Máscaras & Sussurros
15 Pó
Finalmente consegui chegar e ver a cena. As pessoas estavam despersando e eu só consegui ver as costas do professor se misturando a multidão. Tive vontade de ir atrás e xingá-lo e socá-lo, mas o corpo inconsciente do Sasuke no chão me preocupava mais.
Corri em sua direção, desesperada e ao mesmo tempo enojada pelo caráter daquelas pessoas que foram embora sem mais nem menos.
– Sasuke! – gritei, ao me ajoelhar e colocar sua cabeça em meu colo. Ele suava e tremia muito e assim que seus olhos abriram, vi sua pupíla dilatada. Certamente cocaína. Suspirei e fechei os olhos, pensando no que faria.
Ouvia o coração dele batendo mais rápido e forte contra seu peito e pensei em me deitar com ele e ficarmos em silêncio para sempre. Mas eu sabia que meu sonhos eram impossíveis em um mundo como aquele.
— Cherry. – ele sussurrou de repente e eu voltei a fitar seus olhos escuros. – Minha cabeça.
– Vamos, levanta. – disse, o ajudando a ficar de pé. Eu conhecia bem a dor de cabeça pós pó. Era insuportável e ficar parada não ajudava em nada, então o conduzi para fora do campus, onde achamos um pequeno parque de crianças.
O ajudei a sentar-se em um gira-gira vazio e sentei-me ao seu lado.
– Não acredito que você foi burro o suficiente para cheirar dentro da instituição, Sasuke. – falei, sinceramente.
– É que você nunca teve aula com aquele imbecil. – ele respondeu, com a voz fraca.
Eu sorri ao perceber que ele estava voltando ao normal e não falei mais nada. O precioso silêncio se manteu por bastante tempo. Era cômodo, necessário.
Então me permiti fitá-lo novamente. Seus olhos estavam pesados e piscando lentamente.
— Ei, ei, você não pode dormir. – eu disse, dando uma leve cotovelada em seu braço.
Sasuke deu um meio sorriso.
— Como você vai me manter acordado? – perguntou, e eu entendi suas intenções.
Eu ri abertamente.
— Pervertido. – falei, considerando a idéia por um instante. Felizmente, eu não estava louca o suficiente naquele dia para ceder para o Uchiha. Apesar de uma parte minha querer muito consumí-lo, a outra parte queria apenas ficar ali e conversar, entender.
Ele sorriu novamente, entendendo a minha decisão apenas com um olhar e deitou-se.
– É sério, Sasuke. Não dorme. – pedi, agora seriamente.
– Nem se eu quisesse. – ele retrucou.
Com ele deitado, pude analisá-lo melhor. Seu corpo parecia esculpido e seu rosto era um enigma indecifrável. Como tanta beleza cabia em uma pessoa só? Suspirei, perdida em pensamentos. Meus olhos rolaram por todas as partes daquele ser, até chegarem no antebraço, onde eu vi a cicatriz.
Aquilo me fez sorrir. Como ele, desde o início acreditara que eu entraria em Oxford, mesmo sem me conhecer direito. Como apostou uma coisa que gostava, que se importava, confiando apenas em seu voto de confiança.
— Você ganhou, sabia? – eu disse, de repente, tirando a jaqueta dele da minha bolsa e jogando em seu rosto.
Ele a pegou e voltou a sentar, sorrindo.
– Eu disse. – Sasuke afirmou, com um tom indiferente. – O que você vai estudar?
— Eu queria Literatura, mas o diretor me colocou em Direito. – respondi, me sentindo mal.
– Ele não pode fazer isso. – Sasuke retrucou, finalmente fixando seu olhar nos meus olhos. Estremeci e acenei com a cabeça.
— Ele disse que se eu não fizer Direito, eu não posso estudar lá. Tecnicamente, ele não pode fazer isso, mas eu preferi Direito em Oxford do que Literatura em qualquer faculdade. – falei, notando o quanto aquilo soava irônico.
– Afinal, você não é idiota de recusar Oxford, não é mesmo? – ele disse, completamente irônico e eu ri novamente.
— Lógico que não, é Oxford! Todos querem Oxford. – falei, entrando no jogo.
— Certamente. Os melhores estão lá.
– Os melhores dos melhores.
Nossos olhos se encontraram e rimos. Então, em um instante, tudo parecia fazer sentido. Tudo estava melhor. Não sei como, mas aquela conversa, aqueles risos e aquele ambiente me fizeram sentir melhor. Era estranho como tão pouco me destruia, mas menos ainda me deixava alegre.
