Notas iniciais
Esperando o gol dessa segunda. Esperando a Clara ir pra casa da Marina com o caminhão de mudanças. E cheia de vontade de estapear a Vanessa. Enfim, escrevendo pra matar a ansiedade.

Clara sentiu os lábios de Marina deslizando delicadamente em seu pescoço. Por vezes sentia que a língua, quente e úmida, tocava sua pele, explorando, tentando decifrar seu gosto. Subiu uma das mãos novamente pelas costas de Marina e levou os dedos pela nuca, até os cabelos macios da fotógrafa, onde começou a acariciá-la, para em seguida guia-la até sua boca, para um novo beijo. Com a outra mão puxou sua cintura, estreitando novamente o abraço, e dessa vez Marina a enlaçou com as pernas e subiu em seu colo, fazendo com que seus corpos ficassem completamente colados. Clara gemeu novamente quando sentiu que os seios se encontraram e Marina sorriu em seus lábios.

Adorando a sensação do toque e amando a reação de Clara, Marina desceu as mãos para a cintura dela, onde começou a fazer carícias suaves, deslizando os dedos para cima e para baixo. Sabia que o desejo de Clara era tão intenso quanto o seu, mas hesitou em puxar a regata dela para cima: não sabia como ela iria reagir, temia que ainda fosse muito cedo. Preferiu deslizar uma das mãos para as costas dela, colocando-a sob a blusa. Envolveu-a num abraço, mantendo o beijo e deslizou o polegar ao longo da coluna.

Quando sentiu o dedo de Marina subindo e descendo, lentamente, pela curva na base de suas costas, Clara arqueou o corpo e jogou a cabeça para trás, arfando. Trouxe o rosto de Marina para perto do seu e sorriu, olhando em seus olhos, em seguida aproximou-se e mergulhou e rosto em seus cabelos, permitindo-se apenas sentir as carícias que recebia e o cheiro delicioso que vinha do corpo dela.

Sem parar de acariciar as costas de Clara, Marina desceu a outra mão para tatear o chão em busca de apoio e desceu o corpo em direção às almofadas, o que fez com que Clara, que não havia previsto o movimento, descesse bruscamente por cima, colando totalmente seu corpo ao dela. Ambas prenderam a respiração nesse momento e Marina agora encarava o rosto de Clara bem próximo do seu, os olhos castanhos brilhando intensos, alguns fios da franja colados pela fina camada de suor que lhe cobria a testa, a boca entreaberta como um convite ao paraíso. “É ela. Pra sempre, eu quero essa mulher pra sempre.”

Clara sentia o calor que irradiava do corpo de Marina queimando sua pele através das roupas. O calor, junto com a visão do rosto afogueado da fotógrafa a fez derreter por dentro. Sentiu que seus mamilos endureciam e todo o corpo foi tomado por um misto de excitação e insegurança pelo que viria a seguir. Sentiu a tensão que se instalava em cada músculo do seu corpo. “Eu amo essa mulher. Eu quero. Mas e se ela não gostar?” Sentiu que Marina envolvia seu rosto com as mãos e fechou os olhos. Deixou-se puxar para outro beijo, procurando não ouvir o medo que começava a tomar seu cérebro.

Marina sentiu que Clara, embora correspondesse ao beijo com o mesmo calor de antes, parecia agora receosa em seus gestos. Ela já não acariciava seu corpo, mantinha as mãos em seus braços, apertando levemente. Marina podia sentir a tensão no corpo dela, uma tensão que disputava espaço com o desejo. Sem interromper o beijo, levou as mãos às costas dela e a abraçou. Sentia que devia interromper as carícias, mas não conseguia fazer isso, o desejo estava no comando de seus atos. E Clara, correspondendo ao beijo também não facilitava as coisas. Deixou que suas mãos percorressem as costas dela, chegando até a curva da coluna outra vez. Clara estremeceu com o toque e deixou um gemido escapar por entre o beijo, ao mesmo tempo em que sorria.

– Marina, você por acaso preten... – Vanessa apareceu do nada, acendendo todas, absolutamente todas as luzes do estúdio – Ah... Clarinha ainda tá aqui? – Marina notou um certo deboche. Notou também uma certa frustação nos olhos de Clara, que sentou de frente para ela, evitando olhar para Vanessa. Frustração e... Será que era alívio?

– Vanessa, será que você pode dar licença, a gente tá conversando aqui. E apaga essas luzes, desse jeito dá pra ver essa casa lá do Pão de Açúcar.

– Conversando? Hã rã, sei – a ruiva saiu contente em interromper. Não se incomodou em apagar as luzes.

Marina observou Clara, que ajeitava os cabelos, mais por falta do que fazer com as mãos que por necessidade. Ela aparentava uma timidez agora, os olhos pregados nos próprios joelhos. Marina deixou a cabeça pender levemente para a esquerda enquanto a observava. Parecia uma menina surpreendida em uma travessura. Estendeu as mãos para ela, ajeitando-lhe os cabelos atrás dos ombros. Clara olhou para ela e sorriu.

