Sai pelas ruas de Bristol antes de Hinata e Temari acordarem, dessa vez, com um objetivo concreto, ou pelo menos era o que eu pensava. Comecei a ver as faculdades locais, mas eu sabia, desde o início, que se eu realmente queria ter algum crédito acadêmico teria que estudar em Oxford. Não era fácil, mas eu sempre soube me virar para conseguir o que queria.


Sempre achei tudo isso uma perda de tempo, pra que gastar minha vida com coisas tão banais e supérfluas como conhecimento escolar? Quer dizer, quando a vida nos derruba, não é a matemática ou a geografia que nos salva. A verdade é que a gente sempre se fode, sabendo somar ou não. Então, pra que perder tempo tentando aprender coisas inúteis?

De qualquer jeito, infelizmente, eu precisava de dinheiro para sobreviver – o que é uma coisa nojenta, caso me perguntem -, e, para isso, teria que me submenter ao sistema capitalista e sua competividade. Traduzindo: Oxford.

Depois da minha longa divagação, percebi o quanto era boa em procrastinar e fui em direção ao hotel de Naruto. Queria saber como ele tinha entrado na Universidade de Bristol sendo tão… Ele.

Subi até o quarto 301 e abri a porta com a chave que tinha. Estranhamente, eu já me sentia a vontade para entrar e sair daquele lugar como se fosse minha própria casa.

– Quem é? – ouvi um resmungo. Sua voz estava rouca e cansada. Tinha acabado de acordar. Eu sabia que ainda estava cedo, mas era segunda-feira e, pelo que eu sabia, ele tinha aula.

— Acorde, inglês. – eu disse, entrando. – Você não tem aula?

Ele me fitou com os olhos semi-abertos e bufou, voltando cambaleante para o sofá, onde claramente passou a noite.

— Só mais tarde, mamãe. – respondeu, se jogando no estofado de couro.

– Espera Bela Adormecida, antes de cair em sono profundo, me responda uma coisa. – eu falei, correndo para me sentar ao lado dele, o impedindo de deitar.

Ele balançou a cabeça, piscando cada vez mais devagar.

– Como você entrou na Universidade de Bristol? – perguntei.

Naruto riu.

– Você acha que sou tão burro assim? – perguntou, agora com os olhos bem abertos.

— O suficiente para não conseguir entrar na UB. Nada pessoal. – respondi, sorrindo.

Ele riu mais um pouco e me deu um tapa na cabeça. Respondi mostrando-lhe a lingua.

— Ah, não foi nada demais, Cherry. O Sasuke me desafiou, disse que eu nunca entraria nesse tipo de lugar. Dai eu estudei por um mês inteiro e mostrei pra ele. – Naruto respondeu, indiferente. Como se aquilo não fosse nada.

O olhei com admiração, espantada com sua determinação. Fiquei me perguntando se Sasuke fizera aquilo de propósito, já conhecendo o gênio do amigo. De um jeito ou de outro, era incrível o efeito de suas palavras sobre Naruto.

– É isso ai, inglês! – exclamei.

– Posso voltar a dormir, americana? – me perguntou, já me empurrando para fora do sofá. Não tive outra escolha a não ser sair, agradeci e tranquei a porta.

Então ele só havia estudado. Naruto. Aquilo me dera esperanças para tentar Oxford. Alguma coisa naqueles olhos azuis determinados do loiro me fizeram acreditar mais em mim mesma. Em um instante, em uma troca de palavras.

Ninguém nunca conseguira fazer isso em 19 anos, e ele tinha feito em dois minutos.

Movida pela minha recém adquirida esperança, sai novamente as ruas, mas dessa vez, em direção a estação de trem.

Estava na fila para comprar a minha passagem para o futuro, quando senti um calor conhecido atrás de mim. Não ousei me perder em sua presença e não me virei para fitar os olhos perdidos que certamente encontraria.

— Minha jaqueta. – ele disse, com sua voz meio rouca, mas lúcida. Ele estava sóbrio. Meu corpo, contra as vontades impostas pela minha mente, aqueceu-se e arrepiou-se ao mesmo tempo, era a perfeita prova de que até fisicamente eu estava confusa. Mas não me perderia, não dessa vez.

A fila andou e eu não consegui me mover. Meu cérebro ordenava claramente para as minhas pernas se mexerem, mas elas não obedeciam. Nada mais me obedecia.

Depois de uma eternidade perdida em esforços gastos a toa, consegui mover-me, ignorando a presença terrivelmente perturbadora – tentadora – que me seguia. Ainda estava pensando no que ele havia me dito antes, “não preciso de sua ajuda”. Como podia negar uma coisa tão óbvia de se notar? Uma pessoa tão cega a esse ponto não merecia minhas palavras.

