Notas iniciais
Eu devia estar estudando, mas...

Clara segurou a mão de Marina e a arrastou consigo enquanto corria até a mulher de cabelos ondulados. Quando pararam diante dela, soltou Marina e abriu os braços, praticamente pulando sobre a outra. As duas balançavam de um lado para o outro, rindo.

– Cara, você tá aqui, eu nem acredito – a assistente soltou o abraço e fez um carinho nos braços da outra – Chegou quando? Porque não me avisou? Quanto tempo vo...

– Ei! Calma! – Duda ergueu as mãos – É bom te ver também, Clarinha.

Quando ouviu o apelido carinhoso, Clara olhou automaticamente para a namorada, que observava a cena absolutamente perdida. Passou o braço na cintura dela e a puxou para junto de si.

– Marina, essa aqui é a Duda. Minha melhor amiga desnaturada e desaparecida.

A fotógrafa estendeu a mão, observando melhor a mulher à sua frente. Alta, a mulata tinha olhos cor de mel, lábios carnudos curvados em um sorriso enorme, a silhueta longilínea, elegante. Sim, a mulata tinha uma aura de elegância incontestável, mesmo que os cabelos ondulados, cortados na altura do queixo, estivessem bagunçados pelo vento.

– Acho que a gente já se conhece – Duda apertou a mão que lhe foi oferecida – Você fotografou o último ensaio de moda que eu fiz, lembra?

– Eduarda Campana! Eu tava aqui tentando lembrar onde eu já tinha visto seu rosto. Faz o que, quatro anos?

Duda confirmou com a cabeça e Clara voltou a enchê-la de perguntas. Duda acompanhou as duas até o quiosque, onde sentaram para poder conversar melhor. Marina apenas observava, na maior parte do tempo, ouvindo as duas amigas que não paravam de tagarelar. Duda, que para a fotógrafa era a top model internacional Eduarda Campana, mesmo tendo deixado de trabalhar como modelo, contou que havia chegado naquela manhã e que, logo que se instalou no hotel, foi para a praia.

– Tava morrendo de saudade desse mar, de caminhar descalça na areia.

– Dos amigos não, é isso mesmo?

– Ah, meu Deus! Vai fazer a ciumentinha, Clarinha? Óbvio que eu tava doida pra encontrar essa – apontou as duas mãos para a morena e fez um gesto como se a medisse da cabeça aos pés – amiga aqui. Ia bater na sua porta mais tarde, fazer surpresa.

– Surpresa ia ficar você – Marina interrompeu, rindo. Clara olhou para ela e começou a rir também, entrelaçando seus dedos nos da fotógrafa, o que não passou despercebido à mulata.

Enquanto Clara explicava que só voltaria para casa no dia seguinte e que havia se separado, Ivan chegou correndo e abraçou a mãe, antes de anunciar que estava com fome. Depois de alguma negociação, ele e Marina conseguiram convencer a morena de que sorvete matava sim a fome. E Marina ganhou um beijo todo melado quando o menino resolveu agradecer pelo apoio. Duda olhava o garoto, admirada.

– Nem acredito que na última vez que vim ao Brasil você tinha acabado de nascer, cara.

– Mas eu sei quem você é – Ivan respondeu, animado – a minha mãe tem uma foto com você pregada no quarto e minha vó também tem na casa dela. Ela sempre disse que você era a... como é mesmo – hesitou, procurando a palavra – a cúmplice da mamãe – virou-se para a mãe e perguntou – O que isso significa?

As três riram do comentário e Marina respondeu a pergunta do garoto:

– Significa, Ivan, que sua mãe deve ter aprontado muito e deixado sua avó louca – afirmou, fazendo a namorada soltar um gritinho ofendido.

O garoto voltou para junto dos amigos e a conversa ficou mais séria. Duda tinha vindo para o Brasil pela última vez para o enterro do pai, quando Ivan era um bebê. Agora, contou, estava de volta por causa da mãe, que estava doente. Clara quis saber como ia a relação das duas e descobriu que continuava tão ruim quanto sempre fora. Duda sempre tivera o carinho e o apoio do pai e a indiferença e a reprovação da mãe em tudo que fizesse. Mesmo assim, quando conseguiu se estabelecer na carreira de modelo, a mulata sempre deu suporte financeiro aos dois e agora estava de volta para procurar o melhor meio de cuidar da mulher que tanto a reprovava. Clara estendeu os braços e segurou as mãos da amiga entre as suas, para dizer que se ela precisasse de algo, qualquer coisa, podia contar com ela.

– Eu agradeço muito, mas ela te detesta quase tanto quanto a mim, você sabe – sim, Clara sabia que a velha a detestava pelo simples fato de que a filha gostava dela – De toda forma, eu aprendi a conviver com isso... Vou cuidar do que tiver que cuidar e aproveitar meu tempo aqui para matar as saudades de quem sempre gostou de mim. Ah – a mulata sorriu e apontou para Clara – tia Chica ainda faz aquela polenta com frango? – questionou e recebeu um tapinha em repreensão.

