Luzes da Rebelião

7 Capítulo 7 - A lição da "Carne"


Assim que Valquíria fechou a porta, entrelaçou seu braço ao de Gus, andaram pela casa enquanto ela o conduzia até os seus aposentos e lhe disse que aquele seria seu lugar de descanso apenas. O local era arejado, nele havia apenas uma parede onde encontrava-se a porta de entrada para o cômodo e ao mesmo tempo uma outra porta que dava acesso ao banheiro mais impressionante que o jovem já vira. Ao entrar percebeu que o local era como uma caverna, as paredes de pedra cercavam o ambiente, de um lado da parede havia uma fonte de águas cristalinas que desembocava num local como uma pia. Ali poderia fazer a higiene sem o menor problema e ao fundo havia uma outra fonte que escorria das pedras e enxia uma banheira. Aproximou-se dela e tocou a água translúcida, a sua temperatura era quente o suficiente para que qualquer pessoa se banhasse sem se preocupar com o frio. Ao perceber isso, olhou para Valquíria que o olhou sorrindo e explicou que o local era enfeitiçado para que água tanto da pia quanto da banheira ficassem mais frias ou mais quentes de acordo com a temperatura externa, para que todos os banhos fossem impecavelmente bons. Explicou também que durante o dia, o local aproveitava a luz natural o bastante para que a iluminação fosse a necessária e à noite a luz da lua, era sempre brilhante o suficiente para que não houvesse problemas, segundo ela era possível ler a noite à luz do luar.

O restante do quarto era todo aberto para a natureza durante o dia. Dava para ver um vale magnífico de qualquer lugar que se estivesse. A brisa fresca invadia o ambiente, flores com leves perfumes e a presença de pássaros completavam o local que dava a impressão ao ocupante que vivesse em plena natureza. A cama era outra coisa a parte. Ampla, limpa, muito confortável e cheirosa.

Durante o resto do dia foram oferecidas refeições leves ao aprendiz; um lanche frugal e um jantar vegetariano. Valquíria percebeu, pela sua fisionomia, que apenas os vegetais não lhe agradavam tanto e então disse-lhe que as carnes, ao serem consumidas, traziam ao corpo energias dispares prejudiciais e que uma dieta vegetariana era a melhor por enquanto, principalmente porque estava preparando-o para os ensinamentos que estavam por vir.

Depois do jantar Valquíria se despediu do jovem e sugeriu que não demorasse muito para se recolher, porque no dia seguinte começariam seu treinamento.

Ao chegar ao seu quarto, a luz da lua clareava o ambiente suficientemente bem. Tinha condições perfeitas para se locomover pelo ambiente sem a necessidade da luz artificial. Agora os vãos entre as colunas que antes estavam abertos, ostentavam uma tênue névoa que protegia o local durante a noite, permitindo que ali se fizesse uma temperatura agravabilíssima.

A noite caiu pesada sobre Gus que adormeceu quase instantaneamente e no final da madrugada, antes de o sol apontar no céu despertou completamente disposto. Abriu a porta do quarto e saiu pela casa. Acreditava que Valquíria ainda estivesse em seus aposentos, mas se enganou. Assim que chegou à sala de visitas encontrou a grande porta vítrea de correr aberta. Diferentemente do dia anterior, aporta que dava acesso a uma área de descanso e lazer, agora era apenas parte de algo muito maior. Gus se aproximou para entender melhor do que se tratava e se surpreendeu ao chegar à porta. Dali podia ver parte do grande vale que circundava a casa. Diante da casa havia um caminho de terra ladeado por árvores enormes e arbustos.

Um passo a frente, depois outro e Gus se viu parado em meio a mata virgem. Olhou para trás e não mais viu a casa, a grande porta ou a sala luxuosamente decorada. Diante de si havia apenas o caminho a seguir. Sentiu um arrepio e em seguida uma lufada de vento como a empurrá-lo caminho adentro. A cada passo, as sensações mais diferentes lhe acometiam. O caminho fazia uma curva à direita iniciando um declive suave. Os arbustos, as folhas das árvores, as pedras do caminho, tudo parecia conversar com ele. Era como se ele estivesse de fato conectado a tudo aquilo.

Ao longe, ao final do caminho, avistou Valquíria no meio de uma pequena clareira. Ela estava nua, sua tez branca parecia irradiar luz. Os cabelos voavam ao sabor do vento. Quando Gus se aproximou dela, sem mesmo que ele dissesse uma palavra, foi cumprimentado pela dama Verbena.

