Lágrimas
1 Doces e Salgadas
Notas iniciais
Cochichos e murmúrios eram ouvidos de todos os cantos, algumas garotas comentavam sobre a garota nova, outra contava para as amigas sobre seu novo namorado, já alguns garotos comentavam sobre o incrível jogo que havia ocorrido no dia anterior, mas logo toda essa bagunça seria cessada por uma grave e forte voz.
—SILÊNCIO! -Exclamou um homem na frente dos alunos, em pé atrás de sua enorme mesa feita de mármore, com certeza aquilo deveria pesar algumas toneladas!.
—Bom dia a todos, como devem saber, hoje nossa aula será diferente, então podem já guardando seus cadernos! E prestem muita atenção, pois por mais que seja bobo, pode ser algo que irá mudar a vida de vocês.
—Tossiu uma ou três vezes, mas logo recuperou sua compostura, e começou sua mini-palestra, enquanto fitava a aluna nova, que demonstrava estar confusa.-
—Lágrimas, um líquido cheio de água, sais, gordura e até mesmo proteínas, algo muito importante, pois elas são as responsáveis por limpar e lubrificar nossos olhos, cujo nos permitem enxergar este triste e caótico mundo em que vivemos. Era assim que eu as via, como coisas inúteis que ninguém nota, mesmo que sejam extremamente importantes. Além de "protegerem" nosso olhos, elas também fazem algo terrível: Expressam nossos sentimentos, nos deixando vulneráveis à julgamentos, comentários tolos e fúteis de pessoas que se acham superiores à nós, mesmo sendo apenas uma bostinha de ser humano que por algum milagre conseguiu evoluir. Argh, estou me exaltando novamente, ok, ok... Alex, se acalme.
—Respirando fundo, o homem começou a contar até 10, na tentativa de recuperar sua linha de raciocínio e voltar para sua mini-palestra.
—Onde estava? Oh, claro! Como disse, elas expressam nossos sentimentos, e podem surgir junto de qualquer sentimento, até mesmo junto da alegria, mesmo que sejam comumente relacionadas à tristeza, pfff... Um erro grave esse, não acham, alunos? Mas, não é exatamente sobre isso que quero falar, na verdade, quero falar sobre uma frase muito comum na vida de vários homens: "Homens não podem chorar". Com certeza vocês já ouviram isso, e posso afirmar, não, nunca, em hipótese alguma, acreditem nessa frase! Eu já acreditei, e vivia a repetindo, e se pudesse, apagaria por completo estes momentos de minha miserável vid---.
Um alto e familiar som ecoou por toda a escola, era o fim do período de artes! Ah! Que maravilha, afinal, quem se importa com artes, não é mesmo? Rapidamente os alunos correram para fora da sala, atropelando uns aos outros enquanto buscavam sair o mais rápido o possível daquele ambiente infernal, conhecido como escola. Frustrado, o professor bufou, recolhendo seus papéis que foram espalhados pela correria de seus alunos, até que então, uma mão o alcançou algumas folhas.
—Jack? O que está fazendo? Você deveria ir para casa, o sinal já tocou! -Exclamou o homem, encarando o jovem em sua frente. Jack era um garoto calmo, nunca abria o bico na sala de aula, um garoto exemplar, eu diria. Com sua voz rouca e baixa ele respondeu, tentando não irritar o professor.
—E-Eu... Adoraria continuar... A-Ahn... Ouvindosuahistóriaprofessor!
—Falou tão rapidamente a última frase que precisou respirar profundamente para recuperar seu fôlego, enquanto por instinto se encolhia e se afastava lentamente de seu professor.-
—Oh... Te interessou o assunto? Hehe, sente-se, irei continuar, você será o único a ouvir! -Falou enquanto se sentava sobre a mesa, continuando sua fala.-
—Bem, como havia dito, queria apagar esses momentos, pois falar magoou profundamente alguém que amo... Eu não entendia isso, até o momento em que o Karma virou todo para mim, heh... Quando descobri que ela havia se... S-Se suicidado... Foi doloroso demais, eu pronunciei as mesmas palavras... "Homem não chora", era a única coisa que eu dizia... Até então, que percebi, qual o problema de chorar? Por que é tão errado expressar meus sentimentos? Por quê? Foi então que eu vi, as lágrimas não significam que você é um perdedor, na verdade, você é um vencedor, alguém que consegue expressar o que sente, não com palavras, mas com ações. Depois daquele dia, eu comecei a valorizar mais minhas lágrimas, pesquisei sobre elas, e todas as vezes que me falavam aquela maldita frase, eu os explicava o motivo daquilo ser tão idiota... E, bem, não é que consegui superar?
—Um largo sorriso se abriu no rosto do professor, enquanto ele fazia um cafuné no garoto.-
—Se você sentir vontade de chorar, por qualquer motivo, chore Jack, expresse o que sente, não segure, está bem? Agora, vá para casa, preciso arrumar as coisas por aqui.
Afirmando com a cabeça, Jack saiu da sala, colocando sua mochila nas costas enquanto repetia mentalmente as frases de seu professor. Ele sabia que logo iria chorar, afinal, essa era sua rotina.
Alguns minutos depois...
—N-Não! Parem!! I-Isso não tem graça!
Exclamava o garoto em meio à lágrimas, pulando de um lado para o outro para recuperar o único presente que havia recebido de sua mãe: Um lobo de pelúcia. Entre xingamentos e ofensas, os garotos riam, o chamando de bebê chorão, e vários outros apelidos que marcavam profundamente seu coração. Depois de apanhar dos garotos, ele voltou para sua casa, em prantos. Ao bater na porta de casa, já foi recebido pelo seu pai, totalmente bêbado, que o puxou para dentro pela gola, e então começou sua tortura... O líquido quente que saía de suas glândulas, junto do sangue que escorria de sua cabeça... Sabe, Jack nunca teve uma vida boa, mas nesse momento finalmente pode ter paz. Depois do último soco, ele descansou, as lágrimas ainda rolando pelo seu rosto enquanto o brilho desaparecia de seus olhos, seu destino era o mesmo de sua mãe, e afinal, quem vai se importar? É apenas um menino chorão, cujo as lágrimas nunca foram compreendidas, lágrimas apenas de dor, nunca de alegria. Em seus últimos instantes, ele começou a sussurrar, uma melodia calma que iria consigo para o purgatório.
A dor queria esquecer...
Para nunca mais sofrer...
Tudo o que me fez chorar...
E em lágrimas me afogar...
No fundo do mar...
Queria poder jogar...
Então feliz finalmente poderia ser...
E então, sua vida foi levada, esquecida, seu corpo foi queimado, ninguém se lembraria, exceto ele... Aquele professor, aquele mesmo que o matou, aquele que ele chamava de Professor na escola, e de pai em casa... Aquele que fingia o amar, mas por dentro o desejava morto. Um dia, o Karma irá voltar...
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