Máscaras & Sussurros

21 Chapeleiro Maluco


– Bom dia. – respondi hipnotizada pelos seus olhos negros que penetravam tanto. Ele pegou a xícara de café das minhas mãos e eu me arrepiei.

Era patético como eu ainda sentia atração, tensão e borboletas mesmo depois de todo o tempo e tudo o que já fizemos. Sasuke deu um beijo suave em minha bochecha, me provocando, porque sabia que eu iria querer mais e acendeu um cigarro caseiro.

Quis dizer que era muito cedo para drogas, mas a verdade era que eu não ligava. A perfeição daquele ser era tanta que pouco me importava se drogar-se toda manhã fazia parte de sua rotina.

– Você precisa ir pra aula? – perguntou indiferente. Era óbvio que eu precisava, era o meu segundo dia e ele sabia. Sua pergunta era obviamente mais insinuativa do que aparentava...

Dei um meio sorriso e neguei com a cabeça. Trocaria qualquer coisa para uma manhã com ele e isso me assustava, minha conexão com Sasuke era mais forte do que qualquer coisa que eu tinha tido na vida. O que tinha causado isso? Por que eu escolhera alguém que todos odiavam, alguém tão mentalmente instável e perdido quanto eu?

Curar ele seria uma forma de me curar?

– Então vamos. – ele disse, sem fazer ideia dos meus pensamentos torcidos e errados.

O segui para fora daquele apartamento que já era tão familiar pra mim. Dei uma última olhada sabendo que com certeza iria voltar muitas vezes para passar noites sem pesadelos.

Fomos em direção ao elevador e minha falta de ar começou imediatamente.

– Sasuke... – falei, com dificuldade. Ele virou-se e me olhou com preocupação. – Escada, vamos de escada. – consegui dizer, enquanto ele ainda me fitava confuso.

Mesmo sem entender, Sasuke me conduziu até as escadas e assim que ele abriu a porta, eu sentei no primeiro degrau e comecei a respirar com mais facilidade. Ele só me fitava e segurava a minha mão, não perguntou qual era o problema e respeitou meus limites, me fazendo gostar dele ainda mais –se isso fosse possível-.

– Melhor? – perguntou, deixando-me apoiar a cabeça em seu ombro.

Não respondi e ele continuou segurando minha mão. Era impressionante como pequenos gestos dele conseguiam me deixar melhor. Seja um desenho no meu tênis, as palavras certas, uma carícia... Ele me conhecia.

– Tenho um... Fraco por elevadores antigos. – murmurei porque sabia que ele não ia me julgar. Ele apenas levantou-se e me puxou pela mão para me levantar. Nada disse e eu o agradeci mentalmente. Se fosse qualquer outra pessoa, perguntaria meus motivos, me faria entrar no elevador... Mas ele não, ele compreendia, ele me respeitava.

Descemos os degraus lentamente, aproveitando cada minuto do silêncio confortador e de nossas respirações.

O sol estava brilhando forte do céu limpo de Bristol e apesar de preferir dias nublados e chuvosos, aquele cenário me acalmara. Estávamos apenas andando pelas ruas de mãos dadas, quando Jack White começou a cantar. Fiquei me perguntando quem me ligaria aquela hora e não me surpreendi quando vi o nome de Lee do visor.

Ele que me arranjara aquele emprego, devia estar querendo saber se eu tinha gostado. Nossa relação era complicada e eu só a suportava quando era literalmente outra pessoa. Naquele momento, segurando as mãos de Sasuke pelas ruas de Bristol, era impossível ser Olívia.

– Alô? – atendi, porque sabia da teimosia do sombrancelhudo. Não iria ser gentil, nem fofa, seria nada mesmo que eu mesma, porque não conseguiria me transformar tão facilmente com um cavaleiro das trevas do meu lado. Talvez eu não quisesse. Talvez ser Cherry naquele momento era confortador, cômodo. Era de Cherry que Sasuke gostava.

– Liv, e ai? Gostou do emprego? – ele perguntou alegremente, com uma ansiedade anormal.

Eu não conseguiria mentir para Lee, simplesmente não era capaz em nenhuma das minhas duas personalidades. Era fácil me tornar outra pessoa, porque, sendo Olívia eu não precisava mentir, eu realmente gostava das coisas que eu odiava com Cherry...

Mas como Cherry, eu odiava tudo que Olívia amava, não tinha paciência em aguentar Lee e achava tudo simplesmente inútil.

– Não. – respondi. Porque era verdade. Porque eu era Cherry. Com Sasuke era impossível ser outra pessoa.

Lee pareceu murmurar alguma coisa que eu não entendi, então eu simplesmente disse:

– Escuta, depois nos falamos, estou com a minha mente em outro lugar. – nada podia ser mais verdade que aquilo.

Ele disse alguma coisa que não consegui entender novamente e eu desliguei o aparelho, ignorando o olhar curioso de Sasuke. Não queria explicar minha relação para ele. Era fácil de engolir e compreender o lance do elevador, mas minha dupla personalidade talvez fosse demais para a compaixão dele.

