Lucila

18 XVIII – Risos!


NINGUÉM voltaria para casa aquele domingo: Ricky convenceu D. Nena por telefone, a que ele e os amigos pudessem ficar todo o dia na casa dos médicos. Não foi fácil arranjar uma justificativa mais séria do que uma saudade, mas bem que se aproveitou do coração mole da copeira. De qualquer modo, como conseguiriam voltar para casa usando roupas emprestadas de Plácido? Também já começava a se aborrecer com aquele efeito bola-de-neve de uma mentirinha atrás da outra... E não era só ele.

Sergio estava taciturno; apenas ele percebera o olhar desconfiado da menina, mais cedo. Ela permaneceu sentada no meio da sala e olhava para tudo com uma aparente curiosidade. Como Olivia observara que ela talvez não enxergasse muito bem, poderia ser que estivesse a entender como era aquele lugar. Afinal, se sua visão se baseava em movimento ou sons, certamente demoraria mais para diferenciar os objetos da casa e as pessoas falando com ela, por exemplo. E esse comportamento, vindo de alguém com um físico tão diferente, poderia ser perigoso. Até para a menina, mesmo.

E todos desassossegados na casa. Plácido com Ricky na garagem, arrumando a bagunça da noite anterior, com o maior cuidado para não chamar a atenção dos vizinhos. Já era dia alto e o terraço ainda estava com as cortinas fechadas! Pensaram em disfarçar para ninguém perceber a nova rotina.

No primeiro andar, Olivia organizava os quartos, conferindo o tempo inteiro como estavam Sergio e Rubem, com a menina na sala. A pediatra se perguntava como seria o intuitivo da jovem. Fazia horas que ela não dava sinais de fome ou de cansaço. Nem tomava iniciativa de se comunicar, eles é que tentavam alguma coisa e ela atendia, mas somente com um olhar. Não parecia mais tensa, dolorida ou irritadiça. E o tempo inteiro silenciosa.... Tinha raciocínio lógico, ou era instintiva? Plácido experimentou deixar os bichinhos de estimação andarem soltos pela casa e, naturalmente, eles passaram por perto dela. Mas a jovem não os estranhou, nem tentou nada.

Não se arriscaram a ligar tevê ou aparelho de som. Os ruídos da cozinha, ou da máquina de lavar não pareciam incomoda-la, mas quando um barulho novo acontecia ou alguém falava, ela se voltava para olhar de onde o som vinha. Será que percebia que as vozes eram as mesmas?

Tentando superar o medo, Rubem se aproxima dela e arruma-lhe a manta que a vestia; percebe o estado do cabelo dela: espesso, emaranhado e ainda um tanto sujo do sangue resseco.

— Ih, isso está um problema... – E para Sergio – Olha só; será que ela deixaria lavar?

— Quando a gente limpou os olhos dela, não reagiu. Mas isso aí vai ser bem mais complicado...

Da escada, Olivia observa:

— Não vejo problema em tentarmos mostrar a ela alguns hábitos. Até para saber se ela já os conhece. – Disse a pediatra – A questão é como vamos ajudá-la a se lavar, ainda não sei se ela caberia na banheira. De qualquer modo, não podemos deixa-la o tempo todo no tapete sem cuidados, ela precisa dum banho, ter hora para comer.

Enquanto fala, ela se aproxima, tentando encarar a jovem nos olhos. A menina acompanha o andar da médica, muda de posição sentada no tapete... Parece querer vigia-la.

— Tendo cuidado para saber se vou avançar, será...? – Desconfia Olivia.

Os meninos cercam a amiga; a garota apenas se arrasta, sentada.

— Ela está encarando a gente?

— Acho que está tentando nos enxergar melhor – respondeu Olivia – está apertando o olhar.

E Sergio, em silêncio.

Olivia tem uma ideia:

— Me deixem a sós com ela.

— Tia, melhor não...