Era mais que claro, para qualquer um que fitasse seus olhos, que ele precisava de ajuda. Ou será que não? Será que só eu tinha essa capacidade de notar esse tipo de detalhe?

— Me devolva. Ela é especial. – ele disse e eu achei graça do grau de idiotice daquele comentário, mas não ri alto. Apenas sorri escondida, ele nunca veria meu sorriso sincero, meu orgulho não permitiria por enquanto.

— Um só de ida, por favor. – pedi, quando finalmente chegou minha vez. Parecia ter passado horas naquela situação sufocante.

— Só ida? – ele sussurrou no meu ouvido, me fazendo fechar os olhos para apreciar somente o som. – Não quer voltar?

Eu neguei com a cabeça, ainda sob o efeito daquela voz.

— Eu não sei o que pode acontecer lá. Talvez eu nunca volte. Prefiro prevenir do que remediar…

Era mentira, nunca previnia, sempre remediava. Esse era o meu carma.

— Que pessimismo… Mas, infelizmente, eu concordo com a primeira parte. – ele parou e pediu uma passagem só de ida também. – Mas a segunda… — voltou o tom para mim, que ainda não me virara para fitá-lo. – Me custa acreditar que você seja esse tipo de pessoa.

Franzi a testa e me virei, incrédula, movida pelo impulso que a fúria despertou.

— Você nem me conhece. Não sabe que tipo de pessoa eu sou! – exclamei, agora fitando os olhos negros, profundos e indiferentes de Sasuke Uchiha.

Ele deu aquele meio sorriso que eu incrivelmente já conhecia. Mas não entendi qual era a graça.

— Não estou te julgando, foi só uma suposição. – Sasuke respondeu em um tom indiferente.

Ele estava tão diferente sóbrio, tão menos vulnerável, mas igualmente impenetrável, talvez até mais. Perdi imediatamente as minhas esperanças de achar que poderia conhecê-lo melhor de dia. Cheguei a pensar que nunca de fato penetraria naquela mente complexa.

Era curioso, porque nunca tinha tido a chance de conhecer alguém com o pensamento tão mais complicado que o meu. Eu simplesmente sabia que ele era mais perturbado que eu, mais perdido. E aquilo me fascinava.

Mesmo em pouco tempo, Uchiha era como uma droga. Em uma dose, eu já perdia o controle, não me obedecia e as consequências de seu uso eram catastróficas. Era um prazer momentâneo, instantâneo, pois, logo depois, quando voltava a sã consciência, afogava-me em dúvidas e confusão.

Mas o fato dominante para tal comparação era definitivamente a curiosidade. A minha inacreditável vontade de conhecê-lo mais, de penetrá-lo… Era como se eu quisesse viciar naquela presença, como se eu quisesse ter tanto do mesmo, a ponto de cansar do excesso. Puro masoquismo.

Ainda me convencendo de minhas suposições, não notei quando o trem chegou e Sasuke me conduziu para dentro.

— Não faça suposições sobre mim… — eu disse, me lembrando da conversa e me prendendo novamente na realidade.

— Suposição é uma afirmação sem fundamento concreto. – Sasuke respondeu. – Mas, me baseando em sua recente conduta, posso afirmar que você é distraída.

Bufei. Por que ele usava um vocabulário tão refinado quando estava sóbrio e quando se perdia, se comunicava a partir de berros incompreensíveis? Será que toda sua complexidade refletia-se também em suas palavras?

— E eu posso afirmar que você é incoveniente. – respondi, não acreditando nas minhas palavras. – Por que está me seguindo? Sua jaqueta não está comigo. – menti novamente. Desde que ele me dera, a guardava comigo o tempo todo. De algum jeito torcido, seu cheiro me fazia acordar. Do melhor jeito possível, do jeito que ele me ensinara.

— Por que eu te seguiria?

— Posso ficar o dia todo enumerando os motivos, por favor, me poupe desse trabalho e me responda. O que está fazendo aqui?

— Sua curiosidade me impressiona. Como não tem nenhum interesse maior nessa pergunta, não vou me dar ao trabalho de responder. – Uchiha respondeu, com seu ar prepotente.

Era mentira, eu me interessava, eu realmente queria saber, queria conhecê-lo, queria saber onde frequentava, do que gostava…

— Pois então… — me revoltei por ele ter o controle da conversa. – Eu direi onde você vai.

Sasuke juntou as sombrancelhas, mas ignorou meu comentário, achando que era só mais uma divagação.

O trem parou em uma estação e na hora eu tirei a jaqueta de minha bolsa, a cheirei e senti uma última vez e, antes do Uchiha perceber, a joguei para fora do trem. O couro demorou para cair no chão e, quando Sasuke percebeu, me olhou horrorizado e saiu correndo para fora do veículo enquanto ainda estava com as portas abertas.

