Luxúria
9 Elise
Notas iniciais
Fazia mais ou menos uma hora que os dois haviam chego ao apartamento de Damon após a viagem rápida até a casa dos pais de Elena para busca-la. Durante o breve caminho a tensão pegou carona com o casal criando um silêncio incomodo entre os dois, Damon apertava com firmeza o volante mantendo os olhos firmes na rua com uma expressão atordoada no rosto e suas poucas palavras indicavam a Elena que ele ainda não estava preparado para conversar.
Assim que o carro estacionou na garagem do apartamento de Damon, um longo suspiro encheu o peitoral dele fazendo Elena envolvê-lo em um abraço apertado que desmoronou o rapaz. Os dedos dela acariciavam seus cabelos em um carinho reconfortante, aproveitando da posição de seu rosto enterrado na curvatura de seu pescoço e apenas o convite de Elena para que os dois subissem e compartilhassem da água quente do chuveiro fora capaz de fazê-lo deixar aquela posição. E após um longo banho juntos, cheio de carícias e beijos demorados, os dois conseguiram deixar pelo menos metade da tensão daquele dia descer pelo ralo para só então deitarem embolados na cama king size de Damon.
– E então? Como ela está? – Elena perguntou por fim após ignorar ao máximo que conseguia aquele assunto, aproximando-se de Damon que estava recostado na cabeceira da cama a sua espera.
– Ela está bem, acabei de falar com Matt e ele me disse que agora está dormindo... – a voz de Damon era cansada enquanto ele acariciava os cabelos de Elena que se estendiam em seu peito a medida em que ela se aconchegava contra ele – Pelo que parece ela tomou um remédio que não podia e como estava fraca de tanto vomitar pelos enjoos e sem comer, acabou desmaiando – ele fez uma breve pausa com um suspiro pesado, sendo envolvido pelos braços finos da namorada que o ouvia em silêncio– Ela sabia que não podia tomar aquele remédio, Elena, Rebekah fez de propósito para perder o bebê e é por muito pouco que meu filho ainda está vivo!
O rosto de Damon era retorcido em um misto de dor e ódio em uma expressão nada frequente em seus traços charmosos, se apenas a possiblidade de Rebekah ter abortado aquele bebê o devastava daquele jeito a real perda dele seria mais do que Elena pudesse aguentar. Todo o alívio que ela sentia se dissipou de seu corpo sendo substituído por um grande sentimento de culpa pelo seu egoísmo.
– Hey, não pense no pior, pelo menos ele está bem e é isso que importa. Não adianta você se remoer por algo que não tem culpa ou que não aconteceu, babe...
– Eu sei mas arghh – subitamente ele parou de falar, alisando sua testa franzida com raiva como se tentasse afastar algo que lhe incomodava – Se eu pudesse geraria esse filho para que ela não tivesse que fazer esse esforço.
– Eu sei, babe, mas infelizmente isso não é possível então tente manter a calma principalmente com Rebekah para que ela não faça nenhuma besteira por vingança e para te provocar... – Elena falou docemente, duvidando de si mesma ao falar aquilo – Mas se serve de consolo, eu ficaria com você grávido de qualquer forma, tenho certeza de que continuaria irresistível – sua mão subia e descia do peitoral nu dele e ela ergue a perna esquerda até o quadril dele dando um impulso para se colocar em seu colo, com o intuito de amenizar toda aquela tensão dos ombros do rapaz.
– Oh, obrigado amor, fico aliviado em saber disso – Damon riu baixinho substituindo aquela carranca preocupada por um sorriso leve. Aquele não era o melhor assunto para se conversar com a atual namorada e no fundo Elena tinha razão sobre ele não se martirizar com o assunto principalmente quando nada havia acontecido – Agora vamos mudar de assunto, por favor, eu preciso me distrair... Como foi com o seu pai?
– Foi horrível, nós discutimos e ele acabou me contando o motivo de estar tão decepcionado comigo – Damon ouvia atentamente a namorada falar, assentindo quando preciso e a incentivando com o olhar para que ela prosseguisse – Minha mãe traiu ele por uns anos com um ex namorado e ele ainda guarda ressentimento disso. Foi a maior decepção da vida dele saber que a filha destruiu o casamento da melhor amiga por ter ido para a cama com o marido dela.
– Você sabe que mais cedo ou mais tarde eu e Rebekah iríamos nos separar, não é mesmo? Você apenas adiantou um pouquinho as coisas. Eu sei que é errado eu falar isso mas você não deveria se culpar.
– Para ser bem sincera eu não me culpo por isso e não me arrependo de ter te seduzido daquele jeito e isso só torna as coisas pior... – ela ergueu os ombros – Eu não aguentava mais Damon, você faz ideia por quanto tempo eu te desejei em segredo? Por quantos anos eu sonhei que estava transando com você? Sério, chegava a ser doentio o que eu sentia!
Um brilho de surpresa iluminou os olhos de Damon, era quase inacreditável ouvir aquilo vindo de alguém como Elena que tinha todos os homens que ela quisesse.
– Tá brincando?! – ele riu, pressionando as laterais das coxas macias da morena que abrigavam seus quadris.
– Como se você não percebesse, fala sério Damon eu olhava para você e pensava em quantas formas eu poderia distrair Rebekah para que eu pudesse ir atrás de você, no seu escritório, no seu quarto e até mesmo naquele maldito lavabo que me deixava com tesão só em imaginar como seria te ter ali! – se a intenção de Elena era desviar qualquer vestígio de tensão de Damon e até mesmo dela, como sempre ela estava sendo incrivelmente bem sucedida uma vez que na mente dele as imagens dos dois juntos em cada lugar que ela dizia se formava perfeitamente – Eu duvido que você não desconfiava de mim, eu percebia seus olhares e sorrisinhos sorrateiros, Damon!
