Eu não devia ter ficado surpresa com isso. Sempre fui extremamente crítica, com pensamentos alternativos e visões completamente diferentes do mundo. Eu era pessimista e descrente, sim. Mas uma coisa que eu nunca tinha percebido até então, era o quanto eu era triste.

Triste por nunca ter tido uma mãe, por ter um pai que me abandonou e uma tia que não ligava pra mim. Triste por ter amigos que sempre se sobressairam em tudo e se destacavam enquanto eu era a coadjuvante da minha própria história. Triste porque nunca conseguia terminar nada, porque eu mentia, fugia de mim mesma...

Sim, nada podia ser mais óbvio que aquilo. Eu tinha depressão. Não aquele tipo normal que a maioria dos jovens tem e passa em um ano ou outro. Era um caso sério, que foi formado após vários traumas e experiências marcantes.

Após de vários dias negando e utilizando todos os métodos de manipulação que eu conhecia, a enfermeira finalmente me convenceu de minha condição com apenas uma pergunta:

“Você se lembra da última vez que foi realmente feliz?”

Eu não lembrava. Era óbvio que eu tinha tido meus momentos de alegria em Bristol. Eu me diverti de verdade com todos os meus amigos que me acolheram, mas se eu tinha sido feliz? Não.

Felicidade já era um termo completamente subjetivo pra mim e não devia ser assim. Eu devia ouvir a palavra e já saber o que significava. Era assim que funcionava as coisas na cabeça de alguém saudável.

Então, depois de finalmente aceitar que eu era uma pessoa doente, passei a perceber todos os aspectos da minha personalidade que me fazia tão torcida. O fato de eu ter que me apoiar em Olívia, por exemplo. Eu não conseguia suportar o fato de eu ser ou completamente boa ou completamente má, eu precisei criar outra personalidade para justificar minhas ações.

Ou a minha constante necessidade de mostrar o meu valor e importância. Eu não gostava de ser notada, fato, mas se eu passasse despercebida, teria ainda mais pânico. Eu não conseguia dormir porque não podia ficar muito tempo comigo mesma. Meus pensamentos me engoliam viva. O mesmo para o elevador. Um ambiente fechado, sozinha... Era sufocante.

Pensar que talvez não precisasse ser assim me fazia me sentir um pouco melhor. Talvez eu pudesse viver uma vida sem pensar em tudo um milhão de vezes, sem ter medo de coisas banais e conseguir sonhar.

Era fácil culpar meus erros na minha doença, mas a enfermeira que passou a ser minha psiquiatra diariamente me aconselhou a tentar resolvê-los independente da minha condição. Era verdade, eu não podia justificar tudo o que eu tinha feito só porque eu estava doente.

Não era assim. Eu era consciente, eu tinha escolhas... A depressão não me definia, eu que a alimentei.

— Depressão, hã? – Naruto disse, quando eu finalmente pude receber visitas. – Achei que fosse alguma coisa mais séria...

— Naruto! – Hinata o repreendeu, vindo logo atrás deles.

Vê-los, depois de semanas apenas recebendo tratamento intensivo, era quase como pular em uma piscina depois de um dia passando calor. Sem pensar muito no que estava fazendo -porque era assim que eu faria dali adiante- sai da cama e os abracei.

Ambos ficaram surpresos com a minha súbita demonstração de afeto, mas não falaram nada, apenas retribuiram e sorriram.

— Uau, Cherry, você até parece uma nova Cherry. – Naruto disse, com um sorriso.

— Sakura.

— Oi?

— Me chama de Sakura. – falei, com um sorriso.

— Mas você odeia...

— Estou tentando ser eu mesma. – respondi, antes que ele começasse a divagar, como sempre fazia.

— Então estava nos enganando esse tempo todo, fingindo ser uma menina louca de cabelos rosas? – ele falou, obviamente brincando. Mas de certa forma, era verdade. Eu não estava fingindo, claro, eu realmente era uma menina louca de cabelos rosas e isso não ia mudar só porque eu não seria mais depressiva. Mas de certo modo, todo aquele tempo em Bristol foi o auge da minha loucura, foi quando eu me libertei de tudo o que a controlava em Nova York.

Querendo ou não, meus amigos e minha tia acabavam contribuindo para que eu não surtasse e, em Bristol, eu tive a minha liberdade para ser quem eu queria ser, quem eu poderia ser.

