Luz dos meus olhos
35 Capítulo 35
Notas iniciais
Marina não obteve resposta para sua pergunta. Apenas sentiu as mãos de Clara deixarem o seu corpo e viu, em seguida, a morena levantar de onde estava e vestir o robe que estava pendurado no encosto do sofá e que ela ainda não havia notado. Sentou-se e, sentindo que havia algo errado, puxou uma almofada para si, cobrindo sua nudez, enquanto Clara caminhava em direção à cozinha. Algum tempo passou, e a fotógrafa não sabia se foram minutos ou segundos, só sabia que o silêncio distante da morena a deixava angustiada. Por fim levantou-se também e foi atrás dela, recolhendo suas roupas pelo chão e se vestindo. A morena estava de costas, parada diante da pia da cozinha, as mãos apoiadas na bancada, a cabeça inclinada em direção ao peito.
– Clarinha – Marina envolveu a cintura da namorada e colou seu corpo ao dela – Que foi?
– Me solta, por favor — Clara retirou as mãos da fotógrafa do seu corpo e voltou a ficar em silêncio.
– Clara? Amor, você tá me assustando – Marina a segurou pelos ombros, fazendo com que se virasse, de frente para ela – Olha pra mim – pediu e usou os dedos para levantar o rosto da namorada.
Marina nunca tinha visto aquela expressão no rosto da morena. Sentiu o coração apertar no peito, o chão fugir de sob os seus pés. Depois dos momentos maravilhosos daquela manhã, Clara agora olhava para ela com uma expressão dolorida. O olhar estava marejado, mas aquilo não era tristeza, a fotógrafa sabia. Havia fotografado tantas pessoas, registrado tantos sentimentos com o auxílio de suas lentes, que seria impossível negar: os olhos de Clara transmitiam a mais pura decepção.
– Clara...
– A Duda foi falar com você?
– Clara, olha...
– Você veio aqui por causa disso, Marina? Por que conversou com a Duda?
Marina sentia que havia algo errado, mas não conseguia compreender o que era. Afinal, qual era o problema de ter ou não conversado com a mulata? Questionou Clara.
– Qual o problema, Marina? — a voz da morena soava magoada, mas não se elevou em nada – Quer mesmo saber qual o problema? O problema é que você não acredita em mim. O problema é que depois de tudo que você me falou, me acusou, mesmo eu tendo explicado, falado que nunca tive nada, que nunca quis nada com a Duda, você só veio me procurar depois de falar com ela. Depois de confirmar com ela tudo que eu disse.
Viu Clara passar a mão pelo rosto, secando as lágrimas que ameaçavam cair. Não sabia exatamente o que fazer, nunca se vira numa situação daquele tipo. Parecia tudo tão fora de lugar, Marina se sentia perdida: ela nunca tinha tido ciúmes de ninguém, nunca tinha feito uma cena que fosse sequer parecida com o que acontecera naquele fim de semana. E não se lembrava de ter pedido perdão a mulher alguma. Não se lembrava de ter alguma vez experimentado o medo de perder, como acontecia agora. Não se lembrava nem mesmo de ter alguma vez pedido que Vanessa a perdoasse pelas suas escapadas com outras mulheres, e a ruiva tinha sido o seu relacionamento mais longo. Mas agora era Clara, e ela precisava da morena. Precisava que ela a desculpasse.
– Clara, para com isso – a fotógrafa abraçou impetuosamente a namorada – A gente se entendeu, a gente acabou de fazer amor – tentou beijar-lhe a boca, mas a morena não permitiu, desvencilhando-se do abraço.
– Amor, Marina? Não dá pra fazer amor com alguém em quem a gente não confia – Clara falava baixo, os lábios tremiam – A gente pode ter transado, trepado, qualquer coisa. Mas fazer amor...
– Clara, para com isso, por favor – a fotógrafa agora sentia as lágrimas escorrendo pelas bochechas. Segurava a morena pelos braços – Eu já te pedi desculpas. O que mais você quer, Clara?
Por um instante Marina achou que Clara iria tocá-la, acabar com aquela situação. E a morena quase fez isso, seus dedos quase recolheram as lágrimas do rosto da namorada. Congelou o gesto antes de alcançá-la, a mão parada no ar.
