Então comecei a falar tudo. Como eu me senti a primeira vez que o vi, como achei que ele era tão incrivelmente inalcançável, como eu queria ajudá-lo e desvendá-lo. Como eu queria conhecê-lo mais que ninguém, como acreditava que ele era incompreendido...

Descrevi sua perfeição e como eu me sentia toda vez que nos falávamos ou nos beijávamos. Expliquei como pouco a pouco comecei a ficar exageradamente necessitada de sua presença, de sua atenção.

Que comecei a me afastar de tudo e todos só para ficar com ele. Contei como me sentia em relação às drogas, como o trai com Kakashi e depois com Itachi. Expliquei minha culpa, minha agonia e meu desespero ao pensar que poderia perdê-lo.

Até chegar naquela última noite em seu apartamento, quando eu finalmente surtei. A doutora me ouviu pacientemente e me esperou chorar quando eu quis. Então ela disse calmamente, quando eu terminei tudo:

— Sasuke foi um reflexo da sua vida em Nova York, Sakura. Ele foi a âncora que te segurou na sua vida anterior, você não estava pronta para deixá-la ir, então se segurou na primeira coisa que viu que poderia te segurar.

— Não foi assim. – neguei, inconformada. Ela não podia reduzir toda a minha experiência com ele dizendo que foi uma “âncora”.

— Eu acredito que o amor de vocês foi real, o que eu estou tentando dizer é...

— Não foi assim. – repeti, atônita. – Você não entendeu.

— Eu entendi...


— Não! – berrei, assustando-a.

Ela apenas me fitou, esperando que eu disesse mais alguma coisa. Fiquei em silêncio, apenas pensando em como aquilo algum dia poderia fazer sentido. Não, ela não tinha entendido, não era aquilo. Daquele jeito parecia que eu tinha usado Sasuke e eu não tinha feito isso, eu me apaixonei, eu quase morri por ele...

— Você mesma disse que o Sasuke mudou com você, que ele não era a pessoa que todos falavam que ele era. – a doutora começou, calma. – Isso foi porque ele se agarrava em você como você fazia com ele. Inconscientemente, ele se tornou uma pessoa melhor para você, enquanto você fez o contrário. Você queria alcançar aquela pessoa que todos diziam que ele era.

Pisquei algumas vezes, lembrando-me da última conversa que tive com ele.

“Não é saudável”, ele tinha dito, “você traz o melhor de mim, mas eu trago o pior de você. Precisamos nos consertar antes de levar isso adiante, senão nos destruiremos mutualmente”.

Era verdade. Eu tinha concordado naquela hora, por que estava negando agora?

— Tente entender, estou me referindo ao seu inconsciente. Isso não significa que nada foi real, muito pelo contrário.

Me concentrei em não surtar e gritar com ela como fiz tantas vezes com Temari.

— O que eu faço, então? – perguntei. – Como eu vou poder ficar com Sasuke, se ele faz isso comigo?

— Eu aconselho você dar um tempo antes de voltar com ele. Quando você estiver bem, não vai deixar-se afetar tanto por ele. E ele também tem que cuidar de alguns aspectos pessoais antes de conseguir ficar com você novamente, essa história das drogas é muito séria e eu acho que ele tem que ir se tratar.

Queria dizer que eu não iria conseguir ficar longe dele. Que se ele aparecesse na minha frente, eu iria pular e abraçá-lo e querer ficar com ele para sempre. Que esse “dar um tempo” seria bem mais difícil do que qualquer outra coisa que eu teria que fazer para me “curar”. Ao invés disso, falei:

— Ele não vai querer se tratar...

— Você também não queria falar comigo. E agora está quase pronta para ir embora. – ela sorriu, gentilmente.

Suspirei. Mas eu não estava pronta. Eu não estava pronta para encarar o mundo real. Tudo ainda parecia tão feio, tão errado, como eu suportaria?

— Você vai poder sair do hospital amanhã cedo. – ela disse, por fim. – Mas quero que continue vindo me ver duas vezes por semana e continue tomando os seus remédios, escutou? Falei com suas amigas para elas terem certeza de ficarem de olho em você. E ainda não volte para a faculdade. Dê um tempo para si mesma. Você ainda tem um longo caminho pela frente e não vai ser fácil, mas eu acredito em você, Sakura.

Acenei com a cabeça. Ela estava falando sério?

— Qualquer sinal de recaída, não hesite em me ligar. E não se preocupe, porque recaídas são comuns e muito importantes para uma recuperação plena. Eu não acho que você vai ter nenhuma... É uma mulher forte.

Fitei-a com uma expressão de “você está forçando a barra” e ela entendeu.

