Mágica - Livro I
1 Prólogo
Notas iniciais
A cidade estava estranhamente silenciosa. Sem comerciantes compartilhando invenções fantásticas ou cozinheiros de barraquinhas de rua utilizando fogo de salamandra para manter seus pratos aquecidos. Desde que os ataques começaram, as horas úteis do dia passaram a acabar cada vez mais cedo e a iluminação urbana alimentada pelo fogo das fadas auxiliava apenas uma ou outra alma azarada que ainda estava no trajeto para casa.
Em uma casa escondida no fim de uma rua sem importância, onde o interior era maior que o exterior, uma família incompleta aguardava. As duas meninas, filhas desta família, dormiam em um quarto compartilhado decorado pelas imagens de dragões dóceis. O pai aguardava impaciente, ocupando um lugar à mesa próxima a lareira, seus dedos tamborilavam sobre a superfície de madeira e seus cabelos castanhos e cheios incomodavam os próprios olhos, o que o fazia repetir o movimento de passar a mão pela testa os colocando para trás. O som de clique da porta se abrindo o fez levantar os olhos rapidamente, esperançoso, e uma mulher de cabelos loiros e crespos entrou apressada.
— Até que enfim! – ele exclamou contendo o volume da própria voz, reconhecendo a própria esposa.
— Desculpe. – ela respondeu começando a preparar explicações
— Tudo bem, você está inteira. – ele se levantou para abraçá-la e foi abraçado de volta.
— Mas eu não sei por quanto tempo.
— As buscas continuam?
Ambos se soltam, ela se deixa cair sobre a cadeira que ele ocupava antes, tentando descansar e organizar pensamentos.
— Continuam. – ela suspira com dificuldade de falar, ele faz um aceno com a mão que faz duas xícaras se aproximarem com bebidas quentes enquanto se acomoda no assento em frente a ela, que agradece a bebida com um aceno e segura uma xícara com ambas as mãos – Frili não foi trabalhar hoje. Ninguém sabe dela na secretaria, perguntei a todos que pude.
— Frili? Você acha que eles podem ter…? – a mulher faz que sim com a cabeça, os olhos enchem de água, já o homem tenta dar esperanças – Pode ter tido qualquer outro motivo, não se desespere ainda.
— Não. – ela faz que não com a cabeça enquanto uma lágrima cai – Eu procurei a família dela, ela não chegou em casa depois do trabalho ontem.
— Pelos céus, Ari…
— E se chegaram em Frili… Logo podem chegar em mim também! – ela tenta controlar a própria voz, que fica aguda.
— Frili estava nisso com você?! – o homem fica surpreso, ela responde que sim com a cabeça tentando sorver um gole de chá – Espere… devemos ter algum tempo.
— Eu acho que eles tem um oráculo.
— Mas eles foram extintos.
— Talvez tenham esquecido de matar algum, estão avançando muito rápido!
— Temos que ter algum tempo. Teve alguma notícia de Lazlo ou dos outros?
— Sim, e quero discutir isso mesmo com você. Talvez nossa única alternativa seja fugir daqui… Até passar! Há mundos muito maiores que o nosso, e eu soube que bruxos tem conseguido se esconder em alguns deles com sucesso. O Lazlo mesmo…
— Eles não conseguiram ajuda em nenhum outro mundo?
— Ajuda? Não. – ela respira fundo – Pensa em ficar?
— Eu… eu tenho medo de um mundo desconhecido!
— Cícero, não há lugar aqui onde não vão nos encontrar. No começo eu não achei que seriam tão violentos, só que eu aceitei estes riscos quando entrei nisso! Mas imagine se fazem algo com você! Ou com nossas filhas! – o desespero faz ela falar mais alto, ele faz um sinal para que ela abaixe o tom de voz, ela suspira e tenta relaxar na cadeira.
— Ari… – Cícero descansa os olhos sobre as mãos com os cotovelos apoiados na mesa, tentando não engasgar ou chorar – É realmente seguro?
— Sim. – apesar da voz trêmula, ela é sincera – Depois de passarmos pelo portal, é praticamente impossível identificarem para qual mundo fomos. E como estão indo para mundos mais populosos, não tem como nos acharem.
— Certo. – ele respira ansioso com o quão rápido precisa tomar uma decisão – E vamos todos juntos então. Quando?
— Claro. Eu vou tentar me comunicar com Lazlo de novo. Vamos compactar nossos pertences o máximo que pudermos e deixar as crianças prontas, pode ser a qualquer momento. – ela pega as mãos do esposo – Estaremos seguros.
— Eu sei… Mas por favor, sem mais heroísmo, Ariane.
— Meu bem…
— Ficaremos juntos e seguros. Se você resolver que quer ficar e tentar lutar…
— Cícero! Minha prioridade é você e as crianças.
— Me prometa.
— Eu prometo.
Com a resposta dela, um círculo dourado se forma no ar iluminando o ambiente, com simplicidade ele estoura feito bolha de sabão e desaparece, deixando o cômodo mais próximo da escuridão outra vez.
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