– Eu quero, eu preciso, Marina, de alguém que confie em mim, que não precise ouvir outra pessoa para acreditar no que eu falo.
– Mas Clarinha... Era a Duda, a sua amiga... — o tom de Marina era de súplica.
– Pior ainda, poxa. Vocês acabaram de se conhecer – Clara baixou os olhos, encarando os pés da namorada antes de terminar a frase – E você tava com ciúmes dela. Você brigou comigo por isso.
– Clara, por favor – Marina falou um pouco mais alto, aflita. Pediu – Olha pra mim.
A morena levantou o rosto e a fotógrafa se perdeu na tristeza que os olhos castanhos revelavam. Queria falar com ela, acalmá-la, tirar aquele sofrimento que sabia que estava ali. Mas não conseguia encontrar as palavras, era totalmente inexperiente nessa parte dos relacionamentos que envolvia explicações e pedidos de perdão e necessidade de superar o próprio orgulho. Tomou as mãos da morena e as apertou junto ao peito.
– Clara, a gente viaja amanhã. Não faz assim comigo.
A morena voltou a baixar os olhos e Marina temeu pela viagem programada. O medo só aumentou quando a assistente falou, com a voz absolutamente cansada:
– Uma vez você me disse que eu não conseguia mentir pra você. Que você conseguia ler a verdade em mim, por que meus olhos eram transparentes.
– Clarinha, eu... — a fotógrafa começou a falar, mas não soube o que dizer. A frase morreu em seus lábios.
– Marina, eu só... Eu... eu só queria que isso fosse verdade, sabe – Clara puxou as mãos, soltando-se. Aproximou-se da fotógrafa e ajeitou os cabelos dela, tirando uma mecha que caía sobre o rosto. Fechou os olhos e comprimiu os lábios, e Marina soube que era para impedir o choro de cair. Passaram-se alguns instantes antes que ela voltasse a falar – Eu preciso ficar um pouco sozinha.
Marina não respondeu. Imóvel, viu a morena se afastar e seguir pelo corredor, lentamente, rumo ao quarto. Era como se Clara carregasse consigo um peso muito grande, tão lentos eram seus passos. Mas Marina não conseguiu sair de onde estava para alcançá-la.
***
Não imaginava voltar para casa com aquele gosto amargo na boca. Clara não tinha saído do quarto, mesmo depois que Marina conseguiu se mexer e foi atrás dela. A porta estava trancada. A fotógrafa bateu, chamou, mas não houve resposta. Ainda estava lá, colada à porta, quando, sabe-se lá quanto tempo depois, Helena entrou no apartamento chamando pela irmã.
Helena, apesar de estranhar a situação, foi discreta. Não pediu detalhes, talvez porque fosse ouvi-los depois da boca de Clara. Apenas a abraçou e levou para a sala, fez com que sentasse e tomasse um pouco de água. Por fim, quando Marina já parecia mais tranquila, falou:
– Eu não sei o que houve, Marina, mas eu conheço a minha irmã. Se ela quer ficar sozinha, é melhor deixar. Ela às vezes precisa de um tempo, sabe? A Clara nunca gostou de discutir... Tá, gostar ninguém gosta, mas a Clara é diferente. Ela evita aqueles momentos em que a maioria perde a cabeça, sabe? Ela detesta a ideia de se descontrolar, de gritar. Nem sei como ela ficaria se gritassem com ela... Se ela quer ficar sozinha, deixa. Outra hora, com os ânimos mais calmos, vocês se acertam.
A fotógrafa pensou em esperar por ali até que Clara mudasse de ideia. Mas depois de algum tempo, acabou concordando com Helena e, junto com ela, deixou o apartamento e o prédio. Agradeceu o carinho da mulher e, após vê-la seguir para a casa de leilões, dirigiu de volta para Santa Teresa.
***
Entrou no estúdio acreditando que não haveria ninguém lá. Contrariada, foi recebida por um comentário irônico de Vanessa, a quem não via desde a fatídica noite da festa, e pelo bom dia de Flávia. A ruiva fez uma piadinha qualquer sobre Marina ter saído tão cedo de casa, enquanto a assistente apenas quis saber:
– Você foi falar com ela?
