Luna: O Apocalipse Está Chegando

2 Capítulo 2: Ataque à meia-noite


Luna abriu os olhos e viu apenas escuridão. Encontrava-se em pé, ofegante e coberta por suor. Apenas naquele momento notou que estava completamente nua. O chão sob seus pés era madeira, e ela pisou nele cuidadosamente, dando alguns passos na escuridão, até seu pé tocar em algo molhado. Recuou rapidamente, por instinto, até suas costas baterem em algo sólido. Tateou, descobrindo uma janela, e a abriu. A luz da lua cheia entrou pela janela, e Luna arregalou os olhos com a cena que ela revelou.

Aquela era sua casa. No chão havia algo que pareciam ser restos de um lobo; o corpo fora estraçalhado de tal maneira que virara apenas carne, sangue e pêlo branco. E, ao lado do lobo, seus pais estavam estendidos, mortos no chão, cobertos de arranhões e sangue. Ao longe, um lobo uivou.

Luna acordou ofegante, com o uivo lupino ainda ressoando em seus ouvidos. Permaneceu olhando para a escuridão por alguns momentos e então enterrou o rosto em suas mãos. Rosnou de raiva. O antigo pesadelo ainda tinha o poder de afetá-la de uma maneira muito intensa.

Outro uivo ressoou, fazendo-a erguer o rosto. Aquele não era de sonho. Estava acontecendo de verdade. Ao seu lado, Bastet se pôs em pé em um pulo e cuidadosamente abriu uma fresta da porta. O luar tornou possível ver seus cabelos loiros e a cor de seus olhos dourados, que espiavam atentamente o lado de fora. Seus olhos se arregalaram e ela fechou a porta rapidamente. Olhou para Luna.

— Cadáveres. – ela sussurrou na escuridão.

— Aqu... – Luna tentou começar, mas a companheira a calou com um “psiu! Baixo!”.

— Desculpe – a morena sussurrou. – Mas eles estão aqui?! Dentro do nosso Caern?!

— Sim.

— Como...?... aqueles... sanguessugas... nojentos... – Luna se controlava para não berrar de raiva. Criaturas da Wyrm, arautos da destruição, invadindo o seu Caern, pisando na terra sagrada do lugar com aqueles seus pés nojentos, contaminando a natureza intocada do local com a Corrupção! – Eles querem morrer?!

— Eles já estão mortos.

— Bom, não totalmente, já que ainda podem espalhar a Wyrm por aí, não é? – a morena tirava rapidamente suas roupas – Então eles irão descobrir que não se zomba dos Crias de Fenris, ah, eles vão...

— O que vai fazer?! – Bastet sussurrou, alarmada – Nos últimos ataques, Canino Branco mandou que você não se envolvesse e ficasse dentro do abrigo!

— Bom – a voz de Luna estava mudada; Bastet reconheceu imediatamente o rosnar de uma loba –, da última vez eles não invadiram o Caern, e Canino Branco não me falou nada até agora, não foi? Vamos, vamos lutar!

— Ok. Mas não sei se você notou, não cabemos as duas transformadas aqui, pulguenta!

— Ótimo! – Luna latiu baixo, entusiasmada. – Estou esperando você lá fora!!

Bastet só viu um vulto castanho-avermelhado voar para fora da porta. Então suspirou e começou a tirar as próprias roupas.

A loba se assustou com o que viu quando chegou do lado de fora. O Caern estava um caos. Imensos lobos musculosos, da altura de cavalos, engalfinhavam-se com criaturas pálidas idênticas a humanos, que estavam espalhados por todo lado. Vampiros. Luna teve que se controlar para não sair correndo e rasgando todos aqueles seres que aparecessem em seu caminho.

— Bastet! – ela bateu com o imenso focinho na porta. – Apresse-se!

Sua resposta foi um rosnado alto e então a porta foi aberta com tanta violência que bateu com estrondo na parede do abrigo. As duas se entreolharam.

Luna estava em sua forma Hispo; era uma imensa loba castanho-avermelhada, com garras do tamanho de facas e brancas presas afiadas. Seu espesso pêlo emaranhado acentuava ainda mais o seu aspecto selvagem, assim como a raiva em seus olhos. Bastet, por seu lado, era uma onça enorme, ainda maior que Luna. Suas garras haviam sido postas para fora e seus olhos dourados exibiam a frieza dos felinos. Ambas estavam prontas para a luta.

