Luz dos meus olhos
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Marina tinha pisado o primeiro degrau da escada que levava ao seu quarto quando ouviu a voz de Vanessa, que entrava na sala.
– Olha, essa cena eu nunca imaginei que ia ver na minha vida! Isso aí que você tá carregando é uma bandeja? Marina, agora você realmente tá exagerando! Você, Marina Meirelles, carregando uma bandeja? – Vanessa debochou da situação. Marina estava acostumada a ser servida, nunca carregara uma bandeja nem para si mesma.
– Bom dia pra você também, Vanessa! – Marina retribuiu o deboche com ironia – Acrescenta aí na lista de coisas que você nunca imaginou que hoje eu não tô só “levando o café” não... EU MESMA preparei isso aqui, sabe? – e subiu as escadas enquanto a ruiva revirava os olhos.
***
Clara acordou devagar. Quando percebeu que estava no quarto de Marina, na cama dela, sentou-se num pulo só. Toda a noite anterior rodou em sua cabeça, que doía de forma absurda. Olhou em volta, tateando a cama, procurando pela fotógrafa. Quando abriu a boca para chamar seu nome ouviu os passos que vinham na direção do quarto.
– Olha só – Marina falou de forma animada – minha bela adormecida acordou! – Marina equilibrou a bandeja sobre o criado mudo e pulou na cama, estendendo a mão carinhosamente para o seu rosto – Dormiu bem, Clarinha?
_Ahn, eu... Claro, dormi sim. Eu – “Nossa, ela não tá chateada! Caraca, como é que eu me desculpo agora? Que vergonha! Não vou conseguir olhar pra ela!” – Clara mantinha os olhos baixos, sentindo o carinho de Marina em seu rosto – Marina, eu queria...
– Shiiii – a fotógrafa levou um dedo aos lábios dela – não precisa falar nada não – levando a mão ao queixo de Clara, Marina fez com que ela levantasse a cabeça. Olhava para ela com um sorriso adorável:
– Adorei passar essa noite com você, Clarinha. Poder dormir assim, abraçadinha com você foi... Ah, não sei nem explicar como eu dormi feliz, só de ter você aqui!
Ouvindo a fotógrafa falar, Clara começou a sorrir, sentindo-se um pouco melhor. Observou a mulher à sua frente: ela usava uma camisola minúscula, em seda branca e um delicado robe rendado, também branco, amarrado de forma displicente. Abriu os braços para ela, que prontamente aceitou o abraço, apertando o corpo contra o seu. Clara mergulhou seu rosto nos cabelos da jovem, permitindo-se sentir aquele cheiro que tanto amava.
– Como você pode acordar assim tão linda, Marina? – perguntou, num sussurro, para em seguida beijar-lhe o ombro, num delicado estalinho. Marina riu e afastou-se devagar.
– Olha só quem fala – fez um carinho em seu rosto – você está linda, sabia?
Clara corou. Ainda usava a mesma regata da noite anterior e a delicada calcinha, também preta. Imaginou que a maquiagem estaria borrada e sentiu-se tal qual um guaxinim descabelado. Baixou os olhos outra vez, encarando os próprios joelhos.
– Ei! Fica assim não, Coisinha! – Marina voltou a abraçá-la e falava em seu ouvido – Você tá linda sim! Mais, você É linda! – “Tão linda que eu quase não dormi pra poder ficar te olhando!” – Olha só o que eu trouxe pra gente! – apontou para a bandeja de café – Também trouxe analgésicos, se você precisar.
***
Clara voltou para casa logo após o café, com o pensamento em Marina. Como ela podia ser tão delicada? Tão adorável? Sentia-se envergonhada pelo fiasco da noite anterior, mas a jovem sequer mencionara o assunto. Tampouco permitira que Clara o fizesse, quando ela tentou se desculpar.
Quando entrou em casa sua cabeça já tinha voltado a doer, apesar dos analgésicos. Tinha combinado de voltar à casa de Marina, passariam o dia juntas. Porém, não tinha ideia do que fazer para se redimir. Tinha pensado em passar a noite com ela, mas não daquela forma. E agora se sentia ainda mais insegura.