— Passar bem, Uchiha! – berrei quando as portas fecharam novamente e o trem voltou a andar. Consegui ver a face furiosa dele e sorri. Agora eu definitivamente tinha o controle.

Eu havia o encontrado apenas quatro vezes. Quatro personalidades diferentes. Qual era o real problema daquele ser? Cada estação que o trem passava, eu ficava mais confusa. Primeiro, ele me oferecera seu amor sem nem me conhecer, depois, sua fúria e, de repente, sua indiferença.

Será que tudo isso realmente o envolvia? Será que era tudo parte dele?

Cansei de gastar minha mente com aquilo. Ele não merecia. Não queria minha ajuda, por que eu iria querer sua presença em meus pensamentos? Respirei fundo e finalmente cheguei em meu destino. Eu não estava pronta para aquilo, o Uchiha, em poucos minutos, tinha me desestabilizado mentalmente.

Mesmo assim, saí do trem e andei roboticamente até Oxford. Eu ignorava os olhares tortos enquanto estava indo em direção a diretoria. Todos os estudantes me fitavam de cima a baixo, se perguntando o que eu estaria fazendo ali, sendo uma causa perdida.

Eu, de cabelos pintados, calças rasgadas e camiseta pintada a mão.

Perderam seus tempos me analisando, invés de continuar com seu objetivo e ir para o lugar que realmente queriam ir. Era patético.

Continuei meu caminho sem parar para dar satisfação a ninguém e finalmente cheguei na porta da recepção.

Eu tinha marcado uma entrevista antes de sair de Nova York, não lembrava a hora, mas assumi que eles deviam me aceitar, já que fiz todas as provas e eles que me indicaram para a entrevista.

– Olá. Eu marquei uma entrevista para poder me inscrever aqui. Se não me engano, é hoje. – eu disse para a moça que pairava atrás do balcão, lixando freneticamente as unhas.

Ela não parou para erguer a cabeça e respondeu com uma voz afetada:

— O diretor está livre agora, pode entrar. A sala dele fica no próximo corredor a esquerda.


Pisquei rapidamente e não agradeci. Apenas sai com passos largos e fui em direção a sala que ela havia me indicado. Será que eu queria estudar mesmo em um lugar com pessoas como aquela?

Passava esbarrando nos estudantes que saiam apressados para as suas aulas, tudo era muito frenético, muitas vozes, muitos assuntos ao mesmo tempo, era como se eu estivesse em um ninho.

Um ninho extremamente competitivo e fútil.

Me perguntei novamente se deveria estar ali, mas consegui ignorar minha personalidade diferenciada e ceder ao senso comum de que eu deveria fazer faculdade.

— Por sua culpa, eu cheguei atrasado. – uma voz se sobressaiu sobre as outras de repente.

Me virei e lá estava o par de olhos perdidos.

— Sasuke. – disse, desnecessária. Era como se eu tivesse que mencionar seu nome para saber que ele era real. – Pelo que eu soube, você estudava na Universidade de Bristol e largou.

– Sabe qual é a definição de boatos, certo? – ele me perguntou.

Eu franzi a testa e ele ergueu as sombrancelhas.

— Então na verdade você estuda aqui e eu fiz você se atrasar?

Sasuke acenou com a cabeça.

— Ótimo. – respondi, séria, mas surpresa. O que ele fazia ali? Considerando nossos outros encontros, não achei que uma pessoa como ele poderia frequentar um ambiente acadêmico.

Seu meio sorriso surgiu em seus lábios e eu não me conti e sorri também. Me condenei mentalmente por ter me deixado levar por reflexos involuntários e voltei a minha expressão de indiferença rapidamente.


— E você está indo fazer o teste para entrar.

Acenei igualmente.

— Alguma dica, veterano?

Sasuke andou em minha direção e parou exatamente do meu lado. Achei que fosse embora e me deixaria presa em sua presença novamente.

— Não tente ser o esteriótipo que ele quer. Não seja quem ele vê todo dia, o impressione, você é boa nisso. – sussurrou em meu ouvido, enquanto colocava sua jaqueta em minha bolsa.

Eu estremeci e absorvei aquelas palavras como se fossem leis. Eram fáceis de cumprir. Mas por que havia me devolvido sua jaqueta? O que ele queria me torturando assim?

Ainda pensando naquilo, bati na porta sem olhar para trás, tentando me concentrar na entrevista e não nos olhos negros, na presença tentadora, no cheiro de boemia, na…

— Entre.

Notas finais
Eei, capítulo fresquinho pra vocês, pra compensar a demora do último (:
Espero que tenham gostaaado *-*
Mandem review pra eu saber se estou seguindo no caminho certo, críticas são sempre bem vindas também ♥
Beeijão :*