Novamente, me vi vagando nas ruas de Bristol sozinha e perdida. Era noite, minha companheira, minha salvadora, mas principalmente, minha ilusão e eu me sentia bem dando os passos vagos pela neblina da escuridão.

Sem exatamente saber onde estava, peguei meu celular e liguei para o número que seguia o nome do meu vício.

— Cherry? – ele atendeu, como uma voz rouca que me fez sentir melhor imediatamente.

— Oi. – disse, porque foi a única coisa que eu consegui pensar na hora.

— Saiu do trabalho?

Acenei que sim com a cabeça. Sua presença, mesmo por telefone, era tão próxima que eu cheguei a pensar por um minuto que ele estivesse ao meu lado. Percebendo meu erro ingênuo, respondi:

— Sim.

Eu soube, apenas ouvindo seu suspiro, que ele entendeu perfeitamente que eu tinha odiado e que precisava vê-lo, precisava de um escape. Ele conseguia ler minha mente só no meu tom de voz e isso só não me impressionava porque eu era capaz de fazer o mesmo.

Então, Sasuke me passou seu endereço e me explicou como eu chegava em sua caverna. Me deliciei com sua voz por um tempo, quando finalmente pude concordar e dizer que já estava indo.

Após guardar o aparelho na minha bolsa de pano, me peguei correndo. Não tinha percebido que estava tão ávida e tão ansiosa para vê-lo até a segunda esquina, quando comecei a ofegar. Tinha corrido aquele tanto todo?

Voltei a andar normalmente como se nada tivesse acontecido e pensei em quão louca eu estava ficando. Por que Bristol não me curou? Não foi por isso que eu tinha fugido? Bufei.

Cheguei na esquina que Sasuke tinha me informado e olhei para o pequeno prédio. Se possível, era ainda mais simpático do que o de Temari e Hinata. De aparência antiga, tinha um arquitetura que lembrava a antiga França e isso me fez sorrir.

Entrei como se já pertencesse ao lugar e notei a primeira diferença; ao contrário do prédio onde morava, o de Sasuke mantia a mesma aparência no interior. Era realmente um prédio antigo que se manteu conservado até a atualidade. Notei os pequenos detalhes como o papel de parede começando a mofar e as madeiras de ótima qualidade com o verniz já descascando.

Então, virei-me para o elevador e me apavorei. Eu tinha um medo anormal de elevadores antigos, daqueles que faziam aqueles barulhos e demoravam para saírem do lugar. A porta de grade que impedia a segunda de abrir... Meu fôlego acabava só de lembrar do sentimento de aprisionamento que tais elevadores causavam em mim.

Com um ataque de pânico, virei-me e não ousei apertar o botão. Eu sabia que desmaiaria antes de chegar no meu destino, então simplesmente abri a porta das escadas de incêndio e subi até o quarto andar, onde Sasuke morava.

Fiquei um tempo observando a porta de madeira escura que combinava tão bem com a essência de seu dono e finalmente bati, de modo infeliz.

Ouvi o destrancamento de várias fechaduras e, depois de uma eternidade, Sasuke apareceu sem camisa e com um cigarro em mãos. Sua aparência de completa boemia e perfeitamente desleixada me fez sorrir.

— Entra. – ele disse como se fosse necessário e segurou a porta para que eu andasse. Depois dali não tinha volta, conhecer sua cova era o passo final para que a nossa complexa conexão se completasse. Senti a pressão do meu ato, mas simplesmente entrei, como se minha mente tivesse pensando em coisas que pessoas normais pensariam naquele momento.

O apartamento de Sasuke se baseava em um grande cômodo aberto com uma portinha para o banheiro no fundo. O aposento representava exatamente o que se passava na cabeça do anfitrião, ou seja, bagunça. Nada estava no lugar, a cama desarrumada parecia estar daquele jeito por um bom tempo, a fumaça, já quase permanente, escondia os cigarros e garrafas que estavam jogadas por toda parte junto com seus CD’s.

Meu olhar, sempre ávido por detalhes, fixou-se no único objeto que parecia intacto e bem cuidado. Um violino estava perfeitamente em pé, apoiado em um dos quatro cantos, do lado da enorme janela e de sua cama.

Aquela visão me fez lembrar do solo maravilhoso que Sasuke usava de toque para seu celular. “Meu” ele tinha dito indiferentemente quando eu perguntei de quem era. Óbvio que era dele...

Era irônico. Aquele apartamento tinha tudo para desagradar todos os gostos possíveis, mas eu amei no primeiro instante. O violino quebrava todo o padrão assim como algumas palavras de Sasuke quebravam sua personalidade perdida. Como aquele instrumento, eu sabia que a mente dele podia ser salva, desvendada...

