Quando acordei, continuei vendo a escuridão, mas dessa vez eram dos olhos negros de Sasuke, que me segurava em seus braços. Minha visão tomou forma e eu fitei meu pulso, agora coberto por um pano enrolado que impedia o sangue de sair.

Fiquei inquieta, eu queria morrer, por que Sasuke me impediu?

Meu olhar encontrou com o dele e fiquei surpresa ao ver lágrimas saindo em abundância daqueles olhos negros. Ainda completamente fora de mim, perguntei, pateticamente:

— Por que você está chorando?

Percebi que minha voz estava fraca e que eu não conseguia me mexer direito. Continuei fitando Sasuke, genuinamente esperando uma resposta. Eu nunca tinha o visto chorar, e sua vulnerabilidade me fizera perceber o quanto o amava. Pensar nisso e saber que estávamos tão próximos do fim fez as minhas lágrimas voltarem a tona.

— Filha da puta. – ele me xingou, tentando, sem sucesso, cessar suas lágrimas. – Achei que você tinha morrido.

— Por que... Por que eu não estou morta? – perguntei. Eu queria morrer. Por que ele não deixara?

— Não vou deixar você se matar, Cherry. – Sasuke afirmou com uma convicção que eu nunca tinha ouvido em sua voz.

Ele começou a beijar meu rosto e me balançava de um lado pro outro, como se nunca mais fosse me soltar. Mas ele ia. Ele ia e eu sabia, então por que ele estava tornando tudo ainda mais difícil?

— Sasuke, por favor... – eu supliquei, já sem mais cartas para jogar. – Eu te amo.

Era a primeira vez que eu falava aquilo em toda a minha vida. Eu sempre demonstrava meu amor com ações e todos que eu amava simplesmente sabiam disso. Era óbvio. Eu nunca senti a necessidade de dizer, era tão óbvio.

Por isso nós nunca falamos um para o outro. Não achávamos que era necessário, já que nossas ações mostravam que o que tínhamos era muito mais que amor. O “eu te amo” nunca fizera sentido para nós. Até aquele momento.

— Eu também te amo. – ele respondeu e eu percebi também que era a primeira vez que aquelas palavras saiam da boca dele. – Mas você sabe... A parte sensata que ainda restou dentro de você sabe que nós não podemos ficar mais juntos.

Eu sabia. Só não queria ter que admitir aquilo para mim mesma. Eu ia me matar por dentro se admitisse.

— Não é saudável. – ele continuou. – Você traz o melhor de mim, mas eu trago o pior de você. Precisamos nos consertar antes de levar isso adiante, se não nos destruiremos mutualmente.

Por que Sasuke estava sendo tão racional bem naquela hora? Ele nunca era. Nunca. Ele sempre era impulsivo, irracional... O que era aquilo? Por que ele estava fazendo isso comigo?

E mais importante, por que ele tinha que estar tão certo?

— Eu sei. – disse, num fio de voz.

— Eu sei que você sabe.

Ficamos em silêncio por um bom tempo, apenas abraçados e aproveitando aquele último calor que era tão característico de nossa relação.

Agora só as minhas lágrimas caiam e eu não fazia esforço para cessá-las.

Quando finalmente já não tinham mais lágrimas para cair, eu me desvinciliei de seu aperto e, sem olhar em seu rosto, sai do apartamento, fazendo cada passo valer.

Ao sair pela porta, senti uma parte de mim ficar. Senti um vazio que nunca senti em toda a minha vida. Abrindo a porta das escadas, não aguentei mais e meus joelhos cederam, tornando a minha figura externa semelhante à interna. Quebrada.

Mesmo com a perna quebrada, a dor do meu coração partido era maior. Sai do apartamento em um pé só, com o rosto inchado de tanto chorar e com um pano coberto de sangue em meu pulso.

Como se meus cabelos rosas já não fossem motivo suficiente para chamar atenção...

— Você está bem, Cherry? – o porteiro perguntou e eu acenei que não. Como poderia estar? Como algum dia iria ficar bem? – Precisa de ajuda?

Repeti o movimento da cabeça e ele me deixou em paz. Era óbvio que eu precisava de ajuda, mas a única coisa que me deixaria feliz naquele momento era uma pessoa que não queria mais me ver.

O vazio bateu de frente novamente e tive que me segurar para não cair de novo e permanecer no chão chorando para sempre.

Queria morrer, queria simplesmente me apagar do mundo. Eu não tinha mais nenhum motivo para continuar respirando. Eu estava praticamente repetindo por falta em todas as matérias na faculdade, meu dinheiro estava acabando, minha melhor amiga estava do outro lado do mundo e a substituta dela me odiava, minha tia não tinha me ligado mais nenhuma vez desde que eu vi suas mensagens de voz...

Mas tudo isso parecia tudo bem em comparação ao fato de eu não ter mais Sasuke ao meu lado. Ele que fazia todas essas coisas parecerem superfluas, sem ele... Tudo voltou a importar novamente. Eu percebi o quão absurdamente inútil eu era.

