Meus olhos levantam-se para o espelho quebrado colocado delicadamente na parede de meu novo quarto — como um presente de felicidade e boa sorte — e tento desesperadamente encontrar a garota que eu era a menos de um dia atrás, entretanto quando olho no espelho eu não consigo encontrar nem fracos resquícios dessa menina. Ao invés de olhar para sua face de menina eu encontro-me olhando a face sombreada de uma mulher, uma mulher carregada de longas dores e assombrosos pecados. Estou encarrando os impiedosos olhos de uma assassina. Encarro a face medonha de um monstro. Um demônio.

Um demônio de face angelical e familiar. Um monstro de adocicados olhos cor de mel, que aparentam doçura e amor. Um demônio sem coração e que perdeu a alma. Uma aberração recém-nascida. Sou o doutor Frankenstein, e acabei de criar meu próprio monstro. Um monstro que eu não deixei ter piedade, que ensinei a não parar, nem com as mais fervorosas suplicas daqueles que ele um dia jurou amar. Uma fera com belos e carnudos lábios, apilhados de dentes afiados.

Observo o espelho e encontro-me face a face com um monstro que não tem mais nenhum amor. Estou cara a cara com um monstro que não teme mais a vida, e nem a morte.

A fera olha-me com seus dourados olhos vibrantes. Ela quer viver para poder me ver matar. O monstro quer a crueldade que ele sabe que o mundo pode oferecer, e ele a quer em uma bandeja cravejada de ouro e diamantes. O demônio quer que a vida se ajoelhe diante de si como sua mera súdita.

Ele quer a sua oferenda, e a quer agora.

Corra jovem donzela! Corra! Sua risada me arrepia a espinha. Corra o quanto quiser. Você não pode fugir da fera! Corra o mais que puder, minha doce donzela, eu irei te alcançar. Venha! Venha minha doce jovem virginal, venha para mim. Venha... dançar! Dance comigo nesse salão decorado com sangue e rosas. Venha e transforme essa vida em um tiro de insanidade! Deite-se! Deite-se nessa macia cama e receba de meus lábios o beijo da morte, e dessa forma viva! Viva a sua vida eterna.

Levanto a tesoura de aço acima de meus olhos e o monstro sorri para mim, com seus afiados dentes brancos. Dentes tão afiados quanto a lamina prateada que atravessa o pedaço da minha alma quebrada e transforma meu mundo em um espiral de alucinação.

Notas finais
Se for achado algum erro, por favor me informe e eu irei arrumar. Fico agradecida por ler, caro senhor(a). *arrumado