Ela se aproximou de Gus e tocou-lhe a fronte com a ponta do dedo. Uma tensão vertiginosa o acometeu. Tudo girou e um segundo depois ele se viu deitado na relva. Sentia o orvalho da grama sob suas costas, o vento que antes lhe atingia a superfície da pele, naquele momento parecia transpassá-lo. Os aromas eram milhares. As luzes ofuscavam-lhe a retina, mas não sentia desconforto. Elas na verdade emanavam dele. Ele era luz. Os gostos que sentia aguçavam suas papilas. Eram como manjares deliciosos e doces meles. Gus podia sentir que ele era parte do todo. Não, ele era o todo naquele momento. Tudo estava dentro dele. Sentia na carne todas as vibrações que os sentidos propiciavam. Mas também, todas as chagas do mundo, as dores infinitas, lamentos e felicidade. Era um turbilhão.

Quando voltou a si, olhou ao redor, estava em pé diante da sua sacerdotisa Verbena.

—Eu posso sentir, disse ele.

—Absolutamente tudo, respondeu ela. A partir deste momento, você pode sentir a presença ou ausência da vida. Você pode ouvir o sangue fluir pelas veias ou não. Assim como a seiva que carrega a vida das plantas. Você pode sentir a dor e angústia de um animal frente a morte iminente.

—Eu posso sentir… Jacó! Ele está…

—Morto, disse Valquíria.

Uma lágrima silenciosa rolou pela face de Gus. Não entendia como tudo até aquele momento estava ligado a ele.

—Não se martirize meu jovem. Ele combateu o bom combate. Agora está em paz. Esta foi a lição da CARNE. Você terá que cumprir outra lição, mas por agora devemos retornar para casa.

Eles caminharam lado a lado até chegarem à casa que continuava no mesmo lugar.

Entraram pela grande varanda e Gus foi diretamente para seu quarto. Não quis se alimentar. A experiência que vivera havia mudado algo drasticamente nele. Embora ele fosse o mesmo, sentia-se diferente. A sua percepção do mundo havia mudado.

Lembrou-se de Petro dizendo a ele que aprendesse os ensinamentos e assim estava fazendo.

Queria conversar com seu instrutor. Contar-lhe as novidades e também perguntar como Jacó…, bem, ainda que não se conhecessem bem, Gus sentia que as coisas poderiam ter corrido de forma diferente.

Procurou Valquíria para conversarem e pedir para que ela entrasse em contato com ele.

—Por que você mesmo não faz isso, perguntou ela.

—Como assim? Perguntou ele.

—Ora, ora, você é um jovem desperto. Deve conhecer meios de entrar em contato com alguém através da mente. Pelo que sei, em níveis relativamente rudimentares é possível intuir uma pessoa a fazer algo que queremos. Neste caso é muito simples, basta concentrar-se na pessoa a ponto de praticamente senti-la e então mandar a mensagem. Pratique.

Mente é uma das esferas do conhecimento e até aquele momento não tinha certeza se conseguiria manter contato com seu tutor. Retornou para o quarto e deitou-se por uns instantes e buscou a imagem de Petro em sua mente para poder manter o contato. Talvez agora que havia despertado em si para experiência de Vida, sentiu certa facilidade para concentrar-se e focar no seu alvo de comunicação, porém sabia que ele não estava sozinho, estava acompanhado de alguém, pensou por um segundo em quem poderia ser, Edward, talvez, ou até mesmo Ohanna, mas também não. Subitamente em sua mente veio a imagem de Cassie e então o elo se formou. A conexão entre eles se fez, e como num torvelinho sentiu que os três estavam em harmonia e assim mentalizou sua mensagem.

—Precisamos conversar seriamente. Já sei sobre a fatalidade que acometeu Jacó. Espero que todos os outros estejam bem. Aguardo sua comunicação.

A muitos quilômetros dali. Petro sentiu uma pontada no alto da cabeça.

—Espere, senti um chamamento mental.

—O que? De quem?

A imagem clara de Gus apareceu em sua mente.

—Gus, disse ele. Preciso vê-lo.

—Desculpe-me, mas dessa vez você não vai me deixar de fora. Vou com você. Sabe que devo.

Petro olhou pra Cassie com atenção e zelo.

