Luz dos meus olhos
25 Capítulo 25
Notas iniciais
Marina entrou no edifício e trocou algumas palavras gentis com o porteiro, antes de seguir para o elevador. O rapaz já a conhecia e sabia que não precisava avisar Clara da sua chegada.
Tocou a campainha e preparou o seu melhor “sorriso surpresa”. Não tinha avisado que iria até o Leblon, resolvera num impulso. A tarde ao lado da namorada tinha sido maravilhosa, todavia, sozinha em seu quarto, percebeu que tinha impedido a morena de falar e sentiu uma pontinha de remorso. Afinal, nos últimos Clara a cercava de cuidados e carinhos e o que ela tinha feito fora apenas exigir mais, quase iniciando uma discussão quando estavam à beira da piscina. Quando ouviu que a porta se abria, preparou-se para o abraço carinhoso de Clara e foi surpreendida ao ver a mulata à sua frente.
– Eduarda? Você...
Foi interrompida pelo gesto de Duda que, puxando-a para dentro, cumprimentou-a com os dois beijinhos habituais e fechou a porta.
– Pode me chamar de Duda, Marina.
– Ah, claro – a fotógrafa olhou à sua volta. Nem a namorada, nem Ivan estavam à vista.
– A Clara tá no banho, ela já vem.
– Marina! – Ivan entrou na sala, carregando um quebra cabeças – Que legal que você tá aqui. Vai jantar com a gente? – o garoto deixou o jogo sobre o sofá e a abraçou.
Sentindo um certo desconforto, Marina respondeu que não sabia ainda. Sentou-se no sofá e olhou para Duda, sentada no chão, diante da mesa de centro. A mulata usava um vestido branco, leve e curto, que deixava as longas pernas, muito bem torneadas, quase totalmente expostas. Parecia absolutamente à vontade naquele espaço. Alheia à presença da fotógrafa e de Ivan, continuou o que estava fazendo: de uma caixa tirava álbuns e fotos soltas, observando e às vezes, separando algumas. A fotógrafa mordeu o lábio, querendo sentar-se ao lado dela e ver do que se tratava. Enquanto tentava se convencer a ficar onde estava, Ivan resolveu o problema para ela.
– Marina, você podia me ajudar a montar esse quebra cabeça. É meio difícil, maior que o outro que a gente montou no outro dia...
Quando Clara chegou à sala, Ivan tentava juntar as peças enquanto Marina e Duda, sentadas uma de cada lado do garoto, separavam as peças que formavam as bordas do desenho para ele.
– Ei, mocinho, achei que você ia montar isso aí sozinho!
– Ah, mãe, a Marina e a tia Duda tão só separando as peças. Quem monta sou eu.
Clara parou atrás da fotógrafa e agachou-se atrás dela, colando os lábios em seu rosto. Poderia parecer um cumprimento comum, se não durasse cinco segundos mais que o necessário. Sentou-se ali mesmo, uma mão na cintura da namorada, e passou um tempo observando a interação dos três.
– Duda, conseguiu achar tudo que você queria? – Clara questionou, fazendo Marina levantar os olhos para as coisas em que a ex-modelo mexia quando ela entrou.
– Imagina, nem em sonho, Clarinha. Sabe que eu já nem lembrava que tinha tanta coisa? É difícil separar algumas, acho que eu quero todas!
– Então leva, oras! Escolhe com calma, copia depois você me devolve. Ah, e ainda tem as que ficaram com a minha mãe!
A mulata agradeceu e logo disse que precisava ir embora. Clara ainda tentou convencê-la a ficar para jantar, mas ela não aceitou. Disse que ia passar pelo apartamento da mãe, ali no prédio mesmo, e que não podia deixar que ficasse mais tarde: a visita já não seria agradável, não podia deixar que ela reclamasse também do horário.
Marina não pode evitar o sentimento de incômodo quando, depois de despedir-se de Duda, a viu ser abraçada pela sua namorada. Um abraço forte e demorado, ao final do qual a morena sussurrou para a outra:
– Se precisar, eu tô aqui, viu!
A mulata balançou a cabeça afirmativamente, deu um beijo no cabelo de Ivan e se foi.