– Eu nunca desconfiei, sério mesmo! Você sempre teve esse olhar sedutor de “quero foder com você” então eu nunca desconfiei – ele ergueu os ombros em defesa mas sem tirar aquele sorriso presunçoso dos lábios – E é claro que eu olhava, não sei se você já reparou mas você é aquele tipo de mulher encrenca que atraí todo o tipo de homem. Eu era casado mas não cego ou castrado e ainda por cima sabia de toda a sua fama com os homens, era impossível não pensar, amor!
Enquanto ele falava fora a vez de Elena sorrir presunçosa com aquele brilho surpreso – para não dizer apaixonado –, no olhar. Saber o que Damon pensava sobre ela sempre fora uma de suas maiores curiosidades mas que nunca tivera muita coragem de perguntar.
– Eu juro que se você tivesse dado um sinal, por mínimo que fosse, de interesse eu não me controlaria. Quem sabe se eu tivesse feito isso antes os problemas não seriam menores, mas tenho que admitir que a espera deixou tudo melhor! – ela confessou, passeando com as duas mãos pelo peitoral despido dele –A propósito, você acredita que sua adorada ex esposa não deu com a língua nos dentes somente sobre eu e você mas também sobre uma boa parte de algumas coisas que eu fiz no passado? Meu pai ficou ainda mais furioso por descobrir essas coisas.
– Não seria Rebekah se não tivesse feito isso – Damon riu balançando cabeça em negação – O que de tão grave você pode ter feito para deixar seu velho tão nervoso desse jeito?
– Todos fazemos besteiras, não é? Ele poderia me dar um desconto... – ela prosseguiu, evitando a pergunta em questão e revirando os orbes castanhas levemente.
– Você matou alguém por acaso?
– Quase matei ele do coração, isso sim!
– Você não vai me contar o que Rebekah disse ao seu pai de tão grave assim? – ele perguntou desconfiado, usando de seu olhar manhoso para chantageá-la.
– O menos grave foi que uma vez eu dei uma festa em nossa casa e os vizinhos chamaram a polícia pela bagunça... – Elena respondeu com a esperança de que não precisasse contar a ele as outras coisas que seu pai descobrira.
Por algum motivo desconhecido a morena não queria que o namorado soubesse das coisas que ela fizera, vergonha provavelmente e até mesmo um pouco de orgulho mas independente do que fosse, uma parte dela se incomodava com Damon saber de mais alguma de suas sujeiras do passado. Seu lado apaixonado e inseguro temia que ele a deixasse depois de descobrir as coisas que ela fizera, Damon sempre fora um cara correto que se envolvia apenas com as meninas certas e estudiosas – salvo a exceção de Rebekah –, e ela não passava nem perto da boa namorada que um cara como ele desejava ter.
Mas o que a morena não sabia era que Damon era louco por ela, com todos os seus defeitos e manias.
– E o pior?
– Eu ainda estou em dúvida entre quando eu transava com meu professor na faculdade ou quando perdi minha virgindade – ela refletiu por alguns segundos – Ou pensando bem, aquele lance com o nosso motorista também foi péssimo!
– Acho que não é tão ruim o transar com o professor e nem perder a virgindade Elena – Damon riu a reconfortando – Agora o motorista é até um motivo para pensar mesmo.
– Mas quando se faz isso dentro da faculdade e com o intuito de ele te passar na matéria é sim péssimo, e quando se perde a virgindade com quinze anos é impossível manter o coração do seu pai saudável.
– O que? Você transava com seu professor para ele te passar? E adiantou isso? – ele perguntou pasmo mas sem deixar o divertimento de lado.
– É claro que adiantou, eu passei com dez em todos os semestres que tivemos aula com ele! Eu era horrível na matéria e os textos que ele passava davam sono, eu só tinha uma carta na manga e para ajudar ele era muito bonitinho... Uni o útil ao agradável, oras – e claro que tinha o detalhe que ele era bom de cama mas esse adendo Elena preferiu deixar para si.
– Você... Meu Deus eu sempre via uns professores de caso com as alunas mas nunca uma aluna que comprava nota com sexo.
– Você que acha, isso é mais comum do que imagina!
– E espera você perdeu a virgindade com quinze anos? Elena! – Damon perguntou ainda mais surpreso, encarando boquiaberto a morena que sorria com certa leveza.
Não era nenhuma novidade para ele que Elena não era a mais comportada das mulheres e toda sua encenação deixava o clima mais leve para ela. Com Elena as coisas normalmente eram difíceis de conseguir, fechada para os sentimentos e relações pessoais ela precisava mais do que anos de amizade para conseguir se abrir daquela forma com alguém – por mais insignificante que aquela conversa fosse –, mas com Damon era diferente e muitas vezes ela temia o quanto ela era capaz de dividir com ele com toda aquela confiança que ele transmitia.
– Hey não me julgue, ok? – ela protestou, empurrando de leve o ombro de Damon com um soquinho – Em minha defesa eu tinha um namoradinho na época e era curiosa, tá bom? Sabe como é difícil namorar um cara de dezessete quando se tem quinze? Ele foi meu primeiro namorado, não conseguia resistir!
– Quinze anos elena! – ele cismou.
– Qual é o problema?! – a morena cruzou os braços com firmeza sob os peitos, enfrentando-o com um olhar provocador.
– Eu transei a primeira vez e tinha dezessete e olha que eu sou homem!
– Dezessete? Tá brincando?! – fora a vez dela ficar boquiaberta e claro, provocar o namorado – Quer dizer que você entrou na faculdade e tinha acabado de começar a transar?
