Pisquei algumas vezes tentando absorver a resposta e o quão calmo ele estava perante ao assunto quando respondi ansiosa e ainda meio chocada:


– Como assim?

Sasuke suspirou e eu entendi que era um assunto complicado.

– Jiraya supostamente morreu há seis meses, Naruto descobriu logo no mês seguinte que ele ainda estava vivo. – ele disse, achando que isso bastava. Percebendo o meu olhar, continuou — Mesmo assim, ele entendeu que Jiraya queria parecer morto para ele, então não tentou encontrá-lo, nem pedir explicações.

Fiquei fitando-o por vários minutos com a minha melhor expressão de choque.

– Acho que não fiz a pergunta certa… Por que…

– Olha, Cherry, deixa quieto. Não é assunto nosso. – me interrompeu. Como ele podia dizer isso? Ele iria me fazer perguntar para Naruto? Apesar de minha curiosidade intrusa, eu não queria me meter em algo tão aparentemente errado.

Pelo que Hinata tinha me falado, Jiraya parecia ser uma pessoa muito importante para Naruto, como ele podia fingir a própria morte e, pior, como Naruto podia aceitá-la? Não entendia e a indiferença de Sasuke só me deixara ainda mais angustiada por respostas.

– Eu sei que é díficil de aceitar, mas se Naruto aceitou, quem somos nós para contestar? – Uchiha insistiu, percebendo a minha inquietação.

– Sasuke, Naruto é um idiota! – exclamei, atestando o óbvio. – É óbvio que ele vai aceitar, ele está em fase de negação. Nós precisamos descobrir o que aconteceu…

Sasuke me fitou com um olhar incrédulo e eu acharia graça se o assunto não fosse tão sério. Ele revirou os olhos e me ocorreu que talvez ele não entendesse o que significava aquele abandono para a vida de Naruto… Talvez ele simplesmente não entendesse o significado da perda de um amor fraternal.

– Escuta, eu sei como é ser abandonada pelos pais, não vou aceitar que alguém finja estar morto para não ter a responsabilidade de cuidar de alguém! – falei, esperando transparecer toda a minha emoção em minhas palavras. – Talvez você não entenda, mas…

Então, ele virou-se subitamente, quebrando a conexão dos nossos olhares e isso me calou.

– Você iria querer saber… — começou a falar com um tom que eu nunca tinha ouvido. – Você iria querer saber porque os seus pais te abandonaram? Iria querer saber o motivo de você não ser digna da atenção deles?

De repente, percebi que já não estávamos mais falando de Naruto, que aquilo de repente se tornara um momento de recordação de mágoas. Senti a barreira impenetrável um pouco mais frágil e não ousei abrir minha boca.

– Me diga, Cherry. Você iria querer que sua mãe ou pai chegasse pra você e dissesse: “Eu preferia ter morrido do que cuidar de alguém como você”?

Engoli um seco.

– Então não me diga que eu não entendo. – continuou, agora virando-se novamente e fitando meus olhos. – Eu só acho que Naruto estará melhor fingindo que Jiraya está morto.

– Sasuke, eu não sabia, me des…

– Não preciso da sua pena! – ele gritou de repente, perdendo toda a calma que o controlava naquele momento vulnerável. Me sobressai, qual era a dele? Porque resolvera gritar comigo do nada? Ele não estava facilitando a minha compreensão.

– Eu não ia me desculpar pelo o que aconteceu, eu sei que a vida é uma merda. Ia me desculpar por fazer você lembrar dessas coisas do nada, não sinto pena nenhuma de você, Sasuke. – esclareci, irritada.

Eu entendia esse sentimento, também odiava quando olhavam pra mim com pena, quando sentiam por mim. Me sentia fraca, como se a pessoa fosse superior a mim, e isso era errado. Eu odiava. Por isso me forçava a não sentir pena de ninguém. Principalmente de alguém que eu me importava.

Ele virou-se, provavelmente querendo esconder sua face alterada e terminou, em um tom mais calmo:

– Só deixe-os em paz.

Franzi o cenho.

– Você não manda em mim. – murmurei. – Se eu decidir que essa é a coisa certa a fazer, pode deixar…

– Você é irritante. – ele disse, em um tom zombateio. Parecia não estar mais bravo, já que deixei claro que não sentia pena.

– Desde sempre. – concordei e Sasuke voltou a fitar-me.

Vi que ele me olhou com uma mescla de admiração e confusão e simplesmente suspirou.

– Vou voltar pra aula, não posso perder minha detenção. – disse de repente e eu só assenti.

Estava claro que ele queria me deixar sozinha para eu me decidir sobre o assunto, era impressionante o quanto ele me conhecia em tão pouco tempo e vice-versa. Eu simplesmente sabia que ele não ia voltar para a detenção e sim para mostrar ao professor que ele estava bem, como se disesse que não fora afetado.

