Luz dos meus olhos
30 Capítulo 30
Notas iniciais
Marina sentiu os dedos da morena apertando sua mão. A voz, alta e arrogante, e a frase não lhe diziam absolutamente nada, todavia era perceptível a tensão que tomara conta de Clara. Ainda assim, a assistente não disse nada. Afora a pressão de seus dedos e a expressão de sou rosto, que endurecera, nada mudou em sua postura. Ela sequer olhou para trás e a fotógrafa teve certeza de que ela sabia quem estava ali e a que se referia.
– Não adianta se fazer de desentendida. É de você mesma que eu estou falando.
Clara revirou os olhos e bufou, discretamente. Marina não se conteve e, sem soltar a mão da morena, virou-se para trás, para ver quem estava ali.
A mulher parada ali no hall, de olhar furioso, parecia bastante frágil: tinha os cabelos acinzentados, o corpo encurvado pelo peso da idade. Apoiava-se em uma bengala e seus lábios finos curvavam-se para baixo, como que numa expressão de eterno desgosto. Ao seu lado uma mulher de meia idade, vestida toda de branco, olhava mortificada para os pés, como se esperasse que eles criassem vida própria e a levassem pra longe dali. A mais velha olhou para Marina e desviou seus olhos para as mãos dela e de Clara, ainda unidas. Torceu o nariz, numa demonstração de desprezo. Ou seria asco?
Por fim falou, encarando a fotógrafa, falou:
– Uma moça tão bonita, tão delicada! Não devia andar com essa daí. Ela não quer nada de bom com você!
– Marina – Clara chamou, puxando levemente a mão que segurava, a voz rouca estava tensa – a gente pode subir pela escada?
A fotógrafa assentiu e se virou para segui-la. A velha senhora não se deu por vencida:
– Não adianta sair de nariz empinado! Eu sei quem você é! Se fazendo de santa a vida toda! Foi você que estragou a minha filha. Por sua causa ela virou aquilo...
A porta que dava acesso às escadas bateu atrás delas e as palavras da velha ficaram para trás. Clara subiu apressadamente por quatro andares, até que sentiu que a mão da namorada escapava da sua. Marina se apoiava na parede, sem fôlego.
– Amor! – Clara parou e envolveu o rosto da jovem com as mãos – Desculpa, eu saí correndo e nem percebi... Você tá bem?
Marina a tranquilizou, balançando a cabeça afirmativamente. Sem perceber, escorregaram as duas pela parede e sentaram nos degraus. A fotógrafa recuperava o fôlego ao mesmo tempo em que acariciava os cabelos da morena, que apoiava a cabeça em seu ombro. Ficaram assim por alguns minutos, até que Clara deu um sorriso fraco e sugeriu que terminassem de subir pelo elevador.
– Acho que já deve ser seguro.
Foram até o apartamento em silêncio. Assim que entraram Clara afundou no sofá, a cabeça jogada para trás. Levou as mãos aos cabelos e, de olhos fechados, inspirou profundamente, como se tentasse reencontrar o equilíbrio que demonstrara no hall do prédio. Marina serviu água para as duas e sentou-se de frente para ela, sobre a mesa de centro, sem dizer nada. Clara tomou quase todo o copo antes de falar.
– Eu tenho tanto medo, Marina – a voz ainda tinha alguma tensão – Medo que esse tipo de coisa aconteça na frente do Ivan. Que alguém fale de mim pro meu filho assim, desse jeito que ela falou agora – os olhos da morena estavam úmidos, ela se esforçava para não chorar.
A fotógrafa conteve as perguntas todas que queria fazer: deslizou para o sofá e aconchegou a namorada em seu colo, até que ela se acalmasse. Só depois, mesmo tendo um palpite, perguntou quem era aquela senhora e o que exatamente aquilo tudo significava. E Clara contou.
– Aquela, meu amor, é a mãe da Duda.
Clara explicou que a mulher nunca gostara muito dela, desde que era criança. Na verdade, ela nunca parecera gostar muito da própria filha então, claro, se a filha gostava de Clara aquilo já era um bom motivo para que ela não gostasse.
– A sorte era que o tio Cido, o pai da Duda, era um amor. Sempre limpava a nossa barra.
A morena falou também do que Duda tinha lhe contado recentemente: a mãe não aceitava sua sexualidade. Isso não era nenhuma surpresa, a mulher era um poço de intolerância e preconceito. Desde sempre Clara tinha a impressão de que ela sentia vergonha da cor da pele de seu marido, que era negro, e, por consequência, de sua filha. E agora, desde o retorno da mulata, ela cismara que Duda voltara por causa da separação de Clara. Ela insistia que Clara era a má influência por trás da homossexualidade da filha e não via problemas em dizer isso em voz alta. Mas essa tinha sido a primeira vez que ela o fizera na frente da morena.