Obviamente eu fui para o lado errado, mas eu sempre errava muito antes de acertar.

— Tipo isso, sim. – respondi e sorri.

— Olha o que eu trouxe. – Hinata disse, me mostrando um baralho e uma garrafa de vodka. – Imaginei que deve ser bem chato ficar aqui sozinha sem poder fazer nada...

Quase chorei de felicidade. Hinata realmente me conhecia, era óbvio que eu não podia tomar álcool, eu nem ao mesmo podia ter uma garrafa no meu quarto, os médicos tiraram tudo o que eu poderia usar para me machucar fisicamente.

Não sabia como ela tinha entrado com aquilo, mas eu não ligava, peguei a garrafa, e coloquei o líquido transparente nos copos de plástico que eu usava para tomar meus remédios.

Brindamos e tomamos moderadamente, eu não podia ficar bêbada e Hinata estava ainda um pouco traumatizada depois de seu acidente com a vespa. Ficamos jogando truco até o horário acabar e eles prometeram que iriam voltar no dia seguinte.

— Tentem trazer a Temari amanhã. – eu disse, séria. Estava mais do que na hora de conversarmos e as coisas ficarem bem entre nós. Ambas devíamos desculpas.

— Só ela? – Naruto perguntou, obviamente se referindo à pessoa que tinha me levado ao hospital em primeiro lugar. Eu não estava pronta para falar sobre ele. Minha psiquiatra já sabia dos meus problemas familiares, escolares e até de Olívia, mas sempre que o assunto voltava-se para o motivo de eu ter ido parar no hospital, eu mudava o rumo da conversa.

— Tentem achar o Lee também, adoraria vê-lo. – respondi, com um sorriso. Então me lembrei que ele tinha se mudado por minha causa e engoli um seco. Hinata e Naruto se entreolharam e eu sorri, querendo dizer que estava tudo bem. – Vou ligar pra ele quando conseguir sair...

— Certo. – falou. E me abraçou. Dessa vez ele que teve a iniciativa, eu não o afastei. Hinata fez o mesmo e eu fiquei sozinha no quarto novamente.

Aquela solidão me deixaria mais louca do que eu já era, eu não tinha capacidade de ficar sozinha por muito tempo sem pensar em tudo e me deixar ficar mal novamente. Felizmente, os médicos já conheciam bem os pacientes com instintos suicídas, então a cada meia hora apareciam enfermeiras com atividades para me distrair.

Eu já não tinha que ver a psiquiatra todos os dias, tinha que conversar com ela uma vez por semana e, apesar de sempre achar aquilo um monte de besteiras, eu mudei de ideia conforme o tempo passava. A verdade era que era bom conversar com alguém, contar tudo o que se passa na sua mente e receber explicações.

Perceber que todos os seus pensamento masoquistas e alternativos tinham uma explicação lógica e normal. Eu não era tão diferenciada assim, nem tão original, tudo que eu pensava já tinha sido pensado por alguém e outra pessoa, ainda mais inteligente, conseguiu estabelecer um padrão.

Tudo isso era impressionante. O jeito como esses profissionais extraiam todo o veneno que me tornava doente e eu os deixava.

Vários momentos eu achei que seria tudo em vão, que certamente eu voltaria ao normal assim que saísse daquele quarto, mas o fato era que eu queria estar curada. Eu não queria mais me sentir mal o tempo todo. Não queria mais ter que ser Olívia ou Cherry, queria ser eu. Somente eu.

Quando finalmente Temari quis me ver, eu já estava há quase um mês em recuperação, então sua visita não fez com que eu piorasse de repente.

— Oi. – ela disse e eu sorri. Eu não poderia parecer muito feliz, sabia que ela odiaria isso. Mas eu tinha que ser eu mesma e eu queria sorrir quando a vi, então sorri.

— Olá, Tems. – respondi e acenei com a cabeça. Ambas nos conhecíamos muito bem para saber que nada de aperto de mãos.

— Que susto você deu na gente, sua vaca.

Rimos e ela sentou-se na beira da minha cama.

— Você sabe como eu adoro uma boa surpresa. – respondi e ela revirou os olhos, brincando.