– Sabe, eu nunca te agradeci pela obra de arte que você fez em meu tênis. – disse e torci para que ele percebesse que meus agradecimentos não eram só pelo desenho. – Eu tinha um amigo em NY que desenhava tão bem quanto você. Mas os seus desenhos são mais… Não sei…
– Perdidos. – Sasuke completou e eu acenei.
De fato, Sai tinha o traço mais firme e a mão mais solta. Talvez sua técnica fosse melhor, mas os desenhos de Sasuke me satisfaziam mais, eram mais verdadeiros, emocionais.
— Enfim, obrigada. – pedi, finalmente.
Ele me fitou e se aproximou.
– Eu estava te devendo. – sussurrou com a voz rouca. Não deixei sua sedução me afetar.
– Na verdade não. Você me salvou da boate, lembra? Estávamos kits.
Ele estreitou os olhos e disse:
– Já que agora estamos kits novamente, o que acha de pararmos com esse lance de favores?
Ele sabia que nunca fora um lance de favores. Ele sabia que nós nos envolvíamos um com outro por motivos muito além de favores. Que eu não o salvara por uma dívida, mas sim por uma necessidade e vice-versa.
- Acho ótimo. – respondi. Com isso esclarecido, saberíamos com certeza que todas as nossas ações de ali por diante teriam um motivo maior por trás.
Estremeci ao pensar nessa nova etapa em nosso relacionamento peculiar e comecei a girar no brinquedo, fazendo Sasuke ressaltar-se e colocar as pernas rapidamente para o lado de dentro.
Girava, girava, girava. As cores se misturavam, a face de Sasuke era apenas um borrão e nada mais fazia sentido novamente. O som de sua voz era um sussurro e eu não entendia o que ele dizia, o que era tão importante de se dizer em um momento como aquele?
Então, um som suave de violino começou a tocar, aquele mesmo que me cativou pela primeira vez que estivemos juntos. Aquele solo magnífico e tão maravilhosamente hipnotizador alcançou meus ouvidos novamente.
E tudo parou de girar e eu consegui ver, com dificuldades, Sasuke saindo do brinquedo e cambaleando para longe, levando o som confortador com ele. Queria o seguir, como os animais seguiam o flautista, como as margaridas seguem o sol…
A tontura me impediu e eu cai no chão no mesmo instante que Sasuke, e, coincidentemente ou não, a melodia se cessou imediatamente.
Me arrastei ao seu encontro e me deitei ao seu lado, rindo da minha idiotice
— De quem é esse solo? – perguntei, me referindo à musica.
— Meu. – ele respondeu, indiferentemente, como sempre.
– Mentira. – eu disse, imediatamente.
Ele me fitou com um olhar confuso e negou com a cabeça.
— Não é possível. – insisti.
– Como posso provar? – ele perguntou, cansando-se da minha teimosia.
Pisquei rapidamente e suspirei. Pensei por uns instantes, até tinha vários jeitos dele me provar… Mas eu acreditava nele, simplesmente pelo fato de que aquele solo era uma coisa tão divina que só poderia vir dele.
— Você toca bem. – falei subitamente, porque achei que era necessário mencionar.
Sasuke não respondeu. Provavelmente era mais daqueles assuntos nos quais ele não se sentia confortável em aprofundar.
Senti a barreira impenetrável do Uchiha levantar-se e estava sem forças para tentar quebrá-la. Estava exausta.
– Vamos voltar para Oxford, você ainda tem aulas, não? – eu disse, de repente, pronta para levantar.
Ele revirou os olhos e bufou alto.
— Tenho uma ideia bem melhor. – disse, pegando um pacote em seu bolso e jogando um pra mim.
Por reflexo, peguei o pacote e, pela primeira vez em muito tempo, pensei duas vezes antes de agir. Eu estava sóbria de drogas desde que chegara, eu realmente queria aquilo?
Olhei para o pó branco como nuvem e depois voltei o olhar para Sasuke, que já estava preparando sua carreira.
Fiquei fitando a cocaína por um tempo. Eu gostava de coca, eu me sentia bem com ela, sentia como se eu pudesse fazer tudo e nada pudesse me alcançar, ela se tornava a minha melhor amiga. Minha auto-estima aumentava e a coragem adquirida me tornava estúpida.
Se eu sabia dos perigos e sabia o que aconteceria se eu cheirasse, por que eu estava hesitando? Eu devia recusá-la, isso era o certo a fazer. NY tinha ficado para trás, a Cherry de Bristol não precisaria de coca para se sentir bem. Não mesmo.