***
O jantar foi comida mexicana, sugestão de Marina. Clara pretendia cozinhar, mas a fotógrafa impediu, alegando que o delivery permitiria que aproveitassem o tempo juntos, os três, e assim fizeram as duas ajudando Ivan com seu quebra cabeças, até a chegada do entregador.
Quando terminaram de comer a morena disse ao filho que fosse escovar os dentes e vestir o pijama, e o garoto obedeceu sem reclamar, enquanto a mãe tirava a mesa. Marina se apressou em ajudá-la a levar a louça para a pia e perguntou se Ivan dormia sempre tão cedo.
– Não, de jeito nenhum. Mas ele fica brigando com o sono sempre e por isso eu faço ele se arrumar logo depois do jantar. Assim, se ele dormir, é só botar na cama.
Realmente, o pequeno se esforçou por ficar acordado. Terminou o quebra cabeças com a ajuda de Marina, conversou com ela e com a mãe sobre os personagens do brinquedo e sobre a escola e acabou dormindo no colo da fotógrafa enquanto ela explicava para ele como seria a viagem das duas para a exposição. Quando Clara carregou o menino para a cama a namorada a seguiu. Vê-la colocando o filho na cama, ajeitando o cobertor, dando o beijo de boa noite... “Isso me dá saudade da minha mãe. Ela sempre fazia isso comigo, mesmo quando eu tava acordada, me carregava até a cama.” Aproximou-se, tímida, e fez um carinho nos cabelos de Ivan. Percebeu que a namorada a observava sorrindo e fez o que tinha vontade: deu o primeiro beijo de boa noite da sua vida. Pelo menos o primeiro que não era dedicado a uma mulher que ela desejasse.
De volta à sala, Marina puxou a morena para deitar em seu colo. Durante longos minutos elas permaneceram em silêncio. De olhos fechados, Clara aproveitava os carinhos da fotógrafa, ora em seus cabelos, ora em seu rosto. Por fim disse:
– Tão bom ter você aqui, assim.
– Eu também adoro.
– A gente devia fazer isso mais vezes – a morena falou e entrelaçou os dedos em uma das mãos de Marina. Levou as mãos unidas ao peito, apertando-as contra si, antes de levá-las aos lábios e beijar a mão de Marina, que sorriu e suspirou antes de imitar-lhe o gesto.
– Clarinha, que é que você queria me dizer hoje à tarde? Você disse que ia me fazer um convite?
Clara sentou, dando um leve tapa no joelho de Marina.
– A senhorita não lembra que já aceitou? Agora está nas minhas mãos – riu, diante da expressão de surpresa da namorada.
– Clara... O que você tá aprontando?
– Nada demais – deitou-se de novo sobre as pernas da fotógrafa, olhando seu rosto – No sábado minha mãe vai fazer um jantar pra Duda. E você – bateu o dedo na ponta do nariz da namorada – você vai comigo, mocinha. Vai comer o melhor frango com polenta da sua vida.
***
Os dias passaram rápido até o sábado. Toda manhã Marina era acordada por Clara e a convencia a ficar ao menos dez minutinhos aconchegada ao seu corpo. Os preparativos para a exposição iam bem e Ivan se aproximava cada vez mais da fotógrafa. O desânimo do começo da semana tinha ido embora e até a relação com Vanessa tinha melhorado: a ruiva conversava com ela sem demonstrar mágoa ou ciúme e evitava provocar Clara.
Naquela dia a morena não viria. Todavia Marina despertou no horário em que ela normalmente deitava em sua cama. Permitiu-se ficar mais um tempo deitada, afinal não teria compromissos naquela manhã. E já estava meio adormecida quando sentiu o colchão ceder próximo às suas costas e uma mão de dedos longos e macios acariciou seu rosto. Sorriu. O perfume era inconfundível.
– Achei que só ia te ver à noite – falou, puxando a mão da morena para sua boca e depositando ali um beijo.
– Eu não resisti. Precisava vir aqui te dar um beijo de bom dia. Ver se você dormiu bem...
Marina virou-se na cama, ficando de frente para a namorada. “Linda, sempre tão linda, Clarinha.”
