eu tinha mais medo de coincidências, mentiras e conspirações do que de fantasmas, então preferi acreditar que estava conversando com o padrinho morto de Naruto do que com outro homem de mesmo nome. Ainda sem reação voltei a fitá-lo, esperando que me desse uma lição de moral e desaparecesse. Talvez eu só estivesse vendo filmes demais. – E o seu qual é? Preciso de seu nome para o meu novo capítulo. – ele disse com outro tom de voz, claramente percebendo minha mudança de atitude.– Você conhece o Naruto? – perguntei, esquecendo completamente o que era noção, ou até mesmo bom senso. A verdade é que eu não me importava, o mistério de tudo aquilo me consumiu rapidamente. Como tudo na minha vida, eu tinha que aprofundar o assunto, tinha que saber o que era real ou não… Jiraya piscou várias vezes e largou a caneta em cima de sua prancheta. – Ele era meu afilhado. – respondeu. Eu não acreditava realmente que ele era um fantasma, mas aquela resposta me fez estremecer de cima a baixo e não ajudou na recuperação da minha expressão facial.– Era? – perguntei, tentando me manter calma. – Sim, ele acha que eu estou morto. Mas isso não é da sua conta, é, rosinha? Diga-me seu nome para que eu possa escrever de você, esse foi nosso trato. – ele respondeu, incrivelmente indiferente. Pisquei várias vezes tentando absorver a informação. Quando finalmente processei, respondi, pateticamente:– Como assim? Meu vocabulário não parecia tão refinado agora. – Seu nome. Você disse que se eu te falasse o meu, você deixaria eu escrever sobre você… — Jiraya disse, voltando a fitar outra moça que passava. Estreitei os olhos, inconformada. Era realmente isso que estava ocupando sua mente no momento? Depois de algum tempo, finalmente consegui fazer com que meus pensamentos voltassem ao normal. Me enganei, fingindo que não conhecia Naruto, que não sabia de toda a situação, talvez isso me ajudasse a lidar com a cena. Eu não iria julgá-lo, não iria questionar sua decisão de dizer a todos que estava morto, mas eu precisava entender. Precisava de uma explicação. Pensei em um jeito inteligente de abordar o assunto.– Certo. – disse, só para checar se minhas palavras faziam jus ao que eu estava pensando. – Meu nome é Cherry. Mas não acho que isso será o suficiente para que você construa minha personagem, não é? Não me importei que ele me usasse para seu livro mais. Agora, meu pensamento crítico anterior parecia uma coisa supérflua perto do que eu tinha acabado de descobrir, estava pronta para mudar de idéia se isso me ajudasse a descobrir a verdade. Jiraya riu novamente e escreveu mais algumas coisas no seu rascunho. Assumi como uma concordância.– Então, vamos jogar um jogo, eu respondo tudo o que você precisa e você me responde sinceramente todas as minhas perguntas. – falei, sem pensar muito. Logo depois da última palavra ter saido de minha boca, percebi que foi um erro. Era óbvio o que eu queria saber, ele não era burro afinal. – Me desculpe, Cherry, mas eu já tenho tudo o que preciso para a construção de sua personagem. – Jiraya respondeu e eu notei a sinceridade em seu tom. Talvez ele não tivesse percebido. Ou talvez só fosse muito bom em manipulação e mentiras como eu.– Mesmo assim, você se importa em me falar por que Naruto acha que você está morto? E sim, é da minha conta. – perguntei, diretamente, depois de perceber que ele era inteligente demais para meus jogos mentais. – Me importo. – ele respondeu, levantando-se. Não me forcei a ir atrás do velho, nem insistir para que se explicasse, porque sabia que não era a última vez que nos encontraríamos, simplesmente sabia. Ainda tentando absorver toda a dramaticidade da cena ocorrida, fiz a primeira coisa que julguei sensata. Liguei para Lee. – Lee? – Oi Olívia! – ele respondeu, com seu entusiasmo único. – Aquele convite ainda está de pé? – perguntei, esperançosa, precisava de um momento normal para variar.– Claro, eu vou te buscar, onde você está? Respondi e esperei sentada no banco, tentando tirar Jiraya de minha mente. Cruzei os braços e senti uma leve dor no meu antebraço. O "x" de minha promessa estava ardendo e não pude evitar de pensar que tudo estava relacionado. Sasuke, Itachi, Jiraya, Kankuro… Qual eram os reais mistérios de Bristol? Não, eu não estava lá para isso. Eu não queria uma nova vida? Longe de problemas, longe de drama?
