Máscara
1 Práxis
A chuva fraca que batia na janela, acompanhada de um céu cinzento como grafite, revelava que o Sol ficaria sem aparecer por muito tempo. Entretanto, o som proveniente do exterior era abafado por uma goteira incômoda no teto, que caia em um balde estrategicamente posicionado, para não molhar o chão. Ela sabia que uma hora a água precisaria ser trocada , o balde transbordaria, era fato, mas ela não tinha a menor disposição para fazer isso. Aliás, para nada.
Deitada na cama, sentia o corpo pequeno do gato preto repousar em seus joelhos. Ela percorreu os olhos em seu pelo lustroso, macio e negro, como uma noite sem estrelas e sem luar. Ficou tentando imaginar como seria a vida de um gato: sem preocupações, sem contas para pagar, sem nada que o pudesse aborrecer (com exceção do fato de ter que tomar banho, afinal , era raro um gato gostar de ser esfregado por mãos humanas). Sim, a vida que seu gato levava, regada a cafunés, comida servida na hora e sem ter que dar satisfações para o mundo era a vida que ela sempre desejou.
As olheiras em seus olhos castanhos denunciavam o quanto era difícil dormir para ela. Uma garrafa de uísque vazia estava a dias jogada no carpete. A insônia sempre fez parte de sua vida, mas ela jamais tentou lutar contra isso. A vida era uma droga, e ela não se incomodava em conseguir dormir. Se dormia tudo bem, ela não é o tipo de pessoa que costuma sonhar com alguma coisa. Se não dormia,tudo bem também. A vida em seu subconsciente e a vida real não eram diferentes uma da outra.
Levantou-se devagar, olhando para o relógio-despertador em seu criado mudo. Resmungando baixinho, percorreu os dedos em seu cabelo curto e loiro, agradecendo mentalmente por não precisar penteá-lo. Vestiu uma justa calça jeans que estava jogada ao lado da garrafa, um suéter grosso e cinza que combinava perfeitamente com a sua vida e amarrou as botas. O gato a ignorou e caminhou pela cama até chegar ao travesseiro, onde se aninhou para dormir novamente.
O apartamento vivia uma bagunça, como as suas ideias. Várias roupas jogadas pelo chão, onde apenas conseguia-se enxergar um pedaço da cor do assoalho de madeira. Algumas pilhas de pratos no criado mudo e uma caixa de pizza esquecida debaixo da cama. Ela mal conseguia se lembrar a data em que a comera, mas isso não significava nada para si mesma. Chegou até a cozinha pequena, que conseguia se equiparar ao seu quarto. A louça transbordava pela pia, o lixo precisava ser levado para fora e a única coisa que o ocupava eram mais e mais caixas de embalagem de comida oriental. Fazia muito tempo que ela não consumia uma refeição decente, as comidas de fast-food já faziam parte do seu dia-a-dia. O chão não era varrido a muito tempo também.
Ela olhou para sua vida com nojo. Sim , seus dias sempre foram cinzas. A sua vida ? Bem, dizer que ela era uma porcaria seria um elogio. Era pior do que isso. Um pai alcoólatra, que batia em sua mãe. A coitada morreu de tanto apanhar. O maldito conseguiu quebrar a sua cabeça com um martelo. Dizem que ele se matou na cadeia, já outros diziam que ele fugiu, mas ela não estava nem ai pra isso. Já tinha fugido de casa para morar com aquele músico, aquele maldito músico que disse que a amava. Mas preferiu traí-la com outra mulher, deixando-a sozinha e grávida. Graças a Deus que perdera o bebê, ela costumava pensar. Ela jamais o poderia amar, uma vez que nunca fora amada por ninguém.
Olhou para o relógio pendurado no teto com desinteresse. Estava atrasada para ir para o trabalho, um escritório tão cinzento quanto seu minúsculo apartamento, com colegas de trabalho vazios de significado, cheio de conversas fúteis e um chefe gordo e ranzinza, que dizia coisas que ela jamais absorvera. Mas sua vida poderia ser melhor, ela pensava. Faltava-lhe cor, faltava sentido. Uma família seria interessante, um novo amor não seria tão mal assim. Mas ela se considerava feia e deselegante. Escondia o corpo magro em roupas grossas e mofadas. Ela fedia a angústia e melancolia, mas era a única fragrância que conseguia exalar. Sua vida jamais fora divertida.
Engoliu o que sobrou na cafeteira, colocou a bolsa de couro velho atravessada ao corpo e tomou as chaves de onde morava. Deu mais uma última olhada na lixeira de concreto onde vivia enquanto vestia a touca de lã preta e se retirou do aposento. Estava sozinha no corredor, assim como na vida. Entrou no elevador e apertou o botão que descia para o térreo. O sexto andar onde morava foi deixado para trás e ela se encontrou na recepção do apartamento. O vigia estava ocupado demais com seu jornal para escutar qualquer coisa, mas ela já se acostumara quando as pessoas não respondiam seus cumprimentos de bom dia. Mas desde quando ela tivera um bom dia?
Encontrou-se na rua. Podia ver o edifício espelhado do outro lado da vida onde carros passavam apressados para lá e para cá. O sinal fechou. Ela atravessou lentamente, louca para voltar a se enterrar na cama , de onde jamais deveria ter saído. Odiava ter que trabalhar, mas ela não tinha ninguém. O gato não pagaria suas contas. As pessoas que caminhavam no mesmo sentido que ela e em sentidos opostos, indo para seus trabalhos ou suas faculdades e escolas, sequer a notavam. Estavam ocupados demais em seus celulares ou conversando uns com os outros.
Subiu no elevador do prédio em que trabalhava e apertou o botão para subir no décimo quinto andar. Viu pela janela seu pequeno apartamento e parecia ainda escutar o som nítido da goteira em seus ouvidos. Puxou a toca com mais força para cobri-los.
Chegou finalmente ao andar onde trabalhava. Lentamente, colocou o seu crachá. Parou diante de uma porta de madeira branca, em um corredor de paredes cinzas. Cinza. A cor que definia sua vida. Podia escutar do outro lado da porta barulho de passos de seus colegas, som de máquinas copiadoras, barulho das teclas dos teclados e a voz grossa de seu chefe. Colocou a mão na maçaneta gelada. É , é agora. Mais um dia aqui neste mesmo lugar. Era preciso mostrar uma falsa alegria e um falso desejo de estar a postos para executar qualquer ordem. Era preciso encarar os colegas de trabalho e fingir interesse em suas conversas fúteis. Mais um dia de trabalho. Hora de vestir a máscara.
Bom dia !
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