Luzes Da Cidade
1 Capítulo único
Notas iniciais
Escrevi essa fanfic tendo como inspiração minha própria antiga rotina de paulistana!
Sim, eu tiro inspirações dos lugares mais inesperados possíveis!
Boa leitura!
Com um misto de desgosto e desconfiança, deixei que meu corpo se acomodasse o mais confortável possível no estreito banco. Apesar de que permanecer em pé me parecesse muito mais apropriado, a bruta movimentação do vagão não mais me permitia tal feito.
Era a primeira vez, e com sorte também a última, que eu utilizava o metrô, localizado a poucas quadras de minha casa. Eu ia ao centro, decidido a conhecer um pouco da capital do país onde agora eu passaria a morar: Berlin, na Alemanha. Formado há poucos meses, deixei a Áustria por uma maior oportunidade de emprego no país vizinho. O desemprego assombrava minha terra natal e a mudança pareceu ser minha melhor opção.
A parada súbita pegou-me de surpresa, e só não escorreguei com tudo ao chão porque minha reação foi rápida o suficiente, dando tempo para que eu me segurasse na beirada do banco.
As portas do vagão se abriram e, exceto por um jovem encapuzado, ninguém mais subiu a bordo. A figura suspeita chamava minha atenção e não pude evitar olhá-lo com certa desconfiança.
Olhei para os lados, constatando que, além de nós, apenas um casal permanecia no vagão, mais ao fundo, o que praticamente me deixava a sós com o sujeito de minha preocupação. Talvez seja melhor desembarcar... Precaução nunca é pouca, principalmente para um estrangeiro como eu.
Eu já me preparava para levantar quando o ressoar de uma campainha seguiu-se do fechamento das portas. Eu olhava, estupefado, para o meu confinamento. Ajeitei-me novamente no banco, sentindo o nervosismo me tomar o corpo. O jeito seria esperar até a próxima estação.
“Tudo vai ficar bem se eu não o encarar...”, pensei, numa tentativa de me acalmar.
Mas logo vi que estava errado. O jovem rapidamente se aproximou e sentou ao meu lado. Meu coração pulara para a boca e meu corpo congelara, tomado por certa aflição. Eu tentava me manter o mais estático e impassível possível, enquanto que ele mantinha uma postura mais relaxada. Apesar de todos os meus esforços, não consegui não olhá-lo de esguelha, muito aflito e desconfiado.
Depois de uns minutos ele despiu a cabeça, revelando os cabelos loiros extremamente claros. Os olhos avermelhados também não puderam ser ignorados. O que é esse sujeito? Por que, com tantos lugares vagos, ele se sentou logo ao meu lado?
E, em meio a um silêncio sufocante, finalmente chegamos à estação seguinte. Eu já me preparava para levantar quando o rapaz de cabelos muito claros de adiantou, levantando-se e vestindo o capuz mais uma vez. Eu seguia seu distanciamento com os olhos, tomado por uma súbita confusão.
E assim ele partiu, como se nunca tivesse realmente estado ali.
Como se tudo tivesse sido apenas ilusão.
.
E assim os dias passaram.
Passada uma semana, eu voltava ao centro, desta vez a trabalho. O metrô se encontrava novamente bem vazio — provavelmente pelo horário — e eu já estava há algumas poucas estações de meu destino.
Andar de metrô não me agradava muito, mas não podia ser evitado, visto que o tempo de trajeto era bem menor. Logo, o jeito seria me acostumar com o típico ambiente, odor e usuários...
O vagão novamente parou e, acompanhada pela corriqueira campainha, as portas se abriram. Deixei que meus olhos caíssem à plataforma, onde um familiar sujeito encapuzado se encontrava, e que logo se apressou em minha direção. O mesmo rapaz da semana anterior. Meu peito se acelerou. Estaria ele me perseguindo?
Senti-me estremecer com a aparição, mas não havia nada que eu pudesse fazer, visto que as portas já haviam se fechado novamente. Virei o rosto à janela, nervoso com o que já me era previsto e que não demorou muito para que se concretizasse: o rapaz sentou-se mais uma vez ao meu lado, sem pronunciar quaisquer palavras. Logo o vagão voltou a se mover, aumentando gradativamente a velocidade.
“Tudo está bem... Não é nada... Você não está sendo perseguido. Tudo não passa de uma grande coincidência.”, eu pensava, tentando desesperadamente me acalmar.
