Luas de Sangue
9 Luas De Sangue Part. 2
Notas iniciais
Minhas patas não aprecem ter força o suficiente. Estou tentando ir mais rápido, ir mas longe. Eu preciso. É necessário. Minha companheira precisa de ajuda. Passo por vários lobos, e por alguns homens. Para a maioria a fera predominou, mas alguns eram bem mais homem. Eu fui bem mais fera e estou feliz por isso.
A terra está pisada e sei que muitos já estão em seus encalços. O medo é agora meu amigo íntimo. Não quero perde-la. Eu não irei perde-la. Respiro fundo e como um último sopro de esperança deixo a fera assumir por completo.
Não irei perder a minha mulher. Jogo meu corpo para frente. Mais inclinado. Mais rápido. Ficará difícil desviar desse modo, mas eu não pretendo desviar. Estou passando por muitos, alguns me ignoro, mas outros me olham sem entender. Eu não deveria estar aqui. Deveria estar naquela pedra ao lado do idiota do noivo que me arranjaram. Quase bato em um lobo marrom, mas ele se desviou de mim no último instante. Eles acham que podem me prender? Que podem me dizer com quem casar? Eu nem quero casar. Estou perto, posso sentir seu cheiro. Entretanto seu cheiro não é a única coisa que sinto. Sinto o cheiro de sangue. Filhos da puta. Rosno para ninguém em particular, mas um lobo alaranjado rapidamente sai do meu caminho.
Ela está cercada. São quatro lobos. Todos grandes e de coloração avermelhada. Me parecem quase iguais, os diferenciei pela tonalidade pouco diferente dos olhos. Olhos castanhos claro, escuro, avermelhado e opaco. Diferenças sutis. O de olhos avermelhado pulou sobre ela. Mordendo-lhe a perna dianteira esquerda. Seu uivo de dor me cortou o coração. A dor agora era minha.
Pulei sobre o de olhos castanhos claro. Batendo-lhe a cabeça contra o chão. Ele se jogou para me atacar, gingando. Ele sabia lutar, mas eu tinha uma coisa que ele não tinha. Desespero. Desvio no último instante, colando o dente sobre seu ombro, estraçalhando como um animal selvagem. Urrando de dor ele se afasta. O de olhos opacos me ataca com ferocidade, mas no último instante ele exstante e isso me dá a vantagem de cravar minhas unhas em seu rosto. O de olhos avermelhados é meu próximo alvo. Rosno para ele e ele assustado corre. É no fim apenas mais um animal humanizado.
Olho para Ayla, ela está encolhida no chão. Ela me olha com um olhar angelical e ai tudo vale para mim, apenas para ver ela mais uma vez. Então o seu rosto se torna uma mascara de medo. E ela, reunido forças que pensei que não pudesse ser capaz saltou sobre mim. Ela pega o lobo de olhos castanho no ar. Seus dentes estão encravados nas costelas dele. Ela não para, ela fica os dentes mais fundo e usa as garras. Isso querida, isso. Sua boca está fundo. Seus dentes são laminas contra o outro lobo. Chegaram mais lobos ao redor, me ponho em frente a ela, protetora. Ela está comendo, se alimentando e ficando forte. Ela está matando.
Receba doce senhora da lua. Receba a doce visão avermelhada, como seu manto no céu. Nós lhe entregamos sua oferenda.
Um uivo distante faz todos ficarem paralisados, com exceção de Ayla, que não pararia por nada. O uivo é um chamado, um chamado de alfa. Um lobo pequeno de coloração aloirada se põe para atacar. Me coloco em defensiva novamente. Ninguém vai tocar nela. O uivo unido dos cinco manda chuvas é assustador. Deixa todos paralisados. Eu sei o que vem por vir. Eles. Eles estão vindo.
Me viro para Ayla, ela parece ter percebido também. Ela parecia mais forte. Eu e ela corremos juntas, um lobo negro e um lobo cinzento. Eu a deixa correr mais rápido, sempre a uns passos para poder protege-la. Todos estão correndo para nos alcançar. Todos querem nos matar. É a ordem do alfa.
Assim como em toda e qualquer sociedade quem está no topo da hierarquia é quase um deus. Pode fazer de tudo e nada irá lhe atingir. Pessoas como eu, que estão abaixo, devem abaixar a cabeça e seguir suas ordem cegamente, como copiadoras, apenas repetindo o que nos mandam. O alfa mandou matá-la. O alfa me deixou noiva. Tudo sem perguntar, apenas por que lhe foi conveniente. A vida é assim, alguns tem a sorte de nascerem grandes, outros não. E aqui, na minha vida, não se tem a chance de subir.
