Lwu

8 Capítulo 8 Passos no escuro


Que raiva...

Como se já não fosse suficientemente difícil descobrir o que aconteceu com Keiichiro, aquele idiota ainda me faz ter que provar a inocência de Ryou.

Eu estava muito irritado.

Estava andando em direção ao Hall novamente, quando uma coisa me pegou de surpresa.

“There I was again tonight forcing laughter, faking smiles,

(Lá estava eu de novo com risadas forçados, fingindo sorrisos)

Same old tired, lonely place

(Mesmo lugar cansativo e velho) ”

Uma melodia descia as escadas em um ritmo tão calmo e tranqüilo, que imediatamente me fez esquecer a raiva que estava de Kisshu.

Era Ichigo. Tinha certeza.

Aquela voz era tão doce e mágica que só podia vir dela.

Foi aí que eu pensei...

Ela... Ela podia servir como prova... Afinal... É o noivo dela á quem Kisshu está acusando. Vai ver... Ela sabe de alguma coisa.

Eu olhei para os lados só para ter certeza de que ninguém estava prestando atenção em mim, e subi as escadas correndo.

Assim que elas acabaram no primeiro andar, eu encostei na parede e olhei para o lado. Ninguém no corredor...

Walls of insincerity,

(Muros de insinceridade)

Shifiting eyes and vacancy,

(Olhares perdidos e vazios)

Vanished when I saw your face

(Sumiram quando vi o seu rosto) “

Continuava a canção. Eu fiquei enfeitiçado por essa música... Tanto que resolvi seguir direto para onde o som vinha.

Vinha de uma das portas do corredor. Provavelmente era o quarto da Ichigo, por isso não abri a porta de primeira.

Para falar a verdade, eu fiquei em pé na frente de sua porta por um tempo, enquanto escutava mais um pouco da música.

“All I can say is it was enchanting to meet you

(Tudo o que posso dizer é que foi encantador te conhecer) “

Encantador te conhecer... Aquelas palavras mexeram com o meu coração.

Foi aí que eu me toquei que não poderia ficar ali em pé na porta dela para sempre. Pelo menos não sem que ninguém me notasse.

Eu bati na porta. Ela continuou cantando normalmente.

Talvez não tivesse ouvido. Talvez não quisesse abrir a porta.

Entretanto, eu não podia ficar mais tempo lá.

Eu abri a porta bem devagar e olhei para o quarto dela. Não tinha ninguém. Isso era estranho... A voz de Ichigo vinha daquele quarto...

Eu entrei e fechei a porta atrás de mim.

Olhei em volta. Tudo no lugar, e ainda sem sinal dela. Continuei andando até chegar no centro do quarto. Parei bem em cima do tapete e olhei em volta.

Onde ela estaria?

Quando dei por mim, ela já estava cantando a última parte da música...

“Please don’t be in love with someone else

(Por favor, não esteja apaixonado por outra pessoa)

Please don’t have somebody waiting on you.

(Por favor, não tenha ninguém esperando por você) “

Direcionei o meu olhar para a porta de madeira praticamente na minha frente.

“Kisshu tinha dito que ela beijou ele só de roupão...” Pensei eu. “As pessoas ficam de roupão quando... Ah não!”

Meu olhar ficou preso na porta da banheiro. Ela estava tomando banho! Por isso estava cantando! E eu estava no seu quarto...

Seria horrível quando ela saísse... Na verdade seria lindo, porque ela era linda, mas... Ah! Eu tinha que sair dali. Afinal, não era idiota como o Kisshu para me apaixonar por uma cliente.

Eu estava prestes a ir para a porta e deixar aquele quarto, quando a porta do banheiro se abriu diante de mim.

“Ah!” Eu exclamei me olhando para o armário. “Eu sinto muito! Não queria entrar aqui assim!”

“Masaya...” Disse Ichigo. Não estava olhando para ela, mas pude sentir que era ela, e também... Que não esperava me ver ali.

“Senhorita Momomiya... Eu sinto muito.” Falei sem graça ainda fitando o armário.

“Ichigo.” Falou ela.

“O que?” Perguntei sem entender.

“Ichigo.” Repetiu ela. “Me chame de Ichigo.”

“Ah... Certo.” Concordei. “Ichigo.”

“Isso.” Falou ela feliz. “E pode parar de encarar o meu armário. Está tudo bem.”

