Lucila

19 XIX – Canções de ninar


SIM, A JOVENZINHA tinha um apetite que fazia jus ao seu tamanho: um copo de liquidificador quase cheio de vitamina foi engolido às colheradas rapidamente! Olivia, com a experiência dos anos de pediatria, alimentou a moça com a maior paciência da vida... Se bem que era gratificante ver a moça rindo pela primeira vez. Toda suja de mistura de frutas, mas pelo menos parecia mais confiante ali.

E a amiga dos rapazes, a “tia doutora”, era alguém que sempre quis ser mãe. Ocasiões como aquela, Olivia aproveitava para praticar o maternalismo que a esterilidade lhe negara. Os meninos sabiam dessa condição dela, entenderam na hora o contentamento da médica ao cuidar da moça, e não interferiram. Preferiram assistir a alegria da amiga.

Mas naturalmente, isso não diminuía o estranho, a bizarrice de tudo o que acontecia ali: ainda era uma mulher, ou talvez uma criatura, não as sabendo ainda de onde vinha, ali sentada no chão daquela sala. Numa casa que os meninos consideravam um refúgio, talvez mais do que a mansão onde moravam.

Sergio permanecia calado e seus amigos notavam a sisudez... Era certo: se ele se fechava, desconfiado com alguma coisa, algo inusitado estava para acontecer.

Mas, mais inusitado, mais estranho do que aquela menina?

Plácido também acompanhava tudo de perto, sentado ao lado de Olivia, às vezes encarando os garotos sem que elas percebessem... Enquanto sua esposa alimentava a jovem, ele tentava raciocinar; em menos de um dia, aquela menina sobrevivera a uma parada cardíaca, cicatrizou quase totalmente a pele do corpo a ponto de não se notar nem marcas, rugiu como um animal selvagem, planou ao teto da casa... E agora, comia na mão de sua esposa, como se fosse uma menininha brincalhona. Nem dor sentia mais. Sem pelos no corpo. Sem digitais. Asas como as de um morcego. Semi-cegueira, talvez. Sem falar...

***

Aquela tarde, Olivia passou ocupada com a menina. Talvez os outros sentidos dela estivessem entorpecidos, porque experimentaram oferecer outros sabores e depois da vitamina, ela ficou curiosa e aceitou bem. Claro, a pediatra esperava reações como uma repentina vontade de usar um banheiro! Mas até ali, ainda não acontecia nada, o que considerou estranho, mas como era um organismo diferente... Também conseguiu praticar higiene na jovem: deu um trabalhão, mas lavaram o cabelo da menina e limparam a pele dela. Como ficaram com medo de fazê-la andar e evitaram fazer com que ela tentasse voar, uma bacia com água, uma esponja e xampu resolveram a questão.

Interessante que ela não quis que os garotos a tocassem; deixou somente Olivia ajuda-la. A pediatria pensou se não seria uma “obediência intuitiva”: aquele que a alimentou seria encarado pela menina como um protetor? Pensou nisso como um alerta para que os garotos tivessem cuidado dali por diante.

Anoitece.

A garota já parece mais à vontade, deita-se no tapete e aprende a enrolar a manta em volta do corpo, mas para se aquecer. Olivia e Plácido observam toda a atividade dela. O dia todo silenciosa, mas pela manhã, quando se sujou com a vitamina, ela chegou a rir.

Voz, tem. Só não usa.

Os meninos continuam curiosos... Mas não podem ficar o tempo inteiro perto dela, também; sobem aos quartos e de vez em quando, um ou outro olha da porta do quarto para a sala... Os médicos acharam graça na atitude! Eles mais pareciam crianças acanhadas com uma visita! Mas Sergio aproveitou um instante e juntou os amigos num quarto:

— E aí? Que que ela parece agora?

— Sei não, cara. Eu estou com aquela desconfiança, sabem? Tou no quarto, me sinto melhor porque tou longe dela... Mas tou com medo dela sozinha com os tios lá na sala! Cês entendem? – Disse Ricky, um tanto emburrado. E Rubem, olhou para os amigos dando de ombros...

Era mesmo uma pergunta. A menina era uma pergunta que demorava a ter resposta certa e isso dava medo.

Como eles somente voltariam para casa no dia seguinte, o dia precisou encerrar o mais normal possível. Os rapazes ainda desceram uma vez à sala, passaram uns minutos, tentaram falar com a garota para continuar o estimulo de voz. Ela continuava sem falar, mas atendia sempre aos chamados e prestava atenção a quem conversasse com ela.

Lá pelas dez, ela ficou sonolenta... Acomodou-se no tapete mesmo. Cobriu-se sozinha com a manta, deixando suas asas estendidas no chão. Em instantes, dormia feito um bebê.

— Talvez devamos fazer o mesmo. — Disse Plácido — Quanto mais sossego ela receber, melhor será a recuperação. E não adiantaria fazer uma vigília, se ela quisesse, já teria ficado agressiva...

— Acha que ela pode ficar aqui na sala, sozinha?

— Podemos tentar. Deixo alguma luz acesa, fecho bem as janelas. Precisamos ver como ela se comporta nisso também.