Então meu olhar voltou a figura de Sasuke e eu tive um pensamento que me deixava ainda mais assustada do que a possível recaída para o pó. Será que eu conseguiria lidar com Uchiha sóbria?
Já era fato que ele me afetava diretamente e eu, pouco a pouco, me tornava fraca perto dele. Não. Não podia demonstrar minha fraqueza novamente, ele não podia sentir minha vulnerabilidade como sentira quando sai da casa de Lee.
Tomada por esses sentimentos, quando me dei por mim, já estava preparando minha carreira e me juntado a Sasuke. Em instantes, ambos estávamos sob o efeito do pó.
Instantaneamente senti minha confiança aumentar, de repente eu era indestrutível. Um sorriso sem motivo surgiu no meu rosto e eu comecei a gargalhar, tomada pela euforia. Andei em direção a Sasuke, que se juntara a minha alegria instantânea.
— Eu sou boa em foder! – gritei, feliz. – Nós devíamos foder mais!
Ele gargalhou e me puxou, nos beijamos entre os risos e ficamos nos olhando apenas por olhar.
No auge da euforia, deixamos a criança que nunca fomos tomar forma. Ficamos nos divertindo nos brinquedos do parquinho e tudo parecia tão lindo, nós éramos tão bonitos, inalcançáveis, perfeitos. Nossas alucinações eram nossos sonhos e nossas conversas eram de um nível de inteligência que nunca chegaríamos sem a coca. Até nossos corpos pareciam corresponder bem à droga.
Então, sem mais, nem menos, tudo acabou. Os sonhos passaram a nos perseguir -literalmente- e a euforia virou paranóia. Minha alegria e risadas viraram choros histéricos e minha agressividade finalmente se tornou aparente. Olhei desesperada para Sasuke, a fim de ver se ele tinha mais coca para acabar de vez com o meu tormento, mas ele tinha sido mais rápido, já estava tentando achar pó dentro de um saquinho claramente vazio.
Nos fitamos, desaparandos e nos pareceu certo nos juntarmos. Cambaleamos um para o outro, eu chorando e ele sussurrando, e, com os olhos arregalados, nos abraçamos forte.
Por um momento achei que Sasuke ia me consumir, que eu ia me perder em seus braços, cair um uma escuridão eterna. Ele estremeceu também, com seus próprios medos, mas então caimos no silêncio e quase conforto.
Ofegantes, deixamos nossos corpos cairem na grama, ainda abraçados. Quando o efeito finalmente parou e os nossos pesadelos pararam de nos perseguir, o fitei lacrimejando e firmei ainda mais meus braços.
Com um braço, Sasuke me mantia segura, me apertando firme junto a si. Com o outro, ele parecia desenhar mais alguma coisa no meu All Star. Quando finalmente criei coragem para checar, percebi que o ponto de interrogação que jazia sozinho em um dos meus tênis agora era um coração.
Ainda um pouco afetada pelas drogas, comecei a chorar alto, agradecendo baixinho por aquele gesto que significara tanto para mim. Era como se ele disesse que eu não estava sozinha na minha perdição, que ele estaria lá por mim. Era como se ele disesse: eu me importo.
Eu estava em êxtase, não mais pela droga, mas sim pelas atitudes sutis de Sasuke. Pensei em como eu notávamos cada detalhe, cada sutileza um do outro e isso nos fazia muito parecidos, tanto em pensamento, como em jeito de ser.
Queria mostrar que eu me importava também, queria dizer-lhe tudo que eu pensava, de como ele me salvara tanta vezes, em como ele me entendia e vice-versa. Nada saiu da minha boca, o silêncio parecia dizer mais do que qualquer coisa que eu pudesse falar.
Eu queria fazer tantas perguntas a ele. Queria saber a história de Kankuro, de Jiraya e da família dele. Fiquei refletindo sobre como, mesmo tendo uma conexão inexplicável e intensa, não nos conhecíamos nem um pouco.
Após um tempo abraçados, apenas deixando o vento fazer o seu trabalho, eu resolvi perguntar o que me parecia menos importante no momento.
— Sasuke… — chamei, para tirá-lo do transe. – Por que Naruto não sabe que Jiraya está vivo?
Ele se mexeu e me colocou em uma posição para que fosse possível nos fitarmos nos olhos. Invés de tentar descobrir como eu sabia e avisar que eu simplesmente não devia falar no assunto, ele respondeu, simplesmente:
— Ele sabe.
Notas finais
Então, agora com a volta as aulas, vai ser mais difícil ter tempo de escrever, mas vou tentar manter um ritmo (:
Gostaram do cap? ♥
Beijão :*
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