Seu orgulho era semelhante ao meu e eu sabia o quanto isso podia ser prejudicial. O vi andando lentamente para a faculdade e meus joelhos simplesmente cederam, sua presença era exaustante.

Era como se meu cérebro se exercitasse mais para acompanhar seus pensamentos, como se meu estômago tentasse conter todas as borboletas e meu corpo se segurasse para não se jogar naqueles braços.

Sim, era extremamente cansativo ficar com ele e eu obviamente precisava de intervalos, mas não trocaria Sasuke por nada. Era um masoquismo prazeroso, um pecado que eu me dava ao luxo de cometer. Libertador, para dizer o mínimo.

E apesar de ter muito o que pensar sobre tudo que passamos naqueles poucos momentos juntos naquele parquinho, minha mente sempre pulava para Naruto e Jiraya. Mesmo com tudo que Sasuke tinha dito, ainda não me conformava com o fato.

Eu precisava saber a verdade, precisava entender os motivos daquele velho para privar meu amigo de um pai.

Era óbvio que alguém como Naruto sentia falta de uma figura paterna, ele não era como eu, uma alma solitária no mundo enorme. Ele era como um filhote de cachorro, precisava de alguém para guiá-lo.

Até eu, a novata, tinha percebido o efeito imediato que a suposta perda de Jiraya tinha causado nele, então como o próprio velho não percebera? Não era possível, simplesmente era demais para o meu entedimento.

Com isso em mente, parti para a UB em busca de respostas, esperando encontrar o velho pervertido sentado naquele mesmo banco olhando para meninas com saias curtas demais.

Depois de uma longa viagem, finalmente cheguei e, para a minha surpresa, ele realmente estava lá. Era como se eu tivesse deixado-o exatamente como da última vez que o vi.

Sentei-me do seu lado e disse:

– Cherry, dezenove anos, sou fã árdua de rock e punk, não acredito em Deus e eu realmente acho que se o Dumbledore, de Harry Potter, existisse, o mundo seria um lugar melhor. Sou a favor do anarquismo, mas não sou anarquista porque isso seria uma paradoxo e eu não gosto de paradoxos… Nem de coincidências. Tenho medo de gente muito conservadora e de… Sentimentos.

Jiraya ficou me fitando como se disesse “do que raios ela está falando?”, devo ter subestimado a inteligência do velho.

– Pronto, meu personagem, se escreveu algo diferente disso, pode corrigir. – expliquei, como se fosse óbvio.

Ele deu uma risada alta que eu não soube reconhecer se era falsa ou zombateia.

– Veja, o problema é que meu livro é ficção, então eu usei o seu nome para um personagem masculino que acaba se apaixonando por uma garota de treze anos. – respondeu, achando graça.

Ignorando completamente o descaso com o meu personagem, porque sabia que era essa a provocação que ele queria causar, disse:

– Então você simplesmente resolveu copiar Vladimir Nabokov e fazer uma versão mais pobre de Lolita?

– Você leu Lolita? – perguntou, como se eu estivesse falando aquilo só para soar culta.

– Sim! Acho fascinante, então, por favor, não tente fazer uma copiação barata.

– Não vou copiar… Vou transformar a história de Lolita em uma série de livros pornográficos que vai fascinar o mundo contemporâneo, criança, você vai ver. – Jiraya respondeu, de um jeito engraçado, quase sonhador.

– Certo, então você vai pegar uma obra prima como essa e simplesmente banalizá-la? – não pude conter meu tom de indignação.

– Banalizar? Pornografia é literatura também.

Sem conseguir me segurar mais, comecei a gargalhar alto de um modo que eu não fazia há tempos.

– Assim como tocar campanhia é um instrumento. – respondi, entre minhas risadas.

Jiraya pareceu ofendido e, indignado, respondeu em um tom sério:

– Não vou descutir com uma menina de dezenove anos que não sabe nada da vida. O que você quer?

Revirei os olhos, odiava como as pessoas ligavam idade com conhecimento.

– Quero respostas.

O velho riu e respondeu:

– Eu também, rosinha, eu também.

Mesmo sabendo que Jiraya e Naruto não eram parentes de sangue de fato, não conseguia negar a semelhança dos dois. Eles tinham o mesmo jeito bobo de ver o mundo e definitivamente o mesmo senso de humor. Não conseguia ver o velho como alguém que simplesmente abandonaria o afilhado…

– É sério… Por favor, Jiraya. – fiquei séria. – Eu só quero entender… Não é porque me importo tanto com Naruto. Quer dizer, eu me importo com ele, mas… É que meu pai também me abandonou e eu nunca soube porque. Eu só quero entender. Por favor me explica.

