Mágissa

1 Capítulo 1 O espelho da Rainha


Mona passava toda a tarde sentada no parapeito da janela esperando a visita daquela estranha mulher e sua filha ou do homem que ela apelidara de caçador, pois sempre lhe trazia aves e carnes de variados tipos.

Desde que ela tinha lembranças a mulher rica e a garota de cabelos tão negros quanto o ébano visitavam a choupana da velha Hildegard, a senhora que criara Mona.

A menina não sabia quem eram seus pais ou por qual motivo aquelas pessoas a visitavam e sempre que perguntava à velha senhora sobre seu passado a mulher apenas dizia que as vezes não saber de nada é o que tornava o mundo mais encantador.

Mona balançava as pernas freneticamente tentando fazer o tempo passar quando o barulho de cascos de cavalo a fizeram parar para prestar atenção.

— Desalinhada como sempre- disse a voz rouca da velha Hildegard fazendo a garota de virar- A madame não gosta de vê-la assim.

— Ela nunca gosta de mim, arrumada ou não- a garota descia enquanto prosseguia a conversa- Não sei por que vem me ver. Bastava à princesa e o caçador.

A velha fitou a menina por alguns instantes antes de balançar a cabeça como se quisesse afastar os pensamentos que a atormentavam.

— Isso não importa menina- Hildegard se dirigiu a lareira para colocar mais lenha- Vista alguma coisa logo ou a madame nunca mais vira te ver.

—Bruxa velha!- gritou Mona correndo em direção ao quartinho onde dormia com a velha senhora. Abriu o baú grande onde guardava as roupas que ganhava da madame e de sua filha e foi atirando as coisas para fora em busca de algo bonito mas que a permitisse correr pelos campos acompanhada da princesa.

Apesar de estar sempre desarrumada Mona não era nada feia. Sua pele e cabelos que eram tão pálidos quanto o mármore davam-lhe um ar sereno e angelical, ao contrário de seus olhos que por serem tão vermelhos quanto o sangue pareciam demoníacos.

A velha Hildegard disse que Mona era de uma raça diferente que os antigos chamavam de Filhos da lua. Contou-lhe sobre as magias que esse povo praticava e o triste fim que tiveram aqueles que sobreviveram ao massacre de anos atrás.

Se não vivesse escondida na choupana da velha senhora Mona talvez estivesse agora trabalhando em uma mina e sendo chicoteada como os demais iguais a ela, mas por alguma razão fora poupada de todo esse sofrimento.

Após muito revirar no baú a garota por fim optou por um vestido de linho amarelo com pequenos arabescos brancos nas mangas e um par de sapatilhas brancas. Lavou os braços e o rosto na bacia que ficava no banco ao lado de sua cama e vestiu-se rapidamente. Por sorte seus longos cabelos já estavam penteados e devidamente presos em uma trança folgada dando-lhe assim um ar mais apresentável.

Três batidas ressoaram e ela soube que enfim os visitantes chegaram. Deu passos apressados em direção a pequena sala.

A madame estava tão elegante como sempre. Seu vestido era verde pistache bem justo no busto e solto da cintura para baixo e com muitos bordados de fios de ouro nas pontas das mangas. Sua maquiagem era leve e sua coroa contrastava com os bordados e o pingente de esmeralda. O olhar da mulher era severo e esnobe, parecia detestar estar naquele lugar.

— Acho que me lembro de tê-la ensinado boas maneiras- disse por fim — Mas caso não se lembre deve-se cumprimentar os visitantes.

— Sim, madame- começou Mona.

— Sim, minha rainha- corrigiu a nobre mulher.

— Por favor, mamãe- começou a jovem garota que adentrou o lugar- Deixe as lições para mais tarde. Estou cansada da viagem.

A menina se chamava Alva e o nome fazia jus a sua pele pálida e aveludada. Seu cabelo negro adornado com um diadema de lápis lazuli combinava perfeitamente com o azul tão profundo de seu vestido. Seus lábios eram naturalmente rosados e contrastavam com o verde de seus olhos meigos.

— É um prazer revê-la, princesa Alva- Mona tentou desviar o olhar enquanto falava. Não queria ser hipnotizada por tal beleza.

