Agosto passou em um piscar de olhos. O último mês férias foi como um borrão entre o bar de Temari, o nosso apartamento, o quarto 301, festas, o apartamento de Lee, minha caça a empregos…

Mas e Sasuke? Por que Sasuke não esteve presente nesse mês? Seria por isso que eu não conseguia lembrar de agosto tão facilmente?

Por que eu não o via no canto do bar quando fitava lá de propósito? Por que não o via na estação de trem quando entrava na fila maior só para ver se ele aparecia? Por que não o via perdido das ruas de Bristol às quatro da manhã quando não conseguia dormir?

Era óbvio pra mim que eu estava completamente e profundamente necessitada de sua presença.

Minha necessidade ficou tão insuportável que cedi ao meu orgulho e, em um dos últimos dias do mês, me encontrei na frente do quarto 301, em conflito comigo mesma, deveria ou não entrar?

Obviamente, não consegui suportar nem mais um segundo sem saber o paradeiro do meu cavalheiro obscuro, e entrei, sem me preocupar em bater.

— Onde está Sasuke? – perguntei para o cômodo vazio. – Naruto! Onde está Sasuke?

Na esperança que o loiro saisse de alguma porta e me encontrasse na sala, me sentei na poltrona e o esperei.

Quase senti meu corpo tremer de tanto medo ao pensar que eu poderia tê-lo perdido para sempre, que ele tinha sido só uma passagem na minha vida, só alguém que deixaria outra cicatriz.

Meus olhos estavam ardendo e baixei a cabeça para que eles não me traissem. Era patético. Como tinha me deixado ficar nessa situação?

– O que foi? – ouvi uma voz mais do que familiar dizer, quando seu dono sentou-se do meu lado. Quando meu corpo produziu uma carga elétrica, tive a certeza de quem era.

Levantei minha cabeça, mas não era suficiente. Eu precisava de um ponto final, precisava de decisões, de coisas concretas. Então, fiquei completamente de pé e fitei os olhos negros de Sasuke que agora pareciam confusos, mas, felizmente para a situação, sóbrios.

Suspirei e não pensei quando perguntei:

— O que nós somos?

Ele apenas piscou e provalmente pensou que eu estava alterada por fazer uma pergunta tão impossivelmente subjetiva.

— Sasuke, o que nós temos? Quem sou eu para você? O que sou eu para você?

Ele ainda deixava reinar o silêncio, então resolvi ser mais direta, já não conseguia jogar esse jogo com ele. Eu claramente tinha perdido. Tinha perdido desde do primeiro dia que o fitei naquele canto, perdi no primeiro beijo… Era óbvio, como não tinha percebido?

— Eu claramente não consigo ficar sem te ver. – disse, ainda fitando-o, não ousaria quebrar aquela conexão, porque sabia que minha coragem iria embora com ela. – Minha necessidade está me deixando louca, então, por favor, por favor, vamos definir o que é isso, porque acho que só assim poderei descansar em paz.

Assim que parei de falar, vi o quão dramático aquilo soou, mas era a pura verdade, a mais dolorosa das verdades.

Sasuke, sendo ninguém mesmo que ele mesmo, ainda me fitava, mas agora não conseguia ler sua expressão.

– Não gosto de rótulos. – afirmei, para não passar a impressão errada. – Não quero que você deixe de ficar com outras mulheres por minha causa ou que me mande cartão em um feriado especial… Só quero que…

Suspirei. O que eu queria?

Percebi o quão ridiculamente patético tudo aquilo soava e o quão desesperadamente carente e necessitada eu estava. Mas, de novo, era verdade. Uma verdade masoquista e doentia, mas ainda sim… Uma verdade.

– E eu sei que isso soa como carência e…

Seu beijo suave me impediu de continuar. E quebrando nossa tradição, ele não deixou o gesto se aprofundar, ao invés disso, me soltou e disse:

— Eu serei qualquer coisa que você quiser.

Isso bastava. Como já não fazia há muito tempo, dei um sorriso sincero e me afoguei em seus braços. Ele me abraçou de volta e eu me senti segura. Pronto, nada mais podia me atingir, eu era invencível.

Naquele instante, chegara ao mais perto da felicidade que era possível em minhas condições e isso é dizer bastante.

Não sei dizer quanto tempo ficamos naquilo, mas certamente poderíamos ter ficado mais, ficado a eternidade, eu não me importaria. O que nos separou foi a entrada súbita de Naruto no quarto.

