No dia seguinte acordei com a notícia de que Lee tinha se mudado da Inglaterra. Sasuke me abraçava fortemente e não ousava me soltar, porque sabia que eu surtaria de novo. E dessa vez eu não tinha um violino pra quebrar.

— Calma. – ele falou em um tom suave que não era-lhe característico. – Ele ter ido embora é o melhor.

Fitei os olhos escuros e perdidos do dono daquela voz confortadora e respondi, em um sussurro:

— Só que não é.

Sasuke me apertou forte e calou-se. Ele sabia que eu estava inconsolável. Lee tinha ido embora. Por minha causa. Eu tinha perdido a minha única forma de transformar-me em outra pessoa. Olívia tinha sido arrancada de mim do pior jeito possível.

— Vamos. – ele disse, depois de ficarmos um bom tempo naquela posição. – Vou fazer você esquecer tudo isso.

Fiquei pensando no quão aquilo era impossível. Como seria possível me fazer esquecer de tudo aquilo? Como ele faria minha mente ir para outro lugar?

— Eu só quero ficar aqui. – aleguei num fio de voz, que ele escolheu ignorar.

— Eu prometo que isso vai te animar. – ele disse e eu levantei-me a contra gosto.

Então, ele abriu o armário e puxou um smoking que estava surrado bem no fundo. Fiquei fitando-o surpresa e sem entender o porque da roupa especial.

— Toma, você pode usar isso. – Sasuke disse, jogando um vestido preto extremamente chique. Franzi a testa e juntei as sombrancelhas, eu teria que usar aquilo?

— Claro... – sussurrei, irônica. – Já que vamos almoçar com o Papa.

Ele deu um sorriso torto e me beijou.

— Viu, já está toda irônica de novo, eu disse que isso ia te fazer bem.

— O que exatamente é isso? – perguntei, enquanto me despia para poder colocar o vestido. Eu nem sabia exatamente como colocá-lo, era muito refinado para os meus padrões. – Por que você tem isso?

Sasuke apareceu de smoking e eu senti falta de ar por alguns segundos. Ele estava mais irresistível do que nunca, se possível. Agradeci mentalmente a mim mesma por ter conhecido aquela criatura e levantei-me em um transe.

Apesar de parecer tão bem com aquela roupa, tudo o que eu queria era tirá-la.

— Esse vestido era da minha ex. – ele falou. – Não sei porque ficou aqui.

Karin. Pensei imediatamente, acabando com toda a minha excitação. Olhei com piedade para o vestido, seria que eu teria o mesmo destino de sua dona?

Tentando afastar esse tipo de pensamento, perguntei, ainda confusa:

— E eu preciso colocá-lo para...

— Vamos para o enterro do meu tio. – Sasuke completou indiferente. Soltei um pigarro e engasguei com a minha saliva.

— Como você espera que isso me deixe melhor?! – exclamei, inconformada. O vestido pela metade combinava com a minha expressão de choque.

— Confie em mim. Eu garanto a sua diversão com a família Uchiha. – ele disse calmo, mas com um tom de rancor que sempre estava presente quando mencionava seus parentes.

Acenei com a cabeça, eu duvidava muito que uma situação na qual eu tivesse que lidar com pessoas mesquinhas e odiadas por Sasuke me faria melhor, mas resolvi não contestar. Afinal, não tinha como ficar pior e eu senti que ele queria que eu fosse por algum motivo.

Talvez seu argumento fosse só uma desculpa para dizer que na verdade ele só me queria junto, porque não aguentaria lidar com tudo aquilo sozinho, mas preferi não perguntar.

Depois de vestir o vestido, colocar uma maquiagem básica e arrumar meu cabelo de uma forma aceitável, calcei meu All Star pichado e me apresentei para Sasuke, que apenas deu um sorriso de triunfo e falou:

— Isso vai ser interessante.

Bufei, ele certamente se divertiria mostrando-me para os parentes, que esperavam nada menos que uma madame rica de Londres e não uma pirralha com cabelos rosas que usava tênis sujos com vestido.

