Notas iniciais
- Ele é um pouco longo mas eu não consegui ele de uma forma curta sem fazer ele perder informação. - Espero que a história seja boa para prender vocês até o fim.

Começa mais um dia comum no Internato Crosslight, o que para Christopher, ou Chris, como preferia ser chamado, mais um dia terrível. Ele achava irônico o fato de que apesar de seu internato ser no plano celestial, cada segundo naquele lugar era um verdadeiro inferno. Ele entendia o fato de sua mãe o ter posto lá. Além da depressão dela ter se agravado desde que o marido dela morreu, de modo que ela não queria que o seu filho a visse daquela maneira, ela queria que ele tivesse uma formação angelical, para que os genes demoníacos herdados do pai não o influenciassem para o mal.

Tudo bem para ele estudar em um internato, ele queria que a mãe se sentisse bem. Só que havia um problema. Se ele se passasse por anjo ele poderia estudar e viver tranquilamente, mas por ser um Neo Nephilim, ele possuía um cabelo acinzentado, que denunciava a existência do seu gene demoníaco. Isso fazia com que seus colegas de classe e colégio nutrissem um ódio latente por ele. Pois como aquele internato era de alto nível, a grande maioria dos alunos eram anjos puros, quase puros, que eram ensinados desde o berço a não gostarem de demônios. Dessa maneira, ele era discriminado e maltratado pela maioria deles, e o resto nem sequer lhe dirigia o olhar. A única exceção a essa regra era Keith. Ele era um colega de classe de Chris, ambos tinham a mesma idade, e eram discriminados da mesma forma. Keith era discriminado por ser um Lumos, nome designado para quem possuía mais genes humanos do que angelicais. Tanto o cabelo quanto os olhos dele eram Castanho-Escuros, diferente da maioria dos estudantes dali, que possuíam cabelos e olhos claros. A solidão de ambos os uniu, de forma que acabaram se tornando amigos.

O dia em Crosslight começava cedo. As classes matinais eram obrigatórias para todos os alunos, que incluíam as matérias básicas de ensino. Em seguida havia o almoço, e logo após haviam as classes opcionais, que eram limitadas de acordo com o grau de cada aluno. Chris e Keith tinham 15 anos, e eram do 7º Grau, então as aulas opcionais que eles tinham acesso eram Introdução à Magia Angelical Básica, Culinária Celeste e Introdução a Engenharia Celeste Básica. Chris e Keith eram assíduos da primeira, e Keith frequentava a terceira sozinho, devido ao desinteresse de Chris em mecânica. Chris mal podia esperar pelos próximos anos, onde seriam permitidas a ele as classes de Esgrima, Magia Avançada, Táticas de Combate e Luta Corporal, que só eram permitidas a partir do 8º Grau, para que os alunos treinassem para ingressar no exército.

Era uma tarde de quarta feira, então nenhum dos dois teriam aula. Eles almoçaram em uma mesa isolada na cafeteria, como sempre, e se dirigiam ao seu esconderijo, um galpão abandonado nos fundos do internato.

– Então Keith, pronto pra hoje?

– Estou meio cansado por causa das aulas, mas acho que posso treinar um pouco.

Como nenhum dos dois possuía matérias relacionadas a combate, e as magias que eles aprendiam eram apenas magias de cura, eles iam ao galpão e treinavam por si mesmos. O galpão era de certa forma escondido do internato, pois ficava próximo ao muro traseiro. O portão de entrada era trancado, então eles entravam por uma fenda aberta em uma das paredes do galpão. Era o local onde eles podiam ter paz e ficar longe das pessoas que os odiavam. Eles entraram, e Chris pegou dois canos de metal, dando um a Keith. Era o mais próximo que eles poderiam ter de uma espada, a arma predileta de Chris, com a qual era acostumado desde criança, já que no internato era proibido que alunos portassem armas.

– Preparado Keith?

– Claro!

Ambos se posicionaram, um de frente para o outro, e se puseram a trocar golpes. Chris já tinha prática com a espada, então acabava por levar a dianteira da luta. Keith era rápido, e bloqueava a maioria dos ataques, mas não conseguia abertura para contra atacar. Chris desferiu um golpe um pouco forte demais, e Keith não defendeu a tempo, de forma que o cano atingiu em cheio o seu braço, fazendo ele cair de joelhos.