— Sasuke! – ele berrou ao vê-lo, agora distante de mim. – Por onde você esteve?!

— Relaxa, dobe. – o moreno respondeu, se jogando na poltrona e, para a minha supresa, me puxando para o seu colo. Não ousaria recusar, estava tão confortável, mas a face de desdém de Naruto me preocupou.

— Vocês… Vocês estão… ?

Meu sorriso denunciou, mas Sasuke fez questão de dizer:

— Não é da sua conta.

Naruto não disfaçou sua preocupação e fez uma careta óbvia. Ele era honesto e eu apreciava isso, mas não entendia o motivo de sua conduta.

— Ciúmes, inglês? – perguntei, tentando descontrair o clima. – Vou contar para a Hinata o quanto você me ama e não aguenta me ver com outro cara.

Ele deu um sorrisinho nervoso e disse:

— É isso mesmo, americana, ciúmes.

Era mentira, óbvio, mas não insisti, o confrontaria quando estivéssemos sozinhos, assim poderia indagar o porque da sua desaprovação.

– Posso falar com você, Sasuke? – ele perguntou em um tom de ordem que nunca tinha ouvido antes. Não sabia que o loiro podia ser tão firme e isso me fez um tanto receosa.

Sai do colo dele e fui até a porta.

– Te vejo na segunda? – perguntei a ele e o vi acenar com a cabeça. Bom, era óbvio que o veria na segunda, tinhamos aula juntos. Fechei a porta atrás de mim, mas, felizmente ou não, ela ficou entreaberta.

Se eu fosse uma pessoa minimamente ética e de bom coração, fecharia a porta propriamente e iria embora, mas eu era egoísta e curiosa, então me posicionei perto e tentei escutar o que se passava dentro do quarto.

— O que você está fazendo? – ouvi Naruto perguntar em um tom sério que não caia bem em sua voz.

— O que quer dizer?

— Você sabe exatamente o eu quero dizer, Sasuke!

Houve uma pausa.

— Cherry é uma boa pessoa, saiu de Nova York para tentar sair da merda em que estava, não a faça voltar para a mesma situação aqui. Não a corrompa. – Naruto disse, fazendo meu queixo cair.

Não podia acreditar no que estava ouvindo. Quem era ele para assumir tantas coisas sobre mim? Era certo que éramos amigos, mas ele não tinha direito de falar por mim desse jeito. Estava prestes a sair do meu esconderijo e enfrentá-lo, mas não foi necessário, porque Sasuke me conhecia melhor que eu mesma, ele tirou as palavras da minha boca quando disse:

— Você não a conhece, Naruto. Ela já é corrompida.

Sorri com essa afirmação. Era impressionante como ele conseguia captar toda a minha essência e me conhecer tão bem, mesmo em tão pouco tempo.

— Você sabe do que eu estou falando, Sasuke, não se faça de idiota! Você não consegue nem cuidar de você mesmo, imagina de outra pessoa!

— Ela não precisa de ninguém para cuidar dela.

Naruto bufou e pelo que eu consegui ouvir, parecia que andava de um lado para o outro.

— Você entendeu. – concluiu por fim. – Eu vou protegê-la de você, entendeu? Qualquer merda que você fizer. Não vou deixar que a história se repita. Eu, diferente de você, aprendi com os erros e essa vez não vai ser que nem daquela.

Franzi o cenho, do que ele estava falando? Será que aquilo era sobre Kankuro e Gaara?

Os mistérios de Bristol só pareciam mais obscuros cada vez que me aproximava deles. Eu descobriria do que todos tinham tanto medo, a cicatriz que envolvia cada um deles, o que os mantia tão unidos e tão quebrados.

Ninguém falava mais nada. Talvez Sasuke tivesse ficado bravo e foi bater em Naruto, talvez eles estivessem conversando mentalmente, como só melhores amigos conseguiam… Eu nunca saberia o que estava acontecendo, até ouvir passos vindo em minha direção.

Pensei em sair correndo e não deixar eles saberem que eu estava ali, mas eu não era assim, eu enfrentava meus pecados. Então apenas fiquei ali, esperando a face confusa e brava de Naruto ou a indiferente e calma de Sasuke.

Para a minha felicidade, encontrei os olhos negros e perdidos, que rapidamente me encobriu, ficando em uma posição onde era impossível Naruto me ver. Fechou a porta com força e me conduziu para fora do prédio.

Assim que descemos o último degrau, perguntei:

— Do que Naruto estava falando?