– Teoricamente sim...
– Céus, você sempre foi tão lindo que parece que nasceu transando – sua voz era tão manhosa quanto o beicinho que curvava seu lábio inferior enquanto percorria o peitoral dele com as duas mãos pela milionésima vez.
Ela examinava meticulosamente os músculos bem delineados do rapaz e subia lentamente até seu rosto que parecia uma pintura de tão linda, fazendo questão de não ser discreta e umedecer os lábios de forma insinuante como se tivesse sede do namorado. E de fato ela tinha sede de cada partezinha do seu corpo e de seus beijos lascivos. E isso pareceu apenas ter se intensificado com aquela nova informação sobre ele.
Por alguns segundos Elena fantasiou como seria tê-lo antes de Rebekah, logo no início da faculdade quando ele ainda era inexperiente. Seria no mínimo interessante.
– Ah é mesmo? – Damon riu com divertimento – Bom, eu não nasci transando como você mas isso não me impediu de te deixar de pernas trêmulas com um orgasmo, mocinha, eu aprendo rápido! – defendeu-se, desenhando o contorno do lábio de Elena com o polegar.
– Tenho que admitir que suas habilidades na cama me fazem duvidar disso e me deixa ainda mais com inveja de Rebekah... A vadia tinha mesmo razão sobre tudo o que ela nos falava!
– E ela falava? – ele perguntou em um misto de surpresa e desgosto – O sexo nem era tão bom assim, não era nem metade de como é com você...
– Então a inveja se torna pena automaticamente, ou melhor, pena não... Como você conseguiu ficar tantos anos com alguém que o sexo era monótono? O sexo é essencial, Damon!
– Agora eu sei o que estava perdendo, eu aguentava porque não conhecia nada melhor, para mim era normal mas depois que eu transei com você tudo mudou e aquela coisa que Rebekah chamava de sexo não era o suficiente nem para me fazer gozar sem que eu pensasse em você!
Aquilo era música para os ouvidos de qualquer mulher e Elena naquele momento se sentia algo semelhante a uma deusa que caminhava em meio a pétalas de rosas jogadas especialmente para ela quando passava. Damon pensava nela, lembrava das incríveis noites juntos enquanto estava com Rebekah e isso significava mais do que deveria para ela.
– Repete... – ela sussurrou, ajeitando-se sobre seus joelhos criando uma proximidade perigosa entre ela e Damon. Não estava nos planos de nenhum dos dois acabar aquela noite nus e exaustos na cama mas o rumo da conversa estava apenas adiantando o inevitável – Fala de novo que só eu consigo fazer você gozar, que só eu te dou prazer...
Em ocasiões normais as posições estariam invertidas onde Damon a instigaria a falar tais coisas mas era mais que comprovado que os dois saiam de quaisquer regularidades de namoros convencionais. E claro que ele iria usar das mesmas cartas que ela um pouquinho mais tarde.
– Só você, meu amor! — ele respondeu com o mesmo tom pesado entrando no jogo de Elena, umedecendo os lábios com a língua antes de direcionar o olhar diretamente a boca da morena – Mas falando sério, eu estou no paraíso em poder falar que quero te comer sem que você se magoe. Rebekah detestava quando eu falava isso para ela.
– Está falando sério? — Elena gargalhou alto, ajeitando-se sugestivamente no colo do moreno, montando em seu colo sobre a semi ereção do rapaz.
– Muito! Ela detestava quando eu falava alguma coisa no meio do sexo, dizia que acabava com o clima! Rebekah era fresca, Elena...
– Que sorte a minha porque eu adoro ouvir sua voz rouca no meio do sexo – ela falava a poucos centímetros de distância dos lábios de Damon, sentindo sua respiração intensificar com o contato no sinal claro de excitação. Seus dedos emaranhavam-se entre os cabelos sedosos dela, os puxando levemente em provocação – E você quer me comer agora, Damon?
– Eu sempre quero te comer elena, ainda mais quando você fala com essa voz de tesão comigo! – as mãos de Damon adentraram por baixo da camisa larga de Elena, encontrando a pele macia e quente de sua barriga onde a acariciou com os polegares, a fazendo sorrir em provocação – E você gosta que eu fale sacanagens com você?
– Quanto mais melhor, principalmente aquelas bem baixas – ela sussurrou em resposta, acabando com a distância entre eles por toda a noite até que caíssem lânguidos na cama com os corpos nus esgotados de tanto prazer
...
Os seis meses seguintes passaram mais rápido do que Elena esperava e em uma tarde quente de julho Rebekah deu a luz tornando realidade o que Elena tanto evitou nos últimos nove meses. Era uma pequena garotinha de um pouco mais de três quilos, Elise seu nome, escolhido orgulhosamente pelo pai em homenagem a avó falecida que Rebekah milagrosamente também gostava e que finalmente chegara ao mundo para a felicidade e alívio de Damon. Fora um parto tranquilo e sem complicações, apesar de todos os danos que Elise poderia ter sofrido com a irresponsabilidade de Rebekah durante a gravidez ela era uma menina saudável e linda nas palavras de Damon. E isso era tudo que Elena sabia e queria de fato saber.
Trancada em sua sala no trabalho Elena relia as mensagens de Damon reunindo forças para liga-lo e cumprir sua promessa de fazer a ligação assim que sua reunião inventada terminasse. Mas ela não tinha forças e muito menos coragem de fazer isso. Era de longe o dia mais feliz da vida de Damon mas para ela era o início de um fim, algo nela gritava que seria questão de pouco tempo até Damon se transformar em uma lembrança boa e os dois seguirem seus próprios caminhos. Se existisse tipos e graus de negação certamente Elena cumpriria a maioria dos requisitos para um estágio elevadíssimo de uma. Ela simplesmente não queria encarar os fatos e muito menos a garotinha com os traços de Rebekah e Damon misturados.