—Ok, você pode vir comigo, disse sorrindo.

—É claro que posso, e não me venha com desculpas e blá, blá, blá, disse ela com desdém e revirando os olhos.

—O Charles, disse que estaríamos nisso juntos. Faz parte do plano maior.

—Você ao menos podia chamá-lo pelo nome.

—Sim, mas cada um de nós tem o seu papel. Quando Gus estiver pronto saberá de tudo e então todos lutaremos juntos.

— O momento está se aproximando, disse Petro. Ele está quase pronto e então seguiremos adiante.

—Bem, devemos agir discretamente. Não quero que Edward nos surpreenda, disse Cassie.

—Sim, vamos para a biblioteca, e la aguardamos o melhor momento para sair.

Eles ficaram na biblioteca o tempo suficiente até que todos começaram a voltar para seus dormitórios para se prepararem para o jantar. Se esgueiraram pelos corredores até que sairam pela passagem da Pó Arcano.

Pegaram um Uber e depois de quase duas horas chegaram à casa de Valquíria.

—Urgh! É neste barraco que a Dama Verbena vive, perguntou Cassie com aquele arzinho de superioridade que lhe era peculiar.

— É sim, espere e veja por si mesma.

Pagaram o motorista e entraram pelo portão rangente.

Assim que pisaram na varanda o mordomo lhes atendeu.

—Sejam bem-vindos. Madame está lhes esperando.

Assim que entraram na grande sala iluminada encontraram Valquíria bebendo sua bebida. Ela fez sinal ao mordomo para que trouxesse bebidas aos convidados.

Cassie ficou olhando ao redor não acreditando no que via.

—Que casa maneira, disse ela.

—Gus em breve se juntará a nós. Mas primeiramente, quero que saibam que a grande rebelião se aproxima e precisamos estar preparados. Minhas visões me indicam que falta apenas uma lição para que Gus alcance o próxima nível de magia, momento este em que ele deixara de ser iniciado e passará a ser um desperto autêntico. Em minhas visões está claro que vocês são parte integrante no ritual de sangue no qual o iniciado será submetido para alcançar o seu novo grau.

—Nós? Perguntou Cassie, por que?

—Porque são da família. Não é óbvio.

Os dois se olharam, nunca antes tinham confidenciado isto a ninguém. Como ela poderia saber?

—Ele não está preparado, disse Petro.

—Sim, está, respondeu Valquíria sem pestanejar.

—Talvez ela tenha razão Petro. Pensa...

Petro fez silêncio por alguns instantes, tempo o suficiente para decidir se contaria a Gus ou não.

—Sei que o momento se aproxima,mas tenho dúvidas se Gus está preparado para saber…

—Saber o que, perguntou Gus aparecendo na sala.

Cassie e Petro sobresaltaram. Não esperavam vê-lo ali naquele momento e naquela circunstância.

—Venha Gus, sente-se conosco. Estava falando agora mesmo com seus, bem…, com seus amigos que sua iniciação está por terminar e eles queriam lhe dizer algo.

—Pois então digam de uma vez, estou esperando.

O silêncio voltou a pairar sobre eles. Gus atendo esperava a resposta. Esperou que Petro lhe respondesse, mas foi Cassie quem falou primeiro.

—É que, é que, gaguejou. Petro e eu somos…, somos seus irmãos. Meio irmãos para falar a verdade.

Aquela revelação o pegou em cheio. Muitas coisas iam para os seus devidos lugares agora. _O paletó do papai… Disse Gus.

—Sim, o paletó do papai. Herdei quando ele se foi, disse Petro.

—Por favor, não nos queira mal, apenas estávamos esperando o momento certo para te contar.

—Até parece, falou Cassie meio que resmungando.

Gus riu do que jeito como ela falou e Petro acabou rindo também.

—Não lhes quero o mal, falou.

E Gus correu para abraçar os irmãos.

Passaram o resto da noite na companhia de Valquíria ali na sala. As vezes Petro e Cassie se entreolhavam para que tivessem o cuidado de não revelarem nada que Gus não estivesse pronto para saber ainda. Mas naquela mesma noite Gus ficou sabendo que seu pai era um mestre do tempo e que teve além de sua mãe, outras duas esposas. Na verdade Petro era do passado e Cassie do futuro e agora estavam todos ali juntos e prestes a enfrentar uma das mais temidas rebeliões da história do mundo desperto.