Os passos estão se distanciando de nós. Corro ao seu lado agora, não tem sinal de perigo tão perto. Mas isso ainda é um caçada, não posso esquecer. A adrenalina está impulsionando meus músculos para ir mais distante. Os músculos de Ayla estão no limite, eu sei. Ela não irá aguentar por muito tempo. Tenho de arranjar um modo de salvá-la. E rápido, muito rápido.
O silencio se faz vivo na floresta. Estamos muito dentro dela. Podemos apenas ouvir nossos próprios passos. Não diminuímos a velocidade, continuamos correndo. Nossa vida depende disso. Um vislumbre de tudo que perdi atravessa a minha menta, mas não me importo. Se tiver de viver o resto da vida numa caverna como a fera que sou e com ela ao lado, eu vivo. Se tiver de viver o resto de minha vida aqui correndo, eu estou vivendo. Pela primeira vez estou vivendo por aquilo que amo. Estou vivendo por ela, e por mim.
Um enorme lobo branco cai na nossa frente. Forte e de estatura elevada. Tinha dentes longos e amarelados. Suas garras pareciam facas, eram laminas mortais. E seu olhos, seus frios olhos eram cor de sangue e transmitiam ódio. Ele parou em frente a Ayla e rosnou, ele ia atacar. Não paro, eu continuo correndo para me colocar em frente a ela. Para morrer em seu lugar. Um outro lobo se põe na nossa frente. Negro desta vez. Tão negro quanto sombra, mas seus olhos, assim como os do outro, eram vermelhos. Ele também era grande, apesar de ser dois dedos menor que o outro. Dois mínimos dedos, e isso não o fazia menos assustador. O próximo lobo a se aproximar era avermelhado, o que fazia de seus olhos uma extensão de seu pelo. Eram três dos alfas. Três dos maiores lobisomens da terra estavam ali. E eles iam me matar. Mas no momento não era isso que me importava.
O lobo ruivo atacou, sem nenhum aviso prévio. Num segundo ele estava longe e no outro estava sobre mim. Minhas garras tentavam em vão afastar seu rosto de perto do meu. O sangue manchava o chão verde. Meu e dele, misturados numa alucinada batalha. Uma alucinada batalha pela vida. Minhas batas dianteiras tinham maior movimentação, já que eu era menor e mais leve que ele. Eu puxei as duas e de forma rápida, sem que ele percebesse, eu chutei sua barriga, mandando-o para longe de mim. O lobo branco atacou-me por trás mordendo meus ombros. Ele estava em cima de mim, ele era muito pesado. Ele era um verdadeiro monstro, uma fera que não tinha a pele macia.
Venha meu querido. Venha. Não se acanhe, e nem se preocupe. Estou preparado, sempre estive. Se preocupe com você. Pois eu... eu... eu sou a vitória. Sua a própria encarnação da vitória.
Eu sai de baixo dele, deixei que seus dentes arranhasse profundamente minha pele, mas eu estava finalmente livre, livre para lutar por ela. Porém quando procuro por ela. Ela não está mais em minha visão. O lobo negro, o único que não tentou me atacar está com ela. Ele a puxa pelo cangote, ela a arrasta para longe de mim. Ela está inconsciente, com os olhos fechados. Com o corpo pesado, sem nenhuma resistência. Meu coração se quebra. Ele a matou.
Minha visão é vermelha. Tento correr até ela. Desgraçado. Sua garganta eu vou estraçalhar. O lobo negro é a última oferenda que quero entregar para a lua antes de ir vê-la pessoalmente. O lobo branco se coloca em minha frente. Ele não me deixará passar. Minha querida morte, estou aqui. Seu servo terreno. E a ti entregarei mais uma alma. Me jogo em sua costa. Meu movimento é rápido. Ele se assusta. Estou com as garras encravadas nas costas dele antes que ele tenha reação suficiente para me tirar. O lobo ruivo tenta se jogar contra mim, ele tenta me tirar de lá. Minha determinação é maior. Coloco as pesadas garras bem na garganta, espero ter acertado a jugular, mas não posso ficar nas suposições. Coloco a garra na sua cabeça, seu grito de cor é colossal e o meu se junta ao seu quando o lobo ruivo morde minha perna esquerda traseira. O lobo branco de sacode, ele se deita, se bate em árvores e pedras, tenta de todas as formas me tirar de lá. Com força eu mordo seu pescoço. Tirando pedaços. Não estou ali para saber que gosto tem. Estou ali para matar. Não me demoro nas dentadas. Rapidamente eu estraçalho seu pescoço por completo. Seu grande corpo está aos meus pés. Que a grande deusa o receba no seus recantos. Saúde a deusa morta por mim.