Mais uma vez o celular tocou anunciando uma nova mensagem e contando até dez, Elena tomou coragem para lê-la.
“Eu entendo que você esteja em reunião mas eu queria tanto você aqui comigo...”
– Porque você tem que fazer isso, babe? – disse alto para si mesma, levando as mãos aos cabelos e só então percebeu que chorava quando suas mãos relaram seu rosto – Vamos lá Elena não seja uma vadia, não seja uma vadia com o homem que você ama!
Em um surto de coragem, a morena segurou com mais força o celular em mãos e sem pensar mais fez a bendita ligação que Damon atendeu rapidamente sem que ela tivesse oportunidade de pensar em desistir.
– Lena! – era possível ouvir os sinos de felicidade e o sorriso estampado no rosto de Damon somente com sua voz. E ouvi-lo daquele jeito apenas intensificou sua culpa.
– Hey babe... – ela respondeu forçando entusiasmo com um leve pigarro mas que não passara despercebido.
– Está tudo bem, amor?
– Está tudo ótimo, desculpe a demora para ligar mas só sai agora da reunião... E você como está? Precisa que eu leve um babador para você?
– Oh você vai vir? – o tom esperançoso e ingênuo dele fizera o peito de Elena pesar com sua brincadeira de mal gosto. Não estavam nos planos dela passar na maternidade principalmente porque Rebekah estava lá mas naquele momento com a felicidade de Damon ela não podia negar isso a ele.
– Se você achar que é uma boa ideia eu e Rebekah no mesmo ambiente e se me quiser ai... – ela respondeu franzindo o cenho, pedindo mentalmente para que ele não fizesse questão de sua presença.
– Rebekah deve estar dormindo cansada, quando você chegar é possível que ela ainda esteja dormindo ou então grogue demais... Eu queria muito você aqui comigo, Lena.
“Porque você faz isso comigo, babe?” seu consciente martelava essa pergunta.
– Tudo bem, estou saindo do escritório agora do escritório e vou comer alguma coisa, se quiser eu levo algo para você comer...
– Estou bem, obrigado, eu comi na lanchonete do hospital mesmo. Estou com Elise agora para não deixa-la sozinha... – por pura coincidência, ao citar a filha um chorinho fino de recém-nascido ecoou ao fundo da ligação seguido pela voz doce de Damon tentando acalma-la – Pronto querida, pronto...
– Tudo bem, vou deixa-lo atendê-la. Estarei ai em uma hora!
Com pressa, Elena desligou a ligação descansando a cabeça sobre as mãos enquanto seus dedos puxavam seus cabelos nervosamente. Ela tinha que fazer isso por Damon e pensando em seus olhos azuis e seu sorriso encantado, encontrou forças para ir até o hospital.
E lá estava ele, com um sorriso tão largo quanto do gato Cheshire, de braços cruzados esperando por ela enquanto admirava os bebês na vitrine do berçário. Elena caminhou lentamente em direção ao namorado, olhando fixamente para ele, e assim que Damon percebeu sua presença aquele sorriso se alargou – como se fosse possível –, a envolvendo em um abraço tão firme que era impossível não corresponder a altura.
– E então? – Elena disse baixinho com o rosto afundado no peito de Damon.
– Olhe só como ela é linda... – ele se afastou levemente apenas o suficiente para que ela se ajeitasse em seus braços – É a terceira nessa fileira da frente de macacãozinho pink, acabaram de dar banho nela...
Não era preciso nem seguir as coordenadas dele, bem em frente aos dois uma pequena garotinha dormia usando uma roupa pink e branca com um laço delicado na parte da frente. Ela era tão pequena que parecia sumir em meio a tanto frufru da roupa. Seu rostinho inchado estava totalmente relaxado em um sono profundo, os finos lábios rosados formavam um biquinho natural que deixavam as bochechinhas igualmente rosadas ainda mais salientes e entravam em contraste perfeito com a pele clara e a fina camada de cabelos louros. Elise parecia uma boneca de porcelana.
– Ela é tão pequena... – ela observou.
– Sim, é a menor do berçário mas é muito forte... Só por ter conseguido nascer saudável e sem complicações a faz uma pequena guerreirinha! – Damon respondeu cheio de orgulho, estufando o peito para falar da filha – Muito mais forte que a mãe que reclamou o parto inteiro e quase não deu atenção a filha depois.
Então ele ficara para assistir o parto? É claro que ele havia ficado, era o nascimento de sua primeira filha que estavam falando! Em sua mente Elena fantasiava sobre o parto de Rebekah que Damon não saíra deu seu lado segurando sua mão e até mesmo da noite em que Elise fora concebida enquanto ela e Damon já tinham um caso, de como seria sua vida a partir daquele dia e de como os dois terminariam com Damon dando a desculpa de que precisava criar Elise ou até mesmo ajudar a Rebekah. Estava acontecendo, tudo o que ela mais temeu por sete meses estava acontecendo e ela não tinha como fugir.
– Lena? Está tudo bem? – a voz preocupada fizera o peito de Damon vibrar e só então Elena percebeu que não tinha apenas afundado seu rosto no peitoral do namorado como também estava chorando tudo aquilo que guardou nos últimos tempos – Você está chorando, amor? – com delicadeza ele tomou o rosto da morena em mãos, aconchegando a mão em sua bochecha úmida de lágrimas de forma que as secava com o polegar – Elena...