– Ai!

– Foi Mal!

– Acho que já deu por hoje, Chris.

– Você é um fracote, haha.

– Não fale isso, idiota!

Keith lançou o seu cano na direção de Chris, que desviou e começou a rir. Keith também caiu na gargalhada. Até que eles ouviram passos e se calaram.

– Posso saber do que as duas moças estão rindo?

Eles reconheceram a voz e o tom de deboche.

– Axel!

– Oi, Cinzento!

De todos os caras de Crosslight que pegavam no pé de Chris e Keith, Axel Lent era o pior. Por ser um anjo puro, de um clã renomado, ele achava que era melhor que todo mundo, tinha a aparência de um anjo perfeito para os padrões de Crosslight, cabelo loiro, longo e liso, e um par de olhos azuis. E ele tinha um prazer especial em perturbar os dois sempre que os via, com as clássicas pegadinhas. “Cinzento” e “Sangue Sujo” eram apelidos “carinhosos” dados a Chris e Keith por ele. Ele já chegou a dar uns tabefes nos dois, mas se recolhia sempre que algum professor ou coordenador passava por perto. O galpão também servia como esconderijo dele. Até esse dia.

– Como você nos achou?

– Não é óbvio? Eu segui vocês.

– Eu pensei que sua aula de esgrima fosse hoje.

– Pensou correto. Mas infelizmente o professor não pôde comparecer hoje, então eu pensei em fazer uma visitinha a vocês. Vi vocês andando nessa direção e decidi vir junto.

– Tá, você já nos visitou, agora já pode ir embora.

– Calma Quatro-Olhos. Quero dar uma olhadinha na toca de vocês, pode ser?

– Como é?

Axel se virou, e começou a observar o lugar minuciosamente, e olhava para os arredores como se estivesse planejando alguma coisa.

– Então é aqui que vocês se escondem nos tempos livres. E até espaçoso. Acho que vou transformar esse lugar na nova base do meu clube.

Axel fazia parte do clube de esportes do internato, e era o líder. Os colegas de clube dele muitas vezes ajudavam Axel a enfiar a cabeça dos dois na privada. A ideia de perder o único local de paz que os dois tinham irritou Chris.

– Nós não iremos permitir isso!

– O que você disse, Cinzento?

A raiva que Chris nutria por Axel era enorme, e a cada palavra debochada que ele falava, ela só aumentava. Ele ia responder, mas Keith se adiantou.

– É isso aí! Você e aqueles idiotas do seu clube de babacas vão ter que achar outro lugar!

Axel desviou o olhar para Keith, e dessa vez ele estava com uma carranca de raiva ao invés de um sorriso de deboche.

– Como ousa! Não fale assim comigo, seu verme!

Ele correu na direção de Keith e o pegou pelo pescoço, enforcando-o.

– Lembre-se, seu verme! Estamos em um lugar isolado aqui. Não há professores por perto para me impedir de te dar uma surra!

– Chr... ris... Agh...

– Keith! Solta Ele agora!

– Me obrigue!

Axel começou a rir e apertou ainda mais forte. Chris sacou o cano de metal na sua mão e foi pra cima.

– SOLTA ELE!

Chris girou o cano com toda a força que tinha, mas Axel levantou o braço, e o cano retiniu no bracelete de aço que ele usava.

– Ele defendeu... sem nem sair do lugar...

Ele estava assustado. Um golpe dado com força foi repelido por Axel facilmente. Ele soltou Keith, o que era um alívio para Chris, mas se virou em sua direção com a raiva estampada em seu rosto.

– Você vai pagar por isso, verme!

Axel armou um soco, e Chris atacou com o cano de novo, mas Axel o segurou com a outra mão, desferindo um golpe em cheio no peito de Chris, o jogando no chão e tirando o cano de sua mão.

– Vou te dar uma surra seu bosta!

Ele foi em direção a Chris, com o cano em punho. Felizmente, Chris caiu próximo de onde Keith tinha jogado o seu cano, e conseguiu pegá-lo a tempo de defender o golpe de Axel. Os dois canos retiniram, e Axel deu um passo para trás, dando tempo de Chris se levantar.