– Credo, deve ser horrível ter uma mãe assim.
– É... Deve ser por isso que a Duda vivia lá com a gente...
– Eu também trocaria aquela louca pela sua mãe, sem pesar duas vezes! – Marina se alegrou quando Clara riu do comentário. Ela estava melhorando. Seguiram conversando, a fotógrafa buscava tranquilizar a namorada.
Mais um pouco e o incidente já havia sido superado. Elas decidiram pedir algo para comer ali mesmo. Enquanto esperavam, Marina resolveu que era uma boa hora para fazer uma pergunta:
– Clarinha, sabe o que me deixou curiosa? – Perguntou enquanto brincava com os cabelos da morena, que estava deitada no sofá, a cabeça em seu colo.
– Hum?
– Aquele dia lá em casa, quando você resolveu jogar a Duda na piscina, do que é que ela tava falando?
***
Marina voltou para casa um tanto frustrada. Clara tinha desconversado quando ela perguntara sobre as palavras de Duda a respeito da própria Clara, sobre ter vergonha igual aos tempos de adolescência. Claro que ela havia insistido, sem pressionar, usando mais o charme e a manha que qualquer outro argumento. E quando estava quase lá, a campainha atrapalhou.
Duda chegara preocupada. Tinha sido ela que contratara a enfermeira da mãe. Claro, alguém com quem a mãe concordasse, ou ao menos não implicasse tanto, mas que tivesse bom coração. E ela havia feito a mulher prometer que a avisaria se a mãe criasse problemas, em especial com os outros moradores do prédio, principalmente se fosse com Clara.
Receberam a mulata e a tranquilizaram. Nem a morena, nem Marina, mencionaram o receio de que aquilo se repetisse na presença de Ivan, afinal Duda pediu tantas desculpas pelo que a mãe havia feito que nenhuma delas quis agravar o fato.
A ex-top model acabou jantando com elas e, depois de comerem, apontou para a sacola que trazia consigo. Tinha trazido de volta fotos que pegara com a amiga para fazer cópias, já que sua mãe havia descartado as que havia em sua casa quando ela fora para a Europa. Depois de conversarem mais um pouco e de Clara garantir que a avisaria se voltasse a ter problemas com a louca (sim, a morena chamava a mãe de Duda dessa forma, sem qualquer constrangimento), a mulata se despediu e as deixou sozinhas.
Marina quis ver as fotos e Clara concordou em mostrá-las. A fotógrafa viu passar diante de seus olhos imagens de sua namorada desde a infância: da menina de tranças, sorriso levado e joelhos esfolados até a jovem de corpo escultural e pele dourada que sorria atrevida em um retrato na praia. A mulata era presença constante ao lado dela, muitas vezes abraçada, sempre com o mesmo sorriso cúmplice. Um sorriso que, por vezes, a exemplo do que acontecia com Clara, estava mais nos olhos que nos lábios.
Marina tinha voltado a perguntar do que a namorada e a amiga falavam na piscina, e a morena voltou a desconversar, afirmando que aquilo era bobagem, coisa de criança. “Bobagem da cabeça dela, meu amor”, Clara afirmara, antes de distraí-la com beijos e carinhos. E logo era hora de Marina voltar a Santa Teresa. Naquela noite ficariam separadas: Clara teria uma reunião na escola do filho na manhã seguinte e a fotógrafa tinha, logo cedo, um ensaio para uma importante campanha publicitária. O último ensaio antes da viagem para Londres.
Quando já estava deitada sentiu seu celular vibrando, com uma mensagem da morena: beijos de boa noite e saudades. Respondeu com toda a vontade que tinha de senti-la ali consigo, de dormir enroscada em seu corpo.
Teve dificuldade em adormecer. Naquela noite, pela primeira vez desde a manhã em que Clara entrara correndo em seu quarto e se declarara, ela teve medo de que a namorada desistisse do relacionamento. Era óbvio que uma mãe dedicada, como era a assistente, iria sempre querer proteger o filho e Marina, que desde sempre, até onde alcançava a memória, sabia que era diferente da maioria das outras garotas, já sentira muitas vezes o peso do preconceito, já fora magoada em diversas situações. Se nunca fora fácil passar por aquelas situações, ela bem entendia o receio de Clara pelo filho. Ela própria seria capaz de estapear quem atingisse a inocência de Ivan com qualquer manifestação de intolerância. O pensamento a fez sorrir, quando se deu conta de que já se sentia responsável pelo garoto.
Perto das três da manhã, cansada de virar, inquieta, para os lados, decidiu sair da cama. Não saberia dizer se fez algum barulho que pudesse ter despertado Vanessa, mas a ruiva logo se sentou ao seu lado no jardim e as duas atravessaram o restante da madrugada conversando.
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