Lysandre
2 Capítulo 1 - Bolotas Vermelhas
Notas iniciais
Sabe o que acontece quando você salta de um galho para o outro de uma árvore com mais de vinte metros de altura ? você começa a acreditar que pode voar. Eu sei. a ideia é estupida, uma vez que mesmo sendo um coletor se você cair, vai acabar se quebrando todo ou voltando mais cedo para os braços da Mãe mas ainda assim enquanto eu deslizava por outro tronco de árvore para chegar mais perto das bolotas vermelhas que eu tanto almejava eu não poderia deixar de imaginar e desejar mesmo por um segundo que poderia eu voar. Mas ok, o segundo havia passado e eu precisava me concentrar no que eu estava fazendo.
A busca pelas bolotas vermelhas — que era como eu as chamava já que detestava o nome de verdade — começaram logo pela manha daquele dia. Peter um dos coletores mais novos havia insistido como louco na noite anterior que havia visto as bolotas no caminho de volta para casa, contudo as bolotas são extremamente raras e ninguém conseguia acreditar que ele realmente havia as visto e depois de ouvi-lo tagarelar a noite inteira resolvemos averiguar e depois de passar quase o dia todo procurando, quando todos já estavam perdendo as esperanças Peter finalmente gritou exasperado e começou a apontar para o topo das árvores do outro lado do rio e no fim das contas lá estavam as bolotas vermelhas e reluzentes como o garoto havia dito, eu tinha de admitir, ele estava começando muito bem.
Encontrar as Bolotas foi relativamente fácil, complicado mesmo era atravessar o rio. O rio era estreito, não deveria ter mais do que cinco metros até o outro lado, mas a correnteza era extremamente forte e por isso não dava para atravessar a nado. Pensamos também em pular sobre o rio, Gilian minha melhor amiga e outra coletora conseguia dar pulos incríveis, entretanto ela não conseguia escalar nem dois metros de uma árvore e as bolotas vermelhas estava a pelo menos vinte metros de altura. O problema em nossas mãos não era nada fácil mas se nos coletores desistíssemos com facilidade muita gente estaria passando fome agora, literalmente.
Olhei envolta na floresta em busca de alguma ideia ou ajuda enquanto todos estavam discutindo sobre como conseguir pegar os frutos e como a floresta nunca me decepcionara a solução me veio fácil e aparentemente tão obvia que mais tarde fiquei me perguntando como é que eu não pensei naquilo antes:
–Que tal por ali – apontei para grande arvore na beira do rio, que crescia alta e forte com seus galhos que se estendiam por todos os lados apontando inclusive em direção ao meio do rio onde alguns dos galhos se entrelaçavam com os galhos de outra árvore formando assim quase uma ponte sobre o rio – tem uma junção ali...hum....acho que consigo ir e....
–Nem pensar, de jeito nenhum – interrompeu Kile meu outro melhor amigo — você pode ser uma saltadora mas isso é quase um pedido de morte, então, você não vai e ponto final.
Ele sempre foi preocupado demais
Que exagero Kile – revirei meus olhos como sempre fazia toda vez que Kile dava uma de protetor pro meu lado, mas até ai se ele não pegasse no meu pé com esse tipo de assunto ele não seria ele – Vai ficar tudo bem, se duvida pergunte ao meu irmão.
Kile não chegou realmente a perguntar para o meu irmão se aquilo era perigoso ou não, todos apenas olhamos para ele e esperamos a resposta atentamente.
Sua aprovação ao não era indiscutível, sua resposta era algo confiável e poucos tinham o privilegio de saber por que.
Depois do que pareceu um longo tempo Sam, meu irmão finalmente respondeu simplesmente:
–Eu não VEJO problema algum – tão poucas palavras não poderia significar tanto.
Antes que Kile ou qualquer um pudesse resolver mudar de ideia, eu saia correndo em direção a árvore, quando estava a um braço de distancia parei encostei minha testa no tronco e sussurrei baixinho – Mae, me deixe subir – e logo em seguida senti uma cosquinha em minha testa e sem perder tempo comecei a escalar a árvore com uma facilidade já reconhecida pelo meu corpo. Em poucos minutos eu já estava empoleirada sobre o galho na ramificação principal de braços abertos indo em direção a junção enquanto me equilibrava calmamente.