Não me importo com o outro lobo e nem comigo. Eu vou em direção ao lobo negro. Ele é quem eu quero matar. Ele é o inimigo que me assombra os sonhos. É o meu antagonista no filme da vida. Ele larga Ayla, como quem largaria um saco num canto qualquer. Apesar de todos os ferimentos eu me jogo contra ele com toda a força que ainda tenho. Ele joga sua força contra mim. Eu sou lançada contra algumas árvores. Isso não me fez desistir. Nada me faria desistir de vingar a minha mulher. Não se preocupa princesa. Esse vai ser apenas mais um. Eu me levanto cambaleando. Me jogo novamente contra ele, desta vez por cima. Ele está pronto para me bater e me afastar novamente quando algo lhe tira a tenção. E esses segundos são tudo que eu preciso para ter sucesso.
Coloco as garras na sua costa, e os dentes na sua garganta. Com a força que me resta eu o jogo de costa. Sinto as garras dele de encontro a lateral de minha barriga. Não paro, nada vai me fazer parar. Eu me preparo. É a última vez, para mim e para ele.
—LUCIAM..!!!!
Minha boca cai sobre o seu peito. Com força, muita força, eu quebro sua caixa torácica. Meu dentes rasgam os músculos que ficam no meu caminho até seu coração. Seu corpo jogado a poucos metros dali era a única coisa que me passava pela cabeça. VOCÊ A MATOU!!! E eu matei você...
Seu coração tem um gosto amargo. Parecia fel. Seu corpo na grama era a última oferenda daquela lua de sangue. Uma oferenda de um alfa. Uma oferenda de vingança. Olho para a lua, ela está no alto. Dever ser perto da meia noite. A festa deveria estar no auge. Deveria ser feita a prese para a lua.
—Oh Lua, que toca em nossa face, não permitas que nós vaguemos pelas trevas. Mãe, protegei-nos dos ventos ignorantes e poupa-nos da chacota e dos grilhões. Envolva-nos em teu pálido manto, não deixes que os tentáculos da inveja nos segurem outra vez. Expulsa os lamentos aterrorizantes, guia-nos pelo Caminho Iluminado, guarda nosso espírito das agonias vindouras e proteja-nos da foice inquisitiva. Abriga-me sob teus raios fulgurantes, esconjura a raiz da perfídia, acolhe nosso coração turbulento. Oh Lua! Dá-me Tua Benção infinita e recolha-nos para a Eternidade da Tua Glória! Que assim seja.
As palavras proferidas foram ditas por uma voz macia. Olho para voz que me fez a prece a lua. Era Antony, ele estava ao lado de um grande lobo marrom de olhos vermelhos e o lobo ruivo havia se colocado ao seu lado. Eu já não queria lutar, eu não precisava lutar. Minha vingança já foi feita. Não havia mais nada que eu pudesse fazer naquele lugar. Abaixei minha cabeça e esperei a morte. Que não veio. Os alfas restantes ficaram me olhando de onde estavam. Todos serenos, até mesmo o lobo ruivo. Dou as costas para eles, eles não são a coisa que merece minha atenção no momento. Vou até minha companheira morta. Não pude pedir oficialmente nada para ela. Entretanto se pudesse eu iria pedir que partisse. Partisse comigo, atrás de algo que talvez tivesse perdido. Iria pedir que partisse comigo atras da felicidade. Deitei minha cabeça no seu colo. Se tivesse que morrer que fosse ao seu lado.
Durma em paz doce donzela. Que a lua, nossa mãe, posso guiar nossos passos no além vida e que possamos nos encontrar novamente para poder viver o que a vida reservou para nós.
Fecho meus olhos que estão visualizando o verde floresta e fico triste, por que sei que o meu verde preferido nunca mais verei na vida.
Toc... toc... toc...
Tem alguém batendo na porta do coração...
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