— Quer alguma coisa? – ele perguntou, já atrás do balcão que separava o quarto/sala da cozinha. Finalmente desviei o olhar daquele objeto maravilhoso para fitar a garrafa de vodka que Sasuke estava em mãos.

Acenei com a cabeça e ele me jogou uma latinha de cerveja. Cerveja? Não, aquilo não seria suficiente. Andei em sua direção e tirei a garrafa de suas mãos, virando-a deliberadamente em minha boca.

Ele deu um meio sorriso extramamente sexy e eu ergui as sombrancelhas. Contra a minha vontade, Sasuke se afastou e colocou um CD em um pequeno rádio que tinha muita potência para o seu tamanho.

Era Nirvana. Apaixonada por Kurt Cobain como nenhuma outra, comecei a dançar no ritmo da música. De olhos fechados, para a voz divina de Kurt penetrar propriamente meus ouvidos, eu me movia no apartamento com a vodka em mãos.

Eu sabia que ir ver Sasuke me faria sentir melhor depois daquela tarde naquele emprego de merda.

Ele me seguia pelo aposento, impedindo que eu batesse em alguma coisa sólida, percebeu que eu precisava daquele momento de libertação e não tentou me impedir. Isso só me fez apreciar a minha visita ainda mais.

Quando finalmente fiquei exausta, cai nos braços do meu cavaleiro e nos beijamos ternamente, ainda com a voz de Kurt no fundo. Interrompendo nosso momento de ternura, o solo do violino começou a tocar do bolso de Sasuke e eu sorri.

— Alô?

Pela expressão de Sasuke, percebi imediatamente que era Itachi do outro lado da linha. Por que raios ele não deixava Sasuke em paz?

— Quer que eu o dispense de novo? – perguntei.

Ele negou com a cabeça e prestou atenção no aparelho, estranhamente sério de repente. Ergui as sombrancelhas e larguei a garrafa de vodka.

O que surgiria para destruir a minha noite?

Depois de alguns momentos de angústia, Sasuke finalmente largou o celular e continuou me fitando sério. Então, sua expressão se tornou impaciente e exigi uma explicação.

— Meu tio Orochimaru morreu. – ele disse indiferente, me fazendo engolir um seco e quase cair de joelhos imediatamente.

Fiquei apenas de olhos arregalados sem saber o que dizer. Eu nunca esperaria uma coisa daquelas tão de repente, Sasuke era tão fechado, foi um choque ele dizer aquilo tão deliberadamente.

Eu não sabia lidar com a morte, nunca soube, então apenas disse o que todo mundo dizia.

— Sinto muito. – sussurrei e me aproximei para abraçá-lo, caso ele quisesse um consolo físico.

— Não sinta, eu odiava aquele cara. – ele respondeu simplesmente, colocando a música para tocar novamente como se nada tivesse acontecido.

Fiquei um tempo analisando sua expressão para ver se não era apenas uma máscara para afastar a dor, mas ele realmente parecia indiferente à situação. Chocada, sentei-me na cama e fiquei piscando, até ele ficar impaciente e revirar os olhos.

— O que foi? – ele perguntou irritado. Sua reação me satisfez, era melhor ele sentir irritação do que absolutamente nada.

— Não me importa que você odiasse esse homem, ele era a sua família. – eu respondi, porque apesar de ter minhas diferenças com Tsunade, eu nunca ficaria indiferente à sua morte.

— Ah, vai começar... – ele murmurou. – Cherry, você não sabe da história...

— Não me importa. – o interrompi, porque sabia onde ele iria chegar. Ia me dar um motivo idiota para sua reação, iria contar uma história que me faria chorar e concordar com sua indiferença. Mas aquilo estava errado. – Você está agindo exatamente como Jiraya e o meu pai.

— Como raios isso tem a ver com...

— Tem tudo a ver. Não importa o motivo que você tenha para odiar seu tio, ele é da sua família e família a gente perdoa... – eu murmurei.

Todo o meu trauma familiar refletia naquela minha fala. Era verdade, eu me importava demais com os laços familiares porque o mais sólido que eu tive se perdeu.

— Eu até entendo, você não pode se forçar a sentir nada, mas pelo menos vá ao enterro e apoie os seus entes. – completei, porque sabia muito bem que Sasuke não iria querer ir à cerimônia como forma de protesto, eu já o conhecia bem.

Seus olhos negros apenas ficaram me fitando, invadindo minha mente perturbada e eu mantia a conexão, tentado fazer com que ele entendesse que aquilo tudo era só uma forma de ajudar a mim mesma do que convencê-lo de fato.

