Lúcifer
8 Hospital
Pela primeira vez, fiquei mal por causa de Lúcifer.
Quando me contou sobre o assassinato e não me deixou ir embora daquele lugar cheio de arvores, fiquei irritada, com medo, nervosa. Mas não triste, talvez só comigo mesma por ter sido inocente. Mas agora é diferente, não sei o que é, mas sinto algo por Lúcifer. E ele disse que gostava de mim, me abraçou, me beijou... Por que não me ouviu e parou o maldito carro?
Estava tudo bem, eu me sentia ótima. Então depois do beijo, entramos no carro e saímos do shopping. O caminho era longo, o rádio tocava músicas que gostamos, começou a chover e eu achava que era impossível ficar melhor. Lúcifer sorria e eu sempre sorria de volta.
Então de repente, ele atropelou um homem que passava pela rua. Não haviam outros veículos e pessoas naquela estrada, só algumas casas simples ao redor. Pensei que fossemos parar, levar o homem a um hospital e pedir desculpas, mas nada disso aconteceu. Lúcifer segurou firme o volante e acelerou o carro.
— Para! A gente precisa ver se ele tá bem — gritei.
— Não — disse olhando fixamente para frente.
Eu queria empurrar-lo e pisar no freio, mas infelizmente nem sabia onde o freio ficava.
— Por favor Lúcifer! Precisamos ajudar ele! Porque não quer parar? Medo de ser preso? Se deixarmos ele na rua vai ser pior — tentei convencer.
— Não! Ele nem viu a placa.
— Lúcifer, pare a merda desse carro agora! Como consegue ser tão frio? — perguntei ficando irritada.
— Já disse que não vou parar! Chega Alice! — gritou me encarando.
Eu não podia simplesmente aceitar, então tive uma péssima ideia. Fiquei muito nervosa e precisava sair daquele carro. Fui impulsiva. Sem pensar duas vezes, com o carro em movimento, abri a porta e me joguei. A queda me fez quebrar o braço e sair rolando pela rua.
Logo depois, Lúcifer freou o carro com força e saiu correndo em minha direção. Não senti muita dor na hora, só queria voltar no tempo, queria que estivéssemos no carro indo pra casa sem que nada disso tivesse acontecido. Eu queria chorar, mas não consegui, então ainda no chão, gritei. Gritei o mais alto que pude, até Lúcifer chegar onde eu estava e me levantar.
— Desculpa! Desculpa. Desculpa, Alice. Desculpa — repetiu me abraçando — vou levar voces no hospital. Vou voltar, pegar aquele homem e levar os dois no hospital.
Comecei a chorar com ele ainda me abraçando. Eu devia ter ouvido meu irmão e me afastado dele antes disso acontecer. Devia ter dito que não queria mais ver ele, mas eu estaria mentindo. Estava brava comigo mesma e magoada com Lúcifer.
* * *
O homem que Lúcifer atropelou se chamava William e tinha 42 anos. Felizmente ele só teve alguns arranhões e desmaiou na hora da queda. Já eu, precisei engessar o braço. Lúcifer parecia tão chateado quanto eu, mas fui fria com ele. Quando estávamos sentados no banco esperando o médico chamar, Lúcifer sussurrou no meu ouvido:
— Desculpa, Alice. Vai ficar tudo bem, eu prometo.
Depois segurou minha mão, mas eu soltei e cruzei os braços. Olhei para o relógio do hospital e eram 23:05h, já estava pensando em qual mentira inventaria para meus pais quando vissem meu braço.
William não quis prestar queixa, chamou alguém da família e foi embora antes que eu. Depois Lúcifer me levou para casa. No caminho, ele tentou varias vezes me fazer conversar com ele, puxar assunto, mas eu só respondia o necessário seriamente. Alguns minutos depois chegamos e ele fez questão de abrir a porta do carro pra mim.
— Eu estraguei tudo, não é? — perguntou me acompanhando até o portão de casa. Não respondi — Vamos continuar nos vendo, não é?
— Quem faz um monte de perguntas sou eu, lembra? — parei e nos encaramos.
— Eu sei que talvez, depois do que eu fiz, você não acredite muito em mim mas... Era verdade Alice, eu gosto de você. E me senti péssimo quando vi você se machucar.
— Tá. Tchau Lúcifer — disse olhando para o chão. Entrei em casa.
Ninguém me viu passar pela porta, então fui direto ao meu quarto. Não consegui parar de pensar em tudo que aconteceu. Meu braço estava dolorido, meu corpo cansado e parecia que minha cabeça explodiria a qualquer momento.
Como Lúcifer conseguia me fazer tão bem e tão mal ao mesmo tempo?
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