Não era um sorriso tímido. Era um sorriso enorme, iluminado. Sorriso de moleca. O sorriso que lhe roubara o coração. Perdeu-se naquele sorriso e quando percebeu já estava presa nos braços dela outra vez. Foi a sua vez de mergulhar o rosto em seus cabelos, sentindo o cheiro de sua pele. Pousou um beijo estalado no seu ombro e olhou para ela. Pediu:

– Janta comigo?

– Não posso – Clara levou a mão até a sua bochecha, acariciando-a – Prometi pro Ivan que ele podia dormir comigo hoje, na minha – fez aspas com os dedos – casa nova. Tenho que pegar ele daqui a pouco.

– Nesse caso – Marina pegou a mão em seu rosto, segurando-a entre as suas – promessa é dívida. Mas diz, como que ele reagiu quando vocês falaram da separação?

Conversaram por algum tempo, sobre a reação de Ivan e do restante da família de Clara, sempre mantendo algum tipo de contato: as mãos juntas, uma carícia nos cabelos, selinhos diversos. Quando Clara foi embora Marina a acompanhou até o carro. Caminharam abraçadas até lá, Marina com a cabeça apoiada no ombro de Clara, que por sua vez deixava a cabeça apoiada sobre a dela.

– Acho que preciso de um beijo de despedida – Clara fez charminho antes de entrar no carro. Aproximou-se de Marina, os olhos fixos em seus lábios, mas ela se afastou.

– Não tem beijo de despedida, não, mocinha! Que história é essa? – Marina riu da surpresa de Clara – Tomou-lhe os lábios cheia de desejo, num beijo longo, provocante – Isso aqui – deu-lhe um selinho – é um beijo – outro selinho – de boa – mais um – noite – Sorriu para ela – Não quero nunca me despedir de você.

Clara sorriu. Abraçou Marina com força.

– Sem despedidas então. De hoje em diante, entre a gente, só até logo – e Marina a beijou outra vez.

***

Clara levou Ivan para o apartamento onde pretendia morar por algum tempo. O menino foi recebido com festa pela prima e por Alice, a amiga que morava com ela e que conhecia o garoto desde sempre. Ele pareceu à vontade, exceto por um detalhe:

– Mãe, se aqui só tem dois quartos, onde é que a gente vai dormir? – ele já tinha percorrido todos os cômodos, e apenas duas camas. Clara explicou que eles ficariam na sala, onde ela mesma dormiria sempre, no sofá cama, que era suficiente para os dois.

– Sério? Então a gente vai poder ver tv até pegar no sono? Legal!

Ela sorriu. Era bom ver que o pequeno aceitava as mudanças, ainda que elas parecessem tão fora do padrão “família margarina”. Ela mesma nunca havia se imaginado dormindo num sofá cama emprestado na casa de outra pessoa, mas com certeza essa era uma opção melhor do que viver em conflito com o pai do menino e o pior, consigo mesma, por agir contra o seu coração. Quando as meninas se recolheram, deixou que o filho escolhesse o canal de desenhos na tv e acarinhou seus cabelos até que pegasse no sono, o que não demorou muito.

O celular apitou baixinho. Clara sabia quem era, antes mesmo de olhar. Sorriu e foi com o celular até a cozinha. Abriu a mensagem. “Já estou com saudades. Queria só dar boa noite pra você. Beijo”. Sem pensar duas vezes, ligou para Marina. Não foi preciso mais que um toque.

– Clarinha! Pensei que você já estivesse dormindo!

– Só liguei pra ouvir sua voz de novo. E pra te dar boa noite.

– Eu vou ver você amanhã? Por favor, não diz que não...

– Marina, eu tava pensando... Será que você ainda me aceita como assistente? Mesmo depois de tanto tempo?

Claro que Marina aceitava. Claro que ela queria Clara por perto o máximo de tempo possível. E claro, ela também apostava que havia ali um talento para a fotografia que merecia atenção, o que tornava tudo ainda melhor. Combinaram que Clara voltaria ao estúdio já no dia seguinte.

Quando voltou para junto do filho, Clara desligou a tv e tentou dormir, em vão. Os momentos que tivera com Marina no estúdio no final da tarde invadiram seus pensamentos, junto com a insegurança.

Não tinha qualquer dúvida em relação ao que sentia pela fotógrafa. Essas dúvidas já haviam sido superadas muito antes do fim do seu casamento. Mas naquele dia tinha percebido que havia algo mais a superar: por mais que a desejasse, Clara tinha receio de se entregar ao desejo. Tinha percebido que não resistiria à sedução que Marina exercia sobre ela, não conseguiria jamais recusar um único beijo, não se esquivaria de uma carícia. Mas tinha medo de não conseguir corresponder, medo de parecer uma idiota. Admitiu em silêncio, para si mesma: por não ter nenhuma experiência com mulheres, tinha medo de desagradar àquela mulher tão especial, medo de não conseguir lhe dar prazer.

Notas finais
Gente, estou amando receber os comentários de vocês. Por favor, continuem me dizendo o que acham.