Ele mais uma vez despiu o capuz, revelando os cabelos esbranquiçados, os mesmos que ficaram marcados em minha memória. Ele suspirou, aparentando muito cansaço, e não pude evitar que minha atenção fosse novamente direcionada a ele, que, em um descuido meu, fora percebida pelo rapaz.
– O que foi?
– A-Ah? Nada, desculpe-me. E-Eu só... – um inexplicável nervosismo tomou-me o corpo, de forma que as palavras não mais saiam coerentes de minha boca.
Ele franziu as sobrancelhas, enquanto fixava os olhos vermelhos em mim. Assim ele não colabora com o meu nervosismo!
Ele estralou a língua, em desgosto, e desviou os olhos de mim.
– Meu albinismo não é contagioso, então pare de me olhar como se eu fosse um fantasma!
– Al-Albinismo?
– Sim! – exclamou, como se o que dizia fosse óbvio. – O que pensou que eu era? Uma ilusão? – havia mais sarcasmo do que ira em suas palavras.
Senti-me corar, tomado por certo constrangimento. Meus pensamentos estavam assim tão evidentes?
– Obviamente que não! – apressei-me em negar, apesar de não ter sido muito convincente.
Ele me olhou, desconfiado, e parecia ver tudo através de mim.
– Mas admito que a ideia de um sequestrador ou assaltante...
– Ahn? – ele fez uma careta, interrompendo-me – Assim você me ofende! Você é o que para ser sequestrado em pleno metrô? Algum filhinho mimado de aristocrata?
– Não. – respondi, de pronto, ofendido. – Mas o fato de você andar por ai encapuzado não é lá muito tranquilizante!
– E o que você quer que eu faça? São ordens médicas! – ele disse, transparecendo certo desgosto.
Olhei confuso para ele, mas ele apenas virou o rosto, irritado.
– Isso não é problema seu. – ele disse, claramente irritado com o assunto.
– E eu também não tenho o menor interesse na vida de um completo aleatório. – respondi, de pronto, virando o rosto à frente, de forma a ignorar o rapaz.
Obviamente o que eu dissera era mentira e, por dentro, eu me corroia de curiosidade. Senti-me um tanto desconfortável. Droga, quem é esse sujeito, que mesmo eu mal conhecendo, me desperta tamanho interesse? Por que não consigo simplesmente desviar os olhos dele?
Depois de uns dois minutos em que manteve a cara fechada, ele bufou, fazendo-me virar o rosto em sua direção.
– Aristocrata, eu sei que minha rara e inigualável beleza mexeu com seu aristocrático coração desde o primeiro momento em que nos vimos, mas poderia parar de me olhar com olhos tão pervertidos? Eu sinto como se você quisesse ver por baixo de minhas roupas. – ele disse, em tom calmo e sério.
Meu coração pulou-me à garganta e meu rosto coloriu-se de escarlate. Como ele consegue fazer piadas tão constrangedoras enquanto me encara, sem sentir qualquer vergonha?! Há limites até para brincadeiras estúpidas!
– N-Não é isso, tolo! Eu só estava tentando te compreender.
– Eh? E por que você faria isso? – ele me encarava, confuso, mas divertindo-se claramente com meu constrangimento. – Eu sou tão interessante assim? Minha incredibilidade é reconhecida até pela nobreza! Surpreendente!
– Eu não sou um nobre! Sou um músico! – eu disse, já irritado, apontando para a mochila preta que eu levava comigo entre os pés.
– Ah... – ele olhou estupefado para a bolsa, talvez se questionando sobre desde quando ela se encontrava ali – E que instrumento o jovem mestre toca? – perguntou.
– Sou um violinista. E pare com esses apelidos estranhos.
– Então posso te chamar de almofadinha-mor?
– Não! Sem apelidos! – eu respondi, já bastante irritado e impaciente.
– Então me diga o seu nome. – ele disse, simplesmente, abrindo um largo sorriso.
Olhei para ele, diretamente nos olhos, claramente desconfiado. O silêncio permaneceu por alguns segundos, até que o rapaz se pronunciasse novamente, com feições desacreditadas.
– Não me diga que ainda acha que sou algum agente da máfia que está te perseguindo.
– Tenho o direito de desconfiar o quanto eu quiser, apesar de seu exagero ser evidente.
