Notas iniciais
Oi, gatalhada! Todo mundo preparado pro feriado? Eu ia soltar esse capítulo só na terça, mas vou passar o dia num workshop de fotografia e com certeza no final vai rolar um happy hour e eu não volto tão cedo pra casa. Então dei um jeito de finalizar hoje, só pra vocês.

Debaixo do chuveiro, Clara tinha se permitido chorar tudo o que evitara diante de Marina. Mais tarde se lembraria de toda a campanha para a economia de água, não naquele momento. As lágrimas se misturavam à água, enquanto ela, ainda vestida, permanecia sentada no box, a cabeça sobre os braços, que estavam apoiados nos joelhos. Pela primeira vez, desde que se envolvera com a fotógrafa, desde o fim do seu casamento com Cadu, ela não sabia o que fazer. Sempre tinha decidido facilmente, ainda que algumas vezes por impulso. E, no geral,suas decisões, nem sempre as mais acertadas, sempre iam no sentido de proteger e cuidar de Marina, de fazer com que ela ficasse bem.

Agora ela própria não estava bem, e sabia que Marina também não estava. Estava magoada pela forma como Marina tinha agido e triste também, por saber que a fotógrafa sofria por causa de decisões que ela própria, Clara, tomara anteriormente. Quando a vira na sala de sua casa logo cedo, tinha pensado que iriam conversar, esclarecer tudo aquilo que causava insegurança à artista e que provocara a briga entre elas, mas Marina se precipitara e Clara fora incapaz de resistir. E, ao final, ela soubera que sua melhor amiga tinha intercedido junto à namorada e por isso ela estava ali. Sentia que poderia enfrentar mais calmamente todo o ciúme da fotógrafa do que o fato de que ela aceitara como verdade o que ouvira de Duda depois de ter se recusado a acreditar nas suas palavras.

Não ouviu as batidas na porta, os chamados da namorada: o ruído da água, unido aos pensamentos tumultuados, abafava os sons exteriores. Quando finalmente saiu do banheiro, jogou-se na cama, ainda de cabelos úmidos. Abraçada ao travesseiro, viu as horas passarem, até que chegou a hora de buscar o filho na escola. Já estava saindo de casa quando o ex-marido ligou perguntando se poderia levar o garoto ao cinema. O menino chegaria por volta das nove da noite. Resolveu sair para correr, essa era a sua forma de colocar as ideias em ordem.

Naquele dia não mediu a distância, não contou o tempo: apenas correu. Costumava percorrer dez quilômetros em uma hora, mas passou bem mais tempo que isso no calçadão. Voltou para casa sem fôlego, mas ainda assim tentava correr.

Quando entrou no edifício, estava completamente suada. Cumprimentou o porteiro e virou-se para as escadas, por onde pretendia subir. E então a viu. E engoliu em seco.

– Marina...

O coração, que já batia acelerado devido ao esforço físico, teve um sobressalto. Clara se voltou para o elevador, chamando a fotógrafa:

– Vem, vamos subir.

Só quando já haviam entrado no apartamento a morena notou a garrafa que Marina trazia nas mãos. Apertou os olhos, daquela forma que lhe era tão característica:

– Vinho?

Marina sorriu. O sorriso que só ela sabia como fazer, malicioso e, na mesma medida, inocente. O sorriso que sempre aquecia o coração de Clara.

– Pra gente relaxar depois de arrumar as malas – a fotógrafa soou alegre, erguendo a garrafa como se oferecesse um brinde.

– Malas... — a morena repetiu a palavra, como se tentasse compreender o seu sentido.

– É, Clarinha, as malas. A gente viaja amanhã – Marina falou animadamente – Londres nos espera!

Quase não podia acreditar no que estava acontecendo. A namorada estava agindo como se nada tivesse acontecido e Clara tinha certeza de que ela estava se esforçando para isso. Marina estava simplesmente fingindo que tudo estava bem. Clara aproximou-se e tirou-lhe a garrafa de vinho das mãos, apoiando-a na mesa de centro.

***

Passou a noite insone. Sentada no chão do quarto, abraçando as pernas dobradas, Clara observou o sol nascer, a janela aberta deixando entrar a claridade do amanhecer. O choro vinha em intervalos irregulares, enquanto as cenas do começo da noite rodopiavam em sua mente, numa reprise constante.

Ainda não entendia o que havia acontecido. Durante a corrida no calçadão tinha colocado seus pensamentos em ordem e voltara para casa decidida a procurar Marina assim que saísse do banho. Elas precisavam conversar e Clara decidira que deveria ser uma conversa completa, sem omissões, confusões, uma conversa que pusesse fim a todas as dúvidas. E, apesar da surpresa, agradeceu silenciosamente ao vê-la na portaria de seu prédio: tinham que esclarecer tudo e quanto mais cedo isso acontecesse, melhor.