– Não se atreva a visitar minha mãe sem mim. Faz séculos que eu peço pra ela fazer polenta pra mim e ela não faz, fica falando que engorda... Tenho certeza que se for pra você ela vai fazer.

– Isso é ciúme, Clarinha? – Marina quis saber – Tá com ciúmes da sua mãe?

– Não, isso é a velha tática de fazer sua amiga pedir pra sua mãe algo que ela já te negou. Não falha nunca – a morena piscou, atrevida, na direção da fotógrafa.

Quando decidiram ir embora aproveitaram para deixar Duda em seu hotel, antes de ir para o apartamento de Clara. Ivan ia passar a noite com ela, então os dois tomaram banho antes de seguir para a casa de Marina, que insistiu na companhia dos dois para o jantar. O menino foi primeiro para o chuveiro e quando foi a vez da morena ele ficou fazendo companhia para a fotógrafa.

Quando saiu do banho a assistente estranhou o silêncio dos dois. Ainda enrolada na toalha, foi até a sala ver o que estava acontecendo e encontrou os dois sentados no chão, concentrados em montar um quebra cabeças do garoto. Os dois se entendiam com muita facilidade e mais uma vez Clara sentiu o coração se aquecendo ao ver como Marina tratava seu filho com atenção e carinho, sem, todavia, fazer-lhe as vontades só para conquistá-lo. Sorrindo, deu meia volta e foi se vestir.

***

Conforme havia combinado com Marina, Clara não foi trabalhar na segunda pela manhã, para poder levar suas coisas de volta para casa. Não era muita coisa, apenas roupas e objetos pessoais, conseguiu levar tudo no carro. Ivan fazia questão de ajudar, estava radiante por voltar a morar com a mãe. A morena ajeitou as coisas em seu apartamento, enquanto falava com o menino sobre a possibilidade de viajar por algumas semanas com Marina, para a exposição em Londres. Surpreendeu-se com a reação do garoto.

– Mãe, vocês tão namorando, não é? – indagou, fazendo a assistente olhar para ele, surpresa.

– Ô, filho – falou carinhosa – você sabe que sim, eu te contei, não contei?

– Contou sim. E desde aquele dia... Sabe mãe, eu reparei que você não ficou mais triste. É por causa dela, não é?

Clara abraçou o menino, beijando o topo de sua cabeça. Nunca imaginara que ele reparasse assim nas pessoas à sua volta.

– É, filho. Ela me deixa feliz.

– Então eu acho que você pode viajar com ela, sabe. Porque você vai ficar feliz.

Clara abraçou o menino ainda mais forte.

– Mãe? Vai trazer presente pra mim, não vai?

***

Depois da conversa com o filho, Clara o deixou na casa da irmã, pedindo que a sobrinha o levasse para a escola. Estava alegre, aliviada com a aceitação do garoto, e decidiu que aproveitaria para resolver tudo naquela manhã. Resolver tudo significava falar com Cadu sobre a viagem, afinal ele precisaria se dedicar mais ao menino enquanto ela estivesse fora. Sabia que sua família iria ajudá-lo, todos ali eram bastante unidos, mas precisava falar com ele e evitar qualquer mal entendido. Só não imaginava que isso fosse ser tão difícil.

O sujeito compreensivo com quem tinha tratado nos últimos tempos desapareceu quando ela começou a falar. Acusou a fotógrafa de querer afastá-la do filho, disse que ela estava sendo leviana. Clara perdeu a paciência.

– Olha só, Cadu – apontou o dedo para ele enquanto falava. O tom de voz era firme – Eu só vim falar com você porque o Ivan vai precisar de um pouco mais de atenção enquanto eu estiver fora. Eu – bateu no peito – eu jamais abandonaria meu filho, tá entendendo? É uma viagem de trabalho, a Marina precisa muito fazer essa exposição e eu tô indo não como namorada, eu vou como assistente dela, porque esse é o meu trabalho. Eu tenho certeza que a minha mãe e a Helena podem muito bem cuidar do Ivan, mas eu queria ter certeza de que você vai fazer o seu papel de pai! Porque ele, Cadu, ele foi muito mais maduro que você quando eu falei da viagem, ele entendeu os meus motivos. Será que é pedir muito que você cuide do seu filho por um tempo?

***

Em Santa Teresa, naquela manhã, Marina revirava o próprio quarto. Esvaziou gavetas, caixas, bolsas que não usava há tempos. Não viu quando Vanessa entrou no quarto.

– Que é que tá acontecendo aqui, Marina? Passou um furação nesse quarto, foi?