Suspirei. A verdade era que Bristol me seduzira de um jeito que NY nunca conseguiu. A minha suposta vida utópica na Inglaterra agora só era uma projeção da minha mente. O fato era que eu estava apenas me envolvendo mais em mim mesma e não mudando meu jeito de pensar e agir.– Liv! – ouvi, quando finalmente tinha sido derrotada mentalmente. Olhei para Lee e não consegui evitar um sorriso. Por instintos, ou por não querer mais ser eu, corri em sua direção e o abracei, me envolvendo em sua presença confortadora.– Oi. – disse, me soltando. Obviamente tinha o pego de surpresa com meu ato de afeição. Eu também estava um tanto inconformada, nunca fora de demonstrar afeto físico, mas algo se reverteu naquele dia. Talvez fosse o teste, Sasuke, Itachi, Jiraya… Eu não sabia, só tinha certeza que algo tinha me afetado negativamente e eu precisava de uma dose de fantasia. Lee soltou um sorriso sincero e pegou na minha mão. Eu não soltei. – Cinema ou filme de sofá? – ele perguntou, me conduzindo para a garagem.– Filme de sofá. – respondi, aliviada com as propostas inofensivas. Ele parou e eu vi o meio de transporte que me conduziria para sua casa. Naquele momento, fiz uma coisa que não fazia há muito tempo, que só Olívia poderia fazer. Gargalhei. Sinceramente. – Você veio de bicicleta? – perguntei, entre minhas risadas salvadoras. Lee acenou com a cabeça e estendeu um capacete que ficou extremamente grande em minha cabeça.– Isso vai te proteger dos fantamas. – o moreno sussurrou, convicto de suas palavras e eu lembrei que ele possuía aquela loucura fascinante. – Lógico que vai. – respondi sorrindo. Subi na garupa e não demorou muito para chegarmos no apartamento de Rock Lee. Assim que entrei, vi a nossa “planta do amor” e sorri. E passei o resto da tarde assim, sorrindo de banalidades, esquecendo a realidade, fugindo para os cenários dos filmes antigos e me deliciando com o exagero da vida que só a ficção consegue fazer. Logo, a lua tomou o lugar do pobre sol, que não teve escolha a não ser ceder aos seus encantos e se esconder no horizonte. – Nossa, acho que eu tenho que ir. – eu disse, vendo que a luz que iluminava o tapete agora era superficial.– Ah, Liv! Não tem como você passar a noite? – ele perguntou, inocentemente. Como se “passar a noite" significasse realmente passar a noite. Suspirei e fitei os olhos pidões e enlouquecidos de Lee. Ele era sozinho, perdido e inocente. Não poderia deixar a noite consumí-lo sozinha, eu estava lá também, queria a minha parte. Hesitante, andei até aquele ser peculiar e o beijei. Por dó, por carência, por pura luxúria, não sabia. A Cherry odiaria aquele beijo, a Cherry não gostava de beijos inocentes, suaves demais, delicados demais. Mas eu não era a Cherry naquele momento. Eu era a Olívia. E a Olívia gostou daquele beijo. Tanto gostou que deixou as carícias se intensificarem. Lee claramente não sabia o que estava fazendo, mas Olívia pegou emprestado as habilidades de Cherry e usou em seu favor. Eu já não sabia quem era, só tinha a certeza que tinha me deixado levar pela inocência de Lee e por minha carência. Não tive tempo para me condenar, nem para enumerar meus pecados e pensar na minha cadeira reservada no inferno. – Eu preciso ir. – falei, já no dia seguinte, finalmente voltando à realidade. – Lee, me… me desculpa. Era um pedido sincero. Ele nunca entenderia as intenções, nem os motivos, mas pelo menos a sinceridade ele teria que ver em meus olhos.– Pelo... Pelo que? — Lee perguntou, ainda debaixo das cobertas, seminu. – Só… Me desculpa. – falei novamente sem fitá-lo e esquecendo do meu tom gentil. Eu definitivamente era Cherry novamente. Sai do prédio de Lee, já sentindo a culpa residir em meus ombros, cada vez mais pesada, não resisti e deixei meus joelhos cederem. Sentei na calçada e quem passava podia facilmente me confundir como uma típica jovem de ressaca. Esse pensamento me perturbou ainda mais e eu tentei me levantar. Era plena terça-feira, eu não devia estar me sentindo assim. Não deveria estar sendo vista assim. Era pra eu estar procurando uma faculdade, um emprego. Era pra eu me corrigir em Bristol. Corrigir, Cherry, correção. O