– Vou dormir melhor ainda se você ficar comigo mais dez minutinhos.
Clara não podia. Duda a esperava no carro, ela ia com a amiga a uma loja de aluguel de carros e depois iriam ao shopping, Clara tinha hora marcada no salão. Pretendiam almoçar por lá. Despediu-se com um beijo carinhoso, confirmando a hora em que a fotógrafa iria para sua casa à noite, e saiu, deixando para trás uma Marina aborrecida.
Completamente acordada após a passagem da namorada, a fotógrafa tomou um banho rápido e desceu para o estúdio, ignorando o café da manhã. Foi ali, entre fotos e mais fotos que Vanessa a encontrou, duas horas depois. A ruiva conseguiu disfarçar bem a satisfação quando Marina comentou, chateada, que Clara havia trocado sua companhia pela da ex-top model.
***
Clara teve uma manhã agitada. Ajudou Duda a escolher um carro para alugar, já que a mulata não queria mais depender de táxis e foi com ela para o shopping. Primeiro o salão: depilação, unhas, cabelo, tudo em meio a muitas risadas das duas. Depois as compras.
Na verdade a assistente não pretendia comprar muita coisa, apenas algumas roupas para o filho. Mudou de ideia quando Duda a arrastou para dentro da loja de lingerie. Passaram um bom tempo lá dentro, escolhendo e provando peças variadas. Como faziam na adolescência, abriam o provador para mostrar uma à outra as peças e trocavam palpites. Quando a morena confessou que não tinha nenhuma peça vermelha, Duda fez Clara provar diversas peças até encontrar o tom ideal para sua pele.
– Clarinha, posso ver? – a mulata puxou a cortina do provador de uma vez só.
De costas para a amiga, Clara se admirava no espelho, vestindo apenas o short jeans e o soutien bordô, o cabelo preso em um coque frouxo, mechas soltas nas laterais do rosto. Seus olhos encontraram os da amiga no espelho.
– Wow! Sensualidade, teu nome é Clara! – Duda brincou e fechou a cortina – Acho que já sabemos qual o seu tom de vermelho, Clarinha.
***
Sentada na borda da piscina, Marina balançava os pés na água, ensaiando o mergulho, quando Vanessa veio de dentro da casa. A ruiva vinha falando de longe, trazendo o celular da fotógrafa nas mãos e estacou, emudecendo subitamente ao notar que ela vestia apenas a calcinha do biquíni. Sem conseguir desviar os olhos dos seios desnudos, quase desistiu de agir como a boa amiga que vinha tentando demonstrar ser.
– Que foi, Van? Aconteceu alguma coisa?
Vanessa respirou fundo e continuou se aproximando. Estendeu o celular.
– Tava tocando lá dentro, a Clara te ligou. Quando eu fui atender, caiu – falou e virou-se, voltando para dentro da casa, já que não conseguiria manter a postura controlada por muito tempo diante daquela visão.
Marina olhou o celular. Duas chamadas perdidas. E uma mensagem. Abriu e leu: “Amor, preciso de ajuda. Me liga, pfv. Bjo” Tinha terminado de ler quando o aparelho tocou de novo.
– Marina? – a voz parecia tensa – Que bom que você atendeu.
– Clarinha, que foi? Aconteceu alguma coisa? Você tá bem?
– Tô, tô bem sim. É só que...
– Que o quê, amor? Tá me deixando preocupada – Marina levantou-se, agitada.
– Não, Marina – Clara se apressou em tranquilizá-la – É só que eu tô aqui em casa e bateu uma dúvida, achei que você poderia ajudar.
– Dúvida? Que tipo de dúvida, Clarinha? – o alívio era evidente em sua voz.
Marina riu quando ouviu a morena dizer que não sabia o que vestir para o jantar daquela noite. Nem parecia a mesma Clara.
– Clarinha, como assim você não sabe o que vestir? É um jantar na casa da sua mãe. E de todo jeito, você pode vestir qualquer coisa que sempre fica linda...
– Mas eu queria a sua ajuda pra decidir – Marina a imaginou fazendo beicinho e sorriu de lado para a imagem que se formou em sua mente.