– Você teve sorte agora, mas sua sorte já acabou!

Axel partiu em direção a Chris, e começou a desferir golpes contra Chris, da mesma forma que Chris desferiu contra Keith enquanto treinavam. Chris era mais rápido, porém Axel era bem mais forte. Por ser um aluno do 9º Grau, ele já tinha dois anos de treinamento de combate, era mais preparado que Chris, que só tinha as aulas de esgrima dadas por seu pai antes de sair de casa e nunca mais voltar. Axel seguiu dando golpes até que em um momento de distração de Chris, o acertou com um chute, empurrando Chris para trás.

– É só isso que você tem, seu merdinha? Achei que você fosse mais divertido.

Chris se pôs a pensar. Ele virtualmente não tinha chances de vencer Axel em uma luta corpo a corpo, nem usando os canos como espada. Não conhecia nenhuma magia de combate sem ser a Esfera de Luz, a técnica mais básica, que com certeza Axel já conhecia. Apesar de ser um Neo Nephilim, não tinha conhecimentos de magia demoníaca, visto que sua mãe o tinha proibido de treinar até que fizesse 16, e nem magia arcana, que nem seu pai nem sua mãe sabiam manusear, mesmo tendo genes humanos. Ele só tinha duas escolhas, continuar assim e levar uma tremenda surra ou usar seu poder angelical e diminuir o tamanho da surra. E assim ele fez sua escolha.

– O que foi, Cinzento? Cansou?

– Claro que não! Só estou equilibrando um pouco as coisas.

Ele concentrou seu poder, e uma aura dourada começou a emanar do seu corpo. Axel se assustou por um momento, mas depois percebeu o que estava acontecendo e sorriu.

– Pelo visto você consegue fingir que é um de nós, se quiser.

O cabelo de Chris tinha se tornado loiro e menos espetado e seus olhos estavam brilhando num tom de azul com dourado. Ele tinha assumido seu aspecto angelical, emanando energia divina. Ele poderia usar essa forma para se disfarçar de anjo no Internato, se não fosse a intensa radiação de luz que emanava do corpo dele ao fazer isso.

– Não é só isso que eu sei fazer.

A aura aumentou e brilhou mais.

– Força Angelical! Deva!

Chris irrompeu em uma torre de luz, de forma que Axel tampou os olhos para não ficar momentaneamente cego. Por cima da sua farda surgiram peças de uma armadura prateada em vários pontos, com adornos dourados. Um par de asas de energia branca surgiu nas suas costas. No peitoral trazia o brasão do clã de sua mãe.

– Então quer dizer que você já consegue entrar em modo de combate? E ainda por cima é da classe Deva? Que coincidência.

Cada anjo pertencia a uma classe, que era decidida na primeira vez que um anjo assumia forma de combate. Chris era um Deva, ou seja, era um anjo especializado em combate corpo a corpo. Além dos Devas existiam outras classes como Archangel, especializado em magia avançada, tanto de combate como de suporte, e Principality, especializado em armas a distância, como arcos e pistolas. Axel se pôs a analisar a armadura de Chris, até que viu algo que o assustou.

– Esse... Esse brasão...

– O que tem o meu brasão?

– Esse é o brasão da cruz de lótus! Você é do clã McBlanc? Pensei que seu sobrenome fosse Walker!

– Walker é o sobrenome do meu pai. McBlanc era o nome de solteira da minha mãe. O que te importa isso?!

– Entendo. Você não conhece o próprio clã, garoto?

– Não, minha mãe nunca me levou para conhecer a família dela, eu uso esse brasão por causa dela, que sempre o usou.

– Hahahaha. Agora eu achei engraçado. Além de ser um verme híbrido, é exilado de um clã, ainda que dos mais poderosos! Hahahahaha, você é uma piada ambulante, garoto! Sua mãe provavelmente foi exilada depois que você nasceu, hahahahaha.