– Vem cá – Marina olhou a ruiva, colocou as mãos na cintura – você não aprende a bater na porta, não?

– Ah, Marina, qual é? A porta tava aberta.

– Mas não tava no sábado, quando você entrou aqui de manhã! As pessoas precisam de privacidade às vezes, sabia?

– Ok, ok, ok! – A ruiva assumiu o tom de deboche – Você tá brava por causa daquilo? Me poupe, Marina. Só porque você finalmente conseguiu arrancar a blusa da virgenzinha do Leblon...

– Parou, Vanessa, parou aí! – chegou mais perto, agitando as mãos, nervosa. A voz estava firme, embora não se elevasse – Eu já disse que não admito que você desrespeite a Clara.

– Ah, Marina! Eu não tô falando nada que ninguém já não saiba, vai. Você vive correndo atrás de quem não gosta de você. A Clara tá te enrolando, vai te enrolar até você desistir.

– Não fala assim comigo! Não fala assim da Clara! – Marina gritou, furiosa.

– Qual é, Marina, acorda. Você fica aí babando, mimando, fazendo de tudo pra ficar perto dela e o que você conseguiu até hoje? Dormir de conchinha? Ah, não, já sei – a ruiva fingiu a pior cara de surpresa que poderia – Ela te deixou tirar a blusa dela! Marina, acorda! – bateu com o indicador na testa dela – Enfia nessa cabeça, a Clara é hétero, ela pode até brincar com você, mas nunca – ela abria os braços para dar ênfase às palavras – Ela nunca vai fazer amor com você. Você pode até levar ela pra cama, mas ela não vai te amar, não vai conseguir te satisfazer, mesmo que você explique tintim por tintim o que ela tem que fazer, ela não vai te deixar satisfeita, tá me ouvindo? Porque – agora Vanessa gritava – a Clara gosta de homem...

Marina chegou perto dela. Tinha os olhos vermelhos, as lágrimas queriam descer. Os lábios tremiam quando ela pegou a ruiva pelos ombros.

– Cala essa boca – sacudiu Vanessa com toda a força que podia – Eu amo a Clara e tenho certeza de que ela também me ama. E quer saber? Nós duas – agora ela cuspia as palavras, furiosa. Sabia que magoaria a outra, e não tentou evitar fazê-lo – nós nos entendemos MUITO bem na cama. A Clara é a mulher da minha vida, ela tem amor, tem pegada, tem tesão por mim. Vanessa, presta atenção – soltou a ruiva, mas ainda gritava – eu – abriu os braços, gesticulando em torno do próprio corpo – eu que já tive tantas mulheres, muitas totalmente inexperientes, EU me surpreendi com a Clara desde a primeira noite. É obvio que ela me quer, que ela me deseja. Porque ela simplesmente ousa e arrisca, descobrindo sempre um pouco mais, testando, me provocando como NINGUÉM nunca fez. Ela não espera que eu mostre nada, ela segue os instintos dela e sim, ela ME DEIXA COMPLETAMENTE SATISFEITA!

– Marina... – Vanessa balbuciou, tentando conter as lágrimas provocadas pelo discurso da outra.

– Chega. Não quero ouvir mais nada de você. Eu já disse – a fotógrafa retomara seu tom normal de voz. Doía nela ver a situação em que a amiga ficava devido ao ciúme, mas estava decidida a não ceder – que se precisar eu me afasto de você, da Clara nunca. Agora, só pra deixar tudo bem claro: eu não quero mais você entrando no me quarto sem ser convidada – Olhou nos olhos da outra – Entendeu, Vanessa?

A ruiva deu a volta na cama e saiu sem dizer mais nada. Marina ouviu apenas uma porta batendo e alguns ruídos de coisas quebrando. Soube na hora que Vanessa estava descontando a raiva nos objetos do próprio quarto.

***

Depois da discussão com Cadu, Clara voltou para a casa da irmã. Aproveitou que ainda havia tempo e almoçou com o filho antes de levá-lo para o colégio. Sabia que qualquer gesto de atenção seria importante para ele antes da viagem, e estava disposta a fazer com que o pequeno se sentisse o mais confortável possível com a situação. Combinou que a sobrinha iria buscá-lo e o deixou na porta da escola, antes de seguir para o estúdio de Marina.

Encontrou a fotógrafa reunida com Flavinha e Gisele. Vanessa estava mais afastada, parecia bastante compenetrada, atenta à tela do computador. Marina levantou num salto para abraçá-la e a cumprimentou com um selinho carinhoso, puxando-a pela mão para junto das outras duas.

– Amor, a gente tá aqui resolvendo umas coisas pra exposição. Já separamos a maior parte das fotos e escolhemos onde fazer os painéis, graças ao orçamento que você conseguiu.

– Marina – Gisele interrompeu – preciso reservar o hotel e as passagens. Você já resolveu quem mais vai e a data?