Ele suspirou, impaciente e cansado de minhas atitudes.
– E o que quer que eu faça para acabar com essa sua desconfiança, meu caro aristocrata?
Ignorei o apelido, pois certamente quaisquer tentativas minhas de corrigi-lo seriam frustradas. Depois de um pouco pensar, voltei minha atenção novamente a ele.
– Poderia começar me dizendo o seu nome. – eu disse, simplesmente.
– Ah, mas isso não é justo! E como vou saber que você é que não pertence à máfia alemã e está perseguindo o meu incrível ser?!
– Simples. Eu sou austríaco, logo não posso fazer parte da máfia alemã. – eu respondi, convicto de minhas palavras.
– Poder você até pode...
– E você poderia dizer logo como se chama! – eu disse, já impaciente.
Ele deu um sorriso abafado e me estendeu a mão.
– Gilbert Beilschmidt.
Ainda um tanto desconfiado, apertei a mão que me era estendida.
– Roderich Edelstein. Muito prazer.
.
E assim os dias foram passando.
Todos os dias, eu acordava cedo e pegava o metrô até o centro, no mesmo horário, para ir ao trabalho. E todo dia eu o via, na mesma estação, no mesmo horário e no mesmo vagão, sempre vestido com o inconfundível capuz.
No começo, estranhei o comportamento repetitivo do albino, mas com o tempo acabei me acostumando, afinal todos vivemos rotinas, não havendo assim motivos para minha desconfiança. E então, sete dias por semana, ele aparecia e se aproximava, sentando sempre ao meu lado, conversávamos um pouco e ele partia na estação seguinte.
Quando dei por mim, ele já fazia parte de minha rotina; não que isso fosse algo ruim, pois era bom ter algum conhecido nesta enorme capital. Era bom ter alguém para conversar de vez em quando. E Gilbert era alguém até que bem interessante, apesar de que não gostasse muito de falar sobre si mesmo.
Gilbert Beilschmidt era um jovem alemão, nascido na região da antiga Prússia. Não trabalha em nada, mas aparentemente é sustentado pelo irmão mais novo, que é escritor de alguma coluna de jornal. Apesar de minhas incansáveis tentativas de convencê-lo de que viver à custa dos outros não é correto, ele não se mostrou muito animado, sempre usando como desculpa o fato de ser proibido pelo médico. O albinismo é sequer tão sério assim?
Ele não me disse muito mais que isso, mas espero que um dia ele possa pelo menos me explicar essa rotina complicada dele — cuja explicação me é sempre negada. O que afinal ele vai fazer todo dia naquela estação? Mas eu sentia que enchê-lo de perguntas também não era correto, e o jeito seria esperar pelo dia em que as respostas viessem.
– Então, jovem mestre, como vão as aulas? Arrumou mais algum aluno para traumatizar?
– Sim, dois irmãos, mas aparentemente nenhum deles tem uma boa afinidade com o violino. Esse não vai ser um trabalho fácil. – respondi ao albino, deixando de lado suas provocações.
– Se fosse fácil não seria divertido! E você, meu caro aristocrata, carece de um pouco de emoções nessa sua humilde vida.
– Está dizendo que eu não me divirto?
– Estou apenas falando a verdade. – ele sorriu, convencido do que dizia – Tudo que você pensa é no seu trabalho. Ou ainda não percebeu que, ao longo destes últimos dias, tudo que conversamos foi sobre sua rotina no novo emprego?
– Bem, é você quem sempre inicia o assunto. – eu disse, um tanto ofendido com a falta de consideração.
– Caso você já tenha se esquecido, eu tentei adentrar em outro tipo de assunto noutro dia... – disse ele.
– E eu já o avisei que minha vida sexual não é de seu interesse! – respondi, relativamente alto, tomado por certo constrangimento.
O albino riu, divertindo-se com minha situação. Tomado pela irritação, acabei subindo minha voz mais do que deveria, e que acabou predominando ao silêncio. Agora eu era observado fixamente pelos poucos passageiros presentes no vagão, que me lançavam olhares reprovadores. Era nessas horas que enforcar o Gilbert me parecia um grande bem à sociedade. Quantos mais ele não constrangeu desta forma?
