Lupin
1 único
Remus sorriu largamente quando abriu a porta e sentiu braços rechonchudos lhe rodearem prontamente, o perfume feminino invadia suas narinas e lhe deixava ligeiramente enjoado, embora já estivesse acostumado. O olhar que recebia era da mais pura alegria; Remus sentia que os olhos de sua mãe poderiam sorrir para ele a qualquer momento e ele não acharia esquisito.
— Olá, mamãe. Feliz Natal! — não pode deixar de acompanhar o sorriso da mais velha, era contagiante.
Levou os olhos para a casa pequena de madeira, procurando por alguma diferença ou um novo reparo com tábuas de cores diferentes, mas encontrou-a da mesma forma desde que a deixara em setembro. Não havia imaginado que sentiria falta daquele espaço cubículo, com poucos móveis, mas repletos de quadros nas paredes, com fotos de Remus quando mais novo — ele pôs-se a observar cada uma, enquanto a mãe preparava o almoço; era visível que em cada foto uma nova cicatriz acompanhava seu rosto ou corpo, além de possuir o semblante mais cansado em algumas delas.
Em poucos segundos, chegou em um consenso de que observar as próprias fotos só o deixaria mais paranoico sobre as questões que o rondavam nos últimos meses, e não era daquela forma que gostaria de passar o Natal.
Não pode deixar de notar, porém, que havia um trabalho de História da Magia seu emoldurado e preso na parede, ao lado de todas as fotos familiares.
— Eu disse a Hope que você não ia gostar da ideia, mas ela não me deu ouvidos — murmurou Lyall, seu pai, enquanto retirava o sobretudo.
— Pai por que exatamente tem um trabalho meu na parede? — indagou, esperando que sua mãe não escutasse seu tom de zombaria.
— É seu primeiro ano em Hogwarts, você sabe... Ela quis emoldurar seu primeiro trabalho com nota máxima, como um troféu, eu suponho — Lyall esticou-se em sua poltrona, observando o rosto vermelho de seu filho. — Isso é porque você ainda não viu que sua carta de Hogwarts está emoldurada e pendurada na parede da cozinha e na cabeceira da sua cama.
Remus riu, acompanhando o pai. Sua mãe costumava emoldurar todas as primeiras coisas de Remus — como seu primeiro desenho que não passavam de rabiscos, ou sua primeira pintura de tinta guache, assim como sua primeira carta mandada diretamente de Hogwarts. Hope era uma mãe excepcionalmente animada com qualquer coisa que seu filho fizesse, especialmente se fossem coisas das quais ela jamais imaginaria acontecer — como Remus ter entrado em Hogwarts, quando ninguém da família tinha esperanças de conseguir uma escola segura para o Lupin menor.
— Eu trouxe um presente — murmurou Remus, retirando de seu malão um disco novo de uma banda da qual seu pai era um completo fã.
— Remus! — Lyall levantou-se em um pulo, admirando o disco com um brilho conhecido nos olhos — O que eu já disse sobre gastar dinheiro com coisas fúteis? — ainda que seu tom de voz fosse severo, seu rosto estava encantado demais para sermões.
Remus sorriu aliviado e agradeceu mentalmente James por tê-lo emprestado o dinheiro que faltava, agradeceu também Sirius, por ter pechinchado numa loja de discos.
— Enquanto ouvimos essa obra de arte, você pode começar a me contar como está sendo o ano escolar — Lyall colocava o disco no vinil com delicadeza, mas possuía olhos fixos e atentos em Remus.
— Eu fiz amigos — respondeu, encontrando um olhar de surpresa vindo de seu pai, não sentiu-se ofendido por ele, porém.
A começar daí, Remus contou todos os detalhes que não contara em cartas; como havia conhecido James, Sirius e Peter e no quanto eles eram estranhamente diferentes uns dos outros, mas, também, estranhamente amigáveis e receptivos; também contou sobre a conversa que tivera com Prof. Dumbledore, onde ele reafirmava que daria total suporte para Remus — e o quanto Remus sentiu-se estranhamente caloroso com isso.
Sua mãe escutava atentamente, havia deixado a comida de lado para escutar a história completa de seu filho, soltando comentários e murmúrios de vez em quando.
— Tem certeza que essa coisa de mexer com poção não é perigosa? — questionou quando Remus contava sobre a primeira aula de poções.
— Já disse a você que não, Hope. É como cozinhar! — tentou tranquiliza-la.
— Cozinhar? Se você com seus quase quarenta anos ainda se queima terrivelmente quando tenta cozinhar, quem dirá Remus, com onze! — Hope levou o rosto as mãos, imaginando a cena de seu filho se queimando com alguma poção.
— Mãe, não se preocupe, é seguro. Além do mais, o professor está sempre por perto, então não tem perigo algum — disse Remus, não mencionando a cena inusitada de seu colega explodindo um caldeirão no primeiro dia de aula.