Como sempre, ele entendeu que eu não queria falar sobre o assunto e não perguntou. Invés disso, pegou uma máquina fotográfica analógica de sua mochila e começou a tirar fotos de repente. Sorri, adorava fotografia.

O dia estava perfeito para tirar ótimas fotos por causa da luz do sol. Quando cansamos de tirar todos os tipos de fotos possíveis, corremos para uma loja que pudesse revelá-las.

Tenho que admitir que éramos ótimos fotógrafos e ele um modelo perfeito com seu rosto simetricamente perfeito. Mas, as melhores fotos foram aquelas que não planejamos, as que demos para uma criança tirar de nós, captando um sorriso sofrido em nossos rostos fora de foco... As que erramos sem querer ao apertar o botão duas vezes seguidas... As contra o sol...

Como a nossa relação, as fotos espontâneas eram as melhores e eu sorri ao ver uma que uma criança tinha tirado dele. Maravilhoso como sempre, estava sentado e olhava pra mim com o canto do olho. Com suas roupas de estrela do rock, ele parecia um modelo e não fazia esforço nenhum para ser tão perfeito.

Ele me deixou ficar com ela e eu a guardei bem salva dentro do bolso da jaqueta de couro que ele tinha me devolvido para eu não passar frio naquela manhã. Como se fosse possível sentir frio com a sua presença.

– Toma. – ele disse de repente e eu sai de meus pensamentos. Fitei-o e percebi que estava me oferecendo uma pequena pílula. Pisquei várias vezes, ele já não tinha tomada sua dose diária de drogas? Por que aquilo agora?

Estava tão perfeito, por que ele queria fugir? Não era o suficiente ficar sóbrio comigo?

– Estou bem. – respondi.

– Vai te deixar melhor ainda. – Sasuke falou com sua voz suave. Continuei recusando com a cabeça, mas ele simplesmente pegou uma e engoliu. Seu gesto me fez respirar fundo e morder meus lábios, eu não aguentaria cuidar dele novamente. Não queria ser sua babá, não queria esse tipo de relação... Então simplesmente peguei a outra pílula e tomei também.

Eu sabia bem que queria ficar sóbria e que em Bristol, eu seria menos irresponsável e cuidaria mais da minha mente e corpo, mas a aparição de Sasuke foi um fator que eu não previ. Por que ele não tinha aparecido em NY na minha pior época? Poderíamos nos fuder juntos, seria mais fácil...

– Sim! – ele gritou de repente, provavelmente já experimentando os primeiros efeitos da droga.

Demorou algumas piscadas para surgir efeito em mim. Era diferente de tudo que eu já tinha tomado. Não dava a euforia da coca, nem o relaxamento da maconha, muito menos os efeitos psicodélicos do LSD... Só podia ser uma droga alucinógena.

Eu não tomava drogas alucinógenas nunca, as minhas ilusões da vida real já eram tão horríveis que nunca quis experimentar algo que as alimentasse. A primeira vez que tomei uma foi literalmente a pior experiência da minha vida, então as evitava a qualquer custo.

Percebendo o meu erro, minha mente fez a pior coisa que poderia; entrou em pânico. Como vocês devem saber, a maioria das drogas produz os efeitos respectivos enfatizando como você se sente no momento. Por exemplo, se você fica bêbado porque acabou de terminar um relacionamento, você só chora e quer morrer, mas se você toma umas quando está feliz, você só fica idiota...

Completamente apavorada, meu cérebro aceitou a droga e começou a me pregar peças. Primeiro, eu não conseguia ver Sasuke em nenhum lugar e chorei o procurando na multidão que parecia sair de um filme de zumbis. Seus rostos estavam todos distorcidos de formas grotescas, me fitando e gritando coisas que eu não compreendia. Era como se eu estivesse vivendo no filme O Labirinto do Fauno. Então, suas vozes começaram a se misturar transformando-se em um ruído insuportável que me fez abaixar e cobrir as orelhas com minhas mãos.

No chão, as coisas só pioraram. Eu não me sentia sentada no sólido, era como se eu estivesse constantemente caindo e não chegando a nenhum lugar, os poucos tons de branco sobre meus pés se misturaram e eu já não sabia se estava sentada, de pé ou deitada.

De alguma forma, consegui erguer a cabeça e finalmente vi Sasuke. Ele se destacava no meio das pessoas transformadas, comecei a correr para alcançá-lo, mas por que ele nunca estava em meus braços? Corria, corria, corria, mas parecia que eu não saia do lugar.

Ele se afastava cada vez mais e eu não chegava nunca. Sua sombra finalmente sumiu e eu me senti mais abandonada e sozinha do que nunca, aquilo não era justo, por que meus maiores medos estavam voltando para me assombrar?

Atrás de mim uma voz se destacou e eu consegui entender o que estava dizendo:

– Venha, venha para o chá, Olívia.