Meu rosto queimava, por um misto de vergonha e irritação, e o albino se limitava a sorrir bobamente. Mas foi de repente que suas feições mudaram, tornando-se mais sérias e confusas. Ele nada dizia, e, perante o seu silêncio, eu me via sem reação ou palavras. Ele encarava os meus olhos violetas fixamente, e quando dei por mim já havia mergulhado nos vermelho dos dele. O pesado silêncio me fez estremecer, mas eu ainda não sabia ao certo como reagir à súbita mudança de comportamento do alemão.
Apenas sei que os olhos dele me encaravam com tanta profundidade, que não consegui manter o contato visual por muito mais tempo, acabando por desviar o rosto, incomodado com o olhar do albino. Qual é o problema dele?
– Rod... – ele deu uma curta pausa, aproximando aos poucos a mão de meu rosto. Fechei os olhos, nervoso e confuso com os súbitos gestos. O que ele planejava? – O seu rosto está tão vermelho... Você...
O soar de uma campainha acompanhou-se da abertura das portas e da chegada da estação. Abri os olhos, apenas para vê-lo distanciando a mão e encarar a porta com certa decepção. Ele se levantou e levou o capuz de volta à cabeça, escondendo os cabelos claros. Ele se afastava com a mão erguida, numa forma de despedida.
– Até amanhã, Rod. – ele disse em tom monótono, sem nem mesmo se virar.
Não respondi à sua despedida. Eu o seguia como os olhos, cansado e atordoado. Meu coração batia acelerado e sem ritmo. O que foi que aconteceu aqui?
As portas se fecharam e logo eu não mais o via. A movimentação do vagão retornou, mas meus pensamentos desceram naquela estação, atrás do albino e das respostas que eu tanto necessitava. O que ele estava prestes a dizer? Levei a mão ao peito, que ainda se apertava fortemente.
“Coração, por que você bate tão acelerado?”
.
No dia seguinte, parti como sempre em direção ao centro. O vagão balançava mais que o eventual e se encontrava também ainda mais vazio, mas nada se comparava à agitação de minhas emoções em meu peito e mente.
A campainha tocou: havíamos chegado à fatídica estação. As portas se abriram e meus olhos correram à plataforma. Meu peito acelerara de forma que os batimentos me eram facilmente sentidos e escutados.
Porém não havia nada lá.
O vagão voltou a se mover, como se a ausência do corriqueiro rapaz encapuzado não fizesse a menor diferença. Como se o mundo não dependesse daquela existência.
Minha ida para o centro naquele dia foi, estranhamente, quieta e solitária. Um sentimento inexplicável de vazio me assolava o peito por todo o percurso.
Naquele dia também não tive meu melhor desempenho. Minhas sinfonias nunca foram tão vazias ou entristecidas.
.
Passaram-se um, dois, três dias, sem que eu tivesse quaisquer noticias de Gilbert. Ele não mais aparecia e isso, por algum motivo, me perturbava — e não como uma simples quebra de rotina. O vazio que eu sentia por sua ausência era dolorosa e incompreensível.
Apenas depois de uma semana ele finalmente voltou a aparecer, e não pude evitar sentir certo alívio e felicidade ao vê-lo adentrar tão despreocupado o vagão, como se nada tivesse ocorrido.
– Olá, Rod! Como vai? – perguntou, enquanto se jogava ao lugar vago ao meu lado.
– Eu é que pergunto.
Ele olhou-me, confuso e um tanto surpreso. Depois do meu estado de êxtase, tudo que me sobrara fora irritação pelo seu sumiço repentino.
– Depende. Estava com saudades? – ele disse, sorrindo, convencido como sempre.
– Não comece com as brincadeiras! Você sumiu de repente e eu não sabia o que tinha acontecido! Não que eu realmente saiba algo sobre você!
Os olhos rubros me encaravam muito surpresos. Ele sorriu e levou a mão ao meu cabelo, bagunçando-o.
– Oras, não aconteceu nada! Isto é um metrô, não uma sala de reuniões. As pessoas não tem que passar por aqui sempre, no mesmo horário, todos os dias. – ele sorriu, ameno, como quem explica sobre o universo para uma criança pequena. – Não se preocupe tanto comigo, jovem mestre, apesar de eu saber que seus sentimentos te impedem de simplesmente me ignorar! – ele gargalhou, divertindo-se com a própria piada.