Hope arfou e levantou-se, rumando à cozinha novamente. Lyall revirou os olhos, com um sorriso no rosto, enquanto Remus o fitava.
— Às vezes, eu sinto que ela se esquece que você enfrenta a lua cheia todo o mês. O que é, com toda certeza, bem pior que uma aula de poção — sussurrou, levando a mão na barba repleta de fios brancos.
Remus conhecia bem seu pai para saber que ele estava desconfortável e que, em alguns minutos, ficaria pensativo e silencioso; o olhar dele então recaía para o chão, seus olhos ficavam opacos, suas mãos coçavam a barba, seu coração podia ser escutado do outro lado da sala (embora ela fosse pequena), os pés batucavam o chão e se Remus enxergasse um fio branco nascendo no cabelo castanho de seu pai naquele exato momento, não estranharia de maneira alguma.
Seu pai sempre mudava a postura quando o assunto eram as luas cheias. Enquanto Remus evitava o assunto a todo custo, seu pai o trazia à tona a cada oito minutos, questionando sobre todos os detalhes possíveis de sua transformação ou do local que em que ficava quando a lua subia o céu. A voz dele era sempre baixa, como se não quisesse que sua mãe escutasse, mesmo que ela pudesse os ouvir da cozinha; também era cheia de remorso, como se pedisse desculpa com seu tom de voz.
Remus detestava o assunto; queria caminhar até o outro lado da sala, segurar seu pai pelos ombros, olhá-lo no fundo dos olhos e gritar “não é sua culpa!”, mas mantinha-se sentado, respondendo as perguntas com uma voz atenciosa e amena, embora seu rosto estivesse visivelmente exausto por simplesmente tocar no assunto.
Apesar de pensar constantemente sobre isso, não sentia-se confortável em dizer a ele que não o culpava por ter brigado com Fenrir Grayback e que, se estava naquela situação, a culpa era exclusivamente do lobisomem que havia o mordido e não do homem que tentava protegê-lo. Porém, nas duas únicas vezes que tentara abordar o assunto, seu pai estava bêbado demais e chorão demais, algo do qual Remus não conseguia encarar muito bem em seus onze anos.
Se não bastasse isso, seu pai ainda insistia em gastar dinheiro do qual eles não tinham com tratamentos visivelmente falhos e remédios quase impossíveis de serem feitos, dos quais sempre resultavam em dores de cabeça e nenhuma ajuda verdadeira.
— Lembra do meu amigo da Austrália? Ele me contou que ouviu falar de uma poção que pode ajudar a amenizar a transformação, é uma boa notícia, não é? Acho que consigo o dinheiro em alguns meses e então podemos tentar — Lyall segurou os braços da poltrona com força, como se a qualquer momento pudesse chorar.
Remus levantou-se e caminhou até seu pai, ajoelhando-se em sua frente.
— Pai... Eu sei que é difícil para o senhor e sei que ainda acredita que uma cura apareça, mas eu preciso que pare com isso. Tentamos de tudo desde os meus seis anos e tudo que fizemos foi gastar um monte de dinheiro — Remus observou a mão trêmula de Lyall agarrar o maço de cigarros e acender um de prontidão — Essas coisas são caras e não valem a pena. Além do mais, eu estou bem agora — o olhar de seu pai parecia gritar que Remus estava mentindo — Sério, eu realmente estou bem; veja, eu consegui entrar em Hogwarts! A melhor escola de magia do mundo! E eu fiz amigos lá, amigos de verdade, pai. E eu sei que se precisar posso contar com a escola, sei que posso contar com meus novos amigos, sei que posso contar com a mamãe e com você, pai.
— Você pode contar comigo — sussurrou Lyall, soltando a fumaça para longe de Remus.
— Eu sei que sim — Remus abraçou-o por alguns longos segundos, sentindo-o relaxar e parar de tremer, aos poucos.
— As coisas vão melhorar — sussurrou como se fosse um mantra do qual implorava para acreditar.
— O almoço está pronto — avisou Hope, escorada na entrada da sala, com um grande sorriso no rosto e uma voz melodiosa da qual Remus e Lyall jamais se cansariam de escutar.
Quando se separaram, seus olhos encontraram-se; eram os mesmos olhos castanhos e sensíveis, atulhados de medo e insegurança, mas brilhantes e completos de esperança — Lyall então entendeu que Remus jamais o culparia pelo fardo que carregava, e isso só fez com que seu orgulho aumentasse potencialmente.
Remus sorriu, caminhando até a cozinha. Antes, porém, fitou a parede preenchida por quadros da família; os Lupin tinham leves tendências ao sentimentalismo, mas eram suas forças de vontade e a atenção que davam para as pequenas coisas boas que os tornavam tão especiais.
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