Máscaras & Sussurros
6 Início
- Tarde demais. – me forcei a dizer quando percebi que ele já não me olhava mais.
Ele não respondeu, mas eu sabia que tinha entendido.
– Sasuke, certo? – comecei. Ele acenou de leve com a cabeça. – Obrigada por me tirar de lá. – eu disse finalmente, apesar da minha gratidão ser óbvia.
Involuntariamente, lembrei das sensações que tive lá e encolhi, tremendo. O vi franzindo o cenho e tirando sua jaqueta de couro, queria impedí-lo, mas minha boca não se mexia.
Me vi envolvida no couro e no seu cheiro de boemia e meu frio psicológico passou.
— Não precisava… — sussurrei, me referindo às duas coisas. Meus olhos fechavam lentamente…
— Não durma.
Os abri novamente.
— … Por que? – perguntei, com a voz fraca.
– Porque poderá nunca mais acordar. – respondeu simplesmente. – Você foi drogada e possivelmente bateu a cabeça.
Ergui as sombrancelhas, já suspeitava. Sabia que tinha sido só um copo.
– Toda vez que eu durmo, eu posso nunca mais acordar. — repliquei, tentando me manter acordada, porque sabia exatamente do que ele estava falando.
— Depende de qual é o seu conceito do que é “estar acordada”.
Sorri em concordância.
— Nesse caso, as duas alternativas serviriam, já que a morte é a melhor forma de acordar. – eu murmurei.
— Discordo, a melhor forma de realmente acordar… É enlouquecendo. – ele sussurrou no meu ouvido, me fazendo estremecer. Virei a cabeça impulsivamente e encontrei seu rosto a milimetros do meu, absurdamente tentador. Eu provavelmente ainda estava um pouco sobre o efeito da droga, mas a minha parte sóbria não ligava.
Deixei meus impulsos me guiarem e, quando os lábios dele tocaram nos meus, não os afastei. Não sabia se tinha sido a influência do ambiente, da droga ou do momento, que fizeram aquele beijo o melhor que eu já tinha recebido. Não era voraz, nem suave. Simplesmente inexplicável. Era a dose perfeita de intensidade. O meu corpo inteiro recebeu a carga daquele gesto, eu estremeci, mas não mais de frio...
Tomada pelo êxtase que o calor daqueles lábios me proporcionaram, eu me deixei levar pelo momento. Deixei as carícias se intesificarem e o desejo aumentar. Por um momento, esqueci que era meu primeiro dia em Bristol, esqueci que eu agiria diferente ali. Que eu tinha jurado para mim mesma que sexo com desconhecidos estava proibido, que eu deixaria aquela prática vulgar nos Estados Unidos, junto com outros costumes indesejáveis.
Então, aqueles lábios finalmente alcançaram meu pescoço e todos os meus juramentos anteriores se esvairaram. As palavras “proibido” e “vulgar” já não faziam sentido. O desejo falou mais alto que minhas crenças e eu mordi meus lábios, tentando manter dentro de mim as explosões involuntárias que ocorriam na minha mente tomada pela adrenalina.
Apertava a grama, pois era a única coisa que ainda me mantia no chão e na suposta realidade. Eu gemia baixinho enquanto ele me puxava mais para si. Já não sabia se era um sonho, uma ilusão ou uma lembrança, só sabia que era absurdo demais para ser a realidade.
Não soube dizer se haviam passado horas ou minutos, mas me deliciei de todo o seu corpo e ele do meu, e quando finalmente atingimos o auge juntos, soltei meu ar que parecia preso na minha garganta durante todo o tempo. Naquele instante, eu desci do céu e me encontrei deitada na grama pontuda.
Virei a cabeça, ainda em estado de hipnose e abri os olhos. Ele estava lá e, mesmo tendo nos conectado intimidamente, ainda parecia impenetrável. Seus olhos ônix encontram os meus e meus lábios responderam com um sorriso.
Percebi que sexo não bastava. Agora, mais do que nunca, eu queria conhecê-lo. Queria penetrá-lo de outra forma. Era inexplicável a minha vontade de desvendar aquele olhar que tinha me proporcionado o maior prazer possível.
Sem dizer nada, ele levantou-se e esticou a mão para que eu a pegasse e levantasse também. Me enrolei em sua jaqueta e apertei sua mão, ficando finalmente em pé.
Já estava completamente sóbria, não podia culpar as drogas se cometesse mais algum erro.
Sasuke começou a andar lentamente, ainda segurando minha mão.
– Onde vamos? – perguntei com a minha voz alterada.