— Você está decididamente assustadora. – a loba se permitiu um leve sorriso selvagem. Bastet revirou os olhos. Mesmo perante uma batalha, Luna ainda parecia mais ansiosa e excitada do que raivosa. Era mesmo uma hiperativa. Mas mesmo assim retribuiu o leve sorriso.

— Você também. Vamos, vamos mandar esses Cadáveres para o túmulo de uma vez por todas.

A loba respondeu jogando a cabeça para trás e soltando seu uivo de batalha. Antes que Bastet pudesse sequer se mexer, a companheira já havia se jogado em cima do vampiro mais próximo. A criatura tentou dar-lhe um soco, mas Luna desviou bem do primeiro golpe. O único problema foi que, exultante pela evasiva perfeita, a loba descuidou-se. Não foi capaz de defender-se do chute dado com força sobre-humana que lançou-a, ganindo, 4 metros para o alto e o dobro dessa distância na horizontal.

Satisfeito, o vampiro riu para Bastet, mostrando suas presas afiadas. Esta rugiu e deu o bote para cima dele. Luna teria que se cuidar sozinha.

Luna estava começando a pensar que talvez Bastet estivesse certa sobre permanecer no abrigo. Apesar de seu tamanho, era apenas uma filhote, e suas únicas tentativas de destruir algum vampiro haviam terminado em pancadas fenomenais. Sentia o corpo totalmente dolorido e lembrou-se, tarde demais, que era esperado que os Ragabash agissem com esperteza e discrição. Obviamente, os Trapaceiros da Lua Nova deveriam lutar com esperteza, e não agir como um Ahroun e simplesmente se jogar em cima dos inimigos. Aquela era tarefa de Thor.

Tivera ao menos o bom senso de usar o “embaçamento de forma” e agora andava quase invisível pela batalha, vista somente como uma leve sombra. Estava notando que o número de vampiros era muito maior que o de Garou. A única vantagem com que contavam era sua força superior e agora nem mesmo esta parecia ser suficiente; muitos Hispos olhavam para certos Cadáveres como se estivessem hipnotizados, sinal de que os mortos-vivos haviam começado a utilizar suas técnicas de manipulação mental. Luna observava a batalha preocupada. Se continuassem daquele jeito, o Caern seria perdido. Sentiu algo se agitar dentro de si e rosnou. Um dos instintos mais primordiais para um Garou era proteger os Caerns, lugares sagrados onde a Wyld, a entidade da mudança, prosperava.

O instinto de proteção limpou sua mente, e ela viu imediatamente o que deveria fazer. Não era boa em confrontos diretos. No que era boa, então? Chamar todas as atenções para si sempre fora algo que fizera inconscientemente. Agora, essa característica talvez pudesse salvar seu Caern.

Apressou-se. Se quisesse executar aquele plano, teria que ser rápida. Correu pelo Caern, desviando-se dos Garou e dos vampiros que se engalfinhavam de maneira selvagem e finalmente alcançou a escada de madeira que levava ao topo dos portões da vila. De cada lado dos grandes portões, havia uma torre, e Luna queria chegar no alto delas. Subiu as escadas rapidamente.

Finalmente, quando chegou no alto, parou. Olhando lá de cima, a situação parecia mil vezes pior. O Caern estava infestado de vampiros. Por um momento, Luna sentiu vontade de se lançar lá de cima e rasgar todos aqueles monstros com suas garras. Então sacudiu a própria cabeça com violência. De novo, aquilo era trabalho para Thor. Tinha que se concentrar em seu plano.

Olhou para cima, para a Lua crescente, e pediu forças ao grande espírito do qual carregava o nome, Luna, a Lua. Então respirou fundo e uivou o mais alto que pode.

Todos os Cadáveres olharam para ela, parecendo irritados. Eles podiam não estar entendendo todos os insultos criativos que Luna estava uivando, mas decididamente o tom irritante que a loba estava usando os deixava com raiva. Aquilo era a “Canção de Escárnio”, a técnica Ragabash de uivar do modo mais irritante possível para fazer com que os inimigos perdessem a razão. A pequena loba era ótima isso.

Infelizmente para todos aqueles vampiros, os Garou nunca tiravam os olhos de uma presa. No segundo de desatenção em que eles olharam para Luna, os lobos avançaram. A maior parte dos mortos-vivos deixou de existir naquele mesmo momento, quando tiveram suas cabeças arrancadas.