– Desculpa, desculpa, desculpa... Eu não consigo! – ela falou em desespero, balançando a cabeça em negação e tentando voltar a posição em que se encontrava anteriormente – Eu sei que não deveria estar chorando mas eu não consigo, eu sei que não tenho razão mas...
– Hey, eu sei que isso está sendo difícil demais para você e eu sinto muito, queria ter um jeito para tornar essas coisas mais simples mas eu não consigo. Não deveria ter te pedido para vir até aqui, me desculpe Elena, não queria lhe fazer sofrer por isso mas você é a única pessoa que eu penso em dividir essa felicidade, você foi a primeira em quem eu pensei em falar quando Elise nasceu. Nem mesmo minha mãe está aqui comigo no momento para ver a neta, eu não sei nem como lhe agradecer por estar fazendo isso por mim!
– Eu só quero lhe fazer feliz, Damon, só isso...
– E você está fazendo, eu sou a pessoa mais feliz do mundo nesse momento com as duas mulheres mais importantes da minha vida aqui comigo. Você não faz ideia o quão feliz me faz Lena, só o fato de não ter me deixado sozinho e não ter renegado minha filha, como todos estão fazendo aparentemente, já me dá a maior felicidade que uma pessoa possa querer! – Damon a acalentava sem desviar o olhar de Elena, acariciando seus cabelos e o rosto ainda molhado pelas lágrimas.
– Eu não queria que me visse assim, queria ser forte perto de você Damon. Prometo que não vou lhe deixar sozinho e muito menos renegar Elise mas é que tudo se tornou real agora.
– Nunca esconda seus sentimentos de mim, Elena, eu quero ser o primeiro a saber suas angustias e medos. Eu prometo que irei respeitar o seu espaço mas me prometa que não irá me deixar.
Deixá-lo era a última coisa que ela faria, era algo totalmente fora de cogitação e assim como Elena, Damon era um homem que honrava suas promessas. Quatro dias desde o nascimento de Elise se passou e depois do surto na maternidade Elena parecia mais calma e pronta para encarar a situação, Damon mantivera sua promessa de respeitar seu espaço e só falava da filha ou de Rebekah quando Elena perguntava.
Assim como ela, Damon nutria um sentimento muito mais forte que apenas carinho ou desejo por Elena. Por muito tempo ele sentiu como se sua vida tivesse perdido a graça e se tornado algo monótono, mas tudo mudou no momento em que ele e Elena começaram a se relacionar. Uma pequena chama havia sido reacendida dentro dele deixando-o tão feliz, tão vivo como há tempos não era.
Seus sorrisos logo ao acordar e vê-lo ao seu lado na cama, aquele par de olhos castanhos penetrantes e sedutores, sua voz suave e levemente rouca que causavam desde os mais profundos arrepios até a mais plena paz, seu corpo enlouquecedor, sua personalidade forte e independente que muitas vezes o tirava do sério, aquele jeito de mulher devassa e ao mesmo tempo delicada que o deixava com vontade de joga-la na cama e transar com ela por horas e ao mesmo tempo de ampara-la em seus braços e protege-la de qualquer coisa... Tudo nela o fascinava. Elena era a mulher perfeita para ele e ele faria tudo o que fosse preciso para mantê-la perto.
O final de semana havia chego e Damon preparava-se para ir ver a filha que já estava em casa há dois dias. Não passava das dez horas quando o rapaz se levantou da cama que dividia com Elena para se arrumar, acordando a mulher que adormecia ao seu lado e sendo surpreendido com o anuncio de que ela queria ir junto com ele ver Elise. Ela precisava enfrentar tudo aquilo mas cedo ou mais tarde e quanto antes fizesse mais fáceis as coisas ficariam lá para frente, Damon estava realmente sozinho precisando demais de seu apoio. E ela faria isso por ele.
Rapidamente os dois se arrumaram, tomando banho juntos e preparando o café da manhã com sorrisos e beijos em uma harmonia incrível. Damon estava radiante pela decisão de Elena e mais nada era mais valioso para ela que aquele sorriso estampado no rosto do amado. O relógio marcava trinta minutos para o meio dia quando a Land Rover vermelha de Damon estacionou em frente a casa de Rebekah, enchendo Elena de lembranças. Da última vez que ela entrara naquela casa ela e Damon ainda eram amantes em segredo e agora ela passaria por aquela porta como namorada dele. Muita coisa havia mudado desde a última visita mas as lembranças continuavam lá, intactas.
De mãos dadas o casal seguiu o caminho de madeira em meio a grama até a larga porta da frente de onde era possível ouvir perfeitamente o choro alto e desesperado de um bebê. A porta fora aberta apressadamente por Damon, usando das chaves que ele ainda guardava da casa, e logo após o hall de entrada, na espaçosa sala de estar, eles encontraram Matt sentado na ponta do sofá preto em ‘L’ enquanto Rebekah balançava impaciente com o pé o carrinho de onde vinha o choro, escorada no canto do sofá enquanto assistia atentamente a televisão de plasma presa a estrutura do home theater. Era uma cena deprimente.
– Mas o que diabos está acontecendo aqui? – Damon perguntou indignado adentrando a passos largos pela sala e fazendo a atenção dos dois virarem para ele.
– Essa criança não para de chorar, eu não aguento mais! – com um tom histérico a mulher loira respondeu, esfregando o rosto cansado com as mãos. Rebekah estava horrível, com um robe por cima do pijama e o rosto visivelmente cansado, cheio de olheiras e abatido como se não dormisse e não comesse há um bom tempo.
– Eu já falei, ela está com fome Rebekah! – Matt interviu com um tom irritado, sacando o controle que estava na guarda do sofá para desligar a televisão – Faz mais de dez minutos que ela chora assim!