— Não me peça para perdoar esse cara. – ele respondeu seco e eu pisquei rapidamente.

— Mas...

— Ele me estrupou dos 11 aos 14 anos, quando eu finalmente tentei esfaqueá-lo. Eu não tinha a intenção, mas consegui prejudicar tanto as bolas dele que ele não conseguiu fazer mais nada comigo nem com ninguém. – Sasuke disse, com amargura clara em sua voz. – Minha família nunca acreditou em mim e me mandaram junto com ele para França para eu aprender francês. Meu tio nunca me perdoou pelo que eu fiz com ele e me castigou de todas as formas possíveis, até eu fugir...

— Sasuke! – eu exclamei. Talvez o interrompi porque já não aguentava ouvir tamanho horror, ou porque sua voz parecia tão terrivelmente triste ou talvez fora por causa da expressão de dor e amargura que ele expressava tão bem...

— Por favor... – pedi, quase implorando. Fui em sua direção e me aninhei em seus braços.

Sasuke beijou minha testa e só me apertou forte.

— Mesmo assim... – eu consegui murmurar entre meus soluços mudos. – Vá no enterro.

Ele não disse nada e, por um tempo, ficamos apenas ouvindo nossas respirações pesadas e o som baixo da música penetrando levemente em nossas mentes tão bem sincronizadas.

Então, ele pegou seu aparelho e digitou rapidamente um número qualquer, dizendo logo depois:

— Pode confirmar a minha presença.

Eu sorri e fechei os olhos, me aconchegando em seu peitoral nu. Era tão fácil, eu poderia ficar ali para sempre, apenas sentindo o cheiro da fumaça, ouvindo a guitarra suave daquele aparelho de som anormalmente pequeno, sem nenhuma preocupação, sem nenhum resquício da dura realidade...

Quando me dei por mim, já era a manhã do dia seguinte, e naquela noite, eu não tive nenhum pesadelo. Acordei na mesma posição na qual tinha adormecido, nos braços do meu cavaleiro negro, que tinha o sono bem mais pesado que o meu.

Aquilo me deixou alegre. Acordar daquele jeito tinha sido o melhor jeito que eu já tinha despertado na vida. Olhar para aquela face perfeita e ver como a luz do sol brincava com seus traços era mais do que satisfatório.

Beijei sua bochecha delicadamente e me soltei de seus braços com cuidado para não acordá-lo. Olhei para o pequeno apartamento agora iluminado pela luz do sol e sorri novamente, eu já me sentia pertencente ao local.

Andei até a parte designada à cozinha e preparei um café forte para nós dois. Eu simplesmente sabia que ele também não gostava de comer nada de manhã, ele também se sustentaria com uma boa xícara de café e um cigarro.

Preparar o café me fez pensar imediatamente em Temari e eu arregalei os olhos atordoada quando percebi que tinha esquecido novamente de avisar que ia dormir fora. Ela já me mataria normalmente... Se soubesse que eu fiquei na casa de Sasuke, ia me expulsar para sempre.

— Tems? – perguntei, assim que ela atendeu o celular. Tínhamos tido uma briga feia no dia anterior, mas nas poucas semanas que ficamos juntas, já éramos como irmãs e nossos desentendimentos duravam no máximo dois dias.

— Sua puta! Estávamos preocupadas! Já falei pra você avisar, porra. – ela gritou, fazendo com que eu afastasse o celular da minha orelha. Sorri porque ela me tratou como de costume.

— Eu sei, eu sei. Desculpa, mas eu estou bem. – afirmei. Porque eu sabia bem como a preocupação podia ser real. Passar uma noite fora podia significar uma overdose para pessoas com o nosso estilo de vida. – Não vai acontecer de novo, eu vou pra faculdade e depois pro trabalho, dai eu volto pra ai.

— Foda-se! Só avise se não voltar pra cá, cara. – Temari respondeu. – Como foi o trabalho? – completou, agora mais calma.

Eu ri, porque sabia que ela estava só tirando com a minha cara. Nos despedimos e desligamos ao mesmo tempo. Guardei meu celular a tempo de me virar e ouvir:

— Bom dia. – a voz rouca de Sasuke me cumprimentou e seus olhos encontraram os meus. Talvez a faculdade e o trabalho pudessem esperar mais um dia...

Notas finais
Heey, capítulo novo para vocês!
Sei que demorei um pouco, mas cada vez fica mais complicado de manter o ritmo, peço perdão, mas saibam que nunca abandonarei a fic (:
Gostaram? ♥
Beijão :*