— De onde vem essa sua urgência de provocar sua família? – perguntei, já quando descíamos as escadas.

Ele não me respondeu, mas provavelmente deu um meio sorriso que não pude ver.

Era fácil não pensar em Lee com a presença de Sasuke, mas certas coisas acabavam guiando minha mente a ele e eu tentava manter-me sã. Ás vezes, ele apertava minha mão mais forte, quando percebia minha aflição e eu agradecia-o silenciosamente por ser tão perceptivo.

Na frente do prédio, estava uma limusine preta enorme que eu tive que fitar várias vezes para ter certeza de que era real mesmo. Então, soltei uma gargalhada como não fazia a muito tempo.

— Isso é ridículo! – exclamei e Sasuke me acompanhou até o veículo.

— Você ainda não viu nada. – comentou em um sussurro e apontou com a cabeça para o chofer que veio nos atender.

— Bom dia, Sr. Uchiha. – disse, cortês, então fez um pose elegante ao abrir a porta para nós.

Eu só consegui conter minha risada até entrar no carro e a porta fechar atrás de nós.

— Eu conheço esse cara há mais de dez anos e ele ainda me chama de senhor Uchiha. – Sasuke comentou, zombateio, depois do meu ataque de risos.

Rimos mais e ele começou a me mostrar as mil utilidades do veículo e o que cada um dos milhares de botões faziam. Achei graça do quão exagerado era tudo aquilo e como algumas pessoas conseguiam gastar dinheiro em alguma coisa tão patética como aquela.

— Ok, você venceu. Eu realmente estou me divertindo. – falei, me distraindo com as garrafas diferenciadas do frigobar.

Sasuke acenou com a cabeça e me abraçou, beijando a minha cabeça. Era engraçado como ele podia ser tão subitamente romântico e depois tão impenetrável e misterioso.

Era como se ele tivesse sua própria Olívia e eu me deixasse levar por todas as suas personalidades. Porque amava todas elas.

— Antes de chegarmos, tem algo que eu não posso dizer? – perguntei, porque assumi que teriam vários assuntos que se me perguntassem, eu não saberia se precisaria mentir ou não.

— Não se preocupe. – me respondeu simplesmente e eu suspirei.

Saimos da limusine e eu me deparei com a mesma igreja que eu tinha visto no meu primeiro dia em Bristol. Aquela majestosa igreja que eu tive o prazer de ver da janela do quarto 301.

Fiquei imaginando o quanto eles deviam cobrar para fazer um enterro ali, mas todos os meus pensamentos críticos se esvairaram com a beleza daquela construção. Suas formas barrocas e inglesas me cativaram e eu já não conseguia tirar os olhos dela.

Eu estava tão concentrada em apreciar aquela visão, que não percebi quando um homem de terno aproximou-se de nós.

— Você está atrasado, Sasuke, que merda. – ele disse e o empurrou para dentro da igreja. Não soube dizer quem era, mas não parecia ninguém da família.

Para a minha sorte, a cerimônia já tinha começado e não tivemos que cumprimentar ninguém, eu tinha certeza que Sasuke também estava feliz por não ter recebido nenhum “sinto muito” falso de ninguém.

Apesar do homem insistir para que fôssemos para uma das primeiras fileiras, sentamos no fundo, longe de qualquer familiar de Sasuke.

Eu nunca tinha ido em um funeral, mas tudo parecia monótono e eu não conhecia nenhuma daquelas pessoas, então, depois de observar toda a arquitetura interior da igreja, apenas apoiei minha cabeça no ombro de Sasuke e adormeci.

Para a minha surpresa, foi incrivelmente fácil dormir.

— Cherry. – Sasuke me acordou de repente e eu não soube dizer por quanto tempo apaguei. Vi que todos estavam se levantando e assumi que a cerimônia tinha acabado e que agora teríamos que seguir até o cemitério.

Acordada, fitei os olhos negros e vi neles uma pitada de medo que nunca tinha visto antes.