— Igualmente- Alva esboçou um sorriso sereno.

— Como tem passado senhora?- indagou a rainha à velha Hildegard.

A senhora encarou a rainha por alguns instantes antes de dar de ombro e se virar para pendurar a chaleira com água acima do fogo que estalava sem parar.

— Creio que não vamos nos demorar por aqui- prossegui a rainha enquanto analisava os movimentos da velha- Por que não sai para passear um pouco, Alva querida?

A princesa pareceu surpresa. Ela sabia que sua mãe detestava as visitas a choupana mesmo sendo um costume de muitos anos. Agora que ela sabia o motivo de Mona vir sendo treinada durante todo este tempo deduziu que a mãe queria ficar a sós com a velha senhora.

— Venha, Mona- Alva segurou a mão da outra garota – Soube que as flores estão mais bonitas este ano. Vamos colhê-las para fazer coroas.

Mona olhou da madame para a velha esperando um sinal de aprovação mas ambas pareciam não se importar com o que ela fazia ou deixava de fazer. Então ela simplesmente seguiu a pequena Alva.

Depois que a porta bateu às costas das duas mulheres a rainha puxou uma cadeira qualquer e sentou-se ereta.

— Aceitaria um chá de cidreira, Zênite?- disse a velha sorrindo para a elegante mulher que a encarava com desprezo.

— Para você é Vossa Majestade, velha. — a voz da rainha saiu irada.

— Para mim será sempre Zênite- o sorriso da velha se tornou malicioso — Ou você por acaso se esqueceu de quem a ajudou a ser rainha?

. . .

Mona e Alva saíram de mãos dadas como as duas melhores amigas que sempre foram desde o dia em que puseram os olhos uma na outra. A garota albina se lembrava daquele momento como se tivesse sido ontem.

A madame sempre vinha acompanhada apenas do caçador e lhe trazia algumas roupas, livros e brinquedos e para a velha apenas legumes e mantimentos. Ela dizia que fazia isso, pois tinha um coração bom e sentia pena da situação em que os pobres viviam.

Em certo dia de inverno, porém ela trouxe consigo uma criança tão bem arrumada em seus trajes de pele que mais parecia um brinquedo em tamanho real.

As duas meninas se olharam por um breve momento até a garota estranha sorrir para Mona.

— Esta é minha filha- indagou a rainha- A princesa Alva de Castanova.

Mona ainda não entendia sobre todas as formalidades que a rainha lhe ensinava, mas se a garotinha a sua frente era filha de gente importante merecia ser tratada com respeito. Fez sua melhor reverência e disse alguns floreios sobre como estava encantada em conhecer a princesa.

— Você está tão quieta hoje- a princesa interrompeu os pensamentos da albina- Desse jeito não lhe contarei o que mamãe está tramando.

Mona parou no meio do caminho e encarou o rosto de Alva como se suas palavras tivessem-na transformado em uma estátua.

— Não me diga que esta é a ultima vez que me visita?- disse a albina com a voz trêmula.

Alva largou a mão da amiga e cobriu a própria boca tentando abafar as gargalhadas.

— Pelo contrário, minha cara- disse por fim- Mamãe quer torná-la minha dama de companhia.

. . .

Zênite voltou até a carruagem para buscar algo enrolado em um embrulho de tecido. Viu que o cocheiro a encara enquanto abria a porta do veículo para facilitar sua entrada.

— Poderia, por favor, informar à princesa que precisamos ir embora? — ela esboçou seu sorriso mais afetuoso.

— Perfeitamente, majestade. — disse o homem enquanto se direcionava a estrada que a princesa e a albina seguiram.

A rainha esperou que o cocheiro se afastasse e pegou o embrulho rapidamente. Andou o mais depressa que pode e ao entrar na choupana fechou a porta com um baque estrondoso.

Tentou olhar pelas frestas de madeira da porta, mas não viu mais a figura do criado.

— Espiando, Zênite? — indagou a velha fazendo a rainha se virar assustada- Achei que já tinha perdido esse mau hábito.

— Cale a boca, bruxa! — a rainha empurrou o embrulho nas mãos ossudas de Hildegard com tanta força que a fez cambalear- Livre-se dessa coisa antes que eu a quebre.

— Não vai quebrar- a velha desenrolava o embrulho, mas já sabia do que se tratava antes mesmo de ver- É seu passado que está aqui, e tudo o que fez para ser que é hoje... E mesmo que quebrasse o passado está impregnado dentro de você.

— Que seja!- a rainha parecia cada vez mais nervosa à medida que Hildegard desenrolava o objeto revelando assim que se tratava de um espelho feito de ouro branco e incrustado de belíssimas pedras negras e roxas.

— Eu sempre achei que Denera merecia um destino melhor- a velha encarava sua imagem na superfície reflexiva como se tivesse encarando outra pessoa- Quão longe a ambição pode chegar não é mesmo, Zênite?

A rainha a encarou com imensa fúria, mas antes que pudesse proferir qualquer palavra ouviu barulho de passos e risadas se aproximando da choupana.

Recuperou seu ar majestoso e direcionou-se a porta.

— O que exatamente eu devo fazer com isto?- disse a velha fazendo a rainha parar por um instante.

— Faça o que achar melhor- Zênite atravessou a porta para fora daquele ambiente sem nem ao menos olhar para trás.

. . .

A despedida foi mais breve do que todas as outras. A madame parecia apressada e Mona não teve coragem de confirmar a notícia que Alva lhe dera.

Ela ficou tão extasiada que nem ao menos havera notado que já estavam no campo de margaridas.

As duas meninas tagarelaram alegremente sobre como seria a vida na corte, os bailes que ambas freqüentariam e as noites que se esgueirariam sorrateiramente até a cozinha para roubar bolos de frutas e xícaras bonitas para a festa do chá secreto.

O cocheiro as chamou mais cedo do que de costume e quando a princesa o questionou apenas disse que eram ordens da rainha.

Depois que a carruagem ia longe Mona correu para a choupana para tirar o vestido e os sapatos e se enfiar em sua velha roupa esfarrapada.

Quando adentrou o lugar a velha Hildegard estava segurando um espelho magnífico que a garota imaginou que compraria todas as coisas boas que o mercado da cidade poderia oferecer.

— Que bonito!- começou a menina- Quem lhe deu isso, mama Hild?

— Mama Hild, ahn? — a velha deu uma gargalhada gostosa antes de se sentar na cadeira- Só me chama assim quando quer algo.

Ela deu tapinhas leves na coxa ossuda chamando a menina para se sentar. Mona subiu rapidamente e se aninhou a velha como sempre fazia quando ela escovava seus longos cabelos.

Hildegard deixou que a menina segurasse o espelho e encarasse o próprio reflexo por um longo momento.

— Você gosta do que vê pequena? — a velha começou a destrança o longo cabelo branco da garota. — É da rainha, sabia?

A garota encarou o reflexo da velha atrás do seu com ar de questionamento.

— Ela me entregou e disse que eu podia fazer o que queria- prosseguiu a velha relutando com o cabelo- Talvez eu o quebre ou...

— NÃO!- a garota pulou de uma vez e abraçou o espelho de mão contra o peito- Isso é bonito demais para ser quebrado.

A velha estudou a fúria da menina e deu um longo suspiro.

— Você o quer, não é mesmo?- Hildegard encarou a albina como se esta fosse alguém que conheceu no passado- Tão egoísta quanto à rainha... Mas pode ficar com ele.

Mona ficou boquiaberta de emoção e pulou novamente no colo da velha quase fazendo-a cair. Encheu suas bochechas murchas de beijos calorosos e correu para o quarto com seu mais novo tesouro.

Namorou o espelho por horas a fio tentando encontrar um lugar adequado naquele quarto humilde onde ele pudesse ficar, mas como era um espelho de mão e não tinha como colocá-lo na parede decidiu dormir agarrada ao objeto com medo de que a velha mudasse de ideia no meio da noite e o quebrasse.

. . .

A velha caminhava lentamente segurando um pires com uma vela já gasta e acesa.

Aproximou-se da cama da menina que dormia profundamente abraçada ao espelho que brilhava a chama da vela.

— Não se pode fugir do destino, pequena...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.