Chris parou pra pensar. Sua mãe sempre usou o brasão do clã, apesar de nunca falar nada sobre ele. Ele nem mesmo sabia que vinha de uma família poderosa de anjos. Ele sempre morou com sua mãe na Terra, desde que nasceu. Ele nunca soube onde a mãe foi criada. Agora que ele raciocinou, o que Axel falou fazia sentido. Ela podia ter sido expulsa do clã por ter tido um filho com um demônio. Ele tiraria isso a limpo quando retornasse a sua casa no recesso. Agora seu problema maior era Axel, que não parava de rir.

– Pare de rir, seu idiota!

– Hahahahaha, é muito difícil, você é muito patético, hahahahah! Sua mãe deve ter sido a vergonha do seu clã! Hahahahahah!

– Não fale assim da minha mãe!

Ao perceber o tom de voz raivoso de Chris, Axel parou de gargalhar e assumiu um tom um pouco mais sério.

– Heheh, agora a diversão vai começar...

Axel começou a emanar uma aura dourada do corpo, da mesma maneira que Chris fez.

– Força Angelical! Deva!

Logo outra torre de luz irrompeu no galpão, e segundos depois, Axel estava coberto com uma armadura semelhante à de Chris, exceto pelos adornos e pelo brasão.

– Hehehe, agora está tudo igual. E o mais interessante é que você tem o mesmo número de anéis sagrados que eu, mesmo sendo um verme híbrido. Eu não entendo isso.

Vendo a transformação de Axel, Chris percebeu isso. Ele tinha quatro anéis dourados com runas angelicais no seu braço direito. Apesar disso, ele não sabia o que isso queria dizer, e isso ficou estampado no seu rosto.

– Você não sabe o que eles são não é? Você é burro feito um verme mesmo. Os anéis servem para indicar o grau de pureza e poder de um anjo. Geralmente vermes feito você e o Quatro-olhos ali só deveriam ter um anel. Mas você tem quatro. Não sei como. Só sei que não vou aceitar ser posto no mesmo nível que você! Vou arrancar esses anéis um a um!

Chris percebeu que Keith ainda estava desacordado, mas não teve tempo de pensar em mais nada porque Axel veio em sua direção, brandindo um punho brilhando de energia.

– Punho de luz!

O soco passou raspando pelo rosto de Chris, que possuía reflexos treinados. Mas assim que percebeu que errou o golpe, Axel desferiu um chute nas costelas de Chris, que estavam desprotegidas, derrubando-o no chão. Meio desajeitado ele conseguiu rolar antes de cair, encostando no muro do galpão. Axel sacou a barra metálica e avançou com ela no peito de Chris, mas novamente ele desviou, e a barra avançou no muro, ficando presa nos destroços. Chris aproveitou a deixa.

– Esfera de Luz!

Chris criou uma esfera de energia luminosa em sua mão, e a explodiu em cheio no estômago de Axel, que foi empurrado para trás no impacto brilhante da esfera. Se recuperando, levantou o rosto na direção de Chris. Apesar do golpe, ele parecia intacto.

– Hahahahaha! É com isso que você quer me derrubar? Patético. Eu estava só brincando com você, mas a sua arrogância me deixou irritado, não vou mais pegar leve com você!

– Eu que sou arrogante?! Eu não mereço ouvir isso!

– Calado! Vermes não têm o direito de falar! Esfera de Luz!

Axel criou uma esfera de luz semelhante à que lhe atingiu, e a atirou em direção a Chris.

– Escudo de Luz!

Em resposta, Chris levantou o braço esquerdo, que possuía mais armadura, e projetou um escudo de energia luminosa por cima dele, defendendo o golpe. Porém a explosão de luz o deixou momentaneamente cego. Quando recobrou a visão, Axel estava com uma esfera maior que a anterior.

– Esfera Explosiva Divina!

A enorme esfera foi em direção a Chris mais rápido do que pudesse desviar, então levantou novamente o escudo, mas não foi o suficiente, e o escudo virou pó na explosão.

– AAAAARGH!

– HAHAHAHAHAHA! Doeu, Cinzento?!

– Maldito...

Chris estava atordoado demais pra raciocinar ou reagir. Quando olhou para Axel, ele estava carregando energia novamente, desta vez no seu braço direito.

– Vou te finalizar com esse truque que aprendi semana passada. Disparo Divino!