“Está?” Perguntei.

Aquilo me aliviou. Pensei que ela estivesse sem roupas, mas quando ela disse que não havia problemas achei que já estivesse vestindo alguma coisa.

Engano meu.

Quando finalmente olhei para ela vi que Ichigo estava só de toalha. Seus ombros ainda tinham algumas gotas d’água.

Aquilo fez com que meu rosto ficasse vermelho, o que á fez rir.

“Você é um doce, sabia?” Riu ela baixinho.

“O-Obrigado.” Agradeci sem saber o que fazer.

“Mas me diga... Por que veio para cá?” Perguntou ela curiosa. “Será que o Kisshu esqueceu de olhar em algum lugar?”

“Ah... Não. Ele...” Eu estava muito envergonhado. Ela estava só de toalha bem na minha frente!

“Pode falar.” Sorriu ela, o que só piorou a minha situação. Aquele sorriso me deixou um pouco tonto. Ela era tão linda...

Mas eu me esforcei para me recompor. Sim. Devia prestar atenção no caso, e não no que ela não estava vestindo.

“Kisshu achou uma carta no quarto do seu noivo. É uma carta de Keichiro.” Falei fitando somente os olhos dela. “Ele acha... Que... Seu noivo é o culpado pelo seqüestro de Keichiro, e não o Deep Blue.”

Quando acabei de falar, soltei um suspiro. Missão cumprida, pensei.

“Ryou?” Disse ela parecendo um pouco chocada. “Acha mesmo?”

“Si-Sim...” Concordei.

“Mas... Ele acha isso. Ou vocês acham isso?” Perguntou.

“Ahm... Ele acha isso.” Disse. “Eu vim até aqui saber o que você acha.”

Ela estava com uma expressão chocada, mas quando disse que queria saber a opinião dela, ela sorriu levemente.

“Sente-se.” Pediu ela.

“Ahm... Onde?” Perguntei.

“Aí na cama mesmo.” Disse.

Meu rosto ficou mais vermelho do que antes. Como assim sentar na cama dela?! Mas... Eu obedeci.

Sentei-me na beira da cama, e ela sentou-se logo do meu lado. Já disse que ela era linda?

“Não vou mentir para você.” Falou ela. “Aquela carta me assustou bastante. Afinal... Como Ryou pode ter recebido uma carta de Keiichiro se ele simplesmente sumiu?”

“É...” Concordei.

Seus olhos tinham um brilho especial... Não sabia dizer se aquilo era tristeza, decepção, ou alguma outra coisa, mas estava partindo o meu coração.

“Você deve pensar que eu sou uma pessoa horrível, mas... Temo que concorde com Kisshu. Acho que Ryou tem alguma coisa a ver com toda essa confusão.” Disse ela.

“De forma nenhuma... Kisshu mostrou o envelope...” Tentei dizer o que aconteceu, mas ela me interrompeu.

“Ah! Um envelope!” Seus olhos se iluminaram. “Não conte isso para ninguém, mas... Antes de Keiichiro desaparecer ele disse que o diamanete seria um presentede casamento... Ele mandou uma carta contando isso... Talvez seja esse o envelope que Kisshu achou.”

“Espera...” Falei. “Ele ia ganhar o diamante?”

“Sim.” Concordou ela me observando de perto. “O que isso tem de mais?”

“Tem que Kisshu pode ter razão...” Murmurei. “Se Ryou sabia que ia ficar com o diamante, e que tinha gente atrás desse diamante, faria sentido ele querer eliminar Deep Blue do seu caminho...”

Eu estava murmurando e pensando alto, mas Ichigo estava prestando atenção em cada palavra minha. Tanto que quando acabei de falar ela começou.

“Ryou não é mais a mesma pessoa.” Disse ela um tanto decepcionada. “Ele... Anda sempre preocupado, e nervoso... Isso é estranho, não é? Mesmo se fosse inocente... Você ficaria assim? Tão preocupado?”

Ficaria sim.

“Ahm... Na verdade... Eu acho que...” Estava prestes a dizer isso, quando ela começou a se inclinar em minha direção.

“Claro que não, não é?” Falou. Ela deslizou por cima de mim me fazendo cair de costas na cama. “Isso é estranho.”

“É... É uma reação estranha.” Concordei com ela.