— Do passado, não importa mais. – Sasuke respondeu em um murmúrio e isso me satisfez, ele me diria quando estivesse pronto. Qualquer coisa que fosse, eu estava pronta, não me daria ao luxo de afundar novamente como Naruto sugerira.

De mãos dadas, começamos a andar em silêncio. Após um tempo sem rumo, perguntei onde íamos já sabendo a resposta. Sem me decepcionar, ele respondeu:

— A lugar nenhum.

Sorri e me aproximei mais. Seria assim dali a diante? Eu e ele perambulando por Bristol sem destino e sem preocupações? Eu poderia me acostumar facilmente com aquilo. Era fácil demais.

Nós, como um casal, era estranho, eu, de cabelos rosas e blusas rasgadas, e ele, roupas alternativas e olhos perdidos. As pessoas nos olhavam com inveja, porque elas nunca teriam algo parecido, elas nunca teriam uma conexão como a nossa, que era quase palpável.

Meu sorriso aumentou quando ouvi o tão penetrante solo de violino que saia do bolso de Sasuke. Ele não soltou minha mão para atender o celular e isso me satisfez, ele me conhecia bem demais para saber que não podia me soltar mais, não podia me deixar sozinha.

— Alô? – ele atendeu. Então, depois de ouvir a resposta, tapou o microfone do celular e sussurrou: — Pega e fala que eu esqueci meu celular com você.

Não precisava pedir duas vezes, eu entendia como era querer se livrar de alguém.

— Alô? – falei ao pegar o aparelho. Ouvi uma voz penetrante e familiar me respondendo. Seria Itachi? — Desculpa, o Sasuke esqueceu o celular comigo, assim que ele aparecer, mando ele te ligar de volta. – menti.

– Que merda é essa? Coloca ele na linha! – ouvi de volta.

– Não fale assim com uma dama. Você não me escutou? Ele não está, esqueceu o celular comigo. – respondi, achando graça.

– E quem é você, posso saber? – o dono da voz me perguntou, aparentemente furioso.

— Seu pior pesadelo, querido. – disse áspera, fazendo Sasuke rir do meu lado. Sua risada me fez sorrir e esquecer de prestar atenção no celular.

– Por favor, coloque ele na linha, eu estou ouvindo a risada… É importante.

– Certo, mesmo se ele estivesse aqui, claramente ele não iria querer falar com você, então pare de ser um pé no saco e vá arranjar o que fazer. – ralhei e desliguei, devolvendo o celular para Sasuke, que me olhou agradecido.

— Ótimo jeito de se livrar de alguém… Ou de arranjar um perseguidor pelo resto do dia.

Ergui as sombrancelhas.

— De nada. – disse, revirando os olhos. – Posso saber de quem eu te salvei?

Ele suspirou e demorou um instante ao dizer:

— Itachi Uchiha, o único.

Fez um gesto de grandiosidade com os braços, me fazendo sorrir.

— Seu irmão, eu presumo. – respondi, porque ele não sabia que eu o já conhecia e que sabia que a relação dos dois era complicada.

— Só de sangue. – respondeu, fechando a cara imediatamente. Percebi aquela famosa barreira se erguer e desviei o olhar. Estávamos mais próximos do que nunca, eu poderia perguntar o que eu quisesse… Mas seu olhar de sofridão, de quem foi vítima da vida, me impediu.

Reviver todos aqueles momentos ruins ao me contar só pioraria sua situação, então apenas deixei de lado. Teria a oportunidade de descobrir a verdade depois, quando a cicatriz não fosse tão nova, quando já tivesse secado e desaparecido.

Com esse pensamento, falei, mudando de assunto:

— Aposto uma corrida até aquela placa de pare.

Então, comecei a correr e, obviamente, não parei na placa de pare, não iria obedecer o sistema. Ao invés disso, parei no meio da rua, esperando o farol abrir para arriscar a minha vida e continuar correndo.

Percebi Sasuke correndo atrás de mim e parando ao meu lado.

— O que acontece se abrir o farol e nós não conseguimos correr a tempo? – perguntei, com a adrenalina correndo solta no meu corpo.

— Nós morremos. – ele respondeu simplesmente e isso me fez feliz.

Eu não me importava. Olhei para as nossas mãos dadas. Não me importava mesmo.

Notas finais
Ooie, a fic estava em hiatus, mas já voltou (:
Tá dificil porque último semestre do ano é tenso na faculdade, muuuitas provas e milhões de trabalhos, mas vou tentar postar sempre que der! ♥
E ai, gostaram do cap? (:
Beeijão :*