Eu sabia que ela era muito orgulhosa para se desculpar e eu simplesmente não me sentia mais tão culpada como antes. Era verdade que eu tinha praticamente ignorado todos os seus avisos e tinha acontecido exatamente o que ela me disse que aconteceria, mas tudo foi uma escolha consciente e eu não tinha que me desculpar por isso.

— Eu exagerei, Cherry. – ela admitiu, para a minha surpresa. – Eu devia ter respeitado as suas decisões...

— Tudo bem. – falei. – Eu errei também, devia ter considerado mais o que você tinha a dizer...

Temari riu e negou com a cabeça.

— Eu que fui idiota de ter levado tanto a sério, se fosse outra pessoa eu nunca falaria e agiria daquele jeito. Sei lá, me desculpa, Cherry. – pediu, finalmente e eu suspirei.

— Está perdoada. Me chame de Sakura.

— Ok. – ela falou simplesmente. Com isso, me lembrei porque eu gostava de Temari pra começo de história. Ela sempre me entendia. Como no meu primeiro dia, que eu tinha dito que fugi e ela simplesmente sorriu e falou “boa jogada”. Não perguntou porque, nem me julgou. – Mas você sabe que eu vou continuar te chamando de Cherry mesmo assim, certo?

Sorri novamente, acenando com a cabeça e ela suspirou.

— Para com todos esses sorrisos, está me assustando.

Com essa frase percebi que tudo tinha voltado ao normal na nossa relação e comecei a rir ainda mais. Ela me acompanhou e depois olhou para as cicatrizes no meu pulso.

— Sabe... Era disso que eu tava falando. Ele destrói as pessoas. Sinto muito que tudo terminou desse jeito, eu falei que iria terminar assim, mas eu nunca quis que realmente acontecesse.

Seu olhar estava gentil, de um jeito que não parecia pertence-lhe.

— Eu que fiz isso comigo mesma, Tems. Foi culpa minha, eu me deixei afetar.

Não mencionei ele e ela percebeu. Ela sempre percebia. Sabendo que eu não estava pronta para falar sobre aquilo, ela mudou de assunto, começando a falar sobre como teve que ir para a minha faculdade explicar o ocorrido.

— Tive que pedir para trancar a sua matrícula. Eles não consideram depressão como uma doença digna para abonar faltas. – falou, achando graça.

— E perna quebrada?

— Também não, imagina só...

Rimos. Fiquei aliviada que as coisas já estavam bem com Temari, aquilo era só mais um obstáculo que eu consegui resolver.

— Quando você vai sair daqui?

— Eu não sei, eu achei que já estava bem, mas a psiquiatra tem que me liberar, ela está me enrolando... – respondi.

— Nossa, psiquiatra, quão patético é isso?

— Eu sei. – concordei. Nunca imaginei que eu fosse precisar de uma algum dia. Sempre acreditei que era bom ser um pouco louco, que isso tudo era muito relativo e que tudo bem ser diferente. Mas depois de experimentar a vida sem a depressão, percebi que era válido eu querer me tratar para me sentir feliz. Eu podia ter essa vida.

— Ah, finja que você é normal que ela te libera, não é difícil.

— Sei lá, estou tentando não fingir mais nada. – expliquei e ela acenou com a cabeça.

— Então fodeu, você vai ficar aqui pra sempre. – disse zombateia e rimos juntas.

Mais rápido do que eu esperava, seu tempo acabou e ela foi embora.

— Nós duas sabemos o motivo de você ainda estar aqui. Se quiser sair, sabe o que fazer... – ela disse, antes de fechar a porta.

Era verdade. Eu sabia, ela sabia, Naruto sabia, Hinata sabia, até minha psiquiatra sabia. Eu precisava falar sobre ele, precisava enfrentar esse último obstáculo para poder me curar completamente.

Pensando nisso, eu disse, assim que minha sessão com a psiquiatra começou:

— Sasuke. Sasuke foi a principal razão pela qual eu quis me matar.

Notas finais
Oioi ^^
Cap fresquinho explicando melhor a situação da Cherry. Vale lembrar que como a fic é inteira em primeira pessoa, a gente só vê a visão dela. Se estivéssemos apenas assistindo, seria mais fácil perceber a doença.
Então, se alguém ficou com alguma dúvida perante a isso, só avisar. Ou joga no Google "depressão psicótica" que acha fácil, haha
Enfim, gostaram? ♥

Beijão :*