Luxure
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Estava me apresentando como vocalista de uma banda local quando a vi pela primeira vez. Na plateia, tomando um liquido claro no copo em suas mãos, o olhar sedutor e a calça de couro apertada no corpo esguio. A camiseta larga e na altura do umbigo de uma banda antiga que eu nem sabia pronunciar o nome, o rosto cheio de maquiagem e o cabelo caindo em cachos castanho-avermelhados pelos seus braços. Meu corpo se acendeu, aquele não era o tipo de mulher que frequentava o lugar e meu olhar não ia deixa-la passar em branco. Na música seguinte ela pareceu me notar, uma mulher alta demais coberta por cabelos loiros e compridos em meio aos homens em cima do palco. Ela sorriu, seu olhar estreito parecia prestar atenção em meus traços mais do que no que eu cantava. Sorri torto de volta e tentei olhar para os outros lados, disfarçando o interesse imediato que senti. Depois de várias músicas e olhares trocados, anunciei a última música da noite e no mesmo momento ela começou a caminhar em direção a lateral do palco, pela qual eu ia descer em seguida. Nunca quis tanto que uma música acabasse, devo confessar.
Ao descer do palco nem precisei procura-la. Apoiada na lateral do palco de forma despreocupada, deu alguns passos em minha direção e sorriu, me entregando um papelzinho que logo supus ser seu número. De sua boca saíram apenas as palavras:
– Três horas em ponto. Espero que você vá.
E eu acompanhei seu rebolado ao atravessar o bar em direção da porta da frente.
***
O papel tinha o endereço de uma boate de strip conhecida na cidade e por algum motivo eu não conseguia jogá-lo fora. Estava sentada nas cadeiras escuras do bar desde que ela havia saído de lá, o terceiro copo da noite pairava sobre a bancada enquanto eu estava perdida em pensamentos. A cada cinco minutos meus olhos encontravam a letra rabiscada e eu já havia decorado cada detalhe do pequeno papel. O que eu tinha a perder? Eu queria ir atrás dela, por mais suja que ela pudesse ser. Ela me instigava, roubou minha atenção em poucos minutos e eu queria ver até onde isso tudo ia chegar. Já passava das três e meia. Larguei o copo em um canto qualquer, peguei minha bolsa e saí daquele lugar, jogando-a rapidamente no banco do carona e partindo rumo à boate de strip, a adrenalina correndo nas veias. Estacionei perto da pequena porta antiga que ficava abaixo de umas letras em neon vermelho. Sem hesitar, peguei a bolsa e tranquei as portas, caminhando naquela direção. Ao entrar, tive que acostumar meus olhos as poucas e claras luzes do lugar. Todas viradas em direção do pequeno palco no centro do lugar.
Lá estava ela. Dançando com um par de roupas que mal escondiam suas partes íntimas. E para minha surpresa, eu gostei. Sendo completamente honesta, eu não conseguia fechar a boca ao ver ela remexer os quadris daquela forma sensual. Mais sensual do que no bar onde eu cantava, mais do que eu poderia imaginar. Era o mesmo rebolado, era as mesmas expressões provocadoras. Ela tinha consciência do quanto podia ser sensual e fazia de propósito.
Caminhei lentamente por entre os marmanjos e velhos ricos que suavam ao ver ela e suas amigas de palco rebolando e tentando colocar gordas notas em suas rendas finas. Não desgrudava os olhos daquele corpo que se remexia em busca da atenção dos donos das notas maiores. Sorri de canto, ela era esperta. Provavelmente trabalhava nisso a um bom tempo já. Pedi um whisky ao garçom que me ofereceu algo para beber e fui para a beira do palco baixo me aproximar da luxúria em sua forma humana. Fiz minha melhor expressão de desentendida ao vê-la me encarando surpresa ao me ver ali. Claro que ela não falou comigo nem quando eu me debrucei na bancada em meio àqueles homens todos para vê-la de perto. Ela começou a dançar mais agarrada àquele pedaço de aço e jogava para mim todos os seus melhores olhares enquanto tocava o próprio corpo rebolando em câmera lenta. Ela estava fazendo isso pra mim, estava me provocando, e eu estava gostando daquele jogo. Eu estava gostando e muito daquilo tudo. Tirei algumas notas da minha carteira e me aproximei para tocar aquela pele ao coloca-las nas tiras da sua cinta-liga vermelha. Ela só se mexeu da posição em que estava quando minha mão não estava mais tocando sua pele.
Fiquei lá por um tempo admirando-a. Tomando bebidas, ouvindo a música sussurrada que tocava ao fundo. Quando achei que era tarde, escrevi meu número do celular em um guardanapo de papel com o único batom que encontrei na bolsa. Dei algumas notas ao garçom para que ele entregasse àquela dançarina e sai daquele lugar pequeno, o ar frio da madrugada batendo no meu rosto. Ao chegar no meu apartamento no centro da cidade tomei um banho frio, as lembranças daquela mulher não me deixavam pensar em outra coisa. Passadas exatas duas horas em que eu rolei na cama tentando dormir sem sucesso, meu celular tocou. O número era desconhecido.
Ao atender, sua voz tinha um tom de insegurança ao pedir para ir ao meu apartamento. Dei meu endereço e ela disse que pegaria um táxi e chegaria em alguns minutos, negando quando eu me ofereci a pagá-lo. E eu entendi o recado. Aquilo não era um serviço. Ela me desejava da forma que eu a desejava? Eu obtive um sim quando abri a porta e lá estava ela, com seu sorriso sedutor e olhar baixo com enormes cílios piscando pra mim. E logo em seguida pressionando duramente seus lábios nos meus, passando as mãos pelo meu corpo na mesma rapidez com a qual eu passava pelo seu, as respirações rápidas eram nossa melodia de fundo e dentro de poucos segundos as roupas de ambas estavam espalhadas ao longo do corredor que terminava em frente ao meu quarto.
Seu nome dançava em minha mente assim como seu perfume obsceno enchia o ar a nossa volta de pura luxúria. Aquela com certeza não seria a última vez que nos veríamos, eu não deixaria ela escapar de mim. Talvez não fosse só minha, mas seria minha de alguma forma. Com seu jeito sedutor ela devia ser acostumada a ter o controle de tudo, porém desta vez seria diferente. Ela havia começado nosso pequeno “jogo”, mas eu que iria decidir como esse jogo acabaria. Em meio a cigarros, lençóis desarrumados e partes do corpo borradas de batom vermelho, nossa noite passou rápido demais. Quando acordei tarde da manhã, um bilhete seu na cômoda ao lado. Não, mais precisamente um pedaço de papel com um número de celular e Jenn assinado embaixo em letra cursiva. Sim, você voltaria. E logo.
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