— A lugar nenhum. – ele respondeu. Felizmente, eu gostava de lá…
De repente, um som maravilhoso e melódico, completamente hipnótico, começou a conquistar meus ouvidos. Um solo de violino tão encantador que me fez parar de andar só para contemplá-lo.
Estaria ficando ainda mais louca? Ouvindo coisas?
— Alô? – Sasuke falou, interrompendo a música que vinha de seu celular. Franzi o cenho, como ele ousava interromper aquele som?
Ele desligou e xingou baixinho, colocando o celular no bolso da calça. Qualquer informação que tivesse recebido, o deixou completamente abalado e angustiado.
– A gente se vê. – eu disse, prevendo a sua fuga para resolver qualquer assunto que aparecera. Tirei a sua jaqueta e estendí-a.
— Fique com ela. Algum dia eu a pegarei de volta. – respondeu, dando um meio sorriso extremamente sedutor.
Então, Sasuke sumiu na escuridão da noite, me deixando pateticamente sedenta por sua presença.
Eu suspirei, iria me arrepender daquilo no dia seguinte? Minha mente afirmava que sim e ria do meu coração que ainda estava a desejar Sasuke com todas as suas forças.
— CHEEEERRYYY! – ouvi de repente e me virei assustada. Vi Hinata carregando Naruto com dificuldades. – Seu cabelo é rosa, sabia?!
Obviamente ele estava bêbado, eu sorri e ajudei a morena a sentá-lo no lugar onde Sasuke estivera a instantes atrás.
— Ele nunca fica assim… — Hinata disse, preocupada. Seus olhos estavam marejados e ela o ajeitava com cuidado.
Novamente, a admirei, estava cuidando tão minuciosamente de seu amado, com a preocupação mais genuína e pura que eu já tinha visto. Era raro encontrar esse tipo de amor e aquilo me deixava com falsas esperanças que eram tão prejudiciais….
— Calma, ele vai ficar bem. – eu murmurei, tentando acalmá-la.
Sorri e me sentei na frente do loiro, pegando suas mãos, enquanto Hinata andava de um lado para o outro, angustiada.
— Viu o que você fez? Deixou sua namorada maluca. – falei sorrindo. Sabia bem lidar com bêbados. Bem demais.
Ele riu descontroladamente e respondeu baixinho, daquele jeito que só pessoas consumidas pelo álcool conseguem:
— É segredo!
— Não é não, todos sabem que ela é maluca. – retruquei, fingindo que não tinha entendido o que ele queria dizer.
Ele riu novamente. Se Naruto já era sorridente sóbrio, quando estava bêbado era o triplo.
— Você é engraçada! Eu gosto de você! – disse abrindo um largo sorriso. – Mas meu segredo não é esse!
Retribui seu sorriso e me aproximei.
– Não quero saber seu segredo, muito obrigada.
Infelizmente, eu tinha aprendido do pior jeito a ser ética e não me aproveitar da fraqueza das outras pessoas. Em qualquer aspecto.
– Shh, é segredo! — Naruto disse de novo, agora fazendo movimentos estranhos com a boca.
– Não contarei para ninguém, prometo. – respondi, mesmo sem ele ter me contado qualquer coisa. Estava satisfeita com minha própria conduta.
Eu estava ignorando o ocorrido de momentos atrás, quando minha ética não parecia tão importante e revelante. Era impressionante como o meu modo de pensar mudava de acordo com a situação. Eu era incrivelmente fraca e influenciável… Ou simplesmente teimosa demais para aceitar a mudança de planos.
— Você… Você sabe quem eu sou, “Charry”? – o loiro perguntou me fitando sério.
Eu sorri com o erro no meu nome e fiz que sim com a cabeça.
– Lógico que sei. Você é o Naruto. – respondi ainda sorrindo.
– Não, não… Quem sou eu, “Chary”? – agora ele parecia preocupado e realmente intrigado com a sua pergunta, que certamente era filosófica demais para um bêbado.
— O Naruto, você é o Naruto. – respondi novamente, pacientemente, enquanto ele negava freneticamente com a cabeça.
Olhei para a Hinata, ela parecia realmente preocupada. Eu não compreendi, ele só estava bêbado. Ao julgar pelo lugar que frequentavam e pelo jeito, eu tinha certeza que aquilo acontecia ocasionalmente. Se era tão casual quanto eu imaginava, por que tamanha preocupação?
— Calma, Hinata. – pedi novamente. – Ele vai ficar bem, foram só algumas bebidas…
Ela olhou para mim, já com as lágrimas rolando pelo seu rosto pálido. Arregalei os olhos, tinha alguma coisa errada.
— Você.. Você não entende.
– Escuta, eu já passei por isso muitas vezes. Daqui a pouco o efeito passa e ele fica bem. – afirmei, no meu melhor tom de voz.
— Não é isso… — ela respondeu chorosa, com a voz falhando. – E-Ele tem ane-anemia, não pode be-beber tanto. – completou entre os soluços.
Ergui as sombrancelhas, surpresa. Não entendia nada de medicina, mas eu acreditava nela e em sua clara preocupação. Suspirei e olhei para Naruto, como ele pudera fazer uma coisa tão estúpida?
Eu não era o melhor exemplo para julgar ninguém, já tinha feito coisas bem piores que me perseguiam constantemente, zombando de minhas façanhas, como se eu não as merecesse. Mas, felizmente, as consequências dos meus atos nunca incluiram morte.
Assustada com meus pensamentos, me aproximei de Hinata e peguei suas mãos.
— Eu prometo que vai ficar tudo bem. – disse, forçando um sorriso. Era deprimente a quantidade de vezes que eu forçava aquele gesto. Uma atitude completamente contraditória e absurda.
— C-certo. – a morena se forçou a dizer, tentando engolir seus soluços.
— Vamos levá-lo para o hotel, eu fico com você até ele melhorar. – sugeri e ela acenou com a cabeça.
Com dificuldades — não causadas pelo peso de Naruto, mas sim por sua hiperatividade-, conseguimos levá-lo até o bar onde deixamos as nossas bolsas.
— Você veio cedo hoje, Hyuuga. – o balconista falou ao nos ver entrando cambaleantes.
– Imprevistos. – ela respondeu, forçando um sorriso.
Peguei nossas bolsas e agradeci com a cabeça, pensando em como levaríamos Naruto para o hotel.
Hinata tentava ao máximo mantê-lo de pé, mas ocasionalmente o loiro deixava-se cair no chão, ofegante.
— Precisamos de ajuda. – eu disse conformada.
A morena suspirou em concordância, engolindo seus soluços.
— Vou chamar meu primo.
Fiz que não com a cabeça, o mínimo que eu podia fazer era ir chamar o sujeito. Queria me fazer útil para não me ocupar com pensamentos importunos. Me perguntei quem seria o primo de Hinata e me surpreendi com a minha rápida capacidade de suposição.
Entrei novamente naquele ambiente hostil e meu estômago respondeu por mim, revirando-se de desgosto. Procurei entre as cabeças e rostos perdidos a face de Neji.
Não demorei para localizar seus olhos quase cegos e me aproximei, tentando ignorar o ambiente que me afetava e seduzia facilmente.
— Neji. – o chamei, esperando que lembrasse de mim.
A princípio, ele me olhou confuso por trás da fumaça de seu cigarro, mas logo seus olhos voltaram a normalidade.
– O que? – perguntou, seco.
— Sou Cherry, você me viu na casa do Naruto. – eu falei, achando que já estava na hora dele saber meu nome, devida as circunstâncias. Ele acenou com a cabeça. – Hinata precisa de sua ajuda lá fora… — completei olhando para baixo.
Neji não respondeu, apenas me contornou e foi para a saída da balada. Fiquei parada um tempo, tentando absorver toda a frieza daquele ato. Não entendia porque ele era tão hostil e seco.
Andei roboticamente para fora do lugar, tentando não me deixar afetar pelo ambiente e encontrei o moreno apoiando Naruto em seu ombro, com Hinata preocupada atrás.
– Grande Neji! – Naruto gritava sem parar.
Grande? Para mim não tinha nada de grande nele. Sua boa ação não era genuína, seu olhar não era puro como o de Hinata. Suspirei com escárnio e me aproximei, pronta para tratá-lo como ele me tratava.
— Cherry, você pode ficar aqui? – Hinata perguntou, agora mais calma e sem soluçar. – A Temari te leva pra casa.
Eu quis dizer que não, que preferia ir com eles do que entrar naquele lugar novamente. Quis protestar e argumentar, mas, incrivelmente, a minha parte sensata falou mais alto e me manteve quieta.
Acenei com a cabeça e os vi sairem pela noite. Suspirei de pesar e olhei para a porta da suposta cozinha. Ia me deixar levar pela tentação novamente…?
Notas finais
Quero dedicá-lo para a Lucy Nox que recomendou a fic tão lindamente ♥ Muito muito obrigada e espero que continue gostando *----*
Espero que tenham gostado desse aqui, comentários?
Beeijão :*
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