Luna finalmente parou de uivar e sorriu, selvagem, ao ver que seus irmãos haviam virado o jogo. Infelizmente, no instante em que se preparava para descer, algo bateu em suas costas e a derrubou lá de cima.

A loba nem ao menos conseguiu reagir. Quando menos esperava, sentiu a colisão com o chão e ouviu seu ombro estalar. Ganiu de dor. O osso estava quebrado.

Depois surgiu em seu campo de visão a criatura que a derrubara.

Era um vampiro. Ele a olhava sombriamente, mas no fundo de seus olhos escuros, Luna viu certo triunfo.

— Muito bem pensado, vira-lata. – a criatura murmurou – Ótima manobra. Pena que não viverá para ver os resultados dela.

A loba estremeceu, tentando se levantar. Não adiantava. Seu osso ainda estava quebrado. E o Cadáver se aproximava cada vez mais, mostrando os caninos longos e afiados.

Ela sabia o que ia acontecer. Ouvira as histórias. Seu sangue seria sugado, gota a gota, até que não restasse mais nada e o vampiro estivesse satisfeito. Morte horrível.

Estava se preparando para sentir aqueles dentes se enterrando em sua pele quando Bastet surgiu de repente e se lançou em cima do sanguessuga. Eles rolaram e então ela lançou-o contra a parede de madeira que circundava o Caern. No intervalo de tempo em que a criatura se recuperava, ela voltou para perto de Luna e se postou na frente dela, rosnando.

Haviam atraído a atenção de mais dois vampiros. Agora eram três que avançavam cautelosamente para perto das duas companheiras, procurando uma abertura na defesa de Bastet que lhes permitisse dar cabo dela e de Luna.

Mais uma vez, Luna sentiu o desespero que antecede a batalha perdida. Sentia o osso do ombro se curando, mas ainda estava inutilizada, não daria tempo de se curar e lutar. E Bastet não conseguiria dar conta de três ao mesmo tempo. Agora a situação era muito pior. Além dela, morreria Bastet.

Então uma imensa cauda verde-acinzentada, coberta de escamas, atingiu os três vampiros num movimento circular, com tanta violência que os cortou ao meio. E um crocodilo do tamanho de um ônibus se aproximou delas, piscando os olhos âmbar.

Ele parou, e olhou de Luna para Bastet, uma parecendo mais surpresa do que a outra. E então grunhiu.

— Vocês estão... hum... bem? – era difícil entender o que ele dizia. Aparentemente, a garganta de um réptil não fora feita para falar a língua Garou.

— S-sim. – Luna respondeu, com dificuldade. Seu osso estava quase curado agora, e a sensação de seus ossos estarem lentamente se emendando não era nada agradável. – Obrigada.

Bastet apenas balançou a cabeça, olhando para o crocodilo de um jeito tão abismado que Luna teve que se conter para não gargalhar, apesar da dor. Ela decididamente tinha alguma coisa com o garoto-crocodilo. Este encarou a felina por mais um momento então se virou e se afastou delas, lentamente, em seu andar de réptil.

— Ai. – Luna finalmente conseguiu se levantar, gemendo. Mancou até estar ao lado de Bastet e olhou para o rosto da jaguar. – Isso dói. E dessa vez foi quase. Pensei que íamos morrer.

Bastet desviou relutantemente o olhar da direção para qual o garoto-crocodilo fora e então olhou nos olhos de Luna.

— Você é louca. – a felina retomou sua expressão carrancuda, balançando a cabeça. Luna caiu na gargalhada.

— Bastet, Luna. – uma voz as chamou. Ambas se viraram. Sombra as olhava de uma certa distância. Seu pêlo estava todo desgrenhado. – Canino Branco-rhya está convocando uma reunião no centro do Caern. Achei que devia chamá-las.

— Ótimo, ótimo, vamos. – as duas se dirigiram para o centro da vila.

A animação pós-batalha de Luna diminuía à medida que elas se dirigiam para o centro do Caern. Agora que a luta acabara, ela conseguia ver claramente os corpos que estavam espalhados pelo chão e a tristeza estava ameaçando engoli-la. Vários Garou uivavam tristemente para a Lua, dizendo adeus a seus companheiros de matilha. Os uivos faziam o coração da jovem loba doer no peito.

Finalmente, após o que pareceu uma eternidade, chegaram ao centro do Caern. Havia uma aglomeração de lobos lá, e Canino Branco estava no centro, falando para o resto da Seita.