— Não me olhe assim, estou seguindo o protocolo. – sorriu e eu revirei os olhos, zombateia. No fim, eu acabei simpatizando com a doutora. No começo, eu criticava todos os seus métodos e manipulava a sessão para acabarmos logo, mas depois acabei aproveitando e entendendo o significado de tudo.

— Eu acho que vou voltar para Nova York para o fim do ano. – disse, antes de sair pela porta. – Tenho umas coisas para resolver por lá também.

— Desde que você não esteja fugindo e continue com nossas sessões por Skype, eu aprovo completamente. – a doutora disse e eu sorri.

Eu certamente tinha ainda muita coisa para resolver, mas ter dito tudo aquilo sobre Sasuke tinha tirado um peso dos meus ombros, eu estava mais aliviada, pronta para o meu próximo obstáculo.

Na manhã dia seguinte, eu fiz a minha mala, que anteriormente tinha sido preparada por Hinata e desci de elevador, não de escadas. Minha perna já estava curada, e apesar do elevador não ser antigo, eu senti que era um grande passo mesmo assim.

A luz do sol afetou meus olhos por um instante, mas eu logo me acostumei. Percebi o quanto eu tinha sentido falta do ar livre e das ruas de Bristol. Felizmente, o dia estava lindo e de cara eu vi a vespa de Hinata estacionada na calçada.

Ela sorriu para mim e eu fiz o mesmo. Do mesmo jeito que tinha feito no meu primeiro dia, arranjou um jeito de espremer minha mala no veículo para que eu coubesse atrás dela.

Percebi que ela estava indo devagar e eu apreciei. Estava com saudades da vista da cidade, então pude admirar tudo com mais calma. Me encantei pela cidade como se fosse a primeira vez novamente. Era tudo tão europeu, antigo e simplesmente perfeito.

Chegamos no apartamento e quando ela abriu a porta, me deparei com todos os meus amigos de Bristol fazendo uma festa de boas-vindas para mim. Para a minha surpresa, não tinha nenhuma bebida alcólica ou um cigarro à vista. Pela primeira vez em muito tempo, eu não me importei.

Só de ver as faces familiares, eu fiquei feliz. Até Neji estava lá. Eu estava recebendo abraços de todos e alguns comentários irônicos e engraçados, quando Temari disse:

— Temos uma surpresa.

— Outra? – perguntei, sem acreditar. Ela me conduziu a porta do escritório e eu pensei por um momento que encontraria Sasuke lá dentro e como isso seria doloroso. Por outro lado, estava torcendo para que assim fosse.

Mas quando a porta se abriu, vi ninguém menos que Lee.

— Liv! – ele gritou ao me ver e eu o abracei com força, tentando segurar minhas lágrimas.

— Puta que pariu, Lee. – disse, quase começando a soluçar de felicidade. – Você voltou?

Ele negou com a cabeça.

— Não, eu só vim para essa festa. Temari disse que era importante pra você, então eu vim! E olha o que eu trouxe! – ele me mostrou uma planta cheia de purpurina e confetes, que me fez sorrir imediatamente. Ficar sem chorar estava quase impossível aquela hora.

— Nossa planta do amor! – gritei, feliz. – Nossa, ela sobreviveu bem.

— Como nós! – ele disse e eu acenei com a cabeça. – Eu tenho que ir daqui a pouco, Liv. Eu prometo que venho visitar mais vezes!

Eu acenei que sim novamente, porque se falasse alguma coisa, minhas lágrimas iam sair. A única coisa que consegui dizer, sem desabar, foi:

— Lee, me desculpa. Me desculpa por tudo. E meu nome é Sakura, ok?

Lee acenou alegremente com a cabeça.

— Desculpa pelo que? – perguntou, genuinamente querendo saber a resposta e eu sorri. Tinha esquecido o quanto eu amava aquela inocência que tantas vezes corrompi. Então, pela primeira vez, percebi que não era Olívia e muito menos Cherry com ele. Eu era Sakura.

Ainda sorrindo, ele se despediu de mim e dos outros, até de Neji, o que me surpreendeu.

— Eles arranjaram um jeito de... Se resolver. – Hinata explicou, depois de ver minha expressão confusa. – Mesmo assim Lee tem que ficar longe por um tempo e continuar seu tratamento.

Acenei e ela sorriu, como sempre.

Passamos o resto da tarde ouvindo músicas boas e jogando jogos de tabuleiro com regras inventadas. Sasuke não estava lá, mas tudo bem, eu não me sentia miserável sem sua presença, eu consegui me divertir sem ele.

Depois de todos irem embora completamente cedo considerando que era sexta feira, eu, Hinata e Temari ficamos arrumando o apartamento. Eu sabia que o resto iria para alguma festa, mas eu não liguei, aquilo tinha sido ótimo.

— É bom te ter de volta, amiga. – Hinata disse, me dando um tapinha nas costas.

— É bom estar de volta. – respondi.