Sim, ela sabia que amava Marina e que havia reciprocidade nesse sentimento. Admitira há muito tempo que sentiam desejo uma pela outra. Ansiava cada vez mais pelos beijos e pelas carícias que trocavam. E mesmo assim, na noite anterior, agira como uma idiota. Por puro medo de decepcioná-la, acabara bebendo mais do que devia e isso não tinha ajudado muito a deixá-la desinibida.
Na verdade, ela tinha demonstrado sim alguma desinibição. E Marina, sempre tão delicada, preferira interromper as carícias. Fora sutil na hora, mas agora Clara sabia que ela notara os efeitos do álcool afinal – “Porque mais ela iria me oferecer analgésico logo cedo?”. Marina havia dito estar exausta e pedido a ela que dormisse em sua casa. E haviam dormido abraçadas, juntas, sem que nada mais íntimo acontecesse.
Pronta para sair, olhou mais uma vez para o espelho: short jeans, blusa branca soltinha e toda recortada nas costas, delicadas sandálias creme, de salto médio, os cabelos num coque frouxo, displicente. Sorriu satisfeita, tomou outro comprimido e saiu.
***
Marina decidiu checar seus e-mails no estúdio enquanto esperava. Depois do seu quarto, aquele era seu lugar preferido, quase um “habitat natural”. Depois de checar a parte mais séria, permaneceu sentada no mezanino e resolveu dar uma olhada no Facebook, para matar o tempo. Ouviu passos na escada e se virou.
– Há! Olha só quem tá sozinha! – Vanessa deu um sorrisinho irônico – Que foi, Clarinha te largou pra ir fazer a feira, foi? – Marina não respondeu, apenas revirou os olhos – Ou você já tá enjoando da mulherzinha de família que arrumou, hein?
– Van, olha só, por mais que eu goste de você eu não vou ficar ouvindo você falar da Clara assim. Eu – levantou a voz, firme – não permito, tá entendendo? E tem mais – Marina se levantou e a encarou – daqui a pouco ela tá de volta. Tenta se controlar, eu quero que ela se sinta à vontade aqui, não em um campo de batalha.
Vanessa ergueu as mãos, fazendo a careta mais próxima do que imaginava ser um sorriso inocente:
– Fica tranquila. Eu jamais iria gastar meu tempo atrapalhando vocês. Pra quê, né?
Marina estranhou a tranquilidade dela. Sabia que Vanessa não aceitava seu envolvimento com Clara, que torcia para que elas não se entendessem. E estava intrigada com o fato de que ela não havia mais tentado interrompê-las. A Vanessa que conhecia não agiria assim. Decidiu arriscar um palpite.
– Você e a Flavinha tem passado bastante tempo juntas né? Ela parece te fazer bem.
Vanessa se aproximou e segurou seus braços, olhando firmemente em seus olhos:
– O que eu tenho com a Flávia não é nada sério. Você sabe que eu ainda te amo, que vou continuar te amando, não sabe?
– Olha só, Van – Marina se desvencilhou das mãos da outra e deu dois passos para trás, afastando-se dela – a gente já falou sobre isso tantas vezes. Eu não quero que você se magoe. Eu tô com a Clara agora. Você devia apostar nesse lance com a Flavinha.
– Eu já disse, minha história com ela não é pra ser levada a sério! E esse seu conto de fadas com a Clara também não – aproximou-se, apontando o dedo para o rosto da fotógrafa – Você sabe muito bem que isso não vai durar!
Marina levantou o dedo também, apontando para o rosto de Vanessa:
– Você não tem o direito de falar assim do meu namoro! Eu estou feliz com a Clara, eu amo – ergueu a voz – EU AMO ESSA MULHER, tá ouvindo?