significado daquela palavra parecia ter se perdido, junto com tantas outras. Tentei levantar a cabeça devagar para a dor não piorar e prestei atenção nas árvores. As árvores, que eram minhas amigas, tão solitárias e irônicas. Percebi, pelas suas flores caindo, a primavera indo embora, esperando o calor tomar conta de suas raízes. Era o fim de julho, logo todos estariam de férias e eu teria um mês para me preparar para a minha entrada na faculdade em setembro. Mas eu não tinha nenhuma faculdade. Eu não tinha me inscrito em nenhuma ainda. Não podia depender do meu teste em Oxford, aquilo foi uma piada. E minhas economias não iam durar para sempre. Além de tudo, eu estava usando Lee, me envolvendo com pessoas que não deveria e fazendo tudo que eu prometi não fazer quando sai de NY. Me odiava. Pior, me desprezava. No auge do desespero ao notar a situação patética na qual me encontrava, não percebi quando Sasuke Uchiha sentou-se na calçada ao meu lado. Dessa vez, a atmosfera não se tornou intimidante e a indiferença não tomou conta do ambiente. Sua presença naquele momento já não era confortante, nem ameaçadora como outrora, apenas era… Presente. Eu sabia que se qualquer outra pessoa se sentasse ali, eu me sentiria da mesma forma. Isso só me fez pensar que o meu desespero era tão grande, que ninguém podia influenciá-lo, nem mesmo a personalidade única do Uchiha. Não o fitei, por receio de que seus olhos negros pudessem me desesperar ainda mais. Sem explicações, ele simplesmente pegou uma caneta e se inclinou, alcançando o meu All Star, encarei seus cabelos negros e desgrenhados confusa, mas não disse nada também, não estragaria aquele momento silencioso de mútua compreensão. Talvez ele me entendesse também, assim como eu o compreendia com um olhar. Talvez ele tivesse percebido a minha perdição e resolveu me ajudar, como eu o ajudei daquela vez. Seria só uma troca de favores ou era mais que isso? Sasuke voltou a sua posição inicial e agora era a minha vez de me inclinar para ver o que ele tinha feito no meu tênis. Em um deles, tinha desenhado uma maravilhosa flor de cerejeira e um sorriso surgiu com dificuldades em meus lábios, era quase um intruso em minha face. Fitei o outro tênis e vi um ponto de interrogação, que imediatamente roubou meu raro sorriso. Um ponto de interrogação podia significar tudo e ao mesmo tempo nada. A dúvida, a perdição, o desespero. Percebi que Sasuke realmente me compreendia, talvez mais do que eu gostaria. Ainda sem fitá-lo, acenei com a cabeça de leve e esperei que ele entendesse que aquilo significava um “obrigado” sincero. Sem forçar-me a olhá-lo, ele pegou meu braço e beijou delicadamente o “x” do meu anti-braço, tão suavamente que por um momento não acreditei que fosse mesmo Sasuke Uchiha. Fechei os olhos e suspirei. O desespero aos poucos se esvairou com o calor promovido pelo contato de minha pele com sua boca e eu o agradeci mentalmente por me ajudar. Ele tinha previnido meu surto e nada que eu fizesse poderia recompensá-lo. Sasuke levantou-se e ergueu a mão para me ajudar a levantar. Recusei. Não podia dever-lhe favores mais do que já devia, meu orgulho não permitiu que eu pegasse naquelas mãos salvadoras e fosse com ele para o nada. Eu tinha que levantar-me sozinha e continuar com o meu rumo. Ele não ia me desviar novamente. Pelo menos não naquele momento no qual eu estava tão frágil e vulnerável. E assim fiz. Já de pé e ainda sem fitar seus olhos, neguei de leve com a cabeça e isso bastou para que ele entendesse o que eu queria. Se afastou lentamente e me deixou sozinha novamente. Assim, sem nenhuma palavra dita e com uma última flor de primavera caindo no chão, eu tinha a certeza que já estava completamente presa a Sasuke Uchiha.
Notas finais
Oooie, cap novo procês ♥
Então gal, vou viajar, voltarei dia 15 e posto ok? Prometo, prometo (:
Estava inspirada quando escrevi esse cap, é um dos meus favs, acho
Gostaraam?
Beeijão :*
Então gal, vou viajar, voltarei dia 15 e posto ok? Prometo, prometo (:
Estava inspirada quando escrevi esse cap, é um dos meus favs, acho
Gostaraam?
Beeijão :*
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