Lucky Strike
2 Forgive & Forget
A primeira semana longe de casa foi a mais difícil. Meu coração doía tanto que eu queria poder arrancá-lo do meu peito. Sentia falta dos meus pais, do Léo, dos meus amigos, do Caio... O coração apertava mais ainda quando eu pensava nele, e os flashbacks iam e vinham sem que eu me desse conta...
Era o último dia de aula. Todos os terceiros anos estavam reunidos para sua tradicional despedida da escola, com direito à muita farinha e lambança. Todas as meninas estavam com biquínis por cima da farda e alguns meninos corriam pelo pátio só de calção. Eu amava aquele colégio, amava a sensação de missão cumprida que a conclusão do terceiro ano deixava, amava a pessoa que estava do meu lado.
"Vou sentir muitas saudades disso." Disse ele, abraçando minha cintura por trás e depositando um beijo no meu pescoço, causando calafrios em toda a região. Era ridículo, quase três anos de namoro e ele ainda conseguia me deixar mole com um beijo.
"Também. Eu amo demais esta escola!"
"Estava falando de você"
"Caio..." Me virei, encarando-o. A gente ainda não havia conversado sobre a minha viagem, algo me dizia que isso não acabaria bem.
Antes que um de nós pudesse dizer qualquer outra coisa, Nat gritou meu nome, me chamando para ajudá-la a jogar Patrícia na fonte. Salva pelo gongo. " Depois a gente se fala" Avancei alguns passos e virei a tempo de vê-lo suspirar pesadamente e olhar para mim, cabisbaixo.
A lembrança deixou um vazio estranho em meu peito, e um pensamento cortante surgiu em minha mente: Eu o perdi aí. Olhei em volta do meu novo quarto e suspirei, era lindo. As outras Angels tinham insistido para que eu ficasse com o quarto do terceiro andar, que tinha uma enorme claraboia bem no centro do teto abobadado. Olhar para o céu azul-escuro através dela me trouxe outra lembrança dolorosa.
Terminei de passar o batom e finalmente dei uma pausa para me olhar apropriadamente no espelho, e fiquei feliz com o resultado. O vestido azul colado me dava mais curvas do que eu realmente tinha, e contrastava bem com minha pele clarinha. Olhei as horas e dei outro sorriso, ainda faltavam 20 minutos. Estava ficando boa em me arrumar rápido. A última vez que falei com Caio foi na despedida do terceiro ano, dois dias atrás. Ele havia ignorado completamente minhas ultimas ligações e mensagens, mas hoje ele teria que dar uma pausa na imaturidade e sair comigo: era nosso aniversário de três anos de namoro. Estávamos falando nisso há semanas, de tão empolgados. Íamos jantar no restaurante italiano charmosinho perto do cinema, depois iríamos para lá ver qualquer filme em cartaz. Como já era a terceira semana de dezembro, a praça da cidade estava decorada lindamente para o natal, então iríamos passear um pouco por lá e acabaríamos indo para a casa dele (os pais estavam viajando) e eu acordaria no dia seguinte me sentindo a garota mais sortuda do mundo. De repente, uma nova mensagem me tirou dos meus devaneios:
Não vou poder sair hoje, desculpa -Caio
Eu não podia acreditar naquilo! Ele estava falando sério?! Peguei meu celular e digitei o número dele com força, sem me importar em riscar a tela. Um toque. Dois. No terceiro caiu na caixa postal e eu desliguei. Sinceramente? Naquele momento eu não sabia o que fazer: se chorava, gritava ou ia na casa dele dizer umas poucas e boas para aquele idiota imaturo. Descartei todas as opções e fiz a melhor coisa que me passou pela cabeça no momento.
E nós tínhamos combinado alguma coisa, baby? -Sam
Foi idiotice, é claro que eu lembrava e ele sabia muito bem. Mas eu não iria dá-lo a satisfação de me ver frustrada. Em vez disso chamei um táxi e fui para o único lugar em que poderia esquecer o que tinha ocorrido.
Cheguei na boate sem nenhum tostão, mas não importava. Eu nunca pagava nenhuma bebida mesmo. Entrei rapidinho, pois já era amiga do segurança, assim como de quase todos os funcionários dali. O cheiro característico me envolveu e rapidamente relaxei, sendo tomada pela adrenalina daquele lugar. As cores fortes do néon mudavam no ritmo da música, por sinal muito animada. Localizei o bar e segui em sua direção, não sem antes verificar se havia algum cara já parcialmente bêbado que pagaria meu drink. Por sorte, havia. Me encostei no balcão, olhando de solsaio para o alvo e tendo certeza que estava prestando atenção em mim.
"O de sempre, Zé" pedi ao barman, que me mandou um "é pra já" seguido de um sorriso.
"Por minha conta!" Gritou o tal cara, com um tom um tanto grosseiro. Mesmo assim, lancei um sorriso em sua direção. Vendo-o apropriadamente agora, percebi que era bonito, mas não tanto quanto Caio. Os traços fortes e uma barba por fazer, o deixava com aparência de alguém já perto dos trinta. O drink chegou e eu comecei a puxar assunto educadamente.