Só que Marina não estava disposta a conversar. Chegara com uma garrafa de vinho e, como se nada houvesse acontecido naquela manhã, disse que estava ali para ajudá-la a fazer as malas. E Clara precisou dizer com todas as letras a frase que anuncia toda DR: “A gente precisa conversar”.

A fotógrafa insistira em fugir do assunto. Reafirmara que precisavam preparar a bagagem para Londres, que tinham muito a fazer. Dissera que teriam muito tempo para conversar depois que chegassem as duas, sozinhas, à terra da rainha. Mas Clara não se deixou distrair. “Será que eu errei em insistir?”

A última tentativa de Marina de fugir do assunto foi a mesma que fizera a morena ceder pela manhã: a sedução. A fotografa tinha colado o corpo ao seu, beijado seu pescoço, deslizado as mãos em suas curvas e procurado seus lábios. Mas dessa vez Clara não cedeu. Delicada e firmemente, afastara as mãos da namorada. Argumentara que estava toda suada, recém-chegada do exercício intenso e ouvira que isso não importava, pelo contrário, deixava a jovem bastante excitada.

E Clara não cedera. Queria, precisava conversar. E Marina insistira nas carícias, insistira em tentar fazê-la calar usando o tesão que sentiam uma pela outra como arma. E a morena foi firme, dizendo que, para ela, os problemas não se resolviam com sexo.

E foi então que as coisas fugiram do controle. Marina explodira. Não como no sábado. Dessa vez não houve gritos. Mas a fotógrafa demonstrou irritação. Foi ríspida ao afirmar que não entendia a resistência da morena. Que tudo que havia para ser dito já o fora pela manhã. Que já pedira desculpas e que aquilo tudo era passado. E terminara com uma pergunta seca, intimando Clara a dizer se, afinal, queria ou não a sua ajuda para fazer as malas.

A mágoa que a morena sentia tinha impedido que pensasse antes na ironia que era a sugestão da fotógrafa. Marina certamente não fazia as próprias malas, alguém as arrumaria em seu lugar. Na hora em que estavam frente a frente tudo o que a assistente sentira fora mágoa. Decepção. Sentiu que a namorada não entendia, ou talvez não aceitasse que a falta de confiança a deixava ferida. Tinha ficado triste com a discussão de sábado, mas o pior fora, certamente, saber que Marina a procurara apenas depois da interferência de Duda. Droga, não era justo que suas palavras precisassem da confirmação de terceiros. Não era justo que não pudessem ter uma conversa clara, adulta, sobre tudo o que havia acontecido. Para ela, aquilo não podia ser simplesmente deixado de lado, como se fosse uma discussão banal sobre o filme que veriam no cinema.

O final da visita de Marina era um borrão na memória de Clara. Mas o pior era o resultado, do qual ela lembrava de forma bem dolorida: sua insistência em conversar sobre o ocorrido e as negativas da fotógrafa culminaram num ultimato acerca da viagem. E Clara dissera que seria melhor não irem juntas a Londres...

***

Uma das duas coisas mais difíceis que Clara precisava fazer quanto à sua decisão era contar ao filho e à família que não iria mais viajar com Marina. Ivan, com a sensibilidade aguçada que tinha sempre que o assunto era a mãe, quis saber logo cedo o motivo de sua tristeza. E, com alguma culpa no coração, ela mentiu para ele, a mesma mentira que pretendia dizer a todos para justificar sua permanência no Rio: desistira da viagem por medo de voar. Ao menos era uma mentira fácil de manter, afinal todos sabiam do medo que tinha de viagens em avião e helicóptero.

Insegura, não quis ir até Santa Teresa. A agenda do estúdio estava livre e ela não sabia como Marina a receberia, depois de ter ido embora sem sequer argumentar contra a sua decisão de não mais viajar.. Deixou o filho com o pai, no bistrô e, mais uma vez, saiu correndo à beira mar, na esperança de que o esforço físico fizesse calar suas mágoas.

No meio da manhã sentiu o celular vibrando e sua respiração parou por algum tempo ao ver a notificação de mensagem. Era Marina. Ao ver o texto, não conseguiu responder de imediato. Droga, porque ela não tinha ligado? Mandar uma mensagem pra perguntar se Clara insistia em não viajar, porque precisava alterar a passagem e a reserva no hotel? A morena sentiu um aperto no peito, pensando que a namorada estava indiferente à sua decisão. Mas o aperto logo se aliviou, quando, depois de responder que achava melhor permanecer no Rio e voltarem a conversar após a fotógrafa voltar da exposição, recebeu quase imediatamente outra mensagem: Marina queria passar em seu apartamento para se despedir. Dela e de Ivan.

