O motorista estranhou o escrito, mas não disse nada, apenas me conduziu silenciosamente até o local.


Demorou eras, ou foi assim que me pareceu, quando finalmente o carro parou. Era uma estrada, com nada em volta. Nem ao menos a morbidez das árvores estava lá para acompanhar a minha desgraça.

Desci do carro, porque foi o que me pareceu certo e paguei o motorista que soltou um olhar julgador e depois foi embora.

Olhei em volta, o que Sasuke ia fazer em um lugar como aquele? Me frustei porque não era sua casa, o papel no bolso não foi intencional…

De repente, ouvi passos de longe e virei-me na direção do som.

— Sasuke te mandou? – o dono dos passos disse, com uma voz penetrante, quase enlouquecedora.

Me aproximei e vi a perfeita cópia de Sasuke Uchiha. Os cabelos eram mais compridos e a face mais velha, mas definitivamente os olhos continham a mesma perdição. Irmãos.

— Talvez. – respondi. – Quem é você?

Ele estreitou o olhar e se aproximou ainda mais. Sua presença era de longe mais ameaçadora que a de seu irmão e bem menos sufocante. Seus mistérios pareciam mais sombrios e seu olhar, mais determinado.

Não entendi o mais velho irmão Uchiha de cara, mas captei sua essência bem mais facilmente que a de Sasuke.

— Quem é você? – ele perguntou de volta, sério.

— Cherry.

Eu não tinha nada a perder e se conhecê-lo me faria mais próxima de Sasuke, então assim seria.

Cherry? – repetiu, estranhando. Acenei e ergui as sombrancelhas.

— Acho que agora você me deve o seu nome.


Ele sorriu e foi então que eu percebi a primeira grande diferença entre os irmãos Uchiha.

– Itachi Uchiha é o meu nome, Cherry.

Acenei novamente e desviei o olhar. Ele era bonito demais para o meu próprio bem. Não queria quebrar ainda mais regras. Ou queria?

— Dessa vez achei que ele viria. – ele murmurou de repente, virando-se para ir embora.

Hesitei.

– Não acho que papéis com endereços de lugares desertos vai convencê-lo a falar com você. – eu palpitei, esperando não ofendê-lo.

Itachi parou de andar, mas não se virou. Eu tinha acertado.

— Você não conhece Sasuke para saber o que pode convencê-lo ou não. Ninguém conhece.

O Uchiha voltou a andar, mas sua frase ficou presa no ar. “Ninguém conhece.” Seria verdade? Seria verdade que ninguém, nem mesmo o próprio irmão, conseguisse entrar na mente dele a ponto de conhecê-lo?

Isso apenas me deixara mais determinada. Alimentara minha obsessão de um jeito nada saudável. Sorri satisfeita com a minha nova descoberta e andei. Não ousei olhar no relógio e ver o tempo que havia perdido.

Devia estar tentando entrar em outras faculdades, devia estar estudando, devia ter pegado mais dinheiro, devia ter feito muitas coisas… Mas meu instinto sempre falava mais alto, as escolhas erradas palpitavam, queriam que eu as escolhesse, como se eu fosse ganhar algo com elas. Elas me enganavam, eu era fácil demais.

Fácil demais.

“I'm gonna fight 'em all

A seven nation army couldn't hold me back

They're gonna rip it off

Taking their time right behind my back”

Felizmente, Jack White interrompeu meus pensamentos masoquistas.

— Alô? – atendi, suplicante. Um salvador.

— Liv! – Lee gritou, assim que eu atendi. De um jeito sádico e triste, eu fiquei feliz por ele ser tão carente. Me surpreendi por ter demorado tanto para me ligar, mas me alivei. Gostava de falar com Lee, me sentia bem sendo outra pessoa.

— Oi, Lee. – respondi, continuando a andar e procurar sinais de civilização.

– Tá fazendo alguma coisa? Passa aqui, vamos ver um filme ou sei lá.

Suspirei. Era o que eu mais queria no momento. Ser normal, por dois segundos. Esquecer da minha mente complexa, dos meus problemas obsessivos demais, do drama.

— Estou meio perdida agora, mas assim que eu me encontrar, eu vou pra sua casa. – eu disse, sincera. Era verdade. Nos dois sentidos.

– Você não devia estar vendo faculdades? Quer que eu vá te buscar? – notei o tom de preocupação em sua voz e não consegui deixar de sorrir.

Eu queria que ele fosse me buscar?