Axel mirou em Chris e desferiu a energia, que voou em sua direção como um laser, e fechou os olhos, mas não sentiu o golpe.

– Argh...

Chris abriu os olhos e viu Keith na sua frente, ajoelhado. Ele tinha se jogado, na frente do golpe sem proteção e foi atingido em cheio. Keith olhou pra ele, com a dor estampada em seu rosto.

– Saia... daqui...

– Keith, não! Seu idiota!

Ele fechou os olhos e caiu no chão à frente de Chris, inconsciente. Chris viu as costas queimadas e sangrando de Keith, e olhou para Axel, que ria psicopaticamente como se tudo fosse uma grande piada. Chris se encheu de fúria e ignorou totalmente o conselho do amigo, partindo em direção a Axel.

– MALDITOOOOOOOOO!

Axel viu Chris se aproximando, mas não saiu do lugar. Quando ficou próximo o suficiente, se abaixou, desviando do soco de Chris, e subindo com a mão no pescoço dele.

– Cego de fúria, é ainda mais engraçado e patético. E ainda mais fraco!

Chris foi atingido por um soco no estômago e jogado pra longe com um chute. Do chão, ele viu Axel, rindo ainda mais alto.

– Sinceramente, achei que seria mais divertido. Já acabou a sua força?

Com o corpo profundamente dolorido e ainda atordoado, Chris não tinha força pra levantar. Só lhe restava aguentar e ouvir.

– O panaca do seu amigo se jogou na tua frente pra te salvar e você ao invés de correr, fez exatamente o contrário. Você é mais burro do que eu imaginava.

– Hngh...

– Não consegue nem falar? Ridículo. Quem sabe se eu explodir o seu amigo novamente eu não te faço gritar de novo...

Ele encheu a mão de energia e virou na direção de Keith. Chris levantou o braço com dificuldade, pedindo misericórdia, mas não foi o suficiente.

– Disparo Divino.

– Não!!

O Disparo explodiu nas costas de Keith novamente. O corpo inconsciente tremeu no chão, mas não houve reação. Chris só sentia a raiva correndo pelo corpo. Axel olhava e ria.

– Você... vai... pagar!!

– Ah, você fala? Achei que o gato tinha comido a sua língua.

Chris sentiu uma energia estranha percorrendo seu corpo. Era diferente, mas ao mesmo tempo revigorante. Reuniu energia o suficiente para levantar. De costas para Axel, deixou a energia tomar conta do seu corpo. Axel olhou para aquela cena surpreso e assustado. A energia começou a emanar pra fora de Chris, era escura, roxa e densa. O ar em volta dele tremia, e Axel podia sentir a vibração. Chris olhou de canto de olho para Axel.

– Acho que tenho que te agradecer... suas “brincadeiras” acordaram algo que estava adormecido nas profundezas da minha alma...

A voz de Chris tinha mudado, distorcido. Era como se outra pessoa estivesse falando por cima da voz dele. A energia começou a se condensar em volta do corpo de Chris, formando uma esfera negra de energia negativa, que pulsava com poder.

– Não pode ser...

A esfera pulsou mais uma vez e se desfez. Mas no lugar do aluno de Crosslight com a farda surrada e o rosto sangrando, havia uma criatura totalmente diferente. Tinha uma pele cinzenta, coberta por um couro roxo-escuro e placas negras em algumas partes. Dos seus joelhos, cotovelos e ombros saíam pontas de energia. Havia rupturas pelas quais escapava energia em várias partes. Seus cabelos antes cinzentos agora estavam negros, o branco dos seus olhos se tornou preto, e as suas pupilas se tornaram vermelhas. Um par de chifres saiu das suas têmporas. Ele olhou para Axel e esboçou um sorriso.

– Vamos equilibrar as coisas agora.

Axel estava totalmente embasbacado com a cena. Ele tinha o olhar fixo pelo medo, e tremia sem se mover. Chris levantou um dos braços e carregou energia negativa.

– Esfera Negra!

O projétil voou numa velocidade absurda, e o estado de choque de Axel não o permitiu desviar, e foi atingido com força, sendo jogado para trás na explosão. Recobrando a consciência, usou as asas para aparar a queda. Dessa vez o golpe tinha realmente lhe ferido, e logo levou a mão ao peito para se curar.