***

Marina já esperava, de certa forma, que Clara não fosse até o estúdio naquele dia. Sabia que as coisas não estavam bem, mas, depois de passar a noite toda rolando na cama, tinha esperança de que a morena tivesse mudado de ideia quanto à viagem. Tinha visto nos olhos dela que a decisão causava dor.

Depois de pensar em várias formas de procurar pela morena, decidiu mandar uma mensagem. Arrependeu-se logo depois de enviar o texto: droga, como fazia para cancelar aquilo? Tinha sido ríspida nas palavras outra vez e isso era tudo que não precisava para conseguir amansar a namorada. Quando Clara respondeu, confirmando que não iria mais a Londres, sentiu que perdia o chão. Marina sabia que sim, elas precisavam conversar. Mas não sabia como fazer isso e tinha feito a única coisa que achava possível: evitar. O resultado tinha sido péssimo e agora ela temia pelo futuro de seu relacionamento.

Mandou uma segunda mensagem para a morena, dizendo que passaria pelo Leblon para se despedir dela e de Ivan. Sentiu o choro apertando sua garganta quando Clara respondeu que não estava em casa, mas que o filho iria ficar contente se ela fosse vê-lo antes de viajar. O menino estava com o pai no Galpão Cultural, de lá iria direto para a escola.

O desânimo com a resposta vaga de Clara, sobre não estar em casa, não impediu Marina de ir até onde Ivan estava. Estava apegada ao garoto, e isso já não era mais uma consequência do fato de ele ser um pedacinho da sua morena. Não interagia com o menino para agradar a namorada: afeiçoara-se a ele e ficava fascinada com a perspectiva de ver aquela pessoinha crescendo e descobrindo o mundo e a vida, de ajudá-lo a encontrar o próprio caminho. Foi até o Galpão, mesmo sabendo que Cadu estaria por lá e talvez não a quisesse perto do filho.

Surpreendeu-se mais uma vez com a atitude do chef. Ao avistá-la entrando em seu estabelecimento Cadu, que estava do lado de dentro do balcão, com Ivan sentado à sua frente, apontou para ela e falou algo para o garoto, que se virou para vê-la e, imediatamente, saltou do banco e correu para abraçá-la. O pai do menino a cumprimentou com um aceno de cabeça e voltou a atenção para seus afazeres, deixando os dois conversarem livremente.

Se Marina não esperava a atitude do chef, Ivan conseguiu deixá-la totalmente sem ação. Eles ocuparam um banco no jardim de inverno do galpão, sentados lado a lado. A fotógrafa disse que estava lá para se despedir, que iria sentir falta dele. E o menino quis saber:

– Você e minha mãe ainda são namoradas, né?

E, provavelmente devido ao fato de que a única resposta de Marina foi a expressão surpresa e a falta de palavras, Ivan emendou:

– Assim... Depois que ela resolveu que não ia mais viajar, você não brigou com ela, né?

– Ivan, isso é … — sem se recuperar totalmente, começou a falar de forma hesitante, procurando escolher as palavras, mas o menino interrompeu.

– Coisa de gente grande... — o menino bufou, revirando os olhos – Porque os adultos sempre falam isso quando complicam as coisas que não são complicadas, hein? Eu só perguntei se você e minha mãe ainda são namoradas.

Marina engoliu em seco. Até onde sabia, Clara ainda não tinha falado sobre o relacionamento delas com o filho. A fotógrafa tinha concordado com a namorada: era melhor que o menino se acostumasse à sua presença primeiro. Secretamente, pensava consigo mesma que ele já estava tão integrado à rotina delas que já podiam ter falado abertamente, mas optara por respeitar as decisões de Clara. E, por respeito a ela, fez-se de desentendida.

– Ivan, de onde você tirou essa ideia? — quis saber, sem graça. Uma tentativa de ganhar tempo.

***

De roupão e cabelos molhados, Marina pensava na conversa que tivera com Ivan enquanto terminava de guardar os acessórios que pretendia levar consigo na viagem. Todo o restante da bagagem já havia sido preparado pela empregada da casa, apenas as jóias e sua necessaire ficavam por sua conta.

