Lágrimas de verão
10 Capítulo 10 - Fim?
Notas iniciais
Soneto de separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Vinicius de Moraes
...
Nunca havia imaginado em como seria a morte. Em como ela chegaria para mim. Se ela seria dolorosa ou de forma natural. A minha morte não havia chegado naquele momento, mais para Regina sim.
A dor era algo inexplicável, era como se meu coração tivesse sido arrancado brutalmente do peito e como se meu lugar não fosse mais na terra. Não havia nada que pudesse fazer, para mudar a dura realidade de que acordaria todos os dias e não veria mais o sorriso encantador dela, os olhos negros sempre guardando segredos pelos quais nunca ousei desvendar, a pele macia, o cheiro que só ela tinha, e o doce sabor de seus lábios.
Regina agora era meu mais doce sonho, minha melhor lembrança, e o amor que nunca irá terminar.
Eu sei que ela está em algum lugar por aí, olhando para mim agora. E espero que isso não mude.
Todas as noites, nos meus sonhos
Eu vejo você, eu sinto você
É assim que eu sei que você continua
Longe, atravessando distâncias
E espaços entre nós
Você veio para mostrar que você continua
Emma trajava um vestido preto acima dos joelhos, ocúlos escuros e sapatos baixos. Imovél, observando em silêncio o caixão ir de encontro a terra, os coveiros jogando terra sobre sua noiva. Com o fim do enterro, Emma saiu em passadas lentas pelo cemitério até o carro emprestado de seus pais, já que o seu havia sido estraçalhado no acidente.
Perto de seu carro, Henry e Zelena totalmente abalados esperavam a oportunidade para falar com Emma.
– Emma... como está?- perguntou o senhor abalado.
Emma olhou por cima de seus óculos para o homem parado a sua frente, sentiu seus olhos arderem e o coração se apertar ainda mais.
– Eu, não sei. Eu só, vou para a casa de Regina, e ficarei por lá.
Henry concordou e se afastou com Zelena. Emma deu a volta pelo automóvel, sentando no banco do motorista, deu partida e seguiu até a casa de Regina e dela, elas planejavam morar ali, construir uma família e ter muitos e muitos momentos felizes.
No caminho para casa, Emma não conseguia pensar em mais nada, ao não ser em como as coisas seriam daqui para frente. Todos os planos, objetivos e desejos foram jogados no lixo.
Arrancou os óculos do rosto, e o jogou sobre o banco passageiro. Desceu do carro, os olhos imchados e vermelhos e os lábios tremendo. Ao entrar na casa de sua amada, Emma caiu de joelhos sobre o hall da casa, levou as mãos a cabeça e chorou. Chorou como como nunca havia chorado antes. Tamanha era sua dor, era inacreditável que em poucas horas Regina estivera ali, e não estava mais, não estaria mais, nunca mais.
– Porque Regina? Porque meu amor? Eu te amo tanto ... tanto.
Perto, longe, onde quer que você esteja
Eu acredito que meu coração vai continuar
Mais uma vez você abre a porta
E você está aqui no meu coração
E meu coração continuará e continuará
O amor pode nos tocar uma vez
E durar por toda a vida
E nunca ir embora até nós partirmos
Horas mais tarde, Emma ainda deitada sobre o hall da sala, com o rosto coberto por lagrímas decidiu se levantar. Cambaleando subiu as escadas para o segundo andar, e ao entrar no quarto amarelo, um turbilhão de memórias lhe invadiram a cabeça. Momentos de amor, os risos de Regina com piadas bobas de Emma, os beijos. A os beijos! Os melhores beijos, e que não seriam mais trocados. As lágrimas não puderam ser impedidas mais uma vez e ainda atordoada, Emma seguiu para o que lhe chamara a atenção, um envelope sobre a cama.
Se aproximou e passou os dedos pelo envelope e sorriu em tristeza ao ver que era a letra de sua mais do que querida noiva. Emma se sentou sobre a cama e com a respiração acelerada abriu o feixe do envelope e chorou ao ler a primeria frase:
"Para minha amada Emma"
Respirou fundo, tomando coragem para continuar, e prosseguiu com a leitura.
" Emma, meu amor, sei que está lendo está agora e por isso lhe peço para que não chore, seus olhos são muito mais bonitos quando não estão vermelhos e inchados.
O destino de todos nos já está traçado a muito tempo por forças maiores do que nós, por Deus. Se não estou ao seu lado neste momento, comemorando nossa formatura esplendorosa é porque Deus quis assim, por isso não chore meu bem.
Você foi a luz que me guiou por toda o caminho escuro que eu seguia. Foi o sol dos meus dias nublados. E eu agradeço aos pequenos gestos e pequenas coisas que fazia por nós. Agradeço por não ter desisitido de nós, ou melhor, de mim.
Você foi quem mais acreditou em mim e que me proporcionou os melhores momentos, por isso meu amor, obrigada!
A vida não é facíl , e nunca poderá ser compreendida. Os momentos dificeís virão, mais acredito que você será forte o bastante para enfrenta-los com garra e força. Não deixe de viver um dia sequer Emma, viva como eu vivi. Sorria como só você sorri e ame.
Ninguém jamais amará alguém como eu amo você, meu amor vai muito além de nós.
Permanecerei em seu coração e em suas memórias mais doces.
Quando estiver chovendo, olhe para o seu, e se o sol ainda estiver lá, eu também estarei lá, aguardando para que venha até mim.
Com todo o amor do mundo, Regina".
Os primeiros meses sem Regina foram os piores, e apesar de ter lido a carta de ela deixara para mim, não conseguia prosseguir, não sem ela.
Regina sabia que sua vida chegará ao fim, e deixara uma carta, porque sabia que seria difícil e que não suportaria uma vida na qual ela não existisse.
Amor foi quando eu te amei
Uma vez de verdade, eu segurei você
Nessa vida nós sempre continuaremos
Perto, longe, onde quer que você esteja
Eu acredito que meu coração vai continuar
Mais uma vez você abre a porta
E você está aqui no meu coração
E meu coração continuará e continuará
Estava no quarto amarelo, deitada sobre a cama, lendo pela milésima vez a carta de Regina. E em todas as vezes eu chorava, querendo mais do que nunca que ela estivesse ali. Sobre aquela cama, alisando meus cabelos como sempre fazia, citando versos de poemas, cantando e me contando sobre seu dia.
Não sabia como seria dali para frente e viver seria como algo impossível.
Logo uma chuva fina começou a cair, levantei da cama e parei em frente a janela, me debruçei sobre ela e então eu vi. Vi o sol em meio a chuva, era Regina, ela estava ali.
Sorri em meio as lágrimas. Uma forte brisa passou por meu rosto, como uma deliciosa carícia e eu sabia que ela estava ali. Ela sempre estaria ali.
– Oi meu amor.
Você está aqui, e não há nada que eu tema
E eu sei que meu coração continuará
Nós ficaremos para sempre desse jeito
Você está salvo em meu coração
E meu coração continuará e continuará
Regina permanecerá em meu coração, até que o próprio pare de bater e me leve até ela, para que possamos viver o resto da eternidade.
Em meio a chuva, Regina sempre soube sorrir, e aproveitar as pequenas coisas que poderia viver.
Eu a amava. E não havia nada que pudesse mudar isso.
Olhei mais uma vez para o sol em meio a fraca chuva de Julho e segui meu caminho de volta para casa.
Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais...
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.
Pablo Neruda
Fale com o autor