A quase um metro da junção o caminho ficava mais estreito o que dificultava ainda mais o trabalho de caminhar sobre os galhos de árvore mas para minha sorte ou não, aquela, não era nem de longe a primeira vez que eu precisava me arriscar no topo das árvores, mas apensar do risco, fazer isto era algo que eu sabia como fazer muito bem e sobre tudo amava faze-lo.
Respirei fundo quando comecei passar de uma arvore para outra, e como sempre senti meu corpo ficar tenso por um prevê momento quando os galhos chacoalharam brevemente sobre meus pés com o soprar do vento. Parei por um momento sentindo a brisa em meus cabelos e assim que vento sessou continuei a andar e em pouco tempo eu estava firmemente na ramificação principal da outra arvore. Depois disso foi fácil. Subi mais alguns galhos para chegar as bolotas e agora aqui estava eu frente a frente com o fruto mais belo que eu havia visto na vida.
As bolotas vermelhas também conhecidas como fruto do amor, são extremamente fascinantes, desde sua aparência que lembram pêssegos gigantes só que com sua casca lisa e vermelha brilhante como sangue até seu sabor doce com uma leve toque picante que em contato com a boca fazia maravilhas com o corpo daqueles que tinham o prazer de prova-los mas isso não eram a parte mais interessante do fruto. Muitos diziam que o fruto tinha o sabor do amor, prova-lo era como se apaixonar de novo e de novo a cada mordida.
Mas até ai eu não podia opinar sobre nada, nem sobre o fruto que eu nunca havia provado e nem sobre essa coisa de amor.
–Ei Annelise, vai ficar parada ai ou vai começar a trabalhar – Gritou Joshua -um dos coletores mais antigos que tínhamos — me tirando dos meus devaneios — Vai escurecer logo !!
–Desculpa! – Gritei de volta – Vou joga-los para vocês!
Comecei a me mover rapidamente colhendo os frutos e os jogando do outro lado do rio para a esquipe de coletores.
Não foi preciso dizer a eles que tomassem cuidado para não deixar que os frutos tocassem no chão uma vez que eles pareciam extremamente frágeis ao toque já que todos ali sabiam que o estavam fazendo.
Nos coletores éramos os únicos da divisão de trabalhadores que que podíamos sair da aldeia sem precisar de permissão ou acompanhamento isso por que nós coletores éramos de estrema importância para a sobrevivência dos cidadãos uma vez que éramos os únicos que conseguíamos e entender a extensão da floresta e sabíamos como encontrar frutos, ervas, raízes entre outras coisas que auxiliavam na sobrevivência do povo e claro, além de levarmos o máximo de alimentos possíveis para os posto de coleta, em nossa aldeia todos faziam a sua parte e o máximo que podiam pelo próximo .
Levou quase uma hora para colher os frutos que precisávamos mas quando acabamos estávamos nós sete – Eu, Kile, Sam, Peter, Giliam, Joshua e Lina – com os cestos que sempre carregávamos nas costas cheios com os frutos. Antes de partir lembrei de agradecer a Mãe terra pela boa colheita e como sempre deixamos a maioria dos frutos na arvore afinal não éramos os únicos que precisávamos de alimento naquela floresta isso sem contar claro que não precisávamos tirar dela mais do que precisávamos.
O caminho de volta para o outro lado do rio foi um pouco mais difícil uma vez que agora o cesto preso em minhas costas estava cheio mas ao mesmo tempo foi mais fácil também pois agora eu já sabia onde pisar e o que deveria fazer .
–Bem vamos, não temos mais do que meia hora antes do sol se por – disse Joshua já se pondo a correr e sem perder tempo nenhum, todos nós nos colocamos logo atrás dele. Ninguém ali gostava da ideia de ficar longe da aldeia depois que a noite caísse.
******
Depois de corrermos vários quilômetros finalmente estávamos finalmente em casa, contudo qualquer um que chegasse ao ponto onde estávamos e olhassem em volta continuaria acreditando que estava perdido, afinal tudo que se conseguia ver eram as bases de enormes sequoias e mais árvores. Árvores e mais árvores e ainda assim bem ali onde parecia não haver nada estava nossa aldeia, o lugar que chamávamos de lar.
Escondida de todos, protegida pela floresta, bem embaixo dos narizes daqueles que não eram bem vindos, ou melhor dizendo....bem encima
"Bem vindo ao lar" disse a mim mesma. Bem vindo a Lysandre....
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