Luas de Sangue
3 Capítulo 2: Lua Cheia
Notas iniciais
Capítulo 02: Lua Cheia
Succubus Club. Era uma casa de shows de quinta categoria, localizada numa ruela qualquer de um dos piores bairros da cidade. Havia bastante lixo espalhado pelo chão, perto da entrada; traficantes se amontoavam nas esquinas próximas, sempre à espera de seus clientes. A polícia não ousava enfrentá-los e a maior parte dos oficiais se contentava em receber propina para ignorar esse fato. Prostitutas de dez dólares circulavam pelo lugar, completando sua decadente aparência.
Não muito distante dali, um pequeno grupo de pessoas observava as redondezas. Eram cinco no total e apenas quatro deles eram garous. Cinco-tiros vestia um sobretudo marrom escuro muito surrado e mais nada por baixo dele. Ao seu lado, uma jovem de cabelos negros usava uma calça jeans desbotada e uma camiseta preta com o símbolo de uma banda de death metal não muito famosa. Michele estava muito nervosa, mas não conseguia desviar o olhar dos companheiros que seu mentor escolheu para serem as testemunhas de seu batismo.
Chuva Rubra era um homem incrivelmente alto e forte, seus músculos rijos se destacavam facilmente por baixo da calça e da jaqueta de couro preto que vestia, ele não era muito falante. Seu torso nu possuía várias cicatrizes e seu rosto era medonho, parecia um gorila, muito peludo, de presas salientes e unhas que se assemelhavam a garras.
Lâmina Reluzente era uma mulher tão bonita quanto fria. Ela segurava uma enorme espada na mão direita e usava um vestido tão vermelho quanto seus cabelos, que deslizavam suavemente por conta da brisa noturna que corria pela cidade no inverno. Suas feições de desagrado expressavam claramente o desprazer que ela sentia por estar naquele lugar.
O terceiro se chamava Reed, e aparentava ser um pouco mais velho que Michele e quase da mesma altura que ela, um garoto aparentemente normal que se vestia como um nerd. Ela não sentia nele o cheiro característico de um humano, mas ele também não possuía o mesmo cheiro que os outros garous tinham.
- Tem uma festa e tanto esperando por nós lá dentro. Digam tudo que conseguiram descobrir. – disse Cinco-tiros.
Nenhum dos garous se pronunciou e Reed soltou um pesado suspiro. Ele devia sua vida a Cinco-tiros, mas aquele favor já estava saindo mais caro do que ele imaginava.
- O dono do Succubus é um sanguessuga muito influente no submundo e o lugar serve de fachada para todo o tipo de negócio sujo que você conseguir imaginar.
-Sanguessuga? Isso quer dizer que tem vampiros lá dentro?! – perguntou Michele, suando frio.
- Talvez. Se o cheiro de Wirm não fosse tão forte, eu poderia distingui-los com precisão. – Lâmina reluzente falou, enquanto observava Michele com desconfiança.
- Não importa quem seja o inimigo, eu estou aqui pela diversão. – disse Chuva Rubra, com um sorriso que deixava suas presas e suas intenções bem a mostra.
- Diversão é o que não vai faltar, feioso. Esse lugar vai ser um campo de guerra muito em breve. – completou Reed.
Cinco-tiros sorriu. De acordo com as informações que conseguiu reunir, os sanguessugas estavam medindo forças para decidir quem seria o senhor do crime naquela região e atacar as bases do inimigo era uma manobra muito comum nesse tipo de disputa. O Succubus Club seria um dos alvos daquela noite. Pouco tempo depois, três carros pretos estacionam na frente do clube e homens armados com fuzis e metralhadores começam a descer, atirando para todos os lados, sem dar tempo para que os seguranças que ficavam na entrada do local reagissem.
- Essa é a nossa deixa. – afirmou Lâmina reluzente.
- Preste atenção, filhote, pois o que você precisa fazer é muito simples: sobreviva! Reed e eu temos nossa própria missão e os outros vão apenas te dar cobertura. Entendeu?
Dentro do Succubus, o caos reinava absoluto: em meio ao barulho incessante de tiros e gritos, um rock barulhento fazia fundo musical para a destruição que ocorria ali. Dois grupos de homens trocavam tiros e provocações enquanto mulheres seminuas dançavam nos cubículos das paredes laterais, pois os vidros das cabines eram à prova de balas. Muitos corpos já se acumulavam pelo chão, as mesas e cadeiras estavam viradas e algumas foram amontoadas para servir de barricada.
Cinco-tiros e Reed aproveitaram a confusão para avançar até a área restrita aos funcionários e Michele, que resolveu se esconder atrás de uma coluna, os perdeu de vista rapidamente. A garota estava apavorada, mas o medo também provocava nela uma mórbida atração; estar ali presenciando aquela chacina a fazia se sentir intimamente viva, algo que lhe fora negado por muito tempo. O cheiro de sangue tomava conta do lugar e se tornava cada vez mais forte.
Michele esgueirou-se sorrateiramente para a coluna mais próxima, a fim de observar melhor seus companheiros. Descobriu imediatamente o porquê de eles terem recebido aqueles nomes: O feioso realizava uma sucessão de movimentos estranhos e avançava na direção dos lacaios da Wirm cortando-os com as mãos nuas. O sangue deles respingava tão forte e tão longe que Michele teve a macabra impressão de que se assemelhava a uma sinistra dança da chuva, só que vermelha e quente.