Eu não concordava antes, mas depois de ver aqueles olhos castanhos tão perto de mim, eu mudei de opinião. Tudo que Ryou estava fazendo passou a ser estranho. Naquele momento estava mais do que claro para mim que ele era o culpado de tudo.

“Que bom que você acha isso.” Sorriu ela de leve. “Fico muito feliz de contratado alguém assim...”

Ela saiu de cima de mim, e se pôs em pé. Olhou para mim com um sorriso triste.

“Detesto que isso tenha que acontecer...” Murmurou ela, e pude notar que estava falando mais consigo mesma do que comigo.

“Isso o que?” Perguntei distraído.

“Isso. Isso tudo.” Falou ela. “Todos esses problemas com Ryou... E Keiichiro... E com Deep Blue...”

Ela soltou um suspiro de cansaço de andou até o armário.

“Logo isso vai acabar.” Afirmei.

“Vai sim...” Concordou ela.

“Nós vamos achar alguma coisa que prove que Ryou é culpado. Vamos indiciá-lo, ou...” Falei.

“Faça isso.” Concordou ela. “Ryou... Me incomoda dizer, mas... Acho que ele é o culpado.”

Ela abriu as portas do armário e começou a escolher um vestido. Eu notei que ela precisaria de privacidade, por isso simplesmente disse que ia voltar a procuarar lá fora e saí.

Será que ela trocaria de roupa na minha frente? Afinal, se eu não tivesse dito que ia sair, ela continuaria o que estava fazendo... Ou não? Ah! Tinha que tirá-la da cabeça.

Assim que fechei a porta do quarto, eu virei para o lado. Não tinha ninguém no corredor ainda, mas eu não podia perder tempo.

Corri até a escada novamente e a desci.

Eu não podia acreditar naquilo... Como eu fui parar ali?!

Quando eu finalmente saí daquela maldita cozinha, senti vontade de ajoelhar-me e agradecer aos céus por estar finalmente livre.

Mas é lógico que não fiz isso. Afinal, tinha que manter o meu disfarce.

Lettuce quase esbarrou em mim novamente, ao tentar entrar na cozinha correndo.

“Ah! Sinto muito!” Falou ela desajeitada.

“Tudo bem! Tudo bem!” Falei feliz. “Eu consegui sair! Está tudo bem.”

“Como disse?” Perguntou ela sem entender.

“Ah... Nada.” Falei. “Esquece isso.”

“Certo.” Disse ela. “E como foi com a Lola?”

“Ótimo. Muito bem. Perfeito.” Menti. “Ela é tão... Objetiva.”

Lettuce riu um pouco.

“Ela enrolou muito você?” Perguntou ela, e eu fiquei surpreso. Se ela sabia que aquela garota de 13 anos de idade, chefe de cozinha italiana, era uma tagarela porque não me avisou?!

“Ela ia contar a história inteira do Palace, mas acabou contando toda a história dela.” Contei.

“Teve sorte.” Disse Lettuce. “Tem que ver quando ela resolve falar de todas as suas receitas...”

Lettuce riu de novo, pediu licençae entrou na cozinha, um lugar que eu nunca mais gostaria de pisar...

Eu olhei para o palco. Outra cantora estava lá. A pianista já tinha saído.

Imaginei quanto tempo eu perdi ali dentro... Tempo inútil.

Eu pensei em ir até os fundos do palco... Afinal nós não tínhamos olhado lá, e como era um lugar um tanto incomum... Ryou poderia ter escondido alguma prova lá.

Eu atravessei as mesas, driblei os casais que estavam dançando e finalmente cheguei lá. Olhando para o palco, logo ao seu lado esquerdo tinha uma porta de madeira aberta que daria provavelmente aos fundos dele.

Eu entrei lá e encostei a porta.

Cortinas pretas separavam o palco dos fundos. Os tais bastidores... Embora parecesse um lugar estreito e sem muito espaço, era justamente o contrário. Ele era enorme. Sim... Estava escuro, mas esse era o único problema.

Mesmo assim, dava para ver algumas caixas de madeira uma em cima da outra. Em suas laterais estava escrito: “Figurino”. Devia ser de algum show...

Tanto faz. Aquilo não me importava.

Eu olhei para o fundo. Tinha um piano lindo ali. O piano que a garota estava tocando há sei lá quanto tempo atrás.