-...não é normal, faz meses que estão nos atacando, não sei o que pretendem. O que eu sei é que hoje esses vampiros invadiram o nosso Caern, e se não fizermos alguma coisa, a situação só irá piorar. Talvez, com o tempo, eles consigam dominar nossa Seita e espalhar a Wyrm pelo Caern. Só há uma coisa a se fazer. – Canino Branco fez uma pausa e então falou. – Precisamos de ajuda.

Uma confusão se seguiu a essa afirmação. Houve vários gritos que expressavam desaprovação, mas bastou um grunhido de Canino Branco, que todos se calaram.

— Entendo que vocês relutem. – Ele recomeçou. – Mas...

— Um Conclave foi convocado. – uma voz sussurrante interrompeu a fala de Canino Branco. A Seita inteira se virou para o dono da voz. Um lobo cinzento, esguio e discreto, estava agora perto do centro do Caern, quase ao lado de Canino Branco. Luna se perguntava como não o havia notado antes.

— Silenciosos... – Sombra sussurrou suavemente a seu lado. A loba castanho-avermelhada voltou os olhos, curiosa, para o lobo estranho. Sempre ouvira falar da tribo dos Peregrinos Silenciosos, Garou que nunca paravam em lugar algum e sempre pareciam saber o que estava prestes a acontecer. Mas aquela era a primeira vez que via um ao vivo e em cores.

— Um Conclave? – Canino Branco tentava ocultar sua surpresa aos olhos cinzentos do Silencioso. – Onde?

— No Caern da Seita do Verde. – com essa última informação, o lobo se virou e foi embora, desaparecendo em meio a multidão de Garou. O silêncio durou por um segundo e então o caos tomou conta. Todos os lobos rosnavam e latiam ao mesmo tempo e Luna pode ver que Canino Branco amaldiçoava silenciosamente o Silencioso com todas as suas forças.

— Um Conclave!! Na Seita do Verde!! Uau, uau, uau!! – Luna latiu para as duas companheiras. – Sombra! O que acha que está acontecendo?! Porque um Conclave, eles só acontecem quando algo muito importante tem de ser discutido!

Sombra apenas balançou a cabeça de um lado para o outro, também não fazia idéia.

Levaram-se vários minutos até que os Garou silenciassem novamente e Canino Branco pudesse continuar seu discurso.

— Isso é ótimo. Não sei qual é a causa da convocação desse Conclave, mas serve perfeitamente aos nossos propósitos. Durante o Conclave, poderei informar as outras Seitas dos ataques incessantes dos Vampiros ao nosso Caern. Eu irei partir amanhã com os Garou que não forem necessários aqui para a Seita do Verde. Esta noite escolherei meus acompanhantes, e quero todos aqui mesmo, assim que o Sol nascer amanhã, para determinar quais virão comigo e quais ficarão. Isso é tudo. Os que possuírem algum Dom de cura venham para cá. Ao resto, eu recomendo que descansem.

A maioria dos Garou se dispersou, discutindo com os companheiros sobre a notícia inesperada. Um Conclave, evento em que todos os Garou, de todas as Seitas e de todas as Tribos eram convocados, era algo que não acontecia há quase 100 anos. Conclaves só eram convocados quando algo realmente importante, que talvez pudesse decidir o futuro dos Garou, estava acontecendo. A ansiedade no Caern era quase palpável.

Luna e Bastet despediram-se de Sombra e rumaram para seu abrigo, ambas estranhamente silenciosas. Só quando chegaram na porta da cabaninha, Bastet olhou bem para o rosto da companheira e falou:

— Luna? Está muito quieta.

A morena apenas a olhou por alguns instantes, e então deu um sorriso triste.

— Metade do Caern está morto. Não se pode esperar muita alegria nesse momento.

Bastet colocou a mão no ombro da amiga e apertou carinhosamente.

— Estão mortos. Não há nada que se possa fazer. Suas lendas não dizem que eles agora estão perto de Gaia, ou então que irão reencarnar? Alegre-se com isso. Eles apenas estão fazendo parte do ciclo natural. Tudo nasce, cresce e um dia, morre. Wyld, Weaver e Wyrm, a Tríade. Lembra?

— Wyrm... – a morena rosnou, mal- humorada. – Acho que tem razão, afinal.

— Você sempre termina dizendo isso.

Luna riu e pareceu finalmente voltar a seu estado normal de bom-humor.

— Mas, Bastet, não está empolgada com esse Conclave?? Nós vamos para Nova York!!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.