Virei-me e me deparei com uma versão realisticamente bizarra do que eu imaginava ser o Chapeleiro Maluco de Alice Nos País das Maravilhas.

– Eu não quero chá. – disse, sem perceber que o som estava realmente saindo da minha boca. O personagem transformou-se em uma Tsunade bêbada que simplesmente caiu no chão.

Não impedi, mas gritei preocupada. Na minha mente, aquilo era tão real que eu achava que realmente que estava acontecendo. De repente, senti um baque forte da minha nuca e senti uma dor forte em todo o meu corpo. Não sabia destinguir se aquilo estava mesmo acontecendo ou era só a minha mente brincando comigo.

Quando me dei conta, estava sentada no chão de uma estação de trem com aranhas subindo por todo o meu corpo, que parecia todo ensanguentado por causa do sangue que escorria fortemente dos meus pulsos.

Eu gritava e me mexia violetamente para que os aracnídeos saíssem de mim, mas nada parecia adiantar. Então, de repente, para a minha felicidade, elas simplesmente desapareceram e eu era apenas uma menina louca se remexendo sem nenhum motivo aparente no chão de uma estação.

Suspirei, tinha acabado? Lágrimas escorriam fortemente e eu tentei ignorar todos os olhares julgadores e enojados que lançavam em minha direção. Por algum motivo, eu preferia as faces distorcidas, elas faziam mais jus à personalidade daquelas pessoas que passavam por mim...

Olhei para o meu lado e vi Sasuke com a cabeça enterrada sobre os seus joelhos. As lágrimas não pararam, mas eu fiquei feliz por ele estar ao meu lado. O chamei baixinho e ele ergueu-se imediatamente.

Percebi, em seu olhar, que sua viagem não tinha sido como ele esperava quando tomou a pílula. Sua mente também não estava feliz na hora que os efeitos começavam e talvez ele tivesse presenciado coisas tão horríveis como eu, talvez até piores. Seus olhos estavam marejados, mas eu sabia que ele era muito orgulhoso para chorar na minha frente.

Ainda soluçando, o abracei e fiquei chorando em silêncio, molhando sua camisa por muito tempo. Eu também nunca tinha chorado em sua frente e por mais que ele tivesse me visto em momentos vulneráveis, minhas lágrimas eram raras e únicas. Eu não chorava a toa e ele percebeu isso.

– Está tudo bem. – ele disse, e sua voz soava como um bote salva-vidas. – Estamos juntos.

Ele não disse “já acabou” ou “você está bem”, ele disse que estávamos juntos. Porque no fim, era só isso que importava... Estarmos juntos. Aquela frase para mim foi o ponto que separou “eu preciso de você” do “eu não imagino minha vida sem você”.

Suspirei, pensando em quão fundo eu tinha me envolvido.

– Nunca mais. – eu consegui dizer, com a voz bem fraca. – Me dê aquilo para tomar.

Ele deu um meio sorriso e eu soube que ele também nunca mais iria querer tomar. Sasuke me ajudou a levantar e saimos da estação, ignorando todos os olhares e apontadas.

Olhei para o relógio e vi que já precisava ir trabalhar. Faltar no meu emprego traria consequências muito mais sérias do que minha transgressão na faculdade, então olhei para Sasuke com um olhar pidão e ele entendeu.

– Antes, eu preciso acordar. – eu falei, sugestivamente. Percebi, em seu olhar, que ele estava tão ansioso quanto eu, então o deixei me guiar até um beco escuro. Fizemos o sexo mais sujo e necessitado de nossas vidas, mas valeu a pena. Sempre valia.

Nos despedimos com um beijo voraz e, sofrendo, cada um foi para um canto. Cheguei no restaurante com uma cara de ressaca, mas pelo menos não estava atrasada. Chouji me olhou de cima a baixo e fez uns sons de desaprovação que eu ignorei.

Ele tinha dito que eu não duraria uma semana e eu tinha dito que ele não me conhecia, que aquilo era só mais uma merda na minha vida, mas estava percebendo quão certo ele estava.

Talvez eu não durasse mesmo uma semana naquele ambiente hostil, naquele antro de pecados, de sorrisos falsos e gula. Mas pelo menos eu tinha que tentar, não podia viver de favor para sempre na casa de Hinata e Temari.

Após servir algumas mesas, ouvi o sino da porta tocar e virei-me para ver o tipo de pessoa que eu teria que atender em segundos. Para a minha surpresa, era Lee e, para o meu pavor, ele berrou:

– Olívia!

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Notas finais
Oioooi, cap novo procês :D
Acho que o meu favorito até agora, gostei muito de escrevê-lo! E vocês, gostaram? ♥
Beijão :*
PS: meu, eu achei aquela arte do Sasuke e pensei NA HORA na fic, haha, não podia ser mais perfeito para o meu personagem, então tive que colocar, o que acham?
EDIT: não sei porque a imagem saiu, agora reuplodei ela (: