Lucy
1 Capítulo 1
Notas iniciais
- Lucy... Lucy! Vai pra escola hoje?! – Tereza gritou do outro lado da porta.
Acordei com o grito e murmurei sonolenta.
- Não sei, vou ver...
- Bom, se for é melhor descer porque o café está quentinho. – ela falou.
- Tá bom... vai embora. –disse fechando os olhos.
- Não precisa ser grossa. — ela disse me repreendendo.
- Tá bom Tereza! – resmunguei.
Tereza é a empregada da casa, mas para todos, já é muito mais do que isso. É da família. Apesar de ser baixinha, gordinha, cabeça dura, ter longos cabelos castanhos escuros enrolados, e sempre uma expressão de felicidade naquele rosto rechonchudo e corado, ela era uma das poucas pessoas que eu gostava. Na verdade, é a única depois do meu pai.
Tentei lembrar o que eu tinha que fazer na escola hoje: Infernizar a vida dos professores, infernizar a vida dos meus coleguinhas, quebrar alguma coisa importante do colégio... é, o dia podia ser legal.
Resolvi levantar da cama e abrir as cortinas da janela. Imediatamente meu quarto se iluminou com o brilho do sol. Dia lindo e quente! Que pena. Tenho certeza que se eu abrir a janela vai dar até pra ouvir o canto dos pássaros, mas é claro que eu não ia dar uma de sonhadora e fazer isso.
Peguei a minha toalha que estava jogada no chão e fui ao banheiro que, graças a Deus, era somente meu.
Olhei no espelho. Uma garota de olhos castanhos claros, com cara de sono, de longos cabelos negros e lisos, usando uma camiseta preta do Pink Floyd e completamente sem graça estava olhando para mim. É, tudo normal. Tomei um banho rapidamente e vesti a farda branca e vermelha do colégio por cima do meu casaco preto da sorte e coloquei a calça jeans folgada que eu tinha, depois fui procurar pelo meu tênis. Olhei debaixo da cama e não o vi. Peguei o cesto de roupa suja que ficava ao lado da porta do banheiro e virei todinho no chão, também não estava lá. Droga!
Saí do meu quarto e desci as escadas em disparada.
- Tereza! – gritei – Você viu o meu tênis?
- Claro que sim! – ela respondeu lá da cozinha. – No mesmo lugar que você jogou ontem!
Tentei lembrar onde eu havia jogado o meu tênis.
- Oh não! – gemi quando lembrei onde eu havia jogado.
Saí correndo porta a fora e quando entrei no quintal vi uma balança quebrada, um Flamboaiã (N/a: Flamboaiã é um tipo de árvore) com flores de cor laranja escuro, roseiras amarelas e vermelhas e, bem no meio, uma casinha azul de um cachorro que, por sinal, estava comendo o seu café-da-manhã: o pé direito do meu tênis.
- Alfie! Não! – gritei para o labrador cor de creme que estava mordendo com vontade o meu tênis. – Solta o meu tênis agora!
Ele me olhou e veio correndo para cima de mim com a língua de fora.
- Não Alfie!
Ele pulou em cima de mim me desequilibrando. Caí no chão e ele imediatamente começou a me lamber.
- Para Alfie! – falei melada de baba de cachorro — Você não quer que eu jogue o meu tênis na sua fuça de novo quer?
Levantei-me com dificuldade. Alfie ficou latindo e correndo a minha volta. Fui ver o estado do meu tênis. Até que não estava tão ruim assim, só umas pequenas marcas de dente de cachorro. Olhei dentro da casinha procurando pelo pé esquerdo e, para minha felicidade, estava intacto.
Calcei os dois tênis e entrei na casa novamente indo em direção à cozinha.
- E então, achou? – Tereza perguntou enquanto fritava um ovo.
- Sim. – respondi simplesmente.
Sentei em uma das cadeiras que rodeavam a mesa da cozinha. Essa estava com um prato cheio de torradas com manteiga, bolo de milho, uma big jarra de suco de laranja, uma garrafa térmica com café e, agora, ovos mexidos que a Tereza tinha acabado de fazer.
Peguei uma torrada e um copo de suco e comecei a comer rapidamente.
- A Juliana já acordou? – perguntei.
- A sua mãe ainda não acordou. – Tereza respondeu severa.
Na verdade, eu não sabia bem o porquê de ter perguntado aquilo. A resposta era óbvia, ela sempre estava dormindo.
O dia da Juliana, por fins biológicos minha mãe, se resumia em acordar depois das 10 da manhã, ir ao salão, fazer compras, ir para casa das amigas e depois chegar em casa alegando cansaço e ir dormir. Ela nunca conversava direito comigo, nem eu com ela, por isso eu não me dava ao trabalho de chamá-la de mãe. A Tereza fazia de tudo para que eu continuasse a chamá-la de mãe, mas eu não conseguia.
Meu pai era tão ausente quanto, a única diferença era que ele trabalhava o dia todo em uma empresa que eu não fazia questão de saber o nome, só sabia que era uma boa porque nunca faltava dinheiro dentro de casa, na verdade até sobrava, muito, mesmo depois de receber a minha mesada que tinha um valor bem considerável. Ele vivia viajando pelo mundo, mas quando pintava um final de semana de folga ele sempre conversava comigo e me apoiava em todas as minhas decisões, exceto a de não ir para escola. Eu fazia questão de chamá-lo de pai, mas às vezes eu também o chamava pelo nome: Marcelo.
Comecei a atacar o bolo de milho com grandes bocadas, eu mal mastigava.
- Sabia que comer rápido assim faz mal para o estômago? – Tereza me repreendeu.
- E daí? – respondi. – Se eu ficar doente e ir ao hospital, ninguém vai ligar mesmo.
- Vira essa boca pra lá Lucy! – Tereza falou fazendo um gesto religioso. – Se você ficar doente tenho certeza que sua mãe e seu pai vão ficar muito preocupados.
Eu ri.
- A Juliana? Duvido. O meu pai, até ele receber a notícia eu já vou ter morrido.
- Lucy! Não fala isso.
- Falo sim. – disse terminando de tomar o suco em duas goladas. – E você sabe que a única mãe que eu tenho é você! – dei um beijo em sua bochecha rosada.
- Para com isso Lu, o máximo que eu posso ser é a sua segunda mãe!
- Tá bom! – falei revirando os olhos. – Deixa eu ir agora que já estou atrasada.
- Até parece que você liga para isso.
Bufei, eu realmente não ligava, mas hoje eu queria ir ao colégio.
Subi correndo as escadas fazendo bastante barulho para acordar a Juliana. Peguei a minha mochila e desci.
- Precisava fazer tanto barulho Lu? – Tereza perguntou.
- Sim. – respondi.
Ela revirou os olhos.
– Tchau mãe de verdade. – falei para ela e saí.
Alfie veio latindo e tentou me lamber.
- Sai Alfie! Tchau! – falei chutando-o para sair da minha frente.
Peguei minha bicicleta e saí pelo portão, fechando-o depois para o Alfie não sair. Joguei a minha mochila nas costas, subi na bike e comecei a pedalar rumo ao colégio.
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