E, embora Olivia tivesse pena de deixa-la dormindo no tapete, assim fizeram. Plácido deu ordem aos rapazes de que, se precisassem usar um banheiro durante a noite, não descessem a escada de jeito nenhum. Dia encerrando. Quartos arrumados. Um sai dum banho, outro fecha a porta do quarto, luzes apagam... Plácido tranca a casa, olha os bichos de estimação. E a jovem no tapete, dormindo sono solto.

***

Todo mundo dormindo... Não.

Sergio cochilava, acordava. Cochilava, acordava. Assim foi até às duas da manhã. Inquieto! A menina não lhe saía da cabeça e aquele olhar estranho que ele viu... "Ah, m%rda! Assim não dá!", pensou, irritado. Levantou-se e abriu a porta do quarto com muito cuidado para não acordar ninguém...Tudo quieto. Silêncio.

Arriscou olhar para a sala. Não dava para ver nada, um breu!

Saiu devagarzinho do quarto.... Pisou sem um barulho, cuidado... Os olhos acostumando com a escuridão... Da escada, ouviu o ressonar dela, bem baixinho. A menina dormia tranquila, toda coberta com a manta, só as asas e a cabeça descobertos. Ele desceu as escadas, os pés em meias ajudando a não fazer barulho, mas que estava com um medo daqueles, isso estava! O coração batendo, parecia que ia fugir do peito! “Que diabo eu tou fazendo, essa monstra acorda, eu faço o que? ”, pensava.

Mas dava uma dó tão grande vê-la dormindo.... Parecia uma criancinha, respirando de boca aberta.

Sentou no tapete, afastado dela. “O que que ela é? Como alguém consegue nascer assim? E por que eu tenho tanto medo dela, se ela aceitou ajuda...?” Não entendia por que estava tão confuso; toda aquela história o aturdia e apesar do que Olivia lhe dissera mais cedo, de uma forma ou de outra se sentia culpado.

Para ele, ela era alguém perdida, sem casa nem lembrança. Ele só quis ajudar, mas e depois? Como ela iria sobreviver fora dali?

Era tão bonita, parecia uma fada. Ou um monstro?

Ali, dormindo, ela parecia só uma pessoa normal.

Nem se deu conta de que passou a mão no cabelo dela... E a despertou!

— Er...Oi. – Diz o menino, sem conseguir se mexer. Ela senta, em sobressalto e olha na direção dele, mas está tudo escuro... Consegue vê-lo?

— Desculpa, eu não queria te acordar. – O garoto sente o medo na voz. E ela o encara, grave e silenciosa.

— ...

— Pode dormir. Eu vim só ver se você estava bem... — Assustado, ele nem a percebe se agachar diante dele. Ele se arrasta, afastando-se devagar...

— Rrr!

— Eeeeii, tudo bem; eu não vou te fazer nada...!

De repente, ela SALTA sobre ele!

Rosnando baixo, armada como um cão de guarda! Sergio não pode nem se mover!

Só consegue ver o brilho amarelo dos olhos dela, ferozes!

Paralisado de medo, pensa “Mãe, te amo...” e fecha os olhos!

A respiração dela em seu rosto!

O peso dela, sua força absurda!

O cabelo enorme!

E...

— Hã?!

Abre os olhos. Ela voltou à manta e deitou-se encolhida, chorando baixo... Chocado, o rapaz se recompõe. “Putz, será que alguém acordou? ”, pensou, olhando em volta. Mas nada, senão com certeza, o teriam acudido... E se deu conta do que fez. Ia fugir para o quarto, mas a ouviu chorar. “Seu idiota...”

A deixaria ali, sozinha?

Com medo. Mas era teimoso, tentou novamente. Foi se agachando ao seu lado, tocou em seu cabelo.

— Tá bem, desculpa. Eu assustei você, não foi?

Ajeita-lhe as cobertas, afaga-lhe o cabelo... Aos poucos, ela acalma.

— Venha cá. – Ele pega uma almofada do sofá e com cuidado, apoia a cabeça dela. Agora ela é que parece assustada. Deitou ao seu lado, morto de medo! Estava muito perto dela e se ela estranhasse de novo, não daria nem tempo de correr... Mas os olhos dela brilhavam de choro.

Ele tem uma ideia:

Na casa onde moro / todas as janelas abertas / um vento de saudade / corre na minha direção / estrelas de noite / brilham invadindo meu quarto / não tenho companhia / quero teu amor por favor / Minha princesa / venha para casa depressa...

Cantou a letra inteira, baixinho, passando a mão no cabelo dela... “Pronto... Enfim, dormiu. ”, pensou ele.

***

Pela manhã, Olivia acorda Plácido, às pressas:

— Amor, rápido! Acorda!

— Mmm? Calma... O que que houve...? – Perguntou, grogue de sono.

— Venha ver uma coisa...!

Da escada, uma surpresa: no tapete, a menina, Sergio, Ricky e Rubem, dormindo amontoados...! Os outros dois devem ter tido a mesma ideia e acharam o amigo dormindo na sala.

Fizeram o mesmo, oras!

— Por coisas assim, é que detesto segundas-feiras.... Vou tomar um banho. – Bocejou Plácido.