– Não vou te deixar se curar!!! Garra das Sombras!!

A mão de Chris já possuía o formato de garra, mas a energia que se condensou em volta dela criou uma maior e mais monstruosa, que pulsava com energia. As placas negras em suas costas se levantaram, e duas asas de morcego surgiram, e com elas Chris voou rapidamente em direção a Axel, atingindo-o em cheio.

– AAARGH!

– HAHAHAHAHAHAH, DOEU? QUEM É O VERME AGORA?

As unhas de Chris se cravaram no estômago de Axel, e o carregaram no voo.

Os dois voaram em direção a um dos muros, e Chris o soltou pouco antes da colisão, fazendo Axel sofrer todo o impacto sozinho.

– AAAAH!

Chris pousou à frente de Axel e se pôs a rir. Ele sentia sua fúria e seu poder crescendo a cada segundo. O seu adversário estava atordoado, porém consciente. O dano causado pelos golpes de Chris aparentemente tinha destruído a armadura de batalha de Axel.

– Arrependido, Axel?

– Hah... Nunca... Só fiquei um tanto chocado com a cena...

– Então você ainda consegue falar? Vou providenciar para que isso não seja mais possível...

Ele levantou a garra e carregou energia novamente, porém Axel começou a rir, como se fosse ele que estivesse ganhando.

– Tanto poder nas mãos... E ainda tão patético...

– O que disse?!

Axel virou o rosto e cuspiu sangue, mantendo o sorriso de escárnio. Sua voz estava fraca e saía com dificuldade, mas ainda continuou falando.

– Você continua sendo um verme... recorrendo à fúria para vencer uma batalha... Eu tenho pena da sua mãe...

– NÃO FALE DA MINHA MÃE!

– Pena... Ser expulsa do clã... Por parir um verme demônio como você...

– NÃO. FALE. DA. MINHA. MÃE!

– Verme...

– RUAAAAARGH!!

Chris se deixou cair nas provocações de Axel, e a fúria tomou conta do seu corpo. Ele explodiu numa torre de energia negra, que rompeu o teto do Galpão. Seu corpo se modificou novamente, perdeu a forma humana, e se tornou um ser dracônico. Um dragão moldado na energia negra, que com as quatro patas no chão era tão alto quanto Axel.

– VOCÊ... VAI... MORRER!!!

A voz era ainda mais distorcida e macabra. Chris estava fora de si. Ele abriu a boca e começou a formar energia. Axel sabia que se fosse atingido por aquilo morreria, mas sabia que não morreria hoje.

– MORRRAAAAA!

Chris estava a ponto de soprar a energia carregada, mas um grosso feixe de luz explodiu na sua cabeça. Antes que pudesse reagir, 5 correntes de luz prenderam os seus membros e pescoço. Ele viu um círculo mágico angelical se formando abaixo dele, seguido de uma forte dor.

– Selo Divino! Contensão do Mal!

Do Círculo mágicou subiu uma forte luz, formando uma esfera de energia em volta dele, soltando raios que varriam a energia negativa do seu corpo. A forma demoníaca de Chris tinha sido forçadamente contida. Ele recobrou a consciência por poucos segundos, e ainda conseguiu ver vários anjos adultos chegando no galpão, e um deles vindo em sua direção. Após isso tornou a desmaiar.

...

Chris finalmente acordou. Parecia que havia dormido por séculos. Seu corpo estava profundamente dolorido. Ao abrir os olhos, tentou reconhecer o local onde estava. Uma rápida visualização lhe permitiu concluir que estava na enfermaria do Internato. Ao tentar se mexer percebeu que estava preso pelos pulsos e tornozelos. Pouco a pouco as memórias do que havia acontecido voltavam. Ele tentou sentir a energia que havia sentido aquele dia, mas ao tentar, sentiu uma forte dor. Olhou para o seu peito e viu que havia um selo mágico gravado em sua pele. Deduziu que deviam ter posto para prevenir outro descontrole.

– Vejo que finalmente acordou, Chris.