— Devia. E não precisa, Lee. Muito obrigada. – respondi desligando, assim que vi o meu real salvador na vespa de Hinata.

Naruto desceu do veículo e andou até mim, completamente atônito.

— Se perdeu, americana? – ele perguntou, achando graça.

Revirei os olhos e subi na garupa da vespa.

– Só anda.

– Ei, pode parar. Não vou te levar de volta até me dizer o que você está fazendo aqui. – Naruto disse, pegando o capacete extra da minha mão e abrindo seu famoso sorriso.

Bufei.

– Me perdi. – respondi.

O loiro me olhou novamente e riu.

— Eu vou precisar de uma explicação melhor que essa.

Bati os dentes e dei-lhe um tapa na cabeça. Sabia o quanto ele era teimoso, mesmo o conhecendo a pouco tempo.

– Eu encontrei esse papel no bolso da jaqueta do Sasuke, resolvi vir ver o que era e encontrei seu irmão, Itachi, satisfeito? Agora vamos. – respondi rapidamente, pegando o capacete de volta.

Naruto ficou sério de repente, era estranho vê-lo desse jeito, não era natural, normal. Como se ele estivesse se forçando a isso.

– Ei, ei, ei. Como você pegou a jaqueta de… – quando viu que eu não estava prestando atenção, ele pegou meu braço, me fazendo fitá-lo. Seus olhos fixaram-se nos meus e eu ouvi atentamente. – Esquece… Só não se envolva com os irmãos Uchiha.

Juntei as sombrancelhas e me desvencilhei de seu aperto. Como ele podia me pedir uma coisa daquela? Como qualquer um podia me pedir aquilo? Ele já não sabia que era tarde demais?

— Eu sei me cuidar sozinha, Naruto. – respondi.

Ele me pegou novamente.

— Cherry. Você é gente boa e não parece ser burra, então confie em mim, você não quer se envolver com isso.

— Me desculpe, mas você não me conhece o suficiente para saber no que eu gostaria de me envolver. – ralhei de volta. Estava ficando nervosa, achava que Naruto nunca me julgaria.

— Me escuta. – ele pediu e eu, bufante, obedeci. – Posso não te conhecer o suficente, mas eu conheço Sasuke muito bem e eu sei que ele…

Naruto hesitou. Pareceu se controlar para não falar o resto da sentença, como se xingar o amigo fosse um pecado muito grande, uma traição descomunal.

Revirei os olhos.

— Escuta, inglês, eu já me envolvi com todos os tipos de pessoas, acredite. Mas muito obrigada pela preocupação, eu vou ficar bem. – sorri falsamente e subi na vespa.

— O que te leva a pensar que eu te levarei pra casa? Estou atrasado! – ele disse, voltando a sorrir, como se tentar me convencer fosse inútil. E era.

– Eu também, vamos! – repliquei.

– Não posso mais matar aula, Cherry. Ou você vem comigo, ou volta andando, desculpe. – ele disse achando graça da minha situação.

Bufei, inconformada e subi.

– Tá bem, aproveito e vejo se consigo entrar na UB.

Naruto não esperou eu completar a frase para acelerar o máximo que pôde na impotente vespa de Hinata. Me agarrei em seu abdómen, percebendo que nosso toque era quase que fraternal, não poderia senti-lo de outro jeito e isso aliviava a minha tensão.

Quando finalmente chegamos na Universidade e eu me vi livre do vento delirante, suspirei. Rápido demais. Eu definitivamente gostava de um passeio de vespa. Naruto a estacionou e passou o cadeado.

Então, sem mais nem menos, ele virou-se, sorriu pra mim e saiu correndo.

– Obrigada! – gritei, mesmo sabendo que ele não escutaria.

Estava seguindo em direção ao prédio, afim de ver onde eram feitas as entrevistas, quando reparei a diferença daquele lugar para Oxford. As pessoas não me olhavam cima a baixo, não havia a atmosfera sufocante e muito menos os olhares julgadores.

Era tão mais livre, normal demais… Achei fácil. Não era um desafio, era tão fácil passar despercebida que achei tedioso. O que eu queria afinal?

Mesmo assim, manti meu passo apressado e quando cheguei no hall de entrada, vi no mural: “Entrevistas e testes de aplicações encerrados”.

Incrédula, soltei um grunhido e sai batendo o pé até me jogar em um banco no jardim do campus. Era óbvio que o destino iria pregar peças em mim. Era óbvio que o mundo conspirava para que minha única opção fosse Oxford, para que eu não passasse e me arrependesse de ter sequer tentado.