— Quer ir embora? – perguntei e ele negou com a cabeça.

Ficamos pouco tempo ali parados até algumas pessoas virem nos cumprimentar. Só algumas delas reconheciam Sasuke e davam condolências. Então, depois do tumulto diminuir, finalmente vi Itachi acompanhado por um homem mais adulto vindo em nossa direção.

Engoli um seco e apertei a mão de Sasuke com mais força, afim de passar a mesma segurança que ele passava para mim.

— Não quero nenhuma gracinha no cemitério, me escutou bem? – foi tudo o que o homem disse ao passar por Sasuke.

Nada de “quanto tempo, filho” ou “você está bem? Como vão os estudos?” Nada. Eu sabia que os dois não se falavam há muito tempo e que Sasuke evitava qualquer membro da família, então ele não devia estar feliz de vê-lo?

Fitei o homem com escárnio e notei a semelhança de seus filhos nas suas feições definidas. Percebi, felizmente, que elas eram só físicas mesmo.

— Prazer, senhor. Sou a Cherry. – falei, sem pensar duas vezes. Seu olhar voltou para mim, mas ele simplesmente me ignorou e voltou o olhar autoritário para Sasuke.

Então simplesmente saiu andando. Quis cuspir nele ou dar-lhe um soco por ser tão babaca. Não importava quantas coisas erradas Sasuke pudesse ter feito, nada justificava um tratamento como aquele. Era absurdo.

— Simpático, não? – Sasuke disse, me dando um sorriso que eu não consegui retribuir. Ele já estava tão acostumado com aquilo que já achava engraçado, até brincava com o fato. Aquilo não era normal.

— É sério, Sasuke. – Itachi disse, me despertando dos meus devaneios. – Isso é um funeral, pelo menos tente não dar um de seus shows.

Abri a boca, inconformada, mas Sasuke apertou a minha mão, como se quisesse impedir que eu disesse alguma coisa. Fitei-o com indignação, mas ele não retribuiu o meu olhar.

— Pode deixar. – respondeu, por fim. E eu quis gritar.

— Você é nojento. – disse para Itachi, porque não consegui me conter nem mais um instante. Percebi a face de Sasuke mudar de forma e preferi não fitá-lo.

— Eu te conheço? – Itachi perguntou depois de alguns instantes me observando. Agradeci mentalmente por ele não lembrar do nosso breve encontro quando fui no lugar de Sasuke.

— Não, ainda bem. – respondi, ríspida.

Ele revirou os olhos e voltou a fitar Sasuke.

— Você achou outra rebeldezinha como você, parabéns. Vê se não fode com a vida dela como fez com aquela outra, ok?

Em um impulso, me coloquei entre os dois imediatamente, assumindo que Sasuke ia partir para cima do irmão depois daquele comentário. Eu estava certa, percebi sua expressão de pura fúria e seus punhos cerrados.

— Sai daqui. – ordenei rangendo os dentes para Itachi, apesar de uma parte de mim desejar que Sasuke realment batesse nele.

Ele apenas deu um sorriso de desdém e disse, antes de partir:

— Cuidado, todo esse seu afinco por Sasuke com certeza não vai te deixar em bons lençois.

Juntei as sombrancelhas, quem ainda falava “bons lençois”? Bufei e o vi sair pela porta. Virei-me para Sasuke, preocupada e percebi que agora ele estava tentando voltar ao controle.

— Se quiser, nós vamos...

— Não. Eu vou até aquela porra de cemitério e dar o melhor show que eles já viram. – disse em um tom sombrio que me fez sorrir imediatamente.

— Eu te ajudo. – completei, porque nada me faria mais feliz naquele momento do que ver a cara de indignação daqueles homens nojentos.

Notas finais
Oooi,
Consegui postar antes de viajar, yeey *-*
Espero manter o ritmo, mas dependendo do dia que eu voltar, o prox cap vai demorar um pouco mais ):
Enfim, gostaraam? ♥
Beijão :*