– Mas então dê de mama a ela e ela para de chorar. Simples assim. – o moreno sugeriu, aproximando-se do carrinho.
– Eu estou sem leite, ela mamou a noite inteira – Rebekah respondeu friamente – E eu não vou amamenta-la.
– Como assim não vai amamenta-la? Você tem que amamentá-la Rebekah, senão ela morrera de fome! – Damon insistiu alarmado.
– Não quero e não vou, meus peitos estão doendo parecem em carne viva de tanto essa menina sugar, ela mama o dia inteiro e o tempo todo não aguento isso. E também não quero que ela crie vínculo, não quero ela dependurada em meu seio!
Elena olhava aquela cena impressionada, aproximando-se em passos breves de onde Matt estava sentado mas sem desviar os olhos de Damon contando mentalmente quanto tempo levaria para o namorado explodir com Rebekah. Ela se perguntava como uma mãe era capaz de olhar para a filha tão indefesa, saber que ela estava com fome e não lhe dar de mama?
Elise chorava desesperadamente no carrinho, balançando sem parar seus pequenos braços e pernas, o rostinho delicado de recém nascida contorcia-se em dor de fome já vermelho de chorar. Damon estava abismado, chocado com a frieza da ex mulher, seu peito contorcia-se de agonia e tristeza em ver sua filha sofrendo de fome daquela forma quando sua mãe recusava-se a alimentá-la.
– Rebekah, pelo amor de Deus, dê de mama a ela. Ela está desesperada, olha só como chora! – ele pediu sem forças, segurando Elise nos braços com cuidado tentando de alguma forma consolá-la, porém, o consolo que a menina queria sequer queria encostar nela – Eu sei que você tem leite, seus peitos estão enormes Rebekah.
– Eu já disse que não Damon! – ela resistiu, revirando os olhos entediada e morena sequer tinha saído do cinquenta e três quando Damon colocou a criança aos prantos novamente no carrinho e agarrou com força no braço de Rebekah.
– Onde está a porra da esgotadora? Hein Rebekah? – ele balançou ela com força à empurrando contra o sofá onde a mulher caiu sentada – Você está acabando com a minha paciência! Eu juro que se você não tirar esse leite agora eu não respondo por mim! Onde está Rebekah?
– Está no quarto dela, ok? – Rebekah cedeu contragosto, ajeitando-se ao sofá retorcendo o rosto como se tivesse sentindo dor.
– Ótimo! – o rapaz a lançou um olhar gélido, seguido mais que depressa em direção a escada de degraus vazados de madeira clara que ficava um pouco mais a frente do hall de entrada.
O choro de Elise havia se intensificado com a agitação da casa e os gritos de Damon, no canto da sala Matt e Elena se entreolhavam assustados, não se atrevendo a falar uma palavra sequer como duas crianças amedrontadas pela briga dos pais. Elena nunca vira Damon tão nervoso e fora do controle, apesar de todas as revoltas de Rebekah durante a gravidez ele não havia se descontrolado tanto como naquele momento. Quando se tratava de Elise ele se transformava em uma pessoa completamente diferente podendo ser o mais doce dos pais e o mais agressivo dos homens e isso fazia a morena admirar ainda mais aquele lado do namorado.
A figura perturbada de Damon voltou rapidamente, descendo as escadas de dois em dois degraus, com a esgotadeira em mãos e sem manter contato visual com loira ele alcançou o aparelho a ela, alheio a tudo que não fosse sua filha chorando.
– Anda logo Rebekah, não temos até amanhã! – ele apressou a mulher empurrando a bombinha em sua direção e apressando-se a pegar a chupeta e a filha no colo novamente.
– Eu não vou fazer isso na frente de todo mundo, principalmente na sua!
– Ninguém aqui está interessado em ver seus peitos Rebekah, principalmente eu, só quero que você alimente minha filha! – o rapaz resmungou mal humorado, sem desviar o olhar da menininha que sugava a chupeta com força em sinal de fome – Fique calma, tudo bem querida? Rebekah vai tirar o leite para dar a você... Eu sei que está com fome.
Ele se recusava a se referir Rebekah como mãe de Elise, sua mente recusava-se a criar tal vínculo amoroso entre as duas como era a relação de mãe e filha e Damon tinha claro que Rebekah não era mais que a mulher que trouxera sua filha ao mundo.
Alguns segundos de silêncio reinaram naquele cômodo mas a tensão era palpável entre os cinco. Nenhum dos quatro adultos estava satisfeito com a presença do outro naquela casa, era pior que quatro completos estranhos que não simpatizavam sendo obrigados a ficar em uma sala, nenhum deles se sentia confortável com o outro. Damon balançava a filha nos braços tentando de alguma forma consolar sua agonia enquanto a mulher sentada no vértice do sofá relutava com a ideia de esgotar o seio.
– Não seja por isso Rebekah, eu me retiro... – Elena foi a primeira a se levantar do sofá dando um pouco de privacidade a mulher mimada, mas antes de seguir até os fundos da casa onde tinha uma grande área gourmet ela se aproximou de Damon para sussurrar algo a ele – Vou estar ali atrás, tudo bem?
– Claro! – ele assentiu em um tom cansado recebendo um beijo demorado nos lábios da mulher que sequer se preocupou com a presença de Rebekah.
– Você vem comigo, Matt? – ela sinalizou a cabeça em convite para o rapaz que estava ao seu lado.
– Sim, com certeza! – em um pulo Matt levantou-se do sofá como se estivesse apenas esperando o convite ou alguma oportunidade para sair daquele lugar o mais rápido possível.
