Notas iniciais
Torcendo pra que essa história agrade alguém!

A rotina de Clara voltava aos poucos ao normal. Bem, ao menos dentro de casa. Cadu já não corria mais tanto perigo, havia recebido permissão dos médicos para retomar, gradativamente, as atividades diárias que não exigissem esforço físico. Com isso ele já podia passar duas ou três horas por dia no bistrô, cuidando da parte administrativa e isso permitia que a esposa se dedicasse um pouco mais ao filho e a si mesma.

Clara convencera o marido a dividir o tempo que passava no bistrô em dois intervalos, pela manhã e à noite, no fim do expediente, quando ele podia fazer o fechamento do caixa para acompanhar melhor o desempenho do negócio. Ela ainda passava a maior parte de seu dia por ali, mas quando Cadu estava presente ela podia cuidar de outros assuntos.

Gostava de aproveitar principalmente as manhãs. Acordava cedo para poder correr na praia, coisa que fazia há anos e que a alegrava imensamente, pela oportunidade de ver o sol nascer. Ultimamente, a cada manhã, parava seu exercício em algum momento para registrar a paisagem, ou alguns passantes, em momentos que julgava belos e delicados, como era a pessoa com quem aprendera a amar a fotografia.

Quando retornava das areias da praia o dia em sua casa estava começando para o marido e o filho. Preparava então o café da manhã e sentava-se com eles para comer, despedindo-se de Cadu logo em seguida, quando ele tomava um táxi rumo ao bistrô. Era o momento de dar atenção ao filho ou, caso fosse dia dele ir às aulas de judô, de cuidar de si mesma. Era esse o caso naquela quinta feira.

Depois de deixar o filho no judô, Clara fez aquilo que há dias seu coração lhe pedia: foi até o estúdio fotográfico em Santa Teresa, procurar por Marina. Há dias que não conversavam apenas as duas, aquelas conversas quase telepáticas, onde sorrisos, olhares e alguns poucos toques falavam mais que as palavras todas que Clara conhecia.

No estúdio as coisas estavam movimentadas. Clara não precisou perguntar, apenas os olhos de Marina já demonstravam a insatisfação da fotógrafa com o ensaio que estava acontecendo ali. Clara queria poder consolar a amiga, que vinha aceitando, a contragosto, trabalhos menores e sem valor artístico para garantir a manutenção dos negócios. A oportunidade para se falarem surgiu apenas num breve intervalo para a troca de roupas das modelos, mas o tempo era tão curto que Marina pediu, com tanta ternura no olhar, para jantarem juntas que Clara não conseguiu sequer pensar em negar.

***

Clara com toda certeza sabia que Cadu não reagiria bem à ideia de que ela iria jantar com Marina. Mesmo assim, no início da noite, quando o deixou no bistrô, achou que o certo era avisa-lo sobre onde e com quem estaria, não apenas para o caso de ele precisar dela, mas também por que jamais havia mentido para ele, mesmo sobre as dúvidas que tinha no peito quando o assunto era o casamento que viviam ou sua relação com Marina. Já havia dito a ele o quanto se sentia confusa.

O curioso, para Clara, é que seu coração não dava sinais da confusão habitual quando ela estava junto de Marina. O jantar daquela noite correu tranquilo, de forma leve, com ambas as jovens falando não apenas das situações que viviam no momento, uma com o marido doente e outra com dificuldades financeiras. Conseguiam estar tão bem em companhia uma da outra que, apesar das dificuldades pelas quais passavam ainda conseguiam falar sobre coisas mais alegres. Clara gastou boa parte do tempo compartilhando com Marina as imagens que captava em suas horas de corrida. Marina sentia o coração aquecido ao ver o quanto aquela mulher tão doce se lembrava dela em momentos tão corriqueiros, desejando que aquela lembrança fosse mais que simples amizade.

Por fim, quando aguardavam o café que encerraria aquele jantar, Marina tomou coragem e estendeu os braços por sobre a mesa, as mãos voltadas para cima, pedindo, em silêncio, pelas mãos de Clara, que não hesitou em segurá-las.

Ela não recusou! Ela está segurando minhas mãos, aqui, nessa mesa, sem medo nenhum! – Marina vibrava com o avanço de um pequeno toque quando foi surpreendida pelo gesto de Clara, que juntou suas mãos, puxando-as e direção ao próprio peito para, em seguida leva-las aos lábios e beijá-las. Marina teve vontade de gritar para todos saberem o tamanho da sua alegria. Uma lágrima de felicidade ameaçava rolar do olho esquerdo.

— Sabe – disse Clara, ainda sem soltar as mãos de Marina – eu sinto falta de estar com você. Eu nem sei dizer o quanto sinto a sua falta – Clara apertou mais uma vez as mãos de Marina junto ao peito e então as soltou delicadamente sobre a mesa, usando sua própria mão para secar o traçado da lágrima no rosto da fotógrafa.

A volta pra casa acabou sendo mais longa que o normal. Marina dirigia em direção ao endereço de Clara, mas ela pediu, com certa timidez, que a fotógrafa não seguisse direto para sua casa. Queria aproveitar um pouco mais da companhia daquela noite. Enquanto seguiam pelas ruas do Rio, Clara aproveitou para deixar a cabeça pousar do ombro daquela mulher que há tantos meses era o seu ponto de apoio no mundo. Seu coração ficava em paz ao lado dela.

Notas finais
Espero que tenham gostado e queiram ler outros capítulos. Por favor, me digam o que acharam.