Temari deu um bocejo e nós a acompanhamos involuntariamente.

— Ser sociável cansa. – ela disse.

— Eu que o diga. – falei em um tom falso de cansaço.

Elas se entreolharam com preocupação e voltaram a me fitar.

— Eu estou brincando. Ok, vocês tem que parar de me tratar como uma boneca de porcelana. Não pensem que eu não percebi como vocês agiram a noite toda.

Apesar de estar demonstrando irritação, eu estava agradecida por ter pessoas que realmente se importassem comigo e quisessem que eu tivesse uma recuperação plena. Mas é claro que eu não facilitaria as coisas, afinal, eu ainda era eu.

— Cala a boca, Cherry, a médica disse que temos que ficar de olho em você. – Temari disse, soltando um olhar crítico em minha direção.

— Mas se você se incomoda, nós...

— Nada disso, Hinata. Se ela se incomoda, o problema é dela. Temos que cuidar de sua mente retardada.

Revirei os olhos e soltei um sorriso.

— Certo. A minha mente retardada vai tentar dormir, vocês não tem noção do quanto eu sinto falta de uma cama decente. – informei e me virei para ir para o meu quarto.

— Não fica irritada. – Hinata disse, por trás de mim quando eu finalmente cheguei no cômodo.

Estava prestes a perguntar do que ela estava falando, quando dei uma boa olhada em volta.

Havia grades nas janelas e protetores nas tomadas. Não conseguia ver nenhum objeto potencialmente pontudo por perto e a porta do banheiro estava trancada.

Virei-me para Hinata, incrédula.

— Eu não sai do hospital para isso. – comentei, fria.

— Eles só iam deixar você sair se tomassemos essas medidas...

— Ah certo, porque eu sou uma criança. – apontei os protetores de tomada. – Eles acham que eu vou me eletrecutar? Quem iria querer morrer assim?

Hinata pareceu espantada com o meu comentário.

— Nós só...

— Eu sei, Na, a culpa não é de vocês. – falei, cansada. – Eu só quero dormir, será que isso eu posso sozinha? — completei, percebendo que ela não ia sair tão cedo.

Ela parecia chateada quando disse:

— Na verdade, você tem que tomar um remédio...

Suspirei.

— Certo, porque eu não consigo dormir sem tomar remédio. Não fora do hospital onde tudo parece tão mais sedutor do que uma boa noite de sono. Talvez eu não durma e tente me matar em afogando na privada. – comentei, mais ácida do que irônica.

Hinata me fitou, claramente sem saber o que dizer.

— Desculpa, eu sei que isso não é sua culpa. – pedi, imediatamente.

— Eu sei que isso deve ser díficil pra você. – Hinata falou de repente, e eu percebi que estava forçando a sua voz. – Desculpa ter que te tratar como uma criança, nós só queríamos que você saísse de lá logo, então concordamos com tudo que eles pediram.

— Tudo bem. Não precisa se desculpar. Eu só... Eu estou cansada. – falei. – E eu entendo porque vocês tem que cuidar de mim o tempo todo. Olha eu aqui quase surtando no meu primeiro dia no mundo real...

— Você não está surtando. – ela retrucou imediatamente. Então sentou-se na beira da minha cama e fitou-me com seus olhos gentis demais para o seu próprio bem. – Sabe, eu aprendi ao longo dos anos que é bem mais fácil ser feliz do que triste.

Sentei-me ao lado dela e encostei minha cabeça em seu ombro.

— Eu não sei como você consegue.

— É simples, olha... É bem mais fácil pensar que você apenas precisa tomar um remédio antes de dormir do que pensar que você tem que tomar o remédio... ‘porque eu não consigo dormir sem tomar remédio. Não fora do hospital onde tudo parece tão mais sedutor do que uma boa noite de sono. Talvez eu não durma e tente me matar em afogando na privada’. – ela disse, assustadoramente repetindo exatamente minhas palavras em um tom divertido.

Levantei minha cabeça e fitei-a. Apesar da brincadeira, eu entendi o que ela quis dizer.

— É só não pensar tanto nas coisas. – ela disse, simplesmente. – Pelo menos é isso o que eu faço. – deu de ombros e levantou.

Sorri e peguei o remédio em cima do criado-mudo.

— Vou apenas tomar esse remédio antes de dormir. – comentei e ela sorriu.

— Boa noite.

A porta fechou-se e eu ouvi um clique. Era óbvio que ela tinha me trancado para dentro, mas preferi pensar que era só para eu ter uma noite de sono sem interrupções.

Notas finais
Ooi, cap novo procês ♥
Bom avisar que a fic já está caminhando para o seu fim, mais uns 5-7 capitulos, mas até lá vai demorar, haha.
Enfim, gostaram? *-*

Beijão :*