Luz dos meus olhos
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Ainda sob efeito do tempo que passara com Marina, Clara entrou no apartamento com a alma leve e um sorriso sonhador. Já era tarde, as luzes estavam apagadas. Tirou as sandálias ainda junto à porta, para que os saltos altos e finos não fizessem barulho, e as deixou ali mesmo.
Uso a luz do corredor para entrar em seu quarto sem precisar acender a luz, não queria acordar o marido. Foi até o banheiro, onde pegou o pijama, a escova de dente e o hidratante. Não queria que Cadu acordasse, então foi, no maior silêncio possível, para o banheiro que ficava no corredor e de lá voltou para a sala. Poderia se ajeitar no quarto do filho com toda certeza, porém sabia que passaria ainda um bom tempo sonhando acordada e não acreditava que seus sonhos combinassem com um quarto de criança.
Quando o sol começou a brilhar no horizonte, Clara ainda não tinha dormido. Já não saberia dizer se estava inquieta devido à alegria de estar com Marina na noite anterior ou se era sua intuição avisando de que algo importante aconteceria em breve. Mesmo cansada, decidiu sair pra sua corrida diária. A atividade física normalmente a tranquilizava.
Cadu estava sentado de frente para a porta quando ela voltou. Clara registrou de imediato o estado do humor em que ele se encontrava: não aconteceria nada de bom entre eles naquela manhã. Ainda assim, tentou contornar a situação.
– Nossa, acordou cedo! Bom dia! Eu preparar um ca... – Não conseguiu terminar a frase. Enquanto caminhava em direção à cozinha, o marido a segurou pelo braço, impedindo que seguisse – Cadu, que é isso? Me solta!
– Clara, a gente tem que ter uma conversa – Cadu falava no tom de quem não admite uma resposta negativa. Clara balançou a cabeça, olhou para ele e em seguida para o braço que ele segurava. Olhou novamente para os olhos dele e isso bastou para que ele a soltasse.
Ela percebeu que aquela tempestade não poderia ser adiada, contudo não queria que o filho presenciasse mais um conflito entre eles. Disse isso ao marido e só então descobriu que o filho havia passado a noite na casa da avó e de lá iria direto para o colégio. Quando chegara, era tarde o suficiente para que ela não quisesse abrir a porta do quarto do garoto, com medo de acordá-lo. Cadu, contudo, preferiu apontar essa atitude como descaso dela com o filho.
– Ah, mas é claro que você não percebeu que o seu filho não dormiu em casa. Preferiu passar a noite com a Marina. Só faltou não voltar pra dormir aqui também!
– Cadu, olha só – Clara tentava manter a calma – eu avisei ao Ivan e a você onde eu estava. Se um de vocês precisasse de mim, podia ligar e eu viria pra casa! O fato de eu sair com a Marina ou com quem quer que seja não significa, de jeito nenhum, que eu não me importo com o meu filho! Para de confundir as coisas, tá legal?
– Ah, então é pra parar de confundir as coisas? – Cadu se aproximou, a voz baixa, porém agressiva – Então tá, Clara, vamos parar de confundir as coisas aqui – pegou-a pelo braço enquanto falava – me explica de uma vez por todas o que é esse seu lance com essa daí – Clara arregalou os olhos e tentou, em vão, desvencilhar-se do marido — já que você é capaz de largar tudo pra passar a noite com ela, fala logo, o que existe entre vocês? Você tá tendo um caso com ela?
Clara respirou fundo para não gritar. Encarava os olhos de Cadu e tentava puxar seu braço do aperto da mão dele, mas não conseguia se soltar. O silêncio prolongado apenas aumentou a raiva que ele sentia e ele voltou à carga:
– Vai Clara, fala aqui, olhando na minha cara, você tá me traindo com a Marina?
– Não! Não, Cadu, eu não tô tendo m aso com a Marina. E eu não transei com ela se é isso que te preocupa! – A essa altura ela já fazia força para segurar as lágrimas e também para não gritar. Tentou outra vez tirar seu braço da mão do marido, mas ele a puxou novamente e perguntou, dessa vez gritando:
– Não tem um caso, né? Mas também não desgruda daquela lá, larga tudo pra correr atrás dela, só fala dela o tempo todo! O que é que tá acontecendo, Clara? O que é que você sente pela Marina?
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