Fiquei surpresa por ouvir as palavras saindo da minha boca, então era essa a causa da minha obsessão? Só queria tentar entender o que causou meu trauma de infância? Eu realmente achei que era porque eu me importava demais com Naruto para deixar as coisas como estavam, mas parecia que a verdade era mais plausível. Eu sendo egoísta como sempre.

Suspirei, não poderia ser diferente, era fato que o abandono do meu pai tinha causado uma cicatriz interna que eu tentava esconder há tempos. Pelo jeito, nunca conseguira, porque meu subconsciente deixou escapar aquelas palavras, que, de repente, faziam todo o sentido na minha mente.


Eu realmente queria saber o que fez meu pai sair aquela noite de inverno. Porque ele se mandou, porque ele nunca mais ligou…

– Por quê? – perguntei de novo, dando voz aos meus pensamentos antes que me sufocassem.

Jiraya me olhou daquele jeito que eu odiava tanto. Com pena. Conseguia até ler seus pensamentos… “Pobre garota, pensamentos tão sombrios com apenas dezenove anos.”,”aposto que ela pinta o cabelo de rosa para chamar atenção, como se clamasse por ajuda.”,”é óbvio que ela é assim porque o pai a abandonou…”,”tão jovem para ser tão quebrada”.

Ele não me respondeu e eu consegui sentir as lágrimas vindo. Eu não deixaria que me visse assim, era um privilégio muito grande me ver no auge da minha vulnerabilidade e o único que tinha acesso era Uchiha.

Segurei ao máximo e apelei:

– Olha, ok, tanto faz, não me conta. Só quero que sabia que nada, absolutamente nada justifica a fuga. Minha tia é uma bêbada que não serve para nada, mas pelo menos ela está lá. Acredite ou não, eu prefiro isso do que nada, porque sei que no fundo ela se importa um pouco para não dar o fora, se importa o mínimo possível, mas se importa! Só de saber isso já me conforta. E quando eu penso no filho da puta do meu pai que teve coragem de fugir naquela situação, tudo que eu quero fazer é ir bater nele e perguntar o motivo.

“Será que foi culpa minha? Nunca vou saber… Mas de uma coisa eu tenho certeza. Por mais que eu não quisesse, me forçasse e me odiasse por isso, eu daria uma segunda chance a ele, porque é mais forte que eu.

“E quer saber? Naruto é uma das melhores pessoas que eu conheço. Bem melhor que eu, pode apostar… Eu tenho certeza absoluta que, por mais que você não mereça, ele te receberia de braços abertos, não importando a merda que você fez.”

Jiraya estava de cabeça abaixada eu não conseguia ver seus olhos tão estranhamente únicos por baixo de seus longos cabelos brancos. Não importava mais, eu me sentia bem, tinha feito minha parte, tinha dito o que eu queria tanto dizer para o meu próprio pai.

Uma grande parte do peso que fazia parte da minha mente tão dolorosa se esvairou e isso deixou uma alívio que só me fez respirar fundo e sorrir.

Levantei-me e deixei um Jiraya atordoado e pensativo no banco. Se ele iria ou não mudar de ideia, eu não sabia, mas com certeza que tinha afetado-o e isso já era o bastante.

Coincidentemente, vi Naruto sair da sua aula e percebi que já era o fim da tarde.

– Ei! – ele berrou, como sempre.

Acenei com a cabeça e esperei ele vir até mim. Apesar da personalidade explosiva do loiro, não esperava um abraço apertado e me peguei sorrindo quando ele me soltou.

– Pra que isso?

– Eu soube que você passou na Oxford! – gritou, eufórico.

– Sim, as notícias correm rápido por aqui, eu soube hoje de manhã… — murmurei, impressionada.

– A Temari contou para Hinata que me contou. – falou, rápido demais. – Mas Cherry! Eu não sabia que você era tão inteligente, caramba! Parabéns, americana!

Sorri e me deliciei com a doçura de Naruto.

– Eu também não sabia, inglês. Obrigada. – agradeci, apesar de não entender muito porque alguém tinha que parabenizar a outra por entrar no ensino superior. Isso não era uma obrigação…?

Por um tempo, fiquei fitando a alegria naquele olhar, a gentileza daquele sorriso e me perguntei como alguém era capaz de abandoná-lo… Como Jiraya fora capaz?


Miserável com meus próprios pensamentos, disse, tentando compensar a tristeza da minha mente:

– Vem, vamos tomar sorvete para comemorar.

E, apesar dessa frase soar de Olívia, foi a Cherry quem disse, uma Cherry absolutamente satisfeita consigo mesma por enfrentar um desertor.

Notas finais
Eeei, mal a demora, começaram as aulas e já sabem, né? Último semestre é um porre D:
Enfim, capítulo fresquinho pra vocês (:
Mereço um review só pela menção de Harry Potter, vai... EUOAIHIUEA Brincadeira, mas gostaram? ♥
Beeijão :*