"Primeira vez aqui?"
"Aham. E pelo visto com certeza não é a sua" disse, me comendo com os olhos. Dei um risinho forçado e fui me retirando, mas ele continuou falando.
"Sabe, esse lugar é realmente enorme! Acho que vou precisar de um tour, senão vou me perder completamente" dei outro sorriso forçado, não estava afim de andar com ele, só queria ficar bêbada e depois ir para casa ficar pensando no quanto o Caio era um idiota. "Boa sorte com isso". Disse, e dei outro passo para longe do bar, mas ele segurou meu braço. "Na verdade, estava pensando em você para me acompanhar". É claro que você estava pensando isso.. Dei um suspiro longo e assenti com a cabeça. Talvez ele me pagasse outra bebida.
Como era de se esperar, Tiago (a única informação pessoal que ele me deu foi o primeiro nome, atitude que foi imitada por mim) e eu acabamos nos pegando no corredor do banheiro, onde eu presumi que nosso 'tour' havia acabado. Eu estava tão bêbada que quase não sentia suas mãos deslizando por todo o meu corpo. Quase. Quando paramos um segundo para respirar senti duas mãos nos afastando e depois um borrão familiar empurrou Tiago para o chão e rosnou "Fique longe da minha namorada, seu imbecil!". Foi aí que eu apaguei.
Leves batidas na porta me arrastaram para fora da memória, eu percebi que estava chorando. Enxuguei rapidamente as lágrimas e abri a porta. Quem apareceu do outro lado foi Emma, uma das minha Angels favoritas. Por ser a mais velha e organizada das dez, era considerada a 'mãezona'.
–Está tudo bem, honey? -disse ela em inglês, o que me fez sentir ainda mais saudades de casa.
–Tá tudo bem. Só tô sentindo muita falta da minha família.
–Ah, querida, sinto muito- ela disse com um sorriso triste, e me abraçou- Sabe que todas nós estamos sempre aqui pra você né? -eu assenti com a cabeça- Bem eu só tô aqui pra te lembrar de levar seus documentos à secretaria da universidade logo. Eles costumam reclamar com quem deixa isso para última hora.
Merda! Eu sabia que tinha me esquecido de alguma coisa!
–Ai, obrigada mesmo Em, eu tinha esquecido completamente. Amanhã de manhã eu passo lá.
–De nada, Sam. Boa noite.
Depois que a Emma saiu, eu tive que juntar todas as minhas forças para ir tomar um banho e vestir o pijama. Não queria mais pensar nele, mas as lembranças vieram involuntariamente.
Acordei sem saber onde estava e com a cabeça latejando. À medida que meus olhos se adaptaram ao ambiente, percebi que estava na sala de estar de Caio, com ele sentado numa poltrona ao lado do sofá onde estava deitada. Assim que me viu abrindo os olhos, se levantou.
–Que bom que acordou, vou chamar um táxi. -disse ele calmamente, o que fez minha paciência estourar
–Como assim?! Quer dizer que você me dispensa no nosso aniversário de namoro, me segue até a boate, bate num cara que nem conhece, me traz inconsciente até sua casa e a única coisa que tem pra me dizer é 'que bom que acordou'?!!-disse, num tom de voz mais alto que o necessário, provavelmente por causa do álcool.
–Amanhã a gente tem essa conversa. Você está bêb...
–Não, Caio! Nós vamos ter essa conversa agora! Pode começar explicando porque você mentiu sobre não poder comemorar nosso aniversário.
–Eu não menti, porra! -olhei para ele assustada, nunca o havia visto tão estressado- Olha, eu não posso mais sair com você. Seus olhos tinham um expressão de culpa por ter gritado.
–O quê?! Vai terminar comigo porque eu beijei outro cara? Isso foi culpa sua, Caio! Inteiramente sua!!!
–É isso mesmo, Sam. Estou terminando com você porque isso prova que você sempre toma as piores decisões, sem nunca se importar com quem vai sair machucado!!! Como você acha que me senti quando descobri da sua viajem?! Eu queria fazer a mesma coisa que você: ir pra uma boate, beber até cair e pegar a primeira que aparecesse na minha frente; mas ao invés disso fui até sua casa, porque eu te amo demais pra fazer algo assim.
Eu estava paralisada. Escutei até ao 'Estou terminando com você', depois disso o mundo ficou sem som, sem chão. Eu tentava sair daquele estado mas não conseguia mexer um músculo sequer. Minha cabeça estava zunindo como se milhões de abelhas estivessem voando à mil por hora dentro por minha volta. Parte de mim queria abraça-lo, dizer que também o amava muito e que nunca mais faria aquilo; a outra parte, a do orgulho ferido, numa súbita onda de raiva, venceu:
–Ótimo, vou poder terminar de pegar o Tiago então.- e com um sorriso afetado fui embora, indo à pé de volta para casa.
Ainda com o rosto encharcado pelas lágrimas que escorriam livremente, fiquei olhando o céu pela claraboia até ser vencida pela exaustão.
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