– Se você quiser eu posso ir mais cedo pra sua casa, aí eu te ajudo.
– Não, tudo bem. Eu dou um jeito, não quero te atrapalhar.
Marina protestou: Clara não atrapalhava, ela poderia ir até o Leblon naquela mesma hora. Mas a morena recusou. Disse que resolveria de outra forma e se despediu, deixando a fotógrafa sem entender nada. Ainda encarava o celular quando Vanessa apareceu outra vez, chamando por ela. Ao mesmo tempo o aparelho em suas mãos apitou, indicando uma nova mensagem. De Clara.
“Abra sozinha. 250109”. Era tudo que ela tinha escrito. Sem entender aquilo, Marina ouviu a ruiva ao seu lado avisar que havia um motoboy aguardando no estúdio, com uma entrega para ela.
– O rapaz diz que tem que entregar o pacote nas suas mãos e pra mais ninguém – Vanessa falava e lhe estendia uma saída de praia já que a parte de cima do biquíni não estava por perto. Marina se vestiu e foi até o estúdio.
– Dona Marina? – o rapaz pareceu reconhecê-la e lhe estendeu uma caixa preta, enfeitada com um laço em cetim branco, de onde pendia um cartão com a delicada caligrafia de Clara: Marina Meirelles, dizia o cartão.
Pegou a caixa e lembrou da mensagem que recebera instantes atrás. Agradeceu ao rapaz e se surpreendeu quando ele disse que aguardaria a resposta. Não entendeu nada: Clara mandara um presente, que ela deveria abrir sozinha. O mensageiro parecia saber que deveria levar uma resposta. E aqueles números estranhos na mensagem... Percebeu que Vanessa observava a cena, curiosa.
Para poder abrir a caixa sozinha, conforme a instrução de Clara, pediu que Vanessa providenciasse água, ou café, ou qualquer coisa, para o rapaz. Subiu a escada para o mezanino, longe dos olhos dos dois e colocou a caixa sobre a mesa. Quando desfez o laço entendeu o significado dos números que a namorada lhe enviara: sob a fita de cetim escondia-se o fecho da caixa, preso por um pequeno cadeado, semelhante àqueles utilizados em bagagem, que se abria com senha. Ajustou os números e abriu a caixa.
Sobre o papel de seda branco, um bilhete da amada perguntava: “Marina, qual deles eu devo vestir hoje à noite?”. Retirou da caixa dois embrulhos de papel de seda branco. O primeiro revelou um conjunto de calcinha e soutien em renda azul marinho, com detalhes em branco. A fotógrafa sentiu a boca secar diante do atrevimento da namorada. As peças eram lindas e a sua imaginação a fez ver Clara vestida daquela forma diante dela.
Controlou a respiração e abriu o segundo pacote. Outro conjunto de lingerie, desta vez em branco. A cor que realçava a pele dourada da sua Clarinha. Não sabia ao certo o que fazer: as duas opções eram lindas e sexys e ela mal podia esperar para ver a namorada dentro de uma delas à noite. Definitivamente, a morena tinha encontrado uma forma deliciosa de provocá-la. Por fim, decidiu qual deles gostaria de tirar do corpo da jovem naquela noite “Não tem a menor chance dela me provocar assim e não passar a noite comigo. Clara, sua doida!”
Decidiu que responderia à provocação apenas enviando de volta a lingerie escolhida. Guardaria o outro conjunto consigo, ao menos por enquanto. Fechou a caixa, usando o cadeado e o escondendo novamente sob o laço e a levou de volta para o motoboy. Pediu que Vanessa desse uma gorjeta ao rapaz e correu para o quarto, com o segundo embrulho de papel de seda nas mãos. Sentia-se excitada com a ousadia de Clara. Nunca tinha passado por situação parecida.
Tinha acabado de guardar o delicado embrulho quando o celular apitou, com outra mensagem da namorada. Mordeu o lábio inferior e abriu o texto.
“Marina, eu não te avisei, mas as cores tem um significado. Aqui vai:
Branco: você, nas minhas mãos, a noite toda.
Azul: sou toda sua esta noite. Faça o que quiser.”
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