Comecei a caminhar até ele cuidadosamente.

Aquele lugar me dava um pouco de medo... Parecia tão vazio e escuro quanto o porão de um filme de terror. Onde estão as luzes quando nós precisamos delas?

Foi aí que eu parei. Senti alguma coisa tocando o meu pescoço.

Eu respirei fundo... Não era verdade... Não podia ser...

Eu tentei andar mais, mas uma voz me pegou de surpresa.

“Não devia estar aqui...” Sussurrou a voz no meu ouvido de um jeito assustador.

Eu saí correndo para trás do piano me controlando ao máximo para não gritar.

“Fan... Fan... Fantasma!” Murmurei eu já atrás do piano.

Então eu ouvi a voz rindo.

“Você é muito engraçado, sabia?” Riu ela.

Eu olhei melhor. Estava escuro, por isso não dava para ver direito, mas... Agora que estava de frente para o tal fantasma... Vi que se tratava de uma garota.

“O que?!” Reclamei ainda baixinho. “Quer me matar de susto?!”

“Despulpe.” Falou ela rindo. “Não queria assustar uma garotinha.”

“Quem chamou de garotinha?!” Reclamei. “Você é maluca por acaso?! Por que me deu esse susto?”

“Ora, com assim por quê?” Falou ela. “Porque ia ser engraçado.”

“Claro que foi...” Resmunguei enquanto recuperava o fôlego.

“Mas você ainda não disse.” Falou ela.

“Disse o que?” Perguntei.

“Por que você está aqui.” Falou dando um passo em minha direção. “Aqui é um lugar somente para o pessoal autorizado.”

Eu gelei.

Droga. Ela tinha me descoberto. O que eu poderia falar? Estava em lugar onde não deveria estar e ainda por cima fui pego. Tinha que inventar uma história e rápido...

“É que... Não me leve a mal.” Falei sem saber o que dizer.

“Por quê?” Quis saber ela.

“Por que...” Eu olhei-a novamente.

Agora a pianista estava bem na minha frente. Mesmo no escuro podia notar como ela era. Cabelo escuro e comprido, olhos escuros também, e roupas elegantes. Foi aí que eu tive uma idéia brilhante que me salvaria.

“Por que...?” Perguntou ela de novo.

“Por que... Eu sou um fã seu.” Respondi sorrindo.

“Ah, é? Um fã?” Perguntou sem acreditar. “Desde quando?”

“Desde hoje!” Respondi fingindo estar muito feliz. “Eu poderia falar o tempo com mais precisão se não tivesse sido preso pela cozinheira...”

“Algum problema com ela?” Perguntou ela cruzando os braços.

“... Que é um amor de pessoa! Você não deixou eu acabar a frase.” Apressei-me a dizer.

Eu tentei enxergá-la melhor, e consegui ver que estava sorrindo. Devia estar achando aquilo tudo muito engraçado, ou alguma coisa parecida, pois assim que acabei de falar ela começou a rir.

“Eu estava só brincando.” Riu ela. “Não ia brigar com você. Não precisa fingir ser meu fã.”

“Certo... Então vou parar.” Falei e ela começou a rir de novo.

Eu olhei para o piano. Era lindo.

Até mesmo no meio do escuro dava para ver suas teclas brancas... Impressionante. Acho que ela tinha notado que eu estava olhando para ele, pois passou a mão por cima de algumas teclas.

“Não é maravilhoso?” Perguntou ela, e pude ver que seus olhos brilhavam.

“Ah... É sim.” Concordei. “Mas... Deve ser muito difícil tocá-lo.”

“Nem tanto.” Falou ela, ainda encarando apaixonada o piano. “Quando você toca com o coração, é a coisa mais fácil do mundo.”

“Com... O coração?” Repeti.

“Sim.” Assentiu ela. “Afinal... Devemos sempre fazer tudo com o coração.”

“Claro.” Concordei.

“Você não é meu fã, não é mesmo?” Perguntou ela. “Por que... Pelo que eu sei... Você gosta é da Ichigo.”

Ela continuou olhando o piano e eu fiquei congelado lá, diante dela. Eu... Fui descoberto?! Como ela sabia daquilo?!

Ah... Estava muito encrencado.

Notas finais
O que acham que vai acontecer com Kisshu?

E quanto a Ichigo? De quem ela realmente gosta?

Reivews!