Em um silêncio reconfortante os dois caminharam lado a lado até o lado mais afastado da casa, chegando a uma ampla área semi coberta onde havia uma churrasqueira externa ao lado de uma ilha de mármore escuro, um balcão com uma pia e uma larga mesa de banquete. Elena recostou-se a ilha e Matt puxou duas banquetas para bar para que eles pudessem sentar e conversar.
– E então, como foram os primeiros dias? – ela fora a primeira a falar, examinando discretamente o rosto cansado do amigo.
– Difíceis, mais difíceis do que eu esperava — Matt respondeu com um suspiro melancólico, desmoronando na frente de sua amiga de longa data – Rebekah se recusa a cuidar de Elise, nos primeiros dias ela sequer queria pegá-la nos braços e a menina só se acalma quando está com ela. Eu não durmo há dias, Elena, está sendo pesado demais para eu lidar com tudo isso, a menina nem é minha filha e eu estou cuidando mais dela que a própria mãe.
– Eu não sei porque isso me surpreende, esperava que ela fosse mudar ao ver a filha pela primeira vez mas vejo que isso só piorou. Damon está acabado com tudo isso, ele também não dorme direito pensando em Elise e eu percebo que ele gostaria de estar aqui com ela. Ele é louco por essa menina.
– Dá para perceber – ele soltou um riso anasalado sem humor– Elise chora o tempo todo, Rebekah chora o tempo também e só quer saber de dormir, não tem mais vontade de sair ou receber as pessoas. Não sei mais o que fazer para animá-la e acabei ligando para a médica dela escondido, disse o que estava acontecendo e a médica disse que Rebekah está em negação e que era muito cedo para falar sobre depressão pós parto, falou também que era para entrar em contato com ela se acontecesse mais alguma coisa.
– No que nos metemos, hein? – um riso deprimido escapou em seu tom reflexivo e ela levou uma mão ao ombro tenso de Matt, apertando-o levemente.
– Como você está lidando com isso? Ver o homem que gosta pai de um filho que não é seu... Eu conheço você Elena, conheço seu jeito, suas prioridades e sei que um homem com uma criança tira colo não é seu jeito predileto de viver.
– É, estão todos bem surpresos com a minha decisão e para ser sincera eu também estou... Ás vezes eu fico me perguntando no que me enfiei e se dá tempo de desistir de tudo isso mas então eu olho para Damon e vejo o quanto ele precisa de mim, do meu apoio, da minha companhia e não posso de jeito nenhum deixá-lo. Eu tenho meus caprichos e Damon virou um deles, deixa-lo está fora de cogitação – Elena suspirou fundo deixando-se levar pela vulnerabilidade daquele momento.
Matt era uma das únicas pessoas que a entendia e que a conhecia bem o suficiente para saber que Elena não estava em seu comportamento habitual. E assim como ele, ela sabia que nada daquilo estava sendo fácil para Matt.
– Wow, eu sobrevivi para ver Elena Gilbert presa a um homem... Quem diria hein?
– Eu... Eu o amo, Matt... – os pequenos ombros se encolheram em rendição, sentindo seu estômago dar um giro em um tipo estranho de ansiedade. Aquela era a primeira vez que ela admitia a alguém que amava Damon e por incrível que parecesse, aquilo soava tão bem em sua voz que sua vontade era de dizer ao próprio Damon aquilo.
– Disso eu tenho certeza! Não é novidade nenhuma que sempre amei Rebekah mas você está me surpreendendo – ele sorriu em resposta, dando uma piscadela cumplice a amiga.
– Eu sinto sua falta, Matt, costumávamos a nos dar tão bem...
Com Matt as coisas costumavam a ser mais fáceis, eles se entendiam e se davam bem, costumavam a sair juntos frequentemente e com suas personalidades tão parecidas se tornava impossível não se divertirem. Entre eles não havia repreensão ou lições de moral e muito menos aquela frequente inveja entre o grupo de amigas, a amizade era sincera e sem nenhuma segunda intenção por trás disso. Era inegável o quão bem os dois se davam, mas de repente tudo pareceu ter esfriado.
– Sinto sua falta também, gatinha – ele assumiu, tomando a mão de Elena que descansava na bancada – Eu sinto muito em ter me afastado dessa forma mas Rebekah não pode sonhar que estou falando isso para você...
– Eu não consigo entender o que você vê nela, Matt, como consegue conviver com uma pessoa como ela?
– Da mesma forma que você fazia! Rebekah não é tão ruim assim, quando estamos juntos ela é divertida, carinhosa, uma pessoa completamente diferente do que se mostra. Muitas vezes de madrugada eu a ouvi chorar por medo de não ser uma boa mãe, arrependida por ter seguido com a gravidez por puro medo, de alguma forma ela sabia que não iria conseguir e o que menos queria era maltratar a menina... Todos nós temos nosso lado ruim mas Rebekah é só uma mulher carente que quer atenção e carinho e eu estou aqui disposto a dar isso a ela.
– Pode ser que você esteja certo, mas ainda assim ela me parece uma bruxa loira. Parece que todos os nossos bons momentos juntas como amigas foram apagados da minha memória...
– Eu vou falar uma coisa que você provavelmente não vá gostar, Elena, mas quem a tornou fria dessa forma foi você! Rebekah a tinha como amiga, ela gostava de verdade e até mesmo confiava em você, quando descobriu a traição tudo desmoronou em sua frente. Ela ficou tão decepcionada com você e com Damon que isso irá assombra-la por muito tempo.
Aquilo tudo era uma grande novidade para a morena, por anos ela pensou em Rebekah como sua amiga usando isso como o grande motivo para resistir a tentação a Damon mas após certo tempo, tudo pareceu insignificante para ela. A verdade era que, ainda que gostasse de ter a companhia de Rebekah como amiga, Elena só mantinha aquela amizade para se aproximar de Damon. Como se Rebekah fosse a âncora, a corrente que a ligava ao homem de seus sonhos.