O garoto lhe contara que sabia há muito tempo da natureza do relacionamento entre elas. Com suas próprias palavras e com a lógica infalível que só as crianças podem ter, ele esclarecera o motivo de fazer a mãe manter em segredo o seu conhecimento do namoro: “Eu não sabia direito se vocês podiam namorar, mas minha mãe disse que sim, se duas pessoas se gostam, não importa se é homem e mulher ou mulher com mulher, nem nada disso. E eu achava legal que ela tava feliz, sabe? Mas parecia tudo esquisito e aí eu pedi pra ela não te contar que tinha me contado. Eu não sabia se queria você no lugar do meu pai”.

A artista garantiu que não pretendia tomar o lugar de ninguém. E o menino disse que já sabia disso. E que só tinha continuado com seu segredo por não saber como tratá-la. Os amigos que tinham pais separados chamavam os namorados das mães de padrasto, às vezes até de pai. Mas assim não podia ser, claro, afinal ela era mulher. As namoradas dos pais desses amigos eram tratadas de tia, às vezes madrasta. E tia ele já tinha, suas tias eram as irmãs de sua mãe. Ele gostava delas, claro, mas elas o tratavam feito um bebê (nesse ponto Ivan fez uma careta e Marina teve que se esforçar para prender o riso). Madrasta também não era bom, por que sempre fazia pensar em gente ruim, como as madrastas das histórias, e ela não era assim, nem era como as suas tias. “Você é legal, sabe. De um jeito assim, diferente. Quase igual a minha mãe, só que ela ainda acha que eu sou criança e você, sei lá, é meio como se fosse minha amiga”.

E então ela garantira ao pequeno que sim, era sua amiga. E que não, o namoro com a mãe dele não havia acabado, que gostava demais da morena. E disse que ele podia chamá-la como bem entendesse, mas que bons amigos se chamam pelo nome e portanto, bastava tratá-a por Marina mesmo. Ou Má...

Foi só na hora da despedida que a artista pode compreender que Clara podia cultivar pequenos segredos apenas para cuidar daqueles que amava. Se escondera dela que Ivan sabia do namoro, ela também havia contado a ele uma outra mentira: o pequeno acreditava que a mãe desistira da viagem devido ao medo de voar. Provavelmente o restante da família Fernandes receberia a mesma informação.

“Droga, Clara, você me protege assim, mente pra sua família não ficar com raiva de mim, mas não atende o telefone”. Marina deixou o celular sobre a cama, frustrada, e se vestiu. Já era hora de ir para o aeroporto e ela não tinha conseguido falar com a morena. Viajaria com Vanessa, Flavinha tinha alterado as passagens que seriam de Clara e, mesmo com a ruiva dizendo que não era necessário, reservado um segundo quarto no hotel.

Levaria consigo a sócia e ex namorada apenas por motivos profissionais. As coisas não estavam bem entre elas desde a festa de Gisele, mas a ruiva sabia perfeitamente como organizar tudo o que era necessário para a exposição. Afora isso, havia trabalhos agendados no estúdio e Flávia precisava ficar para cumprir esses compromissos. Quando comunicara as duas, na véspera, que Vanessa iria a Londres percebera que o clima estava pesado entre elas. Teria perguntado a Flavinha sobre isso, mas a ruiva não deixara as duas a sós depois disso.

Triste por não conseguir se despedir de Clara, seguiu para o aeroporto junto com Vanessa e Flávia. Despacharam as bagagens e logo o voo foi anunciado. Despediu-se da assistente com um abraço apertado e seguiu para a fila. Notou que Flávia esquivou-se de qualquer contato físico com Vanessa, despedindo-se com um até logo inexpressivo.

Estavam logo no começo da fila que se formava no portão de embarque. À sua frente apenas quatro pessoas. Em silêncio, Marina apertava a passagem e o passaporte, fazendo força para não chorar. Os olhos estavam presos no chão. Os pensamentos estavam em Clara. Avançou para o portão sem perceber.

Não ouviu o chamado de Flavinha. Foi preciso que Vanessa a segurasse pelo cotovelo e apontasse na direção da assistente, que a chamava, sacudindo uma das mãos, enquanto a outra segurava o celular junto ao ouvido. E então ela surgiu, os cabelos balançando para o alto atrás de si, correndo afobada pelo saguão.

A ruiva quis impedi-la de sair da fila. Marina apenas respondeu que ela entrasse, não estavam grudadas. Disse isso ao mesmo tempo em que se afastava na direção de Clara. A sua Clara.

Notas finais
Outra vez ficou menor do que eu queria. Espero que não tenha decepcionado vocês. Essa conversa da Marina com o Ivan tinha que acontecer, mas tive medo de fazer o diálogo direto e o menino soar adulto demais, então tratei como uma lembrança, pra correr menos riscos. Beijos! Prometo voltar logo!