— Podem ir. – Garantiu ela – Ela precisa confiar em alguém. Mas tem que saber que somos alguém e não ameaças. Me deixem com ela, vão para a garagem e avisem Plácido. Vigiem, mas não venham agora para cá.

Os meninos se encararam e foram ao terraço; mas Sergio preferiu sentar na entrada deste, próximo a elas.

A pediatra tenta na intuição. Já havia atendido crianças com distúrbios de comportamento ou síndromes. Pacientes com senso de isolamento social. Sendo que em alguns casos, o isolamento pode ser proposital: o paciente quer se afastar de convívios. Aquela menina ali não era uma criança (pelo menos não fisicamente) e não parecia isolada intencional. Mas estava muito defensiva, o que atrapalhava novas ajudas. Olivia arrisca uma comunicação:

— Olá. – Diz, sentando-se de frente para a menina, no tapete.

— ...

— Você tem um olhar muito forte, sabia?

— ...

— E tem asas lindas.

— ...

— Sabe, eu também gostaria de ter asas. Acho que muita gente gostaria.

— ...

— Está com fome?

— ...

— Acho que tem algo na cozinha que você vai gostar. – E olhando de relance para o terraço, nota Sergio de olho nelas – Vamos fazer um lanche para você.

Levanta-se devagar e nota que a menina a encara nos olhos. Ela devolve o olhar, e com muito cuidado, afaga o cabelo da jovem, que não recusa o gesto. “Parece um bom sinal”, pensa Olivia ao se afastar, evitando dar-lhe as costas e percebendo que a jovem acompanha com o olhar até ela sumir no corredor.

Sergio ali, na porta do terraço. Plácido se agacha ao lado dele:

— Que houve, moço? Você não estava com essa cara pela manhã. – E olhando para a menina, tenta distrai-lo – Venha, eu e Ricky não damos conta dessa faxina! A convidada aí é uma moça muito bagunceira e vocês são piores do que ela! – Brincou, piscando um olho. O rapaz obedece, ainda desconfiando... Mas não tira o olho da jovem. Não diz nada, mas o amigo veterinário está certo: ele não está mais tão confiante como antes.

***

Minutos depois, Olivia aparece na porta do terraço com um copo de liquidificador cheio e um olhar pensativo:

— Tentarei fazê-la comer. Podem ficar por perto enquanto isso...?

— O que é isso que você fez para ela? – Perguntou Plácido.

— Vitamina de frutas e aveia. Talvez o cheiro estimule. Depois, podemos tentar outros estímulos de olfato e paladar.

Eles vigiam do terraço, enquanto ela se aproxima devagar da menina e, sentando-se, põe o copo diante dela:

— Então? Que acha de um lanchinho?

— ...

Olivia bate de leve uma colher na boca do copo; tira uma colherada da vitamina e oferece à garota.

— Tente só esta.

— ...

— Vai... Só esta. Só para experimentar.

— ...

Ela continua com a colher estendida. Eles em silêncio, prontos para qualquer coisa...

E a menina somente observa...

Olivia arrisca: passa os dedos na colher e os aproxima do nariz dela!

Plácido não acredita no que vê; mas sabe o que sua esposa quer tentar.

A menina apenas cheira a mão da pediatra e... Esfrega o rostinho nela, como um gato esfrega a carinha nas pernas do dono! Que alívio! A pediatra acha graça e ri da infantilidade da moça, lambendo a boca suja de vitamina. Olivia oferece outra colher e desta vez, a menina suja o dedo e lambe; ela aprendeu a comer, deu certo!

E parece tudo muito feliz, Olivia está radiante, como quando consegue que um paciente responda a uma conduta. Os meninos riem, mesmo Sergio. A garota sente o clima e também se diverte!

Alguém diz que agora sim, ela vai mesmo precisar dum banho...!

Mas na hora, ninguém pensa num ponto: uma mulher que não sabe comer sozinha. Não fala.... Não tem noção de sua presença.... Não parece enxergar direito. E até ali, ainda não ficou em pé, nem andou.

Isso não parece outra postura?