A mulher, por outro lado, estava em sua forma Crinos e a espada que outrora parecia enorme agora era do tamanho de uma adaga. Ela cortava aqueles que se aproximavam para atacá-la com rapidez e precisão. Michele conseguia ver os rastros prateados deixados pela sua lâmina brilhando no escuro. Estava tão distraída e hipnotizada que não percebeu que um deles se aproximava dela por trás, carregando uma faca na mão. Michele foi imobilizada sem que tivesse uma chance de se defender.
Depois disso, o homem deslizou a faca até a altura dos seios dela enquanto sussurrava obscenidades em seu ouvido. Nesse momento, as palavras de seu mentor lhe vieram à mente: sobreviva! O doce cheiro de sangue, a ameaça do inimigo e o confronto iminente, todos eram um convite natural para o lobo interior. Certa de que poderia contar com seus instintos, a garota respirou fundo e se preparou para suportar a dor da transformação mais uma vez.
O homem ficou paralisado diante daquela criatura assustadora, que crescia e grunhia cada vez mais. Suas roupas se rasgavam e seu corpo ganhava as formas da besta à medida em que se libertava de seu opressor. Dessa vez, ela não estava tomada pela fúria e tinha total consciência dos seus atos. Ignorando aquele que antes lhe ameaçava, Michele saltou entre Chuva rubra e Lâmina reluzente, que continuavam a retalhar qualquer um que se aproximasse com o intuito de atacá-los.
Um dos homens apontou uma metralhadora na direção deles e estava prestes a atirar quando a garota avançou para cima dele e arrancou-lhe o braço com uma só mordida. O gosto do sangue a excitava tanto quanto seu cheiro, mexia com a besta que morava dentro dela, mas a idéia de mastigar um pedaço de gente não era nem um pouco agradável e ela o cuspiu de volta. Chuva rubra, que estava mais próximo de Michele do que Lâmina reluzente gargalhou ao ver seu gesto de “misericórdia”.
- Ouça bem, filhote: aqui não há nenhum inocente, são todos servos da Wirm. Não baixe a sua guarda ou nós vamos ter que te tirar daqui dentro de um saco preto!
- Isso não quer dizer que eu deveria comê-los, não é?! – retrucou Michele, na língua dos garou.
- Não criança, isso é um crime perante Gaia. Mas não exponha suas fraquezas diante do inimigo! – dessa vez, o aviso partiu de Lâmina reluzente.
Mais um grupo de homens invadiu o clube e a disputa, que já estava praticamente encerrada devido à interferência dos garous, recomeçou. Os dois mais experientes conseguiam desviar das balas sem muita dificuldade e até mesmo rebatê-las com sua arma, como era o caso de Lâmina reluzente. Michele, entretanto, foi atingida por uma grande quantidade delas. A dor era incômoda, mas a forma Crinos permitia que seu metabolismo acelerado curasse ainda mais rápido qualquer ferimento que não fosse feito por prata.
Michele urrou de fúria e se voltou na direção do bando que a havia atingido. Alguns deles largaram as armas no chão e correram apavorados, mas a maioria continuou a atirar. A garou emitiu um uivo estrondoso e forte, tão poderoso que fez com parte dos destroços que haviam pelo local – e até mesmo algumas das balas – retornassem na direção dos atiradores, que não resistiram ao contra-ataque dela.
Chuva rubra e Lâmina reluzente estavam visivelmente impressionados. Uivo-que-corta, eles disseram e assim Michele foi batizada. Cinco-tiros e Reed retornaram alguns minutos depois. O garoto não estava com nenhum ferimento aparente, saía do mesmo modo que havia entrado. Seu mentor, entretanto, apresentava cortes profundos no peito e nas costas e protegia com uma das mãos uma pequena caixa de madeira fosca e negra, como carvão.
CONTINUA
N.A: A maior parte das explicações já foi dada no capítulo anterior, então vou escrever aqui só o que apareceu de novo nesse capítulo:
Succubus Club: é um clube fictício que já esteve presente em narrativas de amigos e outros mestres conhecidos, sempre com uma característica em comum: o mal! :P
Sanguessugas: termo pejorativo pelo qual os lobisomens costumam se referir aos vampiros.
A Litania: é um código de leis muito antigo entre os garous e quebrar as leis da Litania é considerado um crime gravíssimo. Algumas das mais famosas leis proíbem os lobisomens de comer carne humana e de se relacionar entre si, o que é considerado um pecado.
Nome garou: quando um garou “nasce” para Gaia, recebe um nome novo pelo qual será conhecido entre os seus. Esse nome geralmente está associado a uma característica muito peculiar do lobisomem e é comum que se pareça com nomes tribais.
A língua garou: os garou possuem linguagem e escrita próprias. O idioma garou é capaz de ser utilizado e compreendido até mesmo quando estes se encontram em formas não humanas.
Prata: é uma das poucas coisas que causam ferimentos muito difíceis de curar para um garou, porque anula completamente o seu metabolismo acelerado, por assim dizer. No jogo de RPG, qualquer ferimento desse tipo é chamado de “ferimento agravado”.
Notas finais
PS: É, não tem yuri. Mas eu postei uma one-shot nova por esses dias, chama-se "A cor do íntimo", lá é garantido! :P
Fale com o autor