Mas eu não ria, tampouco o contrariava. Ele tinha razão afinal: aqui é só um metrô, nada mais. Não era como se nossas vidas andassem juntas, elas apenas coincidiam de se encontrarem vez ou outra. O albino ainda bagunçava meu cabelo, e depois de poucos segundos finalmente percebi o estrago que ele fazia.
– Tolo, não bagunce meu cabelo... – afastei as mãos do albino e virei o rosto corado. Qual o problema dele?
Ele sorriu, sem segundas intenções ou sarcasmos. Apenas um suave curvar dos lábios. Senti que aquele era o final do assunto e que nenhuma insistência de minha parte me levaria a mais respostas. Mesmo assim, algo me inquietava — e não era o fato do albino sempre ter o controle da situação, pois a isso eu já havia me acostumado há um bom tempo.
– Então, Rod, como têm sido as aulas? Tem maltratado muito os seus alunos ultimamente? – brincou, sorrindo agora sarcasticamente.
– Não vamos falar disso... – eu disse, levemente sério. O albino não me contestou, mas seu estranhamento fora óbvio. – Gilbert...
– Esse é o meu incrível nome, não o desperdice! – ele voltou a sorrir, talvez desejando aliviar a tensão.
Alguns segundos de silêncio se seguiram, e eles não passaram despercebidos pelo albino.
– Jovem Mestre?...
– Vamos falar um pouco de você hoje.
– Acho que já te falei tudo de interessante. A não ser que finalmente esteja interessado em minha invejável vida sexual.
– Não comece com provocações. Não estou com humor ou paciência para isso hoje. – eu disse, o tom de voz ainda mais sério do que eu provavelmente previra.
– Então sobre o que quer falar? – ele aparentava estar bem confuso com meu comportamento.
– Por que você pega tanto o metrô neste horário?
– Essa é uma história incrível demais para ser resumida! E, como eu já disse anteriormente, nosso curto espaço de tempo não me permite uma explicação satisfatória.
Suspirei, casado e impaciente com tantas desculpas. Essa não era a primeira vez que ele recusava-se a abordar tal assunto.
– Posso fazer uma pergunta então?
– Ahn? O que é toda essa formalidade, jovem mestre? À vontade. – ele sorriu, ainda mais confuso.
– É porque quero que me responda com sinceridade. – eu ainda soava muito sério.
O albino nada respondeu, mas concordou em um discreto aceno da cabeça. Sua confusão nunca fora tão evidente. Ele forçava para manter o sorriso, mas este já se entortava em meus lábios.
– Por que...
Não pude completar minha frase.
O vagão subitamente parou e, sem tempo para qualquer reação, fui arremessado para frente, batendo a cabeça. A voz do albino me chamava e gritos ecoavam ao meu redor, mas meus sentidos aos poucos se perdiam.
Tudo se apagou.
.
Quando finalmente comecei a recobrar os sentidos, o ambiente estava escuro e silencioso. Minha cabeça latejava por causa do impacto, mas se apoiava em algo relativamente macio, o que amenizava um pouco a dor. Levei a mão à testa, massageando a têmpora, enquanto minha vista desembaraçava aos poucos.
– Rod, você acordou?
Levantei os olhos, deparando-me com um par de olhos vermelho vívido, que se destacava nas penumbras.
– Gilbert?
– Você está bem? – perguntou ele, em aparente preocupação.
– Acho que sim... O que aconteceu? – perguntei, ainda muito atordoado.
– Aparentemente algum defeito técnico... – ele deu uma curta pausa, ainda encarando-me fixamente – Tem certeza de que está bem? – sua voz não era escandalosa, mas séria e preocupada. O albino aparentava até mesmo certo nervosismo.
– Estou bem, mas minha cabeça dói... – respondi, esfregando a área da cabeça onde latejava.
– Também! Parecia que o metrô é que tinha batido, tamanho o estrondo! Ksesesese.
– Por que está rindo da minha desgraça? – perguntei, impaciente, afastando a mão da cabeça.
– Desculpe. – apressou-se em dizer, fazendo com que as sílabas se enrolassem enquanto saiam de sua boca. Ele, com certeza, não estava agindo normalmente. – Er... Rod, eu sei que você está confortável e que não está se sentindo muito bem, mas poderia se levantar?
A razão voltou-me imediatamente, permitindo-me perceber a situação em que nos encontrávamos: por acaso, o macio em que minha cabeça repousava tão confortavelmente era, na verdade, as pernas do albino.