Ele levantou a cabeça e viu a enfermeira Lyla. Ela sempre tratava de Chris quando ele levava uma surra de Axel e seus capangas, sempre sendo carinhosa. Era o mais próximo de uma mãe que ele podia ter naquele lugar. Porém ela olhava pra ele com desapontamento e tristeza.

– Acho que passou dos limites dessa vez, rapaz.

– Lyla... por quanto tempo eu dormi?

– Por quase de um dia inteiro. O que quer que tenha feito desgastou muito o seu corpo e mente.

– E o Keith? Como ele está?

– Estável. O machucado em suas costas foi grave mas já está sarando. Logo ele receberá alta. Ouvi boatos de que você atacou o Keith e o Axel, mas não tenho certeza se posso acreditar sabendo da amizade entre vocês dois. Até entendo a parte do Axel, mas...

– É mentira! Foi o Axel que fez aquilo com ele!

– Calma, não grite. Minha obrigação é tratar de vocês, não importa o que tenha acontecido. Mas quem está realmente interessado no que aconteceu é o diretor Kane. Inclusive pediu para ser avisado quando você acordasse. Quer cuidar de você pessoalmente, e eu fiquei sabendo que você não está muito bem.

– E eu alguma vez estive?

– Enfim. Está em condições? Posso chamá-lo?

– Estou com um pouco de dor, mas um analgésico vai me fazer aguentar o bode velho.

– Certo. Vou chamá-lo.

Ela trouxe um copo com água e o remédio, e fez ele tomar, e se retirou da sala.

Pouco tempo depois, dois seguranças entraram no quarto, desfizeram as correntes que o prendiam.

– Levante-se, o Diretor te espera na sala dele.

Com dificuldade, se levantou e foi escoltado pelos seguranças. Felizmente a roupa de paciente da enfermaria era algo simples e composto, pois não o permitiram pôr uma roupa normal. Chegando na sala, sentou-se na cadeira em frente ao escritório do diretor, que logo apareceu na sala. Kane era um anjo puro, de meia idade, tinha cabelos loiros e grisalhos, e uma barba grossa porém não muito grande. O terno evidenciava o seu corpo largo e parrudo. Sua presença na sala era intensa, sua força emanava silenciosamente, e Chris podia pressentir a pressão.

– Então. Você já sabe que não está em uma situação muito boa. Você quebrou uma das regras principais do Internato, e quebrou o acordo que sua mãe fez comigo para ser admitido aqui.

– Acordo? Ela nunca me falou de acordo nenhum.

– Eu só admiti a sua presença aqui porque sua mãe me pediu muito, e foi estipulado desde o começo que você estava estritamente proibido de demonstrar qualquer quantia do seu poder demoníaco. Não imagino o motivo dela não ter te contado.

– Talvez porque seja a primeira vez da minha vida que eu demonstrei tal poder.

– Como?

– Meu pai foi proibido de me ensinar a usar meu poder demoníaco até que eu completasse dezesseis. Mesmo após a morte do meu pai, ela continuou com a proibição.

– Imagino. Então o que aconteceu foi um despertar forçado. Segundo o que me foi dito, o Senhor Axel Lent estava brincando com você e com o Senhor Keith Sliven, quando você se descontrolou e atacou os dois...

– É MENTIRA!! AXEL É UM DESGRAÇADO MENTIROSO!!

Chris se exaltou e os dois seguranças tiveram que segurá-lo de volta na cadeira.

– Peço que se acalme. Bem, como os únicos presentes no local eram vocês três, e o galpão por ser abandonado, não possui sistema de vigilância, então não temos nada além da palavra de vocês. E o que nós vimos no momento que chegamos foi o Senhor numa forma demoníaca bestial, numa tentativa de assassinar o Sr Lent ferido e indefeso, e o Sr. Sliven desacordado e ferido no chão

– Outra mentira dele! Ele estava na forma angelical Deva durante a luta inteira! Podem checar os rastros de energia! Ele deve ter desativado assim que viu que alguém estava chegando!

– Nós fizemos isso. Para azar da sua alegação, a sua exibição de energia demoníaca varreu qualquer rastro de energia angelical anterior à nossa chegada. Ainda assim, você feriu e tentou matar o Sr. Lent, isso é comprovado, e como disse antes, é uma quebra às regras da escola.