Xinguei o universo e peguei meu fone da bolsa, querendo me excluir do mundo, simplesmente sumir. Notei o nó que os fios formavam entre si, e estava prestes a desfazê-lo, quando notei o senhor ao meu lado me examinar furtivamente.

— Ei! – gritei, enojada. – Perdeu alguma coisa, vovô?

Consegui dar uma boa fitada nele e então reparei o quanto era estranho. Tinha os cabelos brancos grandes e desegrenhados jogados em uma face estranhamente sem rugas. A cada piscada pareciam escorrer lágrimas de sangue de seus olhos negros intensos.

Não entendi seu olhar e muito menos a impressão que tive da vermelhidão de suas possíveis lágrimas. Também não soube destinguir se aquilo era água…

Perdida na complexidade do velho, não me dei conta de que ele ainda estava me examinando e sorrindo maliciosamente, como se eu tivesse retribuindo seus pensamentos pervertidos.

— Ei! – gritei novamente.

Então, tomada pela raiva e pela desobediência dele, levantei minha mão para dar-lhe um tapa, mas minha mão foi evitada, ele fora mais rápido. Ergui as sombrancelhas, surpresa e abaixei o punho.

— Qual é a sua, velho? – perguntei sinceramente, agora notando uma prancheta em sua outra mão.

– Assim você me ofende. – respondeu finalmente.

— Que bom, porque seus olhares furtivos me injuriaram, causando desconforto e consequentemente, ofensa. – retruquei imediatamente, o deixando sem argumentos.

Foquei meu olhar na prancheta e vi que era um rascunho de algum texto. Então, assim, o breve conceito que tinha dele aumento, eu simplesmente tinha simpatia por escritores e amantes da literatura.

— Você tem um vocabulário afiado para alguém da sua idade.

– Eu gostaria de dizer o mesmo, mas o senhor não me deu muito material para eu estabelecer um padrão, não é mesmo? A não ser que queira que eu julgue seus olhares como palavras. Então devo dizer que o seu vocabulário é bem pobre.

Ainda irritada, mas mais apreensiva, desviei o olhar. Então ele começou a gargalhar e recuperou a minha atenção.

— Não entendi a graça. – me forcei a dizer, mantendo a expressão neutra.

– Você é sempre assim? – perguntou, agora fitando meus olhos e não meus seios.

Era a segunda vez que alguém me perguntava aquilo em Bristol e não pude deixar de notar uma semelhança entre os dois arquitetos da frase. Primeiro, Naruto, todo sorridente tentando me dar boas vindas.

E agora esse velho, tentando me dar boas vindas de um jeito nada receptivo, mas igualmente sorridente. As energias pareciam ser as mesmas, então não hesitei em responder a mesma coisa que respondi para o loiro:

— Assim como?

Estava torcendo para que ele não respondesse “chata” como Naruto, porque coincidências me assustavam e ninguém podia ser tão parecido assim com um desconhecido.

— Irritante. – ele respondeu, satisfazendo-me.

— Desde que me lembro.

Dando a conversa por terminada, desviei o olhar novamente e voltei a tentar desenrolar os fios do meu fone.

– Você se importa se eu escrever sobre você? – o velho perguntou depois de alguns minutos observando o desenrolar de nós.

— Sim! – respondi prontamente, indignada com uma pergunta tão abusada. – Nem sei quem é você.

— Ensino… Ensinava Literatura aqui, mas acharam alguém mais bitolado para me substituir. Então eu só venho aqui para me inspirar e escrever meus próximos livros. – ele disse rapidamente enquanto fitava uma mulher que passava apressadamente em sua frente.

Revirei os olhos e ignorei. Mas o fato dele ter sido professor de Literatura despertou um novo interesse no velho tarado.

— Qual é o seu nome? Se me dizer, eu deixo você escrever sobre mim. – menti, era óbvio que não ia deixar, mas eu precisava de um nome para associar a face.

O vi suspirando e virando a prancheta, afim de deixar seu rascunho escondido.

— Sou Jiraya. – respondeu por fim com um meio sorriso malicioso.

Notas finais
Ooi, capítulo novinho pra vocês ♥
Então, estou de féeeriaaas, vivaaa! Isso significa duas coisas: vou ter tempo livre pra escrever/postar. 2. talvez eu viajeee, então se eu demorar, não abandonei, ok? É porque fui viajar mesmo (:
Se eu não for viajar, estarei aqui toda semana postando pra vocês *-*
Gostaram desse cap?
Beeijão, :*