– Ama? – Vanessa riu, debochada – Marina, você nem sabe o que é amor. Pra você a Clara é só mais uma conquista, mais um desafio. Ou foi, né! – Marina abriu a boca, mas a ruiva agora despejava sua frustação, sua raiva, sem dar chance para que ela falasse – A “sua Clarinha” logo vai ser só mais um troféu pra sua coleção. Pode até ser que dessa vez dure um pouco mais, pelo tempo que demorou, mas agora que você conseguiu o que queria, nós duas sabemos muito bem que você vai se cansar dela. Você conseguiu, ela largou o marido e se jogou na sua cama, tá entregue, não tá? Você fez o seu joguinho, seduziu uma mulher casada, transou com ela. E você vai pular fora, a gente sabe. Vai desistir porque ela não te satisfaz, não tem cacife pra te dar prazer! Vai desistir porque é volúvel, porque não gosta de ninguém! Você, Mari...
– CALA ESSA BOCA! – Marina gritou, surpreendendo Vanessa. Quando se deu conta, estava com a mão levantada, pronta para atingir o rosto da ruiva. Conseguiu evitar o gesto, mas continuou gritando – Você não sabe do que tá falando! Você não tem ideia do que eu sinto, porque você, você Vanessa, nunca foi capaz de amar assim! Quer saber? Esse amor que eu sinto vai muito além do físico, tá ouvindo? Não é um joguinho de sedução, não. Sabe por quê? – Marina agora olhava desafiadora, estava com raiva de Vanessa. Tinha medo de que ela jogasse aquelas insinuações nos ouvidos de Clara – Porque a gente ainda não fez nada do que você tá pensando. Porque eu quero tanto, mas tanto, a Clara na minha vida que eu posso esperar, posso ter um namoro com ela fora da minha cama, fora do meu quarto, até que ELA esteja pronta pra fazer amor comigo. Eu amo tanto que não me importo de esperar que ela também me queira!
– Ah, mas que bonitinho! – Vanessa girou em volta de si mesma com os braços para cima – Será que devo aplaudir? Marina, você tá namorando uma menina de quinze aninhos por acaso? Uma virgenzinha inocente? Você tá fingindo muito bem, merece até aplausos! – bateu palmas, rindo de forma sarcástica – Parabéns! Meus parabéns! Marina Meirelles se comportando como o príncipe encantado, só pra pegar a princesinha! Marina, essa mulher passou a noite na sua cama e você vem me dizer que não aconteceu nada? Sinceramente, não sei qual de vocês é pior, tá sabendo? Ela se fazendo de inocente pra te enrolar ou você se fingindo de boazinha pra conseguir transar com ela! Sendo que você teve a chance e desperdiçou! Que foi? Descobriu que vocês duas não tem química? Que você não tem tesão por ela?
Marina se aproximou. Ficou a centímetros do rosto da ruiva e a segurou com força pelos braços. Tinha nos olhos castanhos uma fúria profunda e Vanessa pode ver isso.
– Escuta aqui, Vanessa – sua voz continuava alta, como resultado da raiva que sentia – Eu não admito que você fale assim de novo. Nem da Clara, nem de mim, nem do que a gente sente uma pela outra, tá escutando? Meu amor pela Clara é definitivo, eu vou esperar por ela porque eu tenho todo o tempo do mundo, toda a minha vida pra viver ao lado dela. Eu sei que ela é a mulher que eu sempre procurei, a minha vida inteira! – Soltou um dos braços da ruiva e apontou o dedo outra vez para ela – E se você insistir em ficar contra a minha felicidade, se você tentar afastar a Clara de mim, pode ter certeza de uma coisa: eu me afasto de você. Por mais que a gente tenha uma história, por mais que eu goste de você, eu me afasto!
As últimas palavras de Marina deixaram Vanessa assustada. Desistiu de discutir, se esqueceu de tudo e começou a pedir desculpas, temendo a ameaça de afastamento. Ao mesmo tempo, na parte de baixo do estúdio, sem que nenhuma das duas suspeitasse, Clara e Flavinha se encaravam, uma em cada entrada. Com um dedo sobre os lábios, pedindo silêncio, Clara deu a entender que não pretendia que as duas mulheres soubessem que tinha ouvido a discussão. Flavinha, que já estava ali quando ela chegou, assentiu com a cabeça e gesticulou, indicando que ia dar meia volta, no que foi acompanhada por Clara, saindo uma para cada lado.
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