Chris rangeu os dentes. No fim de tudo, Kane estava certo. Ele tinha se descontrolado e tentado matar Axel, o que não ocorreu por questão de segundos. Só restava a ele aceitar as consequências.

– Nada a declarar.

– Diante dos fatos, terei que declarar a sua expulsão. Por enquanto é tudo o que posso fazer. Farei uma investigação mais detalhada antes de tomar outra decisão. Por hora, você será enviado de volta para sua casa até segunda ordem. E muito provavelmente não retornará. Assim que receber alta da enfermaria, pegue suas coisas no seu quarto e se dirija a recepção. Lhe será dado uma passagem para o portal interplanar e uma para que viaje do portal para sua casa.

– E esse selo no meu peito?!

– Foi uma medida de segurança. Contratei magos poderosos que pudessem trancar o seu poder demoníaco enquanto estivesse aqui. A chave para remoção do selo foi enviada para a sua mãe. Ela determinará se deve ou não removê-lo. Mais alguma dúvida.

– Não senhor.

– Então estamos terminados. É uma pena que isso acabe assim, Sr. Walker. Mande lembranças e meus pêsames a sua mãe.

Feito isso, ele se levantou, e os seguranças escoltaram Chris de volta ao hospital. Recebeu alta após algumas horas. Recolheu as suas coisas e saiu. A única coisa que sentia além de raiva era vontade de se despedir do seu amigo, e vontade de voltar pra casa.

...

A viagem foi longa. Foi escoltado pelos seguranças de Crosslight até à estação interplanar. O tráfego no portal para Londres estava cheio. Demorou uma hora inteira até que conseguisse embarcar no transportador. Embarcou no veículo com mais umas 20 e poucas pessoas, e entraram no portal. A viagem era um tanto monótona, mesmo que curta, porque o espaço entre o plano celeste e o plano terrestre nada mais era do que um túnel feito de energia, sem paisagem nem nada. O pouco que sabia sobre portais era que o túnel era artificial e por fora dele existia apenas vazio. Chegou do outro lado 15 minutos depois. Da estação, pegou um táxi para a sua casa, que ficava em uma área externa da cidade.

– Finalmente em casa.

Pagou o taxista e entrou em casa. Apesar de estar feliz por rever a mãe, imaginaria que era não estaria nem um pouco feliz com a sua expulsão nem com os motivos que levaram a ela. Estranhamente, ao chegar no portão, viu que o mesmo estava aberto, coisa que era incomum. Enquanto passava pelo jardim analisava a casa de fora, aparentemente intacta. Porem não havia sinal da sua mãe. Quando chegou na porta, viu que ela estava arrombada, e ao em casa ficou chocado.

– Que merda é essa?

Quando chegou ao hall principal, havia danos em vários lugares. Rachaduras, buracos, escombros. Algo de muito errado estava acontecendo.

– Mãe?! Cadê você?! Mãe?!

Sem resposta. Ele se concentrou e tentou sentir rastros de energia. E conseguiu, para seu choque. Havia traços de energia em vários lugares, angelical e arcana. Houve uma luta na sua casa. E foi pesada. Foi seguindo os rastros até o jardim dos fundos. Na mesa do jardim viu um homem sentado, o que o assustou profundamente. Escondeu-se rapidamente. A curta visão e a distância não lhe permitiram visualizar o rosto do indivíduo. Tentou se aproximar oculto, mas antes que fizesse isso, foi interrompido por uma voz.

– Saia daí Chris, eu sei que você está aí.

Chris gelou. Recobrando a calma, tentou ver se mais alguém estava no recinto, mas não conseguiu sentir nenhuma presença além do indivíduo sentado no jardim. A voz dele era estranhamente familiar. Saiu do esconderijo e se aproximou com cautela.

– Pra quê essa cautela toda?

– Quem é você e o que faz na minha casa?

– Não está me reconhecendo? Sério?

Ao chegar cerca de 2 metros de distância do indivíduo, conseguiu ver seu rosto com clareza.

– Tem certeza que não sabe quem eu sou?

Então ele soube.

– Tio... Charlie...?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.