– Eu não sei o que dizer Matt e não consigo me arrepender de ter feito o que fiz, eu e Damon nos damos muito bem e tê-lo ao meu lado faz tudo ter valido a pena...
– Agora ela está melhor, sabe? Eu estou conseguindo reerguê-la aos poucos mas Elise foi um baque forte na vida de Rebekah, ela não queria que essa criança fosse de Damon mas infelizmente ou felizmente, não sei, Elise é a cara do pai... – o sofrimento de Matt com aquela situação era perturbador, para ele era ainda pior ver e conviver com a mulher que amava grávida de outro homem e ainda ter que aturar toda aquela situação.
– Eu sinto muito por você, Matt, queria de alguma forma poder ajudar...
– Você já está ajudando, acredite, seria pior ter que aturar Damon aqui sozinho e furioso. Não via a hora de sair daquela sala antes que sobrasse para mim – ele riu dessa vez de verdade, fazendo Elena rir junto.
– Elena? – a voz que uma vez estava cheia de raiva, agora soou um pouco mais tranquila e um tanto cansada fazendo os dois amigos direcionarem a atenção ao rapaz próximo a porta de correr de vidro, que segurava uma garotinha adormecida nos braços e tinha no ombro uma mala cor de rosa claro – Podemos ir?
– É claro! – ela assentiu um tanto confusa com a imagem e logo se virou para Matt – Tchau Matt, qualquer coisa que precisar me ligue, ok?
– Claro! Você também, manteremos os dois em contato... – Matt assentiu, segurando a mão de Elena com mais força – Fique bem, gatinha.
Os dois se despediram com um abraço forte antes que Elena fosse ao encontro de Damon, que olhava a cena com uma cara de poucos amigos. A amizade de Elena com Matt nunca agradara o moreno, principalmente quando sua namorada se mostrava bem mais a vontade com o amigo. Ao perceber a reação enciumada dele, a morena beijou demoradamente seus lábios, acariciando seu rosto com delicadeza em uma caricia reconfortante e só após ter se certificado de que a carranca havia sumido entre suas sobrancelhas ela começou a falar.
– Hey, está tudo certo? – sua mão acariciava a nuca do rapaz tentando acalenta-lo.
– Sim, agora está tudo bem, ou melhor, vai ficar tudo bem... – ele assentiu com um suspiro fundo – Eu vou tirá-la daqui, eu e Rebekah concordamos que ela precisa de um tempo até voltar a ficar com Elise. Acho que ela está sofrendo algum tipo de trauma pós parto, sei lá, aqui não vai fazer bem para Elise e ficar com... Ficar com a mãe descontrolada só vai piorar.
A garotinha que uma vez chorava em descontrole, agora dormia profundamente no colo do pai, suspirando entrecortado e sentida devido ao choro de alguns minutos.
– Eu só não sei para onde vou, minha casa está em reforma e o cheiro de tinta não fará bem para um recém-nascido, provavelmente irei para a casa dos meus pais – Damon refletiu direcionando a atenção a filha em seus braços, abaixando o tom de voz até que tornou aquilo um sussurro ao se referir aos seus pais.
Por alguns segundos Elena ficou sem reação, ela sabia que Damon iria levar Elise para casa algum dia mas não esperava que fosse tão cedo e que fosse cogitar algum dia ficar na casa de seus pais. Giuseppe e Isobel se tornaram duas pessoas fora de questão para Damon, enquanto Miranda e Grayson toleravam e aos poucos se acostumavam com o relacionamento da filha com o advogado, os pais de Damon simplesmente não aceitavam aquele namoro e os sentimentos que tinham por Elena eram os piores possíveis. Isobel tinha um grande favoritismo por Rebekah e não admitia Elena em sua casa nem em sonhos e levar Elise para lá significava que ficaria muito tempo longe de Damon.
Outro fator que deixava Damon ainda mais desgostoso de pedir ajuda aos pais era que eles pouco se importavam com a neta. Apesar de terem carinho pela menina e a presentear enquanto ainda estava na barriga da mãe, Isobel e Giuseppe deixaram claro para o filho que ele deveria arcar sozinho com total responsabilidade com a filha em merecimento por não estar com Rebekah e por tê-la traído. Elena simplesmente não aceitava que Damon tivesse que pedir ajuda aos pais naquele momento e acaba tomando uma decisão impulsiva que provavelmente se arrependeria.
– Vamos para minha casa... Vocês podem ficar lá, Cassandra pode te ajudar com ela e tudo mais – a morena sugeriu após alguns segundos em silêncio.
– Eu... Eu não sei Lena, preciso trabalhar e Elise não pode ficar sozinha, não posso abusar de Cassandra desse jeito.
– Tenho certeza de que ela não irá achar ruim e adoraria cuida-la para, são só alguns dias como você disse...
– Elena, ela só tem quatro dias de vida, chora de noite e provavelmente irá chorar boa parte do tempo, não quero incomodar – o olhar azul cheio de preocupação e hesitação encarou o rosto de Elena que sorria para ele.
– Não vai incomodar, eu insisto... – ela insiste, porém, Damon continuou hesitante – Hey, eu disse que você não estaria sozinho nisso e não está. Eu quero lhe ajudar Damon, não seja tão cabeça dura.
– Certo... – um suspiro alto de alívio fizera a postura rija de Damon relaxar – Eu só preciso pegar algumas coisas em meu apartamento para ela. Você fica com ela no carro enquanto eu vou lá?
– Claro! Agora vamos?
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