Levantei tão rapidamente quanto me era possível, o rosto mais corado que nunca. Olhei para o albino e surpreendi-me ao perceber uma fraca coloração rubra colorindo-o as maças do rosto embranquecido. Ele nunca me parecera tão indefeso...
Decidi por nada dizer, e apenas me sentei direito e ainda ao seu lado. O ar entre nós estava pesado, mas quebrá-lo era algo que eu não sabia ao certo como fazer, principalmente quando não entendia a origem de toda aquela tensão.
– Quando será que virão nos ajudar? – perguntei, não mais suportando todo aquele silêncio.
– Em breve. – ele deu uma rápida pausa – Bem, mas pelo menos ninguém se machucou seriamente.
– Sim...
E assim o sufocante silêncio retornou. Perante um Gilbert calado e sério, eu não sabia ao certo como agir. Eu estava nervoso e não tinha coragem para pronunciar sequer uma única palavra ou mesmo para encarar o albino nos olhos, mesmo que eu estivesse extremamente curioso por ver suas feições.
Depois de quase cinco minutos, eu finalmente decidi que aquela quietude não mais podia se prolongar, pois já havia se tornado insuportável — ainda mais quando há tantas perguntas esperando por respostas.
– Por que você sempre senta ao meu lado. Digo, logo no primeiro dia, sem nem nos conhecermos... – eu tentava me expressar, e tinha certeza que qualquer coisa que eu dissesse era melhor que o silêncio.
Ele se virou para mim, um tanto confuso.
– Fui um incômodo? – perguntou ele, surpreso e também me surpreendendo. Aquelas eram as últimas palavras que eu esperava ouvir, ainda por cima sendo pronunciadas de forma tão séria.
– Não...
– Ksesesesese. É claro que não! Afinal quem iria se cansar da minha incrível existência? – ele sorria, e finalmente voltava à normalidade.
– Muita gente, com certeza. – eu disse, erguendo os óculos.
Ele virou o rosto e se aproximou ainda mais de mim, de forma a me encarar, com um daqueles, já muito familiares, olhares provocativos.
– E por que você não? – perguntou, sorrindo largo.
– Não é essa a questão. – respondi, decidido por mudar o assunto. Meu constrangimento era indescritível.
Ele voltou a se afastar e suspirou, com um sorriso tenro nos lábios.
– Você é que estava no meu lugar...
– Como? – eu disse, erguendo uma das sobrancelhas, tentando digerir as poucas palavras que me foram ditas.
– É porque certos hábitos são difíceis de mudar... Mas por que você não mudou de lugar naquele dia?
– Eu não via motivos para isso. – respondi, simplesmente.
Ele deu uma risada abafada, que me soara estranha.
– O mesmo para mim. Além disso, minha companhia é sempre uma honra para qualquer um. – ele disse, confiante.
– Também não vamos exagerar...
Um tímido sorriso escapou-me à face corada. Ele olhava-me, surpreso, e demorou um pouco até que eu compreendesse sua reação. E a surpresa do albino apenas me constrangia ainda mais. Mas de repente, o sorriso do albino voltou a sumir, e as feições voltaram àquela estranha seriedade. Era como se ele se corroesse por dentro, por algum motivo que era, a mim, desconhecido.
– Rod, eu tenho que te falar uma coisa. – disse ele.
Reservei-me ao direito de encará-lo, surpreso e confuso, enquanto aguardava que o albino prosseguisse em suas palavras. Ele aparentava certa ansiedade e nervosismo, e ao mesmo tempo tristeza. Seja lá o que ele havia de falar, com certeza era algo a ser escutado com atenção.
– Eu estava internado na semana passada.
É claro que a sua ausência me abalara, e ao ouvir do próprio albino que fora por problemas na saúde, senti-me estremecer.
– E o que você tinha?
Ele abriu um sorriso mais triste que qualquer lágrima que ele pudesse derramar, se virando de frente para mim.
– Um melanoma. Eu tenho um melanoma.
Uma corrente elétrica pareceu me percorrer o corpo, tamanho o choque que eu senti. “Câncer de pele... Gilbert tem câncer de pele.”, eu ouvia ecoar em minha cabeça. Nada pronunciei. Não havia palavras que pudessem resumir meu estado. Como? Onde? Quando? Por que ele nunca me falou disso? Eu o encarava, com a boca entreaberta, ainda a procura de algo adequado para dizê-lo.
As penumbras do vagão, que ocultavam os demais passageiros e me isolavam com Gilbert, não colaboravam com a atmosfera deprimente. Sentia-me triste, em choque e enganado. Por que fiquei no escuro durante esse tempo todo? Por que ele decidiu me falar isso logo agora?
– E por que você está me contando isso? – eu evitava encará-lo, pois não sabia como eu reagiria se o fizesse.
Ele não respondeu imediatamente.
– É porque eu estou morrendo.
Tremores percorreram-me o corpo logo após a confissão. Eu sentia a raiva florescer e se misturar à minha tristeza.
– Mas por que você está me falando isso? – dei uma pausa, sentindo a respiração pesar – O que você quer de mim? Quer que eu chore ao pé do seu túmulo?! – encarei o albino, enquanto as palavras saíam ríspidas, e até um pouco grosseiras, de minha boca.
O albino observava-me, surpreso. Talvez minha reação não fosse a esperada. Talvez eu o tenha decepcionado — o que afinal seria muito compreensível.
– Não... – o albino falou um pouco depois, a voz estranhamente baixa – Não! Não, Rod! Eu não quero que você chore nunca, ainda mais por minha culpa! Eu quero que você seja a pessoa mais feliz do mundo! – ele disse, relativamente alto, como se as palavras simplesmente não se prendessem mais em seus lábios.
– E-Ei! Gilbert, fale mais baixo! Ainda mais quando você diz esse tipo de coisa! – eu disse, escandalizado com a facilidade que o albino tinha em dizer palavras tão constrangedoras a bom som.
– Foda-se o resto! Foda-se o mundo!
– G-Gil... – tentei impedi-lo de continuar.
– Rod, eu estou morrendo! Eu não tenho mais muito tempo de vida! E quer saber a pior parte? Passei o último ano inteiro conformado com o que iria me acontecer, apenas esperando a morte, mas, agora que eu sei o que é a real felicidade, não quero mais morrer! Tudo porque te conheci!
– O-O quê?
– Roderich, como você pode ser tão lerdo? – ele disse, indignado.
Não houve tempo para qualquer reposta ou reação por minha parte, pois quando dei os lábios do albino já se encontravam a centímetros dos meus. Ele não os distanciou nem os aproximou, apenas permaneceu naquela posição, encarando-me com determinação e ainda segurando-me forte pelos ombros e me apertando contra as paredes do vagão.
– Rod... Você me permite? – ele disse, obviamente pedindo permissão para um beijo – Eu não farei nada sem o seu consentimento. – ele prosseguiu com as baixas palavras, com os lábios agora quase colados aos meus.
Ele encarava fixamente meus olhos violetas, enquanto que eu me perdia nos vermelhos dos dele. Palavras simplesmente não me vinham à boca, e a nossa proximidade me desconfortava. Eu sabia que ele pretendia me tentar, para que assim eu cedesse ao seu pedido. Mas mesmo assim eu nada dizia. Eu realmente não sabia ao certo o que eu queria.
– Rod? – ele perguntou, confuso perante meu silêncio e minhas feições espantadas.
– E-Eu... – tentei forçar a saída de algum som, afinal eu não poderia simplesmente me calar, mas nenhuma palavra me vinha à mente. O que eu deveria responder? O olhar fixo do albino não colaborava com meu nervosismo e ansiedade. O que eu quero afinal?
Permaneci nesse silêncio por quase um minuto, sem sequer um instante ter deixado de ser o foco de atenção de Gilbert, mas ele o rompeu com um suspiro e se afastou, sentando-se de volta no banco. Eu me encontrava petrificado, mas estava ciente de que o súbito aumento de nossa distância causara-me certo desconforto.
Quando finalmente me vi livre de meu estado estático, e começava a compreender o que realmente ocorrera, puxei forte o ar e encarei o albino, em um movimento veloz. Suas feições ainda se encontravam decepcionadas, o que me causar uma forte contração no peito. Talvez eu finalmente entendera o que eu queria afinal.
Ao notar meu olhar sobre si, Gilbert se virou e pôs-se a me encarar de volta, talvez esperando que eu me pronunciasse.
– Gil... Eu tenho que te falar uma coisa... Eu...
O vagão balançou e as luzes subitamente voltaram, mas ainda não nos movíamos. Ver os outros passageiros do vagão acabou por me lembrar que eu não estava realmente a sós com Gilbert, me causando certo constrangimento e me fazendo silenciar.
– Rod? – perguntou o albino, confuso com meu repentino silêncio.
Rodei os olhos pelo vagão, havia mais umas dez pessoas conosco. Eu deveria continuar as minhas palavras? O albino observava minhas feições sérias e pensativas com curiosidade, mas nada disse. Abri a boca em sinal de terminar a frase que havia começado.
“Senhores passageiros, desculpem-nos pelo transtorno. Voltaremos a nos movimentar imediatamente.”
E assim voltamos a nos mover. Virei para frente, numa tentativa — falha — de esquecer o assunto e o albino ao meu lado, que se mantinha quieto desde minha recusa. Eu me sentia nervoso, e tinha plena consciência de que Gilbert era o motivo. Mas eu não podia fazer nada! Eu não mais me sentia confortável a dizer aquelas palavras, que se entalaram em minha garganta e que se negavam a sair tão cedo, ainda mais sobre a visão da estação seguinte se aproximando rapidamente.
Eu definitivamente não queria dizer aquilo às pressas. Talvez outro dia. Talvez amanhã. Mas um dia com certeza. Sim. Um dia eu o diria o que sinto.
– Aristocrata, por que se calou de repente? Hein? – ele me questionou, ainda com o olhar curioso.
Sorri para o albino, que corou um pouco ao ver um sorriso, mesmo que tímido, em minha face, que também estava um pouco enrubescida.
– Outro dia eu te falo. – dei uma curta pausa – Ei... Por que eu nunca percebi que você tinha um melanoma? – eu murmurei, sentindo-me um tanto culpado.
– É que não é visível. – ele respondeu, dando de ombros.
Olhei, curioso, para ele, ao que ele prosseguiu.
– Está nas minhas costas. – apontou ao lugar onde, supostamente, estava o câncer. – É é por isso que sempre pego o metrô no mesmo horário, para ir ao hospital.
Senti-me ainda mais culpado e um “Ah.” foi tudo que saiu de minha boca. O albino provavelmente percebera o que eu sentia, pois sorriu para mim de forma muito alegre.
– Mas então, aristocrata, aquilo foi uma promessa. Certo? – ele perguntou, e, mesmo que sorrindo, sentia-se certa seriedade em suas palavras.
Demorei um pouco para entender do que ele falava, mas, assim que compreendi, me apressei em respondê-lo.
– Sim. Outro dia eu te falarei. – e voltei a sorrir para ele.
Ele sorriu de volta e concordou e um aceno da cabeça, logo se pondo de pé ao som da cada dia mais típica campainha.
– Até mais, Rod.
– Até mais, Gil.
Ele sorriu ao ouvir sendo chamado por um apelido, algo que eu sempre recusara a fazer, e se apressou porta afora, os cabelos claros balançando revoltosamente. As portas fechavam e logo o albino acenava uma última vez e me dava às costas, logo vestindo o capuz. Eu me afastava, e estávamos assim cada vez mais distante.
Eu sabia o que queria dizer a ele e também o que queria fazer, mas eu não estava pronto ainda. Assim, eu esperaria até amanhã.
Mas ele não veio.
Ele nunca mais veio.
.
E, assim, o tempo passou.
Todos os dias eu iria ao centro trabalhar, sempre acompanhado do violino e de um desconfortável silêncio.
Nunca me recuperei totalmente daquela perda, que, além de tudo, fora acompanhada de muito arrependimento. E, além disso, até hoje uma dúvida nunca me abandonou: “Que gosto teria afinal aqueles lábios?”.
Notas finais
Ninguém quer minha cabeça não, né?
Também não foi fácil para mim! O.O Eu jurei que nunca mais ia matar nenhum dos meus lindos, mas... essa fic... necessária... Aaaaaaa Ok. =.=
Mas ficou legal? Está muito corrido? Confuso? Chato? Odioso?
Deixem suas opiniões. E dicas. E elogios. E conselhos. E xingamentos. Eu sei que tem gente me xingando e pensando "Como assim eles nem se beijaram?!"
...
=.= Contentem-se! xD
Bem, é isso.
Quero reviews. Ouviram? ò.ó
Hehe.
BJJS clair-chan ^^
Fale com o autor