Vanessa chegou a perguntar algo, mas foi ignorada. Marina correu para Flavinha, que tanto havia se preocupado com ela no fim de semana e a abraçou. Pela primeira vez, contou o que havia acontecido entre elas, a briga depois da festa e parte dos fatos daquela manhã. As palavras jorravam, misturadas às lágrimas. A assistente ouviu atentamente, sem interromper uma única vez. Quando Marina terminou de falar, sugeriu que ela fizesse como dissera Helena,que esperasse um pouco, até que Clara se acalmasse.
– Mas a gente viaja amanhã à tarde, Flavinha. Não dá pra ficar esperando – a frase foi interrompida por Vanessa, que até então ouvia em silêncio:
– Marina, para com isso. Essa mulherzinha tá te fazendo de idiota, não tá vendo?
A ruiva fez todo um discurso, que parecia ter sido cuidadosamente estudado. Repetiu, de várias formas diferentes, as insinuações de que havia algo entre Clara e Duda, enquanto a fotógrafa se abrigava no abraço de Flávia, que por sua vez tentava, inutilmente, convencer Vanessa a parar de falar.
– Acorda, Marina! Você nunca precisou correr atrás de ninguém e agora foi implorar o perdão dessa mulher? Pior, por causa de algo que ela é que devia se desculpar, né! Qualquer outra ia lamber o chão que você pisa e você aí, se lamentando por causa dessa dona de casa. Se ela não aceitou suas desculpas, problema dela. Segue em frente, a fila anda. Você não precisa dessa falsa...
Se Flávia não estivesse atenta, Marina teria partido para cima de Vanessa. A assistente segurou firme a fotógrafa, enquanto ela gritava com a ruiva, mandando que calasse a boca, que não falasse de Clara daquela forma. Por fim a morena perdeu a paciência e, colocando-se entre as duas, explodiu com a ruiva e a fez silenciar.
– CHEGA, VANESSA, CHEGA! VOCÊ JÁ CONSEGUIU O QUE QUERIA! AGORA SAI DAQUI!
Marina viu quando a ruiva mexeu os lábios, procurando uma resposta. Flávia, à sua frente, os braços abertos para mantê-la afastada, tinha o rosto vermelho, numa rara demonstração de raiva. Vanessa desistiu do que quer que pretendesse falar e saiu.
Até o final da tarde, Flavinha fez o possível para ajudar Marina. Tentou distraí-la, tirando dúvidas sobre a rotina do estúdio durante o tempo em que ela ficasse fora, ajudou-a a começar a ajeitar as malas. Clara não apareceu no estúdio para trabalhar.
Já eram quase sete da noite e a fotógrafa estava inquieta. Olhava insistentemente para o celular, começava a discar, mas sempre desistia. Simplesmente não sabia o que fazer. Ela tinha saído ansiosa pela manhã, para procurar por Clara. Ficar distante dela naqueles dois dias tinha lhe causado uma dor quase física. Ela sabia que não devia ter gritado com a morena e agora, depois da conversa com Helena, tinha certeza de que errara feio. Mas pedira desculpas. Ela tinha se desculpado e Clara parecia ter aceitado. Parecia não, Clara TINHA aceitado, elas se beijaram e fizeram amor depois disso, Clara tinha se entregado completamente ali, na mesa de jantar. Não, Marina não conseguia entender o motivo pelo qual a namorada tinha ido da ternura à magoa naquela manhã. Mas ao mesmo tempo, não contou a Flávia o porque tinha voltado para Santa Teresa sozinha. Não sabia explicar o que ela mesma não compreendia.
– Marina – a fotógrafa voltou à realidade ao ouvir a voz da assistente. Afastou os olhos do visor do celular, encarando Flavinha, que a aconselhou – Não dá pra resolver isso por telefone, por mensagem. Vocês precisam conversar, mas tem que ser olho no olho.
Pela segunda vez naquela segunda-feira, Marina dirigiu até o Leblon, até o prédio de Clara.
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