Enquanto me arrastava pelas ruas de Bristol, eu via em qualquer coisa uma oportunidade para acabar com a minha vida. Até comecei a ouvir vozes que me lembravam do quão ridícula e patética eu era. Elas mandavam eu me matar. A cada ponte que eu passava elas me tentavam “se joga, vai, morre logo”, diziam.

Mais tarde, fui saber que isso era minha depressão entrando em estado psicótico, mas na hora tudo o que fazia sentido era que eu queria morrer e nada mais.

Fiquei alguns minutos olhando para o tráfico que passava embaixo de uma das pontes. Será que se eu me jogasse eu morreria antes de ser atropelada? Nunca saberia. Eu me inclinei para ver melhor as luzes dos carros... Queria tanto me juntar a eles.

— Cherry! – ouvi um berro atrás de mim e me virei. Ao mudar minha visão, percebi que só estava apoiada em uma barra da ponte e que era só eu soltar uma mão para me juntar as cores bonitas de baixo de mim.

A tentação era quase insuportável, mas então vi o dono do berro.

— O que raios você tá fazendo?! Desce dai, americana! – Naruto disse, completamente inquieto. Sem a minha permissão, ele simplesmente me agarrou e me jogou para a rua. Quando coloquei o pé no chão, finalmente senti a dor da minha perna quebrada e berrei. Talvez ela só estivesse adomercida por causa do meu choque.

— Cherry, porra... O que aconteceu?! – Naruto berrou, assustado ao ver o inchaço da minha perna. Depois rolou o olhar e viu o meu pulso.

Se ele mirasse meus olhos só ia ver coisas piores, então fugi de seu olhar o máximo que pude. Não conseguia responder-lhe, não conseguia falar mais nada, nenhuma frase fazia sentido na minha mente.

— Puta que pariu. – ele xingou e me pegou no colo. Eu não estava chorando, minhas lágrimas tinha se esgotado, eu estava em um estado de completa depressão, na qual lágrimas não adiantariam para nada.

Quando me dei conta, estávamos no 301, eu estava deitada na cama de Naruto e ele tinha feito café para mim. Considerando que Naruto nunca tinha feito nada além de macarrão instantâneo, o café era algo extraordinário.

— Obrigada. – consegui dizer, quase sem voz.

O loiro parecia realmente preocupado, ele me olhava como se eu fosse um cachorro abandonado e isso só me fazia me sentir ainda mais depressiva.

— Cherry... – ele falou, de um jeito tão não Naruto de ser que quase me assustou por um instante.

— Eu estou bem. – menti como nunca tinha mentido na vida. Era verdade que eu sempre dizia que estava bem quando não estava, mas daquela vez era absurdo. Eu me sentia tudo, menos bem... Nem perto de bem.

— Você não me engana, americana. – ele disse suave e deu aquele seu sorriso característico que conseguia iluminar um cômodo inteiro. – Pelo menos me deixe te levar ao hospital, não sei como você ainda não desmaiou com essa perna...

Eu acenei com a cabeça, também não sabia como ainda estava acordada. Acho que era um castigo, dormir seria muito bom para ser verdade... Nem morrer eu consegui.

Eu provavelmente apaguei no caminho para o hospital, porque só me lembro de ter acordado em uma cama, tomando soro pelo braço e com a minha perna engessada erguida para cima.

Ao meu lado, Naruto roncava alto em uma poltrona e, para a minha surpresa, vi Hinata dormindo na outra. Os dois estavam de mãos dadas. Quase que todos os meus sentimentos voltaram, mas, para a minha sorte, Hinata acordou e ergueu-se, surpresa.

Abrindo um grande sorriso, tentou acordar o namorado gentilmente, mas desistiu depois que ele começou a roncar ainda mais alto.

— Melhor não acordá-lo... – ela murmurou, com sua voz suave que me fez sentir um pouco melhor. – Ai Cherry... Me desculpa, eu deveria ter dido alguma coisa quando Temari falou todas aquelas coisas... Eu só fiquei em choque, não soube o que fazer, desculpa.

Não acreditava. Como ela estava me pedindo desculpas? Era impossível a existência de um ser tão bondoso como Hinata, eu simplesmente não conseguia acreditar que ela estivesse se desculpando depois de tudo o que eu tinha feito.

— Hinata. Por favor, não se desculpe, você vai me fazer sentir pior do que eu já estou. – falei. Era verdade. Se ela continuasse a ser assim, como eu suportaria ser eu?

— Des... Quer dizer, tá bom! – ela falou, corando e eu consegui sorrir ao vê-la sorrindo.

— Quando eu vou poder dar o fora daqui? – perguntei, olhando para a minha perna imobilizada.

— É... – Hinata começou, daquele jeito que você simplesmente sabe que a notícia é ruim e ela tenta amenizar. – Não fique brava com Naruto, mas...

— O que ele fez?

— É...

— Oi, querida, como está? – uma enfermeira perguntou, entrando no quarto. Ela me olhou do jeito que eu mais odiava em toda a vida. Como se eu fosse um brinquedo a ser consertado, algo digno de pena e indignação. Completamente inferior.

Não respondi porque estava enojada e ela simplesmente intensificou seu olhar, me fazendo desviar os meus olhos.

— Ela acordou agora. – Hinata disse por mim.

— Ótimo, como você está se sentindo? – ela perguntou, em uma voz doce forçada. Era tão óbvio que aquele tom não era genuíno... Ao contrário de Hinata, sua voz parecia completamente fora de personagem.

— Uma merda. – respondi, com raiva.

A enfermeira deu uma risadinha nervosa e eu mantive minha indiferença.

— Srta. Hyuuga, querida, poderia ser retirar e levar seu namorado? Tenho que fazer uns testes ainda com a Srta. Haruno.

Olhei para Hinata suplicante, mas eu sabia que ela não conseguiria quebrar nenhuma regra. Finalmente conseguiu acordar Naruto, que saiu do quarto completamente confuso, depois de fixar o olhar em mim por dois segundos, o que não foi suficiente para que entendesse minha mensagem.

— Srta. Haruno, eu preciso que você...

— Cherry. – corrigi-a.

— Perdão?

— Me chama de Cherry. – repeti. Por que as pessoas nunca pegavam de primeira? A única pessoa que tinha entendido desde a primeira vez era... – O que você quer?

— Seu amigo me contou o que aconteceu. Temo que teremos que te manter aqui até... A situação estiver no controle. – ela disse, me fazendo franzir o frenho.

— Que porra você quer dizer com isso?

— Cherry... Você tentou suicídio três vezes, os médicos acham que é melhor...

— Nenhum médico sabe porra nenhuma de mim! – berrei, completamente furiosa. Quem eles pensavam que eram? Iam me manter presa para ter certeza que eu não ia me matar? Como se alguém realmente ligasse! Aquilo era ridículo, ninguém tinha o direito de controlar a minha vida daquele jeito.

— Tente se acalmar, nós só queremos o seu bem e eu...

— Você só pode estar brincando. Vai se foder, você nem me conhece, como pode querer o meu bem? Escuta, vocês vão me deixar sair daqui, eu volto para Nova York e não vou ser mais problema de ninguém, ok?

A enfermeira deu um longo suspiro, o que me deixou ainda mais nervosa.

— Cherry, não é assim que as coisas funcionam, você está doente. Queremos te ajudar.

— Não querem porra nenhuma, querem meu dinheiro. Olha, eu posso fingir que me curei para que as coisas não fiquem feias para você, posso fingir ser a pessoa mais ordinária e normal que você já conheceu, só me deixa voltar para Nova York, por favor.

Eu queria fugir, queria ir embora. Queria deixar todas aquelas cicatrizes e feridas em Bristol para nunca ter que lidar com elas.

— Você quer continuar se sentindo assim? – ela perguntou de repente. – Sabe, eu sei que é díficil de acreditar, mas é possível viver uma vida sem se sentir triste o tempo todo.

Pisquei, aquilo só podia ser brincadeira.

— Sério? Nossa, achei que as pessoas vivessem tristes o tempo todo. Achei que a vida era assim. Estou errada? – comentei, irônica. Aquela enfermeira estava me tratando como uma criança e, na minha presente situação, minha irritação só estava aumentando descontrolodamente.

— Cherry... – ela começou, já com aquele tom de quem é completamente superior. Bufei. – É normal você estar em negação.

— Negação do que? Pelo amor de deus, deixa eu ir embora. – tentei me levantar, mas ela me impediu.

— Sou uma enfermeira e psiquiatra treinada, não tenho medo de usar a seringa para te manter aqui. – ela falou em uma voz firme pela primeira vez.

Voltei a me deitar, mesmo se eu tentasse sair, sabia que não ia conseguir ir muito longe. Eu estava exausta; fisicamente e mentalmente. Tudo o que eu queria era dormir e não acordar mais.

— Você parece ser uma garota extremamente inteligente, então não vou seguir o protocolo e simplesmente te falar a verdade, certo?

Aquela frase me surpreendeu, talvez eu tivesse subestimado a inteligência da enfermeira.

— Enquanto você esteve dormindo. – pisquei, confusa. – Sim, você dormiu por dois dias. Entrevistamos alguns de seus amigos para saber o que tinha acontecido. E como você veio como emancipada para a Inglaterra, pedimos aos seus amigos para assinarem os papeís de sua estadia e de sua recuperação.

Onde ela queria chegar com isso? Recuperação? Eu só tinha quebrado a perna...

— Cherry, você tem um transtorno psicológico. Mais conhecido como depressão crônica ou psicótica.

Notas finais
Oi amoras, capítulo novinho procês,
Sei que algumas de vocês está cansada do mimi da Cherry, mas esse é o último capítulo realmente